17.11.12

Arthur Bispo do Rosário.


Arthur Bispo do Rosário (1909-1989) foi um artista brasileiro. Viveu 50 anos internado como louco e foi aí que deu a sua obra ao mundo, usando os materiais que podia encontrar no seu ambiente. Vi uma pequena exposição dele em Bruxelas, no Museu de Arte Bruta, por ocasião da Europália dedicada ao Brasil. Fiquei impressionado com a imaginação prodigiosa do homem, que fora marinheiro antes de ser internado e misturou tudo na sua cabeça, para de lá tirar um mundo completo, complexo, intrincado. Agora, a partir de amanhã, domingo, 18 de Novembro, está uma grande exposição da sua obra no Museu da Cidade, em Lisboa, tendo como curador Wilson Lázaro, o director do Museu do Bispo do Rosário.

A descoberta de Bispo do Rosário como artista (louco ou génio? a pergunta retórica habitual) andou de par com uma reavaliação crítica das ideias dominantes acerca da loucura e acerca das teorias psiquiátricas, uma reavaliação crítica em que o Brasil se empenhou a certa altura da sua história.

Este é, por tudo isso, um artista que tem muito por onde nos interrogar. Como aperitivo deixo parte de um documentário realizado por Fernando Gabeira na década de 1980.



16.11.12

se a senhora Merkel diz...

21:22

Passo a citar:
Uma das coisas divertidas da passagem de Angela Merkel por Lisboa – para além da “photo opportunity” do letreiro “governo de Portugal” – aconteceu quando a chanceler, na conferência de imprensa ao lado de Passos Coelho, lembrou a origem da crise do euro. Deve ter sido esquisito para quem está habituado a culpar “o Sócrates” ter ouvido a todo-poderosa Angela explicar que, por causa da crise financeira desencadeada nos Estados Unidos, e da sua propagação à Europa, os governos europeus desataram a apostar no investimento público para conter o descalabro das suas economias. Só que entretanto os investidores começaram a desconfiar de algumas economias (as mais frágeis) e a duvidar da fiabilidade de alguns para pagar as respectivas dívidas. Esta foi a explicação de Merkel, perante um Passos Coelho que arrumou a um canto o discurso habitual do “vivemos acima das nossas possibilidades” e se concentrou no verdadeiro desastre nacional – um grave problema de produção.

Ana Sá Lopes, Os dias do fim

a violência e a credulidade de alguns liberais.

12:09

A propósito da violência nas margens da greve geral de dia 14, queria (além do que já ficou dito) dar nota de um espanto meu.
É claro que a polícia reagiu a uma actuação violenta e perfeitamente inútil da parte de um pequeno grupo de manifestantes. Concordo que esses actos não devem ser tolerados, porque já basta a selva que temos, não precisamos de mais fogo. Mas, e este é um grande mas, estou espantado com a facilidade com que alguns comentadores descartam a análise dos muitos elementos que indiciam que a polícia foi além do necessário e atingiu desnecessariamente muitos cidadãos pacíficos - e, se calhar, usou métodos duvidosos.
Estou espantado com essa benevolência de alguns face à violência do Estado. Afinal, vós que pregais tanto a salutar desconfiança face ao Estado no tocante a assuntos económicos e sociais, porque nesses temas sempre o indivíduo haveria de vir antes do Estado, porque o Estado seria sempre de presumir como um papão (ao querer, por exemplo, redistribuir), esmoreceis tão rapidamente de querer interrogar as razões e os processos do Estado quando se chega a um caso destes? Quanto chega à gestão da violência já sois todos crédulos? Se a polícia disse, está dito, não se pensa mais nisso?
Espanta-me essa acomodação repentina dos que pugnam sempre tanto contra a mão do Estado quando se trata de usar o Estado para redistribuir - e aceitam com tanta benevolência o longo braço da violência. Não se julgue que quero um Estado fraco na manutenção da ordem pública, que é antes de mais uma ordem necessária à convivência democrática e à liberdade. Mas a vigilância e o espírito crítico são indispensáveis quanto às formas concretas de prosseguir essas funções. Por serem vitais essas funções, não podemos autorizar-nos a ser, quanto a elas, crédulos nem benevolentes. Temos de estar vigilantes, tanto quanto à violência da turba, como quanto às responsabilidades daqueles que o Estado paga para nos protegerem.

15.11.12

a inocência que temos.



a violência.

16:05

Acerca dos confrontos violentos entre manifestantes e polícias, ontem, em frente à Assembleia da República, quero deixar dois apontamentos.

Primeiro, sem dúvida que as agressões à polícia existiram, não tiveram nada a ver com o grosso da manifestação e, a meu ver, são um método de existência no espaço público que não contribui em nada para melhorar o país ou resolver os nossos problemas. Mesmo que haja infiltração policial nesses grupos, não acredito que essa infiltração seja o essencial do problema, nem a sua causa ou explicação. (Embora se deva fazer luz sobre o papel de eventuais infiltrados nestas situações, mesmo que essa luz não possa acontecer na praça pública e seja entregue ao controlo das pertinentes instituições.) Esta violência serve os que preferem a via da repressão e distrai as pessoas dos verdadeiros problemas.

Segundo, ontem houve muita gente pacífica, que estava a manifestar-se normalmente ou apenas a observar, ou simplesmente a passar por ali, e que apanhou cassetada valente nos costados. Basta ver as imagens da televisão para perceber que assim foi. Isso é inadmissível. A polícia diz que avisou antes de avançar, mas pelos relatos de cidadãos normalíssimos que por ali andavam, e por análise da situação, acredito que a polícia avisou - mas parece que não avisou de modo a que isso fosse entendido, sequer ouvido, pela generalidade das pessoas ali presentes. Umas palavras de megafone a partir da escada facilmente se perdem sem chegarem à generalidade das pessoas no meio da confusão da praça. As consequência estão à vista. Sem nenhuma retórica revolucionária, julgo que a polícia tem a obrigação profissional de fazer as coisas de modo a evitar o espancamento generalizado de pessoas que nada fizeram de mal. Não podem levar tudo à frente. Eu não estive lá, mas tinha o direito de ter estado sem correr o risco de ser corrido à bastonada. As imagens da TV mostram pessoas encostadas aos prédios, a observar, que se repente começam a ser violentamente molestadas pela polícia. Face a esta situação, o ministro das polícias devia usar menos de palavras grandiosas e levar mais a sério a necessidade de garantir que as forças de segurança não se tornem elas próprias factor de insegurança para o cidadão anónimo que quer manifestar-se sem correr estes riscos. Claro que os manifestantes violentos lhe deram o bom pretexto para aquela cena, mas a obrigação de um governante responsável não é abrir as asas e embarcar na onda; a sua obrigação é garantir que as forças do Estado façam tudo no estrito respeito pela integridade dos cidadãos.

14.11.12

o chumbo estrondoso do camarada Barroso.

17:07


Comunico os resultados de um inquérito sobre o desempenho da Comissão Europeia, presidida pelo camarada Durão Barroso.

Numa escala de 1 a 10 (1 = mau, 10 = bom), 53,6% dos respondentes deram à Comissão Barroso uma nota de 3. Chumbo redondo. Ainda: 23,1% deram-lhe o mínimo: nota 1. Menos de 1% deu nota 10.

Foram inquiridas 811 pessoas, das quais perto de 30% trabalham para instituições europeias, cerca de 10% trabalham em universidades, cerca de 13% no mundo empresarial. Os respondentes são nacionais de vários países da UE, com um peso particular para a Alemanha e a Bélgica (mais de 12% cada). (Como seria se tivessem perguntado mais nos países do Sul?)

Entre todos os comissários, Barroso foi o que recebeu a pior nota: 2,5 em 10.

Notícia mais detalhada do chumbo do camarada Barroso, que anda mais virado para procurar novo emprego do que para fazer a Europa fazer o seu trabalho, pode ser encontrada aqui.

(Tentei aumentar o tamanho da imagem, mas a qualidade intrínseca não permitiu.)

Pra não dizer que não falei das flores.




A GREVE, Jorge Amado.



Manifesto Pela Greve na Arte.




Grève illimitée, Dominique Grange.




GREVE, de Augusto de Campos




Greve de zelo.

11:00


Em dia de greve geral, reproduzo um excerto do meu livro Podemos matar um sinal de trânsito? (Esfera do Caos).

***

Estando a falar de hábitos, há uma distinção que seria interessante introduzir. Hábitos e rotinas. A hábitos no seio de organizações chamamos rotinas. Rotinas são comportamentos que estabelecem certas interacções entre posições (ou papéis) dentro de uma organização. Essas rotinas preenchem os espaços deixados vazios pelas regras, já que as regras formais não podem antecipar todos os pormenores da vida real. Naquela empresa, as regras estipulam que as facturas se entregam ao contabilista – mas, na prática, elas são sempre entregues ao secretariado do contabilista. Se alguém insistir em falar pessoalmente com o contabilista para lhe entregar pessoalmente um monte de facturas perfeitamente banais, será considerado inconveniente, além de estar a desperdiçar o seu tempo e o dos outros. Um aspecto importante é que não interessa se hoje é o senhor António ou a menina Helena quem está a secretariar o contabilista: a rotina não distingue a pessoa, mas a posição na organização, o papel. Que a posição, ou o papel, sejam um fato que sabemos distinguir de quem o veste, nota-se em inúmeras circunstâncias corriqueiras da vida: sei como devo dirigir-me ao senhor da bilheteira do teatro, sei como ele se comportará perante a minha pretensão de comprar um bilhete, sei como ele fará a gestão do acto de pagar o bilhete, apesar de não o conhecer pessoalmente, não lhe reconhecer o rosto nem saber o nome. Interajo com ele como ocupante de uma posição, ele faz o mesmo comigo. As rotinas organizacionais também separam (razoavelmente) a posição e a pessoa que ocupa a posição. Inúmeras rotinas, hábitos organizacionais, mantêm a funcionar autênticas máquinas feitas de humanos. Coisa que as regras explícitas, inscritas em algum normativo, só por si não poderiam conseguir.
Um determinado fenómeno, apesar de relativamente raro, pode ajudar-nos a compreender este carácter das organizações. Falamos da greve de zelo. Chama-se "greve de zelo" a uma prática de contestação laboral usada em certa altura em alguns países. Coisas de uma luta de classes sofisticada, em que não se encontram (as classes) a meio da noite para traulitarem mutuamente nas respectivas cabeças – antes procuram maior subtileza, pela qual conseguem, mais do que amassar a classe antagonista, encher-lhe o peito de espanto e a cabeça de dificuldades de compreensão. Numa greve de zelo, os grevistas não se recusam a trabalhar: limitam-se a aplicar de forma estrita todas as regras formalizadas (escritas nos regulamentos) que enquadram a sua actividade. O resultado de uma greve de zelo não é que as coisas funcionam melhor, como qualquer racionalista da acção haveria de esperar. Esses pensam que nas regras miúdas e precisas é que está o segredo do bom funcionamento da máquina do mundo. Pelo contrário, o verdadeiro resultado de obedecer total e exclusivamente a todas as regras escritas e bem assentes é... a inoperância!
É que, no domínio exclusivo das regras formais e bem firmadas, faltam aquelas práticas que, fugindo à letra dos regulamentos, fazem funcionar as coisas. Por exemplo, quando um funcionário subalterno toma uma iniciativa sem autorização superior, porque “sabe” que ela seria dada se o chefe estivesse presente, apesar de, em rigor, arriscar uma sanção por avançar sem uma assinatura no papel apropriado. A assinatura virá. E normalmente vem. Mas emperra tudo se eu insistir que espero pelo chefe. E isto multiplicado a cada momento dos dias longos e complicados de qualquer organização humana sofisticada, por muito burocrática que seja. (Merleau-Ponty escreveu que “a instituição não é apenas o que foi fixado por contrato, mas isso mais funcionamento”.)
Há quem confie que a acção dos humanos segue as regras escritas que aparecem nos manuais de procedimentos (relativos, por exemplo, à autorização de pagamentos dentro de uma organização, como se esse manual fosse comparável a um manual de reparação de uma máquina). Esses racionalistas da acção, tão ingénuos por demasiado admiradores da razão, nunca compreenderão o segredo de uma greve de zelo. Não estranha: muitos gestores e políticos também não percebem. E, não percebendo, descuidam "ninharias" e "perdas de tempo" que consistem em envolver, mobilizar e interagir com os agentes.

***

Abordo muitos outros aspectos da nossa vida social e institucional, sempre com exemplos práticos apresentados de forma simples, neste livro:



(Republicação)

hoje há uma greve perfeitamente justificada.

10:00
(Diego de Rivera, O Homem Controla o Universo, 1934)

12.11.12

perguntas tipo jangada de pedra.

19:21

A Ana Sá Lopes pergunta: «Como é que é possível que a Europa do Sul não discuta em conjunto a saída do euro, a única arma de negociação com peso de que dispõe?». Até um famoso Ladrão de Bicicletas (João Rodrigues) aplaude a pergunta.

Ora, a resposta é fácil: "a Europa do Sul" não existe. Existem países da Europa do Sul com alguns interesses convergentes e alguns interesses divergentes. Se um acordo para fazerem qualquer coisa em conjunto lhes fosse metido no bolso por, digamos, Deus Nosso Senhor; se tal acordo já feito e fechado caísse do céu aos trambolhões, talvez até fizessem qualquer coisa em conjunto. Assim, quem arrisca ser o primeiro a dar um passo no sentido da saída do Euro? O primeiro a dar esse passo é sacrificado no dia seguinte pelo resto dos parceiros (ou, se preferirem, pelos "mercados") e sai pela janela, sozinho e não com a companhia dessa mítica entidade, "a Europa do Sul". Se a Europa do Sul fugisse com os seus trapinhos, no dia seguinte estaríamos a carpir a maldita sorte de estarmos aqui entalados no fim da Península com a Espanha a separar-nos do resto da Europa e a abusar de ser muito maior e rica do que nós. Nessa altura, os brilhantes estrategas do "vamos dar cabo deles" haveriam de conceber uma aliança com a Madeira, os Açores e, quem sabe, as Berlengas e as Desertas.

Afinal, parece que não são só os "economistas ortodoxos" que se esquecem das realidades políticas e institucionais quando se põem a imaginar soluções catitas para os problemas.

em dia de visita de Merkel.


Como já é sabido que, em termos políticos, quanto à visita de Merkel hoje a Portugal estou na toca, deixo, para não perder de vista os meus amigos que andam a expressar a sua zanga com a Alemanha, uma matéria lateral aos dias de hoje, mas sem dúvida com alguma ligação. Segue-se uma longa citação de um texto de 1939.

***

Foi o grande historiador alemão Alexander von Humboldt, que, há um século, proclamou a ignorância dos navegadores portugueses da época dos descobrimentos nestes termos bastante depreciativos: "Não é a multidão guerreira e pouco civilizada dos conquistadores que devemos honrar pelos avanços científicos que, sem dúvida, têm o seu princípio na descoberta do novo continente."
Ao mesmo tempo que ele avançava a tese da ignorância dos conquistadores (alusão directa aos navegadores Portugueses), Humboldt apresentou os seus dois compatriotas Martin Behaim e Regiomontanus como os fundadores da arte de navegar na época das descobertas. Em sua opinião, Martin Behaim, o "homem extraordinário", "cosmógrafo de grande renome" tinha recebido do rei de Portugal, D. João II, a ordem de calcular uma tabela das declinações do Sol e de ensinar aos pilotos a guiarem-se pelas alturas do Sol e das estrelas. E ele sustentava que "Regiomontanus publicara em Nuremberga as suas famosas Efemérides Astronómicas... que serviram nas costas da África, da América e da Índia, nas primeiras viagens de descoberta de Bartolomeu Dias, de Colombo, Vespúcio e Gama".
Desde então Colombo começou a figurar na história como o verdadeiro iniciador dos empreendimentos marítimos do seu século.
Foi assim que nasceu, com toda a aparência de uma verdade comprovada, a lenda da origem alemã da ciência náutica portuguesa na época dos descobrimentos, com a exclusão total da obra do Infante D. Henrique o navegador e do Rei D. João II.
A propaganda a favor de Behaim continuou na obra de Ghillany, Geschichte des Seefahrers Bitter Martin Behaim, publicada em 1853 sob o patrocínio e com a colaboração de Humboldt, para "lembrar à memória do mundo o papel da ciência alemã que, no fim da Idade Média, permitiu aos célebres navegadores percorrer e penetrar corajosamente no Oceano, graças à ajuda prestada pela ciência de Regiomontanus e Behaim."
A história desta campanha, iniciada por Humboldt e continuada pelos seus discípulos, a favor de Behaim, de Regiomontanus e da origem alemã da ciência náutica portuguesa, é rastreada nos dois volumes de Les légendes Allemandes sur l'Histoire des Découvertes Maritimes Portugaises [Lendas alemãs sobre a história das descobertas marítimas portuguesas], de Joaquim Bensaude.
Já em 1899, Ravenstein, estudando cuidadosamente todos os documentos utilizáveis, conscientemente concluiu que "o objetivo principal, senão único, da viagem de Behaim a Portugal foi de natureza comercial" e que ele "não exerceu qualquer influência sobre a origem ou os progressos da arte da navegação na época das descobertas."
Ravenstein liquidou assim a tese de Humboldt sobre o suposto envolvimento de Behaim como auxiliar dos empreendimentos empresas marítimos de D. João II.
Em 1912 foi publicado em Portugal o notável trabalho de Joaquim Bensaude sobre L'astronomie nautique au Portugal à l'époque des grandes découvertes [A Astronomia Náutica em Portugal na época das grandes descobertas] e, no ano seguinte, A Astronomia dos Lusíadas, do professor de mecânica celeste na Universidade de Coimbra, Luciano Pereira da Silva, que vieram revolucionar a concepção corrente da história e dos progressos da ciência náutica das descobertas marítimas dos séculos XV e XVI, ao mesmo tempo que denunciavam os erros e equívocos prevalentes por esse mundo fora, após a publicação do Exame crítico e, mais tarde, do Cosmos, de Humboldt.
Desde então, estes dois cientistas publicaram uma notável série de novos trabalhos que abriram horizontes mais amplos para a investigação histórica.
A descoberta do Regulamento do Astrolábio da Biblioteca de Munique, o mais antigo manual náutico conhecido, que contém as regras para o cálculo da latitude geográfica para uso dos navegadores portugueses, derramou uma viva luz sobre o problema da origem e dos progressos da ciência náutica das descobertas e, graças a este feliz achado, conhecemos hoje como nasceu, e sobretudo como evoluiu e progrediu, toda a ciência náutica, desde a segunda metade do século XV.
Este é o primeiro resultado desses estudos, levados a bom termo após investigações persistentes, realizadas entre grandes dificuldades, porque os documentos encontrados e agora ao alcance de pesquisadores em edições fac-símile, estavam então esquecidos e quase ignorados no segredo das bibliotecas.
Estes documentos permitem-nos provar que os navegadores portugueses da época dos descobrimentos foram os verdadeiros criadores da ciência náutica que usaram nas suas frequentes viagens e explorações, a partir do primeiro quarto do século XV, quando começaram as descobertas do Infante D. Henrique e ao longo do século XVI.

***

Parágrafos iniciais de António Barbosa, "L'astronomie nautique au Portugal pendant les découvertes", Separata de : Revue d'histoire moderne, T. 14 (nouv. ser. t. 8) n.º 39 (Aout-Sept, 1939).
(Tradução de Porfírio Silva)



locais de peregrinação.



(Reportagem ao local de peregrinação por Porfírio Silva.)

11.11.12

Eu não vou manifestar-me contra a visita de Merkel.

11:00

Eu não vou manifestar-me contra a visita de Merkel. Porquê? Por concordar com as políticas que ela conduz como chefe de governo de um Estado-Membro da União Europeia? Decerto que não é por isso, porque discordo muitíssimo das suas políticas, julgo que elas rasgam de forma profunda a ideia de interesse comum europeu e são uma má resposta à solidariedade que a Europa deu anteriormente à Alemanha. Então, porque, mesmo assim, não vou manifestar-me contra a sua visita?

Primeiro, porque só sou contra a vinda a Portugal de ditadores (e, mesmo assim, depende: há circunstâncias em que isso se justifica diplomaticamente). Merkel é a líder democraticamente eleita de um país amigo.

Segundo, porque estou farto dos disparates de comparação desta Alemanha com o nazismo e parafernália associada e prevejo que nas manifestações contra a visita haja muito material desse – e não quero estar de modo nenhum associado a ajuntamentos onde esses crimes contra a memória se repitam.

Terceiro, porque o problema não é "a Merkel": a chancelerina alemã dá voz à esmagadora maioria do seu povo – que pode estar errado, mas é assim que as coisas funcionam em democracia. Há quem brame muito para que os representantes dos portugueses não vão além da nossa vontade expressa no concerto europeu, ao mesmo tempo esquecendo que os alemães também são gente e têm as suas próprias opiniões acerca do que o seu governo deve fazer na Europa. E não vamos convencer os alemães das nossas razões hostilizando a sua chefe de governo de forma violenta.

Quarto, porque o problema nem sequer é especificamente a Alemanha. Se não fosse a Alemanha, uma série de outros Estados-Membros da EU, mais a norte e mais a leste, já teriam bloqueado tudo o que, mesmo assim, se tem feito. Os eleitorados desses países, se não fosse a imagem de firmeza que Merkel tem transmitido, fazendo dela uma ponte negocial entre interesses em confronto na Europa, há muito teriam desligado dos nossos problemas e teriam batido com a porta na nossa cara.

Quinto, porque pintar a Alemanha como a "grande egoísta" na Europa é uma visão parcial das coisas. Desde logo, (parte "mesquinha" do argumento) a Alemanha é uma das fontes principais do financiamento da União - e de países como Portugal que desse financiamento beneficiam muito; e, também, porque (argumento mais ao largo) a Alemanha tem décadas como um dos parceiros mais responsáveis no seio da Europa. Devemos vender-nos por fundos comunitários? Não, não devemos vender-nos; mas também não faz muito sentido continuar a querer o apoio dos outros e estar sempre a fazer de conta que prescindimos deles lindamente. A Alemanha também ganha com a Europa? Claro que ganha, mas é de interesses mútuos que se trata, não de beneficência.

Sexto, porque o que Portugal precisa não é de se isolar da Alemanha: o que Portugal precisa é de negociar com toda a gente, incluindo a Alemanha. E negociar não é berrar: é ter posições e defendê-las. Se temos um governo que prescindiu de defender Portugal na Europa, não estou certo que isso seja culpa de Merkel, acho que é mais culpa da agenda ideológica de Passos Coelho e do seu ajudante Gaspar. Aplaudiria que várias forças da sociedade civil, e mesmo forças políticas, tivessem solicitado encontros com Merkel para discutir com ela o que a crise exige. Não na qualidade de um César de saias, mas como chefe de governo de um país amigo dentro de uma comunidade de Estados e de povos.

Sétimo, porque cada vez tenho mais vontade de me manifestar, mas cada vez tenho menos condições para o fazer. A rua está cada vez mais tomada pelas correntes anti-europeístas, herdeiras (envergonhadas ou assumidas) do nacionalismo comunista ou do nacionalismo de direita; a rua está cada vez mais radicalizada contra as forças (nomeadamente socialistas) que são mais ciosas do compromisso europeu e percebem que sem mais Europa (outra Europa) isto não vai lá. Para já não falar da crescente ameaça de violência que paira sobre essas manifestações, servindo talvez os interesses eleitorais de alguns (que pensam que só com um cenário grego podem dobrar o PS, por exemplo), mas decerto não servindo a capacidade de construir um largo bloco político-social de alternativa a este entreguismo do governo. O radicalismo da rua cada vez mais se encaixa no radicalismo do passo-gasparismo – e isso a mim não me serve como ecossistema.

Por último, e em resumo, eu até poderia manifestar-me contra a política de Merkel, porque sou contra essa política. Não posso é manifestar-me contra a visita de Merkel, pela razões que acima procurei expor, e quem sair à rua vai fazê-lo com esse propósito que eu não partilho. Não haveriam, pois, de querer a minha companhia.