4.2.12

poesia e ciência (3).



O olho algébrico

Trazia nas mãos uma pequena bola que atirava ao ar ou fazia saltar no chão, ou percutir contra as paredes, um zero que, associado a qualquer outro objecto, fosse este um móvel, um tapete ou um adereço, o convertia a ele também num algarismo, um elemento com o qual compunha então um número num plano cada vez mais vasto onde assim tudo acabava por poder perspectivar-se em termos aritméticos. Os mais heterogéneos objectos combinavam-se entre si em melindrosas adições, ávidas multiplicações que tudo pareciam arrastar e consumir, operações que pela forma como o próprio ar nelas entrava nos levavam a pensar que respirassem e onde fatalmente o zero era a entidade soberana - um olho a humanizar o raciocínio, um olho a que a abstracção ia buscar urna expressão quase animal, entranhas que em nenhum outro lugar o pensamento encontraria. A pulsação algébrica do espaço aproximava-o do tempo, o zero ia e vinha e nesse movimento era visível o vazio que ele também significava, a conversão dos dados dos sentidos em conceitos dum rigor gémeo do vidro, e entre eles eram tão estreitas as passagens que quase podíamos tocar no destino com as mãos, as quais contra o que quer que assim tocassem eram então findas como as trevas.

Luís Miguel Nava, Poesia completa, 2002

3.2.12

leituras que certamente não faltam ao gestor V.G.M. quando usa um cargo de nomeação governamental para impor regras de gosto pessoal mas contra as leis da república.


Deixo abaixo uma reprodução parcial da primeira página de texto do Compendio de Geographia, "por José Nicoulau Raposo Botelho, Ex-lente da escola do exercito e ex-professor do real collegio militar e do lyceu central e escola normal do Porto, Obra aprovada, por decreto de 26 de novembro de 1903, para uso das escolas normaes", dada à estampa pela Livraria Férin, de Lisboa, em 1904.

Como conseguimos sobreviver, naquele tempo, ao abandono de tão entranhada ortografia?

Sobreviverão, desta feita, a novo acordo ortográfico, a pátria, a nação, o povo, a cultura, a alma, sei lá? Sobreviverão?!


(republicação)


há gente viva neste mundo.


Começa assim:
Fiquei de a avisar da reunião e hoje toquei-lhe à campainha de manhãzinha cedo. Abriu imediatamente, parecia estar numa espera eminente da minha pessoa. Da porta aberta vejo o quarto e a cozinha, uma nesga e tenho a visão completa da casa. É pálida, a casa. Há uma alcatifa amarela suja a forrar o chão e depois umas paredes cinzentas pardas escurecidas pelo tempo.

Ler o resto.

usar o Estado para as guerras pessoais.


Graça Moura dá ordem aos serviços do CCB para não aplicarem o Acordo Ortográfico.


«Vasco Graça Moura tem todo o direito, e até terá boas razões, para lutar contra o novo Acordo Ortográfico - pressionando as autoridades competentes (Parlamento e Presidente) para a sua revogação. Não tem é o direito de tornar a instituição que agora aceitou dirigir - por nomeação governamental após saneamento político do seu antecessor - instrumento da sua luta pessoal.» (Augusto Santos Silva)

apologia das visitas de estudo.

contributos para um desmentirador.



Cito:
Um outro mito, amplamente difundido nos dias que correm, alimenta-se da ideia de que os resultados negativos das empresas de transportes públicos se deve a má gestão, ao excesso de trabalhadores, à irracionalidade e sobreposição de linhas e horários ou aos baixos custos das tarifas para os utentes. Isto é, os argumentos subjacentes às recentes medidas governamentais, que anunciam a transfiguração e destruição da política pública de transportes.

Mais aqui.

Hoje, 3 de Fevereiro, o poema é da minha reserva e a destinatária és tu. Sim, tu.

10:29


Soneto dos anjos bruscos (e de por que te procuro)


Entre asas de anjos bruscos vogamos.
Fora, o dia do cão negro espreita
e a chuva que cai, cai rarefeita.
Amargamos novos dias de ramos.

Dentro, desnudos, os dois criamos
trinta estirpes de rosas: colheita
dos corpos na alegre cama desfeita,
aromas secretos delas reclamos.

Tu tens profecias no corpo, lê-mas:
diz-me como com pedras fazes casas,
como sem palavras fazes poemas,

como com tanto frio tu abrasas;
explica-me o mundo e os dilemas,
mas encosta às minhas as tuas asas.



2.2.12

poesia e ciência (2).



Subsídios para uma Poética da Ciência



I.

Dirás que à morte
apenas o nada sucede,
o não-ser, o vazio.
Que somos acaso entre acasos
e que o melhor é não pensar,
porque pensar faz doer a cabeça
e é coisa de quem está doente dos olhos.

Mas obrigo-me a pensar
à força de tanto olhar
(em páginas de revistas
e programas que não passam
em canais generalistas),
enxames de galáxias,
redondos planetas,
remotos quasares,
negros buracos comedores de luz,
peregrinos cometas,
nebulosas e pulsares,
estrelas de neutrões coalescentes,
nuvens de gás interestelar,
luas cravejadas de crateras,
sobras da cintura de Kuiper,
astros exilados da nuvem de Oort,
nebulosas reflectoras de luz
- e nebulosas negras, suas irmãs, tão frias
quanto da claridade inimigas -
raios gama, matéria sombra,
vento solar.

Obrigo-me a pensar
e nada me resta senão amar
o nada que o teu nome diz.

II.

Dirás que são também fruto do acaso
os astros?
Que um colectivo de deuses
os instalou acima de nossas cabeças
(e onde nossos olhos não pudessem chegar
sem a assistência dos sonhos)
achando que ficavam bem no céu?
Mas que deuses antes de havermos nós
para os inventarmos à nossa semelhança
(pois sem modelo, que semelhança)?

Quem antes de nós para ver as estrelas,
ter a certeza e baptizar o real?
Alguma coisa havia, decerto,
antes de nós sermos nós,
alguma coisa que não pura teoria,
sob a forma de sonho ou visão
em nossas cabeças invadidas
por dúplices consciências
colectoras de fósseis,
pesquisadoras de rochas,
e inventoras do tempo
com que medir-nos a condição de gente presente
que fabrica o passado
e pressente o futuro.

Para quem o espectáculo do mundo
e do firmamento,
o gigantismo dos primeiros insectos
cuja descendência vive agora
entre páginas de livros,
ou em sótãos pouco frequentados,
quando não passava, o Homem,
de mero projecto embargado
num roedor em busca de abrigo,
decerto já congeminando
engenhoso plano de conquista
enquanto evitava não ser pisado,
ou em tal plano gorado
pelas súbitas navalhas da boca
de um réptil esfomeado?
Para quem o fogo-de-artifício dos vulcões,
a lava, os piroclastos, as nuvens ardentes,
o rasto fulgurante do asteróide
caído algures em desgraça
no Golfo do México?

Para os grandes sáurios terminarem o reinado
num grandioso, wagneriano cenário?
Mas quem, faltando nós, poderia ver,
e dar um sentido a tanta morte?

Para quê tanto trabalho?
Para quê tanto esforço?
Para quê tanto espaço

(se não é para nos perdermos
e depois nos encontrarmos)?

Rui Lage, in Revólver, 2006

arte de rua.



Hyuro, Zurich

histórias da cultura ciborgue.



Povoar a imaginação: eis como se conquista o senso comum, como se constroem impérios de ideias. (Pronto, a versão gramsciana fica para outra altura.)

O termo ciborgue (há quem prefira cyborg) resulta da contracção de cybernetics organism, organismo cibernético. É, pois, uma criação de uma particular metafísica para consumo de cientistas e filósofos, a qual teve um momento de glória no século XX. Depois, passou-lhe um pouco a glória, mas ficou o peso no senso comum, factor de muita valia para moldar o horizonte de aceitabilidade da sociedade em relação a certas "experiências" com o humano.

Em 1972, Martin Caidin publicou a obra de ficção científica Cyborg, que conta a história de um piloto de testes da Força Aérea norte-americana, Steve Austin, que sofre um grave acidente e fica todo partido - para depois ser reconstruído com próteses cibernéticas no laboratório do Dr. Killian. A história ampliou o seu potencial para moldar o senso comum com a passagem a série televisiva: The Six Million Dollar Man. Os episódios-piloto passaram ainda em 1973, na americana ABC, tendo depois cinco temporadas, entre 1974 e 1978. É uma das primeiras montras populares da figura do "homem melhorado" com implantes artificiais, passando a funcionar como uma espécie de super-homem que pode ser real. Pode ver-se aqui o genérico e aqui um excerto de um dos primeiros episódios. O sucesso da série deu origem à sequela The Bionic Woman. A vulgarização deste imaginário permite um largo espectro de manipulações da ideia, como se exemplifica aqui.

chegar tarde à festa da história.

auto-refutação.

pensamentos.





Hyuro, Valencia

1.2.12

carta a Penélope.


Penélope, a meu ver, o grande erro de avaliação do seu post Da impossibilidade de uma alternativa está contido nestas suas duas frases: «Francamente, não me parece difícil propor uma alternativa aos portugueses. Assim haja um líder à altura.»
Seria simples, se fosse só isso.

mapas do mundo.

reflexões em voz baixa.

14:22

1. O PSD, quando estava na oposição, pretendia que a crise era basicamente portuguesa, a crise internacional não explicava as nossas dificuldades e que estas se deviam principalmente à má governação doméstica; desdenhava das tentativas do governo Sócrates para conseguir um chapéu de chuva europeu para as dificuldades dos aflitos, boicotando cá aquilo que o governo conseguia em Bruxelas. Com base nesse diagnóstico, o PSD prometia que não pediria mais sacrifícios às pessoas, porque tudo estava na malvadez do mafarrico. Como corolário desse diagnóstico, dessa promessa e dessa mitologia, o PSD deitou a estabilidade política para o lixo, espoletando a aceleração do ataque dos mercados à nossa dívida soberana em troca de um acesso fácil e previsível ao poder: quem não desejava intimamente que bastasse queimar a besta para ser feliz?
2. Agora, o governo do PSD desmente todas as promessas que tinha feito (exceptuando a parte programática de entregar a carne do lombo que ainda existe, que isso cumpre com esmero). Para isso faz malabarismos com os números, desculpando-se com "desvios colossais" que afinal foram inventados. E já descobriu que a crise internacional afinal existe, que sem solução europeia nenhum país se safa (nem Portugal, portanto), e que o Merkozy impõe soluções que, embora não funcionem, não podem ser desafiadas de peito aberto na praça pública, porque isso atrairia as atenções dos especuladores sobre nós. Mas, consoante os dias, o programa da troika ora foi uma herança maldita, ora é afinal uma espécie de estudo prévio para o programa do PSD (declarações que ouvi ontem na TV, com PPC a honrar-se da convergência entre ambos os documentos). [cf. adenda]
3. Já a esquerda da esquerda, que andou anos a fio a bradar contra a Europa, de repente quer tudo da Europa, percebe que só somos alguém neste mundo globalizado se não estivermos sozinhos, e tem imensas opiniões sensatas acerca dos benefícios de uma maior e melhor coordenação europeia. Mas quer mais Europa sem perda de soberania: caridade, portanto, em que os outros dão o que nós queremos mas nós continuamos a fazer como bem entendemos, sem dar cavaco a ninguém. Quer dizer: pensa a relação de Portugal com a UE como Jardim pensa a relação da Madeira com a República. Ao mesmo tempo, na mesma esquerda da esquerda, há quem tenha ideias magníficas acerca das lições a tirar da má experiência do euro: mesmo os economistas mais heterodoxos caem na esparrela dos ortodoxos, que consiste em pensar a economia fora da sociedade e fora da política, o que os leva a considerar com leviandade a saída do euro, sem pensar que isso nos atiraria ainda mais para a periferia da Europa, além de poder engrossar a tendência para a desagregação política do continente, situação em que passaríamos a valer tanto como a jangada de pedra. Além, claro, de não quererem explicar a ninguém o que se passaria se deixássemos a moeda única nestas condições.
4. O PS está a ter dificuldade em habituar-se à mudança dos tempos. O governo Sócrates tentou evitar a ajuda externa, jogando numa evolução da cena europeia que nos fosse mais favorável - mas consciente de que não conseguiria apoio nenhum com uma estratégia de confronto com os parceiros e com os credores. Essa jogada falhou naquele momento, principalmente porque a coligação negativa queria, antes de qualquer outra coisa, correr com Sócrates, o que conseguiu: atirando o país para uma crise política que nos assinalou aos mercados como o próximo cordeiro a comer. Mas a estratégia de evitar o confronto com os parceiros e com os credores continua a ser acertada - e nisso PPC tem razão. Consciente disso - e bem - a actual direcção do PS quer evitar ao país fazer o mesmo tipo de oposição irresponsável que fizeram PSD, CDS, PCP e BE. Isso traduz-se na moderação de Seguro, e Seguro tem nisso alguma razão. Só que os tempos mudaram: é hoje mais claro, para toda a gente (incluindo a Alemanha) que o caminho da austeridade não vai resultar, que precisamos inventar outra política - e que a desagregação social provocada por esta agressão às pessoas é insustentável. Assim sendo, as oposições socialistas em toda a Europa têm de traçar novos caminhos, realistas (que tenham em conta o ambiente internacional) mas alternativos (que não deixem alienar a base popular da democracia, sem a qual corremos sérios riscos de ruptura de regime). Ora, para fazer face a esses novos riscos e desafios, a moderação não basta: é preciso reinventar a política. E, quanto a isso, estamos pouco excitados e o caminho é incerto.
5. A oposição a Seguro dentro do PS parece tão pouco certa do que pensar acerca disto como a própria direcção do Partido. Muitos tiros de pólvora seca, que alimentam a fragilidade de Seguro mas não acrescentam nada a uma alternativa credível. Não espanta: basta olhar para os outros partidos europeus da mesma corrente para verificar que está tudo à nora, sem saber muito bem como enfrentar esta situação. Tal como o país não pagará a Seguro para fazer oposição sem alternativas credíveis, os socialistas não pagarão à guerrilha interna contra Seguro a mera insistência em dizer mal, a menos que comecem a surgir ideias para fazer diferente. E melhor, já agora.

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Adenda. Segundo a Lusa, PPC considerou que os sociais-democratas têm um "grau de identificação importante" com o programa acordado com a 'troika' e querem cumpri-lo porque acreditam nele. Cita PPC como tendo declarado, durante uma sessão com militantes do PSD sobre a revisão do programa do partido: "É curioso que o programa eleitoral que nós apresentámos no ano passado e aquilo que é o nosso Programa do Governo não têm uma dissintonia muito grande com aquilo que veio a ser o memorando de entendimento celebrado entre Portugal, a União Europeia e o Fundo Monetário Internacional". E ainda que o diagnóstico da situação do país feito pelo PSD "não estava muito desviado da observação atenta especializada que o Banco Central Europeu, a Comissão Europeia e o Fundo Monetário Internacional tinham". Segundo o presidente do PSD, por esse motivo, "executar esse programa de entendimento não resulta assim de uma espécie de obrigação pesada que se cumpre apenas para se ter a noção de dever cumprido".

acerca da profundidade do quotidiano.

31.1.12

quem habita o teu bairro.


Arte de rua.


Hyuro, Valencia

Durão Barroso escreve a Passo Coelho.


As grandes novidades da Europa: rapar o fundo ao tacho + baralhar e dar de novo = é só fumaça e muita publicidade.



o peixe binário.

O que vos proponho agora é uma pequena reflexão acerca da cibernética da mitologia - ou será acerca da mitologia da cibernética?

Passo a transcrever um excerto de Claude Lévi-Strauss, capítulo 2 de Mito e Significado, originalmente publicado em inglês (Myth and meaning, 1987), resultado de uma série de palestras radiofónicas para o grande público. Existe em português, nas Edições 70, donde transcrevo. Os destaques são meus e têm a ver com o comentário que quero deixar depois.

Vamos agora considerar um mito do Canadá Ocidental sobre uma raia que tentou controlar ou dominar o Vento Sul e que teve êxito na empresa. Trata-se de uma história de uma época anterior à existência do Homem na Terra, ou seja, de um tempo em que os homens não se diferenciavam de facto dos animais; os seres eram meio humanos e meio animais. Todos se sentiam muito incomodados com o vento, porque os ventos, especialmente os ventos maus, sopravam durante todo o tempo, impedindo que eles pescassem ou que procurassem conchas com moluscos na praia. Portanto, decidiram que tinham de lutar contra os ventos, obrigando-os a comportarem-se mais decentemente. Houve uma expedição em que participaram vários animais humanizados ou humanos animalizados, incluindo a raia, que desempenhou um importante papel na captura do Vento Sul. Este só foi libertado depois de prometer que não voltaria a soprar constantemente, mas só de vez em quando, ou só em determinados períodos. Desde então, o Vento Sul só sopra em certos períodos do ano ou, então, uma única vez em cada dois dias; durante o resto do tempo a Humanidade pode dedicar-se às suas actividades.
Bom, esta história nunca aconteceu na realidade. Mas a nossa posição não se pode limitar a considerarmos esta história completamente absurda e a ficarmos satisfeitos ao taxá-la de uma criação imaginosa de uma mente entregue ao delírio. Temos de a tomar a sério e fazer a seguinte pergunta: porquê a raia e porquê o Vento Sul?
Quando se estuda minuciosamente o material mitológico na forma exacta em que é narrado, verifica-se que a raia actua com base em deter minadas características, que são de duas espécies. A primeira, é que a raia é um peixe, como todos os seus congéneres espalmados, escorregadio por baixo e duro por cima. E a outra característica, que permite à raia escapar com sucesso quando tem de enfrentar outros animais, é que parece muito grande vista de baixo ou de cima e extremamente delgada vista de lado. Um adversário poderia pensar que seria muito fácil disparar uma seta e matar uma raia, por ela ser tão grande; mas, enquanto a seta se dirige para o alvo, a raia pode virar-se ou deslizar rapidamente, oferecendo apenas o perfil, que, evidentemente, é impossível de atingir; e é assim que pode escapar. Portanto, a razão por que se escolheu a raia é que ela é um animal que, considerado de um ou outro ponto de vista, é capaz de responder – empregando a linguagem da cibernética – em termos de «sim» ou «não». É capaz de dois estados que são descontínuos, um positivo e o outro negativo. A função que a raia desempenha no mito é – ainda que, evidentemente, eu não queira levar as semelhanças demasiado longe – parecida com a dos elementos que se introduzem nos computadores modernos e que se podem utilizar para resolver grandes problemas adicionando uma série de respostas de «sim» e «não».
Apesar de ser obviamente errado e impossível (dum ponto de vista empírico) que um peixe possa lutar contra o vento, dum ponto de vista lógico pode-se compreender por que razão se utilizam imagens tiradas da experiência. Esta é a originalidade do pensamento mitológico – desempenhar o papel do pensamento conceptual: um animal susceptível de ser usado como, diria eu, um operador binário, pode ter, dum ponto de vista lógico, uma relação com um problema que também é um problema binário. Se o Vento Sul sopra todos os dias do ano, a vida torna-se impossível para a Humanidade. Mas, se apenas soprar um em cada dois dias – «sim» um dia, «não» o outro dia, e assim por diante –, torna-se então possível uma espécie de compromisso entre as necessidades da Humanidade e as condições predominantes no mundo natural.
Assim, dum ponto de vista lógico, há uma afinidade entre um animal como a raia e o tipo de problema que o mito tenta resolver. Dum ponto de vista científico, a história não é verdadeira, mas nós somente pudemos entender esta propriedade do mito num tempo em que a cibernética e os computadores apareceram no mundo científico, dando-nos o conhecimento das operações binárias, que já tinham sido postas em prática de uma maneira bastante diferente, com objectos ou seres concretos, pelo pensamento mítico. Assim, na realidade não existe uma espécie de divórcio entre mitologia e ciência. Só o estádio contemporâneo do pensamento científico é que nos habilita a compreender o que há neste mito, perante o qual permanecíamos completamente cegos antes de a ideia das operações binárias se tornar um conceito familiar para todos.

Excelente exemplo da penetração do pensamento cibernético na cultura intelectual da segunda metade do século XX. Impulsionado pelo fascínio pelo computador, o Autor pode ver um animal como um operador binário - e, mais ainda, pode ver que isso foi visto de forma mitológica antes de haver computadores ou de eles terem sido concebidos logicamente. Claro, a excitação é tanta que o Autor nem se atrapalha em reduzir um fenómeno como o vento que sopra a um problema discreto (sim ou não), quando, precisamente, o vento nos parece um daqueles fenómenos físicos que só no nosso espírito pode deixar de ser contínuo na sua variação. Trata-se, afinal, de escolher um ponto de vista. Tal como a circulação sanguínea: é contínua ou discreta? No coração, parece ser discreta: cada bombada, um evento circulatório; na extrema periferia, nos vasos capilares, uma circulação contínua. O contínuo e o discreto não se opõem absolutamente, na natureza; mas, num computador, essa oposição extrema-se, já que todo o controlo tem, no coração da máquina, de passar pelo carácter discreto (sim ou não, sem ambiguidade, sem meio termo) do finíssimo fluxo eléctrico. Para o famoso antropólogo, a raia e o Vento do Sul eram peças da grande máquina do mundo. Foi um sinal dos tempos - mas esses tempos não passaram.


aviso muito importante.

coisas da China.

30.1.12

arte de rua.






Know Hope, em Israel


Conselho Europeu - Declaração sobre o crescimento e o emprego

21:45

Os membros do Conselho Europeu, reunidos hoje informalmente em Bruxelas, emitiram a seguinte

Declaração sobre o crescimento e o emprego


Ao longo dos últimos meses, houve sinais incipientes de estabilização económica, mas as tensões nos mercados financeiros continuam a travar a atividade económica e o grau de incerteza continua a ser elevado. Os governos estão a envidar grandes esforços para corrigir sustentavelmente os desequilíbrios orçamentais, mas são necessários mais esforços para promover o crescimento e o emprego. Não existem soluções milagrosas. A nossa ação deve ser determinada, persistente e assente numa base alargada. Temos de fazer mais para tirar a Europa da crise.

Foram tomadas decisões para assegurar a estabilidade financeira e a consolidação orçamental: esta é uma condição necessária para regressar a níveis mais elevados de crescimento estrutural e de emprego. Mas, por si só, não é suficiente: temos de modernizar as nossas economias e de reforçar a nossa competitividade, para garantir um crescimento sustentável, o que é essencial para criar emprego e preservar os nossos modelos sociais; é também este o cerne da Estratégia "Europa 2020" e do Pacto para o Euro Mais. Estes esforços devem ser realizados em estreita cooperação com os parceiros sociais, no respeito dos sistemas nacionais dos Estados-Membros. Só haverá uma retoma do crescimento e do emprego se seguirmos uma abordagem coerente e assente numa base alargada, conjugando uma consolidação orçamental inteligente que preserve o investimento no crescimento futuro, com políticas macroeconómicas sólidas e uma estratégia ativa em prol do emprego que preserve a coesão social.

O Conselho Europeu de março dará orientações para as políticas dos Estados-Membros em matéria de economia e emprego, pondo em especial a tónica na plena exploração do potencial do crescimento verde e na aceleração das reformas estruturais, a fim de aumentar a competitividade e de criar mais empregos. Ao fazê-lo, deverá prestar a devida atenção às crescentes divergências entre as situações económicas dos Estados-Membros e às consequências sociais da crise.

Hoje, centrámo-nos em três prioridades imediatas. Sempre que possível, os esforços envidados a nível nacional serão apoiados pela ação da UE, nomeadamente canalizando melhor os fundos disponíveis da UE para o emprego e o crescimento, dentro dos limites máximos acordados.

notícias contra a bovinidade.

do fracasso das teorias económicas dominantes nas suas pretensões à cientificidade.



Sabendo que um individuo humano do sexo masculino toma a pílula contraceptiva podemos deduzir que ele não ficará grávido.
Mas será errado pensarmos que temos aí uma explicação para o facto de esse macho não ficar grávido.

(O argumento contra as ilusões da explicação estatística é de Wesley Salmon.)

Greekel, the monster.

Clicar na foto para ver melhor os líderes. A ver se conseguem descobrir "o nosso"...


Daqui.

29.1.12

poesia e ciência (1).


A insustentável leveza de quê?



Ao Gonçalo

“O poema não é mais verdadeiro nem mais
consciente do que uma teoria científica
(provavelmente, é-o menos) o poema não contém
atrito por definir o mundo ou desvendar a
metafísica. O atrito do poema tem a ver com o
corpo, a distância e a lentidão.”
Pedro Eiras – A Lenta Volúpia de Cair


Deixar cair uma maçã com toda a força;
Não estamos aqui pela gravidade, mas porque
Amamos o chão – a terra – se possível, metemo-la
toda na boca, perdi um bloco de notas que me
compraste no museu do Galileu, nele tinha notas sobre a
aflição e o atrito – a ligação entre poesia e ciência, a Vontade
de estar dentro de Ti. A maçã contínua cai – sem que
Newton ou um poeta suicida – Esqueci-me do número do
andar – tenham ainda o sabor da razão na boca, azedo e
verde, sem ter asas, nem querer voar:
A insustentável leveza de quê? O atrito do
ar enquanto desces e perdes toda a poesia e a
inocência, a vontade de cair naquilo que nunca será
ciência – falo da razão – 
está nos teus olhos, dentes e boca.

Nuno Brito, Créme de la Creme, Porto, Planeta Vivo, 2011