1.12.12

1 de Dezembro.


Hoje é dia de sermos muito patrióticos, muito portugueses, muito espanhóis-nem-por-nada - ainda por cima, para muitos isso mistura-se lindamente com a raiva ao governo que acaba com o feriado desta festa tão portuguesa.

Talvez valesse a pena lembrar que nos séculos onde os filipes de espanha foram nossos senhores, poucos por cá estavam tão incomodados com isso como nós agora fazemos por estar. Nem havia esta noção de Estado independente como há hoje, nem se faziam as contas tão miúdas como se fazem hoje. A nossa élite tinha feito trinta por uma linha para que os trapinhos dos casamentos e dos nascimentos nos juntassem ao pleno ibérico e a marosca só falhou porque os príncipes e as princesas morriam como tordos e deitaram a perder todos cruzamentos preparados para juntar as coroas. Se isso tivesse sido feito a tempo e horas, talvez juntos tivessemos conseguido ter recursos para gerir o "império" com mais proficiência, coisa que a nossa minusculez assim não permitiu, passando em velocidade estonteante que mal o vimos o proveito dessa linda glória de termos dado novos mundos ao mundo.

Não quero ser atirado pela janela, que não sou conde nem sirvo a representante da coroa de madrid, mas não é preciso reescrever a história em tons heróicos para termos orgulho nas coisas interessantes que fizémos por vezes. Ainda assim, é primeiro de Dezembro e, sendo sábado, nem se nota que isto vai passar a ser um dia entre trinta de Novembro e dois de Dezembro, simplesmente.

30.11.12

Jornada: Como responder ao momento presente?

15:33
(um texto que divulgo)


"Considerar o problema da faculdade de julgar
como o mais premente de todos os problemas
e ousar julgar."
Hannah Arendt

Neste momento em que Portugal é sujeito a um processo de desmantelamento social, económico e cultural sem precedentes – pese embora tantas comparações, baseadas na premissa da “eterna repetição” – e cujas consequências não param de exceder as previsões dos responsáveis por esse desmantelamento, consideramos que os professores, investigadores, estudantes e funcionários da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas e de outras Faculdades da Universidade Nova de Lisboa e de outras Universidades públicas, se devem fazer ouvir, ao mesmo tempo que lançamos o desafio àqueles que fora da Universidade se dedicam criticamente à observação e análise do estado de coisas actual, em muitos casos propondo soluções reais e inovadoras, e àqueles que têm a coragem de continuar a desenvolver a sua criatividade, para se juntarem a nós.
Gostaríamos de fazer nossas as palavras de Hannah Arendt em epígrafe, livremente tomadas da sua obra Eichmann em Jerusalém, e de agir em conformidade com a sua exigência num tempo em que:
– parece não haver alternativas;
– as escolhas políticas estão silenciadas ou são vilipendiadas.

Nesse sentido, anunciamos a realização de uma Jornada – cujo modelo é o do forum – que terá lugar no próximo dia 6 de Dezembro entre as 10h e as 14h, no Auditório 1 da FCSH.
Propomos uma discussão que evidencie o papel dos saberes e das actividades criativas como instrumentos de análise do momento presente, a fim de impedir que ele se possa tornar numa condenação eterna.
Apelamos à vossa participação e à divulgação desta iniciativa. O objectivo final será a redacção de um texto comum com base nas intervenções previstas e não previstas, o qual possa ser difundido nos meios de comunicação disponíveis e circular de mão em mão.

Irene Pimentel e Maria Filomena Molder
Lisboa, 27 de Novembro de 2012

29.11.12

há uma coisa que muitos políticos ainda não perceberam.

22:10

Pode ter acabado o tempo em que as pessoas votavam em B por não gostarem de A.

Pode ter chegado o tempo em que as pessoas que não gostam de A nem de B não votam nem em A nem em B.

Nem em C, nem em D, nem em E.

Pura e simplesmente.

Ainda por aí muito partido que parece não ter percebido isto.

pensar a censura.

21:47

Tribunal russo restringe acesso a vídeos das Pussy Riot na Internet.

Um assunto a seguir. Já expliquei antes o que penso desta matéria, mas voltarei um destes dias, quanto tiver tempo, porque as fracturas na leitura deste caso são muito importantes para perceber como realidades novas por vezes dificultam que as encaixemos nos velhos odres.

O mais conhecido dos vídeos “extremistas” é a “oração punk” em que as Pussy Riot pedem à Virgem para afastar Vladimir Putin, então primeiro-ministro e agora Presidente. Deixo essa peça.



o Estado vai passar a fazer os orçamentos das famílias?

18:00

Governo abre a porta a que o ensino secundário passe a ser pago.

O ensino secundário é obrigatório. Até agora, também é gratuito. Se o passismo levar a sua avante, o ensino secundário deixa de ser gratuito. Pode, deixando de ser gratuito, continuar a ser obrigatório? Apesar dos constitucionalistas, acho que não. (E não estou assim tão preocupado com os constitucionalistas: afinal, parece que tudo se pode defender juridicamente, desde que chegue a vontade para tanto.) Há um interesse nacional em elevar a qualificação dos portugueses e isso justifica a obrigatoriedade do secundário - mas, fazendo pagar o que é obrigatório, temos o Estado a fazer o orçamento das famílias, dizendo onde têm de gastar. A fazer o orçamento de cada família com filhos em idade de cursar o secundário.
As famílias têm uma escapatória: manter a pequenada, repetência após repetência, no ensino básico, que esse é gratuito por obrigação constitucional. Até se extinguir a obrigação... Ideia estapafúrdia? Certamente; tão estapafúrdia como pensar a educação como sítio para cortar no "Estado", em vez de a tratar cada vez mais como desígnio estratégico sempre e sempre a precisar de mais investimento.
Ou o melhor será aprender mandarim e ir para a porta das empresas onde primem administradores chineses?

novos dilemas desta crise.

14:00

Há muito quem queira enfrentar esta crise com as respostas passadas. O pessoal do "salve-se quem puder" quer resolver com mais mercado a crise que os mercados (financeiros) espalharam pelo mundo como vírus, parasitando a economia real. (Em rodapé: a maior parte dos anarquistas que por aí andam podem ser metidos na mesma categoria dos hiper-ultra-liberais, já que o individualismo os junta desgraçadamente na mesma prateleira.) O pessoal do Leviatã julga que o Estado resolve tudo, esquecendo as lições do passado acerca do onanismo da burocracia e as consequências em falta de democracia que daí resultaram historicamente. No meio disto tudo, a minha família ideológica - uma coisa que (já) não existe: os partidários da autonomia, do auto-governo, da descentralização, da responsabilidade local - está mais ou menos tão bloqueada pela crise como todos as outras.

Basicamente, os partidários da autonomia, do auto-governo, da responsabilidade descentralizada, dão de caras com o seguinte dilema: antes queríamos soluções locais, participativas, em pequena escala; mas, num mundo globalizado, face à imensidão das forças desorganizadoras, o que é pequeno e local dificilmente se aguenta. Um exemplo comezinho, mas próximo: no sistema financeiro (ver exemplo espanhol) os primeiros a cair foram os pequenos, locais/regionais (em Espanha, as Cajas, que tiveram de ser absorvidas por não se aguentaram nas pernas). Sem voarmos mais alto e mais juntos, cairemos mais facilmente: por isso precisamos da Europa, para lá de qualquer utopia, para sermos mais difíceis de engolir. O "pensar global, agir local" tornou-se muito difícil de praticar.

Estamos todos a precisar de reinvenção. E depressa, antes que o governo dos Relvas consiga não deixar pedra sobre pedra.

cambaleão = cambalhota + camaleão.


Barroso assume ideias alemãs para a resolução da crise do euro.

A escola maoísta portuguesa tem muitas variantes, mas uma ideia é património de todas as sub-seitas: "perder é que não". Tudo tem de ser feito para ganhar e isso vem muito antes de qualquer ideia-mais-ideológica. Barroso personifica exemplarmente essa escola: ele pode mudar de "programa" para a Europa (ou para Portugal, ou para o mundo) todas as vezes que a manobra possa aplainar o caminho para a sua ambição pessoal. O homem não emigrou apressadamente para ter de voltar ao seu torrão natal: a saga tem de prosseguir. De guinada em guinada, que importa isso.

membros artificiais controlados pela mente: fusão homem-máquina?

28.11.12

nova espécie de leão.

as duas verdades a que temos direito.

11:11

Em tempos que já lá vão, um quotidiano da nossa praça tinha um lema: "a verdade a que temos direito". Esse jornal, "o diário", já lá vai.
Agora há por aí jornais, parece que com muito sucesso comercial, que vendem todos os dias "a pequena falsificação a que temos direito". Sejam umas falsas partes anatómicas de meninas e senhoras que supostamente vendem (papel), sejam falsas notícias que servem determinados propósitos.
Já o "Público", que vai despedindo e andando, é mais requintado: quer inovar sem jornalistas. E depois falta pau para tanta obra. Nessa saga, novo episódio: prolonga agora a técnica que deveria designar-se como "as duas verdades a que temos direito". Hoje dá uma amostra dessa técnica. Noticiando uma conferência do Instituto de Ciências Sociais, que assinala os 50 anos dessa prestigiada instituição de investigação, e na qual, escreve-se, "a crise económica esteve no centro das atenções", o Público titula na primeira página, entre aspas para mostrar que foram os cientistas sociais a dizer: "Não devemos temer grupos radicais mas quem fica em casa". Ficamos a pensar que algum cientista social decidiu desancar os pacatos cidadãos que não se radicalizam nas ruas, mas apenas no remanso do lar. Depois, vamos à página 12, onde a notícia se desenvolve, e o título já é outro, ainda entre aspas: "Não devemos temer grupos radicais mas o cidadão normal que fica sem casa".
Vai alguma distância entre o cidadão que fica em casa e o cidadão, ainda normal, que fica sem casa. Até por ser mais difícil ficar em casa depois de se ficar sem casa.
E assim o Público me serviu duas verdades a que tenho direito, pelo preço de uma só. Entre casa e o trabalho, no percurso de autocarro, tendo lido apenas o título de primeira página, reflecti sobre o perigo das pessoas que ficam em casa, contraposto ao perigo dos radicais, que seria uma teoria de algum cientista social em tempo de crise. Até já me sentia na obrigação de escrever um post sobre a coisa. Chegado aqui à "casa" que me abriga para trabalhar, ao café da manhã, li o miolo do jornal, arquivei a reflexão anterior, e dediquei-me a um novo problema: o potencial revoltoso das pessoas que ficam sem casa. Aqui, as minhas reflexões tornaram-se bastante mais do senso comum. E do comum e banal dos nossos tristes dias.

27.11.12

deputados que deixarem de o ser.

19:36




Se os deputados (neste caso, do grupo parlamentar do PSD) deixam que um ministro (neste caso, o Sr. Dr. Relvas) reescreva uma declaração de voto que eles assinam e entregam como sua, estes deputados estão lá para baixar as calças. Deixaram de ser deputados. Vão para casa. Estes e todos os outros, de qualquer partido, que tenham feito ou admitam vir a fazer o mesmo. Vão para casa, porque na realidade deixaram de ser deputados e estão a usurpar as cadeiras de verdadeiros deputados.

São tão deputados como seriam livres as eleições se fosse o príncipe a eleger os representantes do povo.

(imagem rapinada ao Miguel)