15/11/10

soberania


A "crise", esse animal complicado, vem lembrar de novo a vexata quaestio da soberania que a pertença à Europa nos rouba ou não. A esquerda da esquerda, em particular, vê confirmadas da forma mais brutal as suas sempiternas acusações relativas à perda de soberania. Claro que não vale a pena tentar explicar que partilha de soberania é isso mesmo, que sozinhos no nosso canto apenas teríamos a deliciosa liberdade de fazer à vontade o que fosse irrelevante para o mundo, e para nós mesmos, numa espécie de ilha-apesar-da-continuidade-das-terras. Que sozinhos teríamos menos margem de manobra do que pertencendo ao clube.
Agora, há um ponto de substância em que o cepticismo acerca da Europa dessa esquerda da esquerda obteve nesta crise confirmação empírica: a solidariedade europeia, apesar de ser um pressuposto quase-constitucional de todo o edifício, na forma do princípio da prevalência do interesse comum, foi rasgado de forma mais brutal e mais descarada do que é costume. Os amigos alemães e franceses de Passos Coelho e Paulo Portas, a partir dos seus respectivos governos, assumiram à luz do dia o terrorismo de Estado contra o dito "interesse comum". De forma descarada, com um desplante inusitado. O que, obviamente, abre uma nova questão política para a esquerda europeísta. Uma questão para depois da crise. Se ainda valer a pena, depois, claro.

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