6.1.12

Maçonaria.


Não alinho em caças a supostas bruxas, não é agora que me vou converter às teorias que, se aplicadas, resultariam na caça ao maçon.
Aliás, eu até gostava de ser maçon, aí durante uma semana ou duas, para usar os arreios correspondentes e ir aos equivalentes funcionais das missas na Sé. Tenho uma certa saudade de ritual, em geral, é uma coisa que me distrai o espírito.
Portanto, não me move nenhuma sanha persecutória - mas confesso uma certa curiosidade. Aliás, se ainda houvesse ingénuos no mundo, acredito que alguns maçons e **** (como se diz uma mulher que é da maçonaria?) o fossem por curiosidade, por exemplo para saber ao certo quais são os bispos da igreja católica que são maçons.
De qualquer modo, maçonaria é coisa sobre a qual nunca pensei escrever aqui. Faço-o porque um amigo muito estimado me sugeriu que era bom tema para o blogue - e eu, tendo dito que nada tinha a acrescentar sobre o assunto, vim a temer que ele pensasse que eu não escrevia para não "ferir susceptibilidades". Estar de bem com Deus e o Diabo, digamos. Tendo pensado nisso, tinha de escrever. E aqui estou - mas, como disse, sem nada de útil para dizer (razão pela qual tinha pensado ficar calado).
Nunca fui convidado para a Maçonaria - não tenho pergaminhos para isso, sou um pé descalço, um espírito mediano como há muitos, esses podem inscrever-se em clubes normais. Se tivesse sido convidado, teria recusado. Até porque iria acabar mal: tenho uma inenarrável tendência para me desmanchar a rir em circunstâncias cuja solenidade me parece despropositada - e isso acabaria por acontecer numa daquelas sessões em que comem criancinhas. (Ou comer criancinhas é com os comunistas?! Mas, quando jovem, li livros onde se garantia que os maços matavam crianças, garanto.) Ser convidado e recusar é pior que nunca ser lembrado: para certos círculos, recusar tão honroso convite é a morte cívica do atrevido.
De qualquer modo, estar aqui a escrever isto serve mais ou menos para o mesmo: faltar ao respeito à insigne instituição, deste público modo, traça um risco fino sobre o meu nome em todas as listas de cidadãos que repousam nas gavetas de instituições onde os "irmãos" são nata selecta e discreta a encher as veias da classe alta. Espiritualmente alta, bem entendido.

(Caro Z., estás satisfeito?)

metafísica dos triângulos.


Anda pelas "redes sociais" uma interpretação de uma frase de VPV na sua coluna de hoje no Público.
A frase é esta: «A firma Jerónimo Martins (mercearias finas) merece todo o respeito e consideração. Primeiro, porque antigamente comprou azeite a Herculano. Segundo, porque ajuda hoje a divulgar o interessantíssimo pensamento de António Barreto, que por enquanto não vende azeite.»
A interpretação, na versão encapotada, resume-se a um "cherchez la femme".
Confesso que acho a interpretação deslocada.
Se "la femme" em questão fizesse alguma falta ao veneno do articulista, e "la femme" pudesse ser encarada como um ente em transacção entre VPV e AB, acho que - vistas as coisas de fora - VPV só poderia agradecer a AB que o movimento tivesse acontecido nessa direcção.
Ergo, continua a ser preciso buscar outra explicação para o veneno na escrita.

boicotes.


Está aberta uma lista para inscrições. A ideia é que nela se registem os cidadãos, sejam ou não autores de blogues, que tenham declarado, mais ou menos publicamente, que passam a boicotar os supermercados Pingo Doce por causa da excursão à Holanda.
Pretendemos fazer público registo de tamanho empenho cívico.
Oferecemos, a quem se inscreva, um serviço: daqui a um mês, mais dia menos dia, perguntaremos a cada inscrito se ainda boicota.

Rodapé: considerem-se inelegíveis os que começaram anteontem a comprar no Pingo Doce, um raminho de coentros ou quatro iogurtes dos pequenos, para poderem iniciar ontem o boicote.

Correspondência para o editor deste blogue.

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nem todos os sonhos são democráticos.


O sonho de Sá Carneiro - "uma maioria, um governo, um presidente" - era um sonho democrático.

Já o sonho mais recente de alguns - "uma maioria, um governo, um presidente, uma oposição" - pode danificar gravemente a democracia.

5.1.12

Salvar a economia? Certamente!


Treze ideias para salvar a economia que talvez nem toda a gente esteja a ponderar:

1 - Write Off the World's Debt.

2 - Hire Everybody.

3 - Get Better Data.

4 - Cut Defense Spending.

5 - Whip Up Inflation. Now.

6 - Spend $1 Trillion on the Future.

7 - Raise the Minimum Wage. A Lot.

8 - Think Small.

9 - Tame the World's Crazy Currency System.

10 - Buy More Yachts.

11 - Get Healthy, Get Wealthy.

12 - Build Green Cities.

13 - Take a Vacation.

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Hungria.

14:30

Dois pesos e duas medidas:
O facto de a UE continuar a olhar para outro lado enquanto Victor Orbán põe em prática um “regime autocrático” na Hungria leva o Süddeutsche Zeitung a levantar algumas questões. O diário de Munique lembra que os Estados Unidos julgam a situação tão preocupante que estão a pensar retomar o programa em húngaro na Radio Free Europe, a antiga estação de informação destinada aos países comunistas, enquanto a UE parece não querer perceber o que se passa e continua as suas relações com o “democrata Orbán”. Assim, para o SZ, « o Partido Popular Europeu [PPE], de que faz parte o Fidesz, porta-se alegremente como um congresso de branqueadores para o autocrata de Budapeste. Não basta aplicar a solidariedade às questões de dinheiro e de economia: é igualmente necessário considerar o bem-estar democrático dos povos. Porque uma coisa é certa: com tais leis, a Hungria nunca teria sido aceite na UE. Enquanto Estado-membro, no entanto, tudo se perdoa ao seu Governo. A Europa precisa de examinar conscientemente as suas convicções democráticas. A Hungria dá-lhe razões suficientes para o fazer.»

Visto de lá: em Budapeste, aumenta o descontentamento contra o primeiro-ministro húngaro, acusado de excessos autoritários. A comunidade internacional começa também a reagir, mas deve evitar o recurso à ingerência, considera o filósofo Gáspár Miklós Tamás.

Entretanto, na lusa blogosfera os novos ditadores húngaros têm amigos: até há quem aplauda a fórmula constitucional “Deus abençoe os húngaros”, de par com um certo elogio do anti-neliberalismo (talvez a fazer-nos lembrar que o neoliberalismo não é a única ameaça que por aí anda).

Adenda:
Socialistas e Liberais europeus reclamam sanções contra a Hungria - em inglês.
Socialistas e Liberais europeus reclamam sanções contra a Hungria - em francês.


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toda a política é uma questão de linguagem.



Por exemplo, o que quer dizer Ronald Reagan?
Ronald Reagan: This is not a reference to the real Ronald Reagan - an American president from a while back. Instead it refers to an imaginary, idealized vision of a conservative president developed by the right wing of the Republican Party. Reagan was hardly a true conservative, growing government enormously, creating burgeoning deficits, actively working with Democrats, depending heavily on compromises that drew him closer to a Democratic sub-group that supported him, and hardly living by anything that might be considered the "family values" touted by the religious right.

Mais aqui: A dictionary of American politics - Part I (GOP Speak).

Alguém se oferece para fazer cooperativamente um dicionário de português para o mesmo tipo de realidades?


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salário mínimo: mínimo é 1? ou é 0 ?

andamos a ser demagogos acerca do Pingo Doce?

11:30

Sobre a história do Pingo Doce e a excursão à Holanda, reagi espontaneamente (no Facebook), de imediato, do seguinte modo: «Que há pessoas capazes de tudo para ganhar (muito mais) dinheiro, já se sabia. Que alguns desses negociantes, de vez em quando, se disfarçam de grandes patriotas para dourar a pílula e angariar publicidade gratuita, também já se sabia - mas o descaramento e a rapidez com que colocam e tiram a máscara, essa ainda chega a ser surpreendente. Que haja por aí "intelectuais orgânicos" que entram na palhaçada, até mete dó. Mete dó de nós, como país, que ainda vai nas conversas destes tratantes.»

Depois, pela pena de uma pessoa que estimo e respeito intelectualmente, o André Barata (No Reino da Dinamarca), li o comunicado da empresa aos trabalhadores, do qual constam, entre outros, os seguintes pontos: «4. A carga de impostos a pagar pelo Grupo Jerónimo Martins em Portugal mantém-se rigorosamente inalterada com esta operação. 5. A Sociedade Francisco Manuel dos Santos já esclareceu publicamente que a operação não tem implicações fiscais e que não existe alteração à carga fiscal que incide sobre os dividendos, a qual é da inteira responsabilidade dos Accionistas da Sociedade.» A sugestão era: a decisão é fiscalmente neutra; o que se anda por aí a gritar contra tal decisão é demagogia populista. Acusação que, mesmo que não me seja pessoalmente dirigida, me alerta. Perguntei se não havia nenhuma subtileza jurídica no texto que o tornasse menos claro do que parecia, mas não encontrei resposta clara.

Vejo, entretanto, que Pedro Santos Guerreiro, no sítio do JornaL de Negócios, ao fim da noite de dia 3, escrevia: «Uma empresa tem lucro e paga IRC; depois distribui lucro pelos accionistas, que pagam IRC (se forem empresas) ou IRS (se forem particulares). Neste caso, a Jerónimo continua a pagar o mesmo IRC em Portugal (e na Polónia); o seu accionista de controlo, a "holding" da família Soares dos Santos, transferiu-se para a Holanda. Por ter mais de 10% da Jerónimo, essa "holding" não pagava cá imposto sobre os dividendos e continuará a não pagar lá. Já quando essa "holding" paga aos membros da família, cada um pagaria 25% de IRS cá - e pagará 25% lá. Com uma diferença: 10% são para a Holanda, 15% para Portugal. Porque tomou a família uma decisão que, sendo neutra para si, prejudica o Estado português? Pela estabilidade e eficácia fiscal de lá, que bate a portuguesa. Pelo acesso a financiamento, impossível cá. E porque a família tem planos de crescimento que não incluem Portugal.»

Quer dizer: a empresa tem as suas razões (entre as quais, querer ir criar riqueza para outros lados, que não "a ditosa pátria minha amada" que fazia jeito em tempos de polémica política), mas a neutralidade fiscal só existe do ponto de vista das empresas do grupo e dos seus donos; do ponto de vista de Portugal, não existe, Portugal fica a perder.
Se assim é, o comunicado da Jerónimo Martins aos seus trabalhadores é, objectivamente (nos pontos 4 e 5 acima mencionados), um jogo de palavras, e subtilezas jurídicas, pensado para enganar os leitores incautos. Faz isso explorando o desconhecimento do leigo acerca da arquitectura organizacional do grupo e da relação fiscal entre as empresas e os seus donos. Será isso jogo limpo com o país? É uma pergunta que se pode, legitimamente, fazer a quem antes nos quis dar lições de portuguesismo.

Continuo à espera de ser esclarecido. Mas quando vejo Bagão Félix, na TV-Crespo, a comparar esta atitude com a das pessoas que vão a Espanha abastecer os seus automóveis particulares, fico convencido de que se calhar não há mais nada para esclarecer. E não há demagogia nenhuma em dizer a estes senhores que se deixem de conversas da treta sobre centros de decisão nacional, sobre truques e coisas que tais, e que deixem de se armar em patriotas.

4.1.12

39 % .

contratação colectiva e cenários de cidadania.

16:45

Para dizer ao que venho, tenho, antes, de explicar uma pequena peça da maquinaria social e institucional da contratação colectiva. A coisa gira em torno das chamadas "portarias de extensão".
Basicamente (e embora eu não seja especialista) o ponto é este: sendo tão poucos os trabalhadores sindicalizados, e sendo aos sindicatos que cabe fazer acordos com as associações patronais acerca de questões importantes das relações entre empregadores e assalariados, o que interessa à maioria dos trabalhadores (não sindicalizados) o que os sindicatos acordam ou não acordam? O que interessa aos não sindicalizados o que fazem os sindicatos? Parte importante da resposta está nas "portarias de extensão", precisamente.
Mas que coisa é essa das portarias de extensão? Quando certos sindicatos e certas associações de empregadores fazem um acordo, em princípio esse acordo só vale para os respectivos associados. Mas o governo pode generalizar a aplicação desse acordo, alargando o âmbito subjectivo do mesmo a todos os trabalhadores do mesmo sector (ou, pelo menos, alargando-o a todos os trabalhadores que não estejam cobertos por outros acordos negociados por outras organizações representativas). Tradicionalmente, este mecanismo das "portarias de extensão" tem sido encarado como uma forma de tornar geral o que se conquista negocialmente apenas para os sindicalizados.
Paulo Pedroso publicou no seu blogue, recentemente, um texto (Portugal tem um governo de classe, com agenda anti-sindical) onde denuncia que a revisão do memorando de entendimento com a troika, assinada pelo actual governo, contém um expediente visando torpedear este mecanismo de extensão dos benefícios da negociação colectiva. O truque seria arranjar uma desculpa esfarrapada permanente para não aplicar os resultados dos acordos à generalidade dos trabalhadores (para deixar de fazer portarias de extensão).
Concordo com o Paulo, que sabe do que fala, no ponto essencial que está em causa no texto dele: parece tratar-se de uma manha deste governo para tramar a contratação colectiva, se possível tornando-a irrelevante para a enorme massa dos trabalhadores, impedidos de partilharem os seus resultados. Isso confirma que estes liberais de pacotilha jogam na fragmentação social e na atomização das relações laborais, para melhor poderem esmagar os trabalhadores.
Contudo, ainda sugiro que se pode pensar nisso de outro modo.
O que sugiro é que, a prazo, deixando de se recorrer sistematicamente a portarias de extensão, o peso sindical poderia ser renovado. Explico-me. Se eu posso beneficiar de qualquer conquista que o sindicato alcance, mesmo sem ser sindicalizado, mesmo dizendo mal do sindicato todos os dias, mesmo não participando nas lutas - que razão tenho para me sindicalizar, para participar, para reivindicar, para fazer greve? Posso esperar sentado e colher os frutos, cinicamente, não é? As portarias de extensão são o mecanismo que implementa esse egoísmo laboral. Coisa diferente seria se só beneficiassem dos acordos os que participam no esforço, os sindicalizados. Ficar de fora, de braços cruzados, ou mesmo a dizer mal, passaria a ter um preço: não poderia, depois, beneficiar dos resultados da luta e dos acordos. Isso poderia aumentar o grau de consciencialização das pessoas para a vantagem da participação. Isso poderia mostrar às pessoas que nem sempre a força da gravidade é suficiente para fazer cair as maçãs da árvore!
Tudo isto se faria, num dado momento, à custa de maior tensão nas relações sociais. Sim, mas isso não é necessariamente mau. Pelo menos, pior do que isso é o estado geral de bovinidade, onde andamos todos a ver se colhemos os frutos do sacrifício dos outros, mas mantendo-nos quietos à lareira.
Ou estou a ver mal?


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estamos a ser invadidos?




Rua do Loureiro, Coimbra, 13 de Dezembro do ano enterrado.

3.1.12

a armadilha.

16:45

Dois políticos-intelectuais de peso no Labour britânico, Ben Jackson e Gregg McClymont, publicaram no fim de Dezembro, com a chancela do think-tank dos trabalhistas “moderados” de Peter Mendelson, o Policy Network, um documento que perspectiva o caminho a seguir pelo Labour para regressar ao poder, à luz da história político-eleitoral do século XX. De seu título “Cameron’s Trap: Lessons for Labour from the 1930s and 1980s” (pdf aqui), está já a provocar alguma polémica nas fileiras dos trabalhistas. Vamos dar aqui um breve e livre resumo das suas 20 e tal páginas, sem nos entregarmos a grandes comentários acerca da sua pertinência para ilustrar a situação portuguesa.

***

Anteriores governos liderados pelos conservadores ganharam eleições mesmo depois de fazerem cortes profundos nos serviços públicos e de aplicarem políticas cúmplices com o desemprego de massas. Ou seja, conseguiram fazer isso e passar sem uma penalização eleitoral. Como o conseguiram?
Em primeiro lugar, formando uma coligação de vencedores em termos sociais (proprietários, financeiros, mas também trabalhadores “livres” da influência dos sindicatos), manobrando o sistema fiscal para apertar ainda mais os já mais apertados (por exemplo, cortando nos impostos directos e compensando com o aumento dos impostos indirectos, onde pobre e rico são tratados da mesma maneira), desprezando os perdedores (por exemplo, a concentração de desemprego massivo em zonas eleitorais trabalhistas, com recusa de fazer algo contra isso); e criando uma percepção ideológica da economia (com distorções do tipo “o desemprego elevado é uma inevitabilidade”).
Em segundo lugar, em qualquer dos casos, o sucesso eleitoral dos Conservadores passou por uma retórica política centrada nos “cortes”, na redução da despesa pública, no emagrecimento do serviço público, de modo a redefinir o conjunto do debate político nos seus próprios termos. Pode resumir-se este ponto dizendo que, para os conservadores, os cortes são ideológicos – no sentido em que se concebe que um Estado mais pequeno é sempre preferível, tanto em termos económicos como em termos morais –, mas, além disso, os cortes são políticos: no sentido em que servem os interesses eleitorais partidários dos Conservadores. Colocar os “cortes” como um objectivo nacional legitima a redução do serviço público, legitima uma agenda ideológica.

Os Conservadores recorrem actualmente, de novo, ao elemento austeritário deste tipo de estratégia, já que não têm agora disponíveis elementos centrais das suas experiências governativas anteriores. Do ponto de vista da dinâmica económica, os anteriores períodos de governação conservadora apoiaram-se em fenómenos que não se repetirão desta vez (boom na construção, nas finanças, ou no consumo) e a alternativa exportadora tão pouco está facilitada no actual contexto. Do ponto de vista da dinâmica social, o espantalho dos “sindicatos vermelhos”, usado para uma estratégia de confrontação social, não vai funcionar. É, aliás, por isso, que os Conservadores apostam em cavar uma outra divisão social, que possam manipular eleitoralmente: desta vez, entre trabalhadores do sector público e trabalhadores do sector privado.
Nestes termos, a política de austeridade é uma escolha partidária, uma estratégia para colocar o debate político em termos eleitoralmente favoráveis aos Conservadores.
Podemos concordar com a necessidade de uma consolidação das contas públicas a médio prazo, mas isso não implica concordar com a actual política em termos de velocidade e dimensão da redução da despesa pública. Fazer as coisas a esta escala brutal é uma estratégia dos Conservadores para servir os seus objectivos políticos, em particular atirar as culpas para cima dos precedentes governos trabalhistas. As realidades económicas pediriam uma abordagem mais flexível, mas isso estragaria o argumento político dos Conservadores: se os Conservadores aceitassem que é preciso gastar dinheiro para não deixar a economia regredir, teriam de abandonar o argumento contra os Trabalhistas, a acusação de que são despesistas, porque teriam de reconhecer que os Trabalhistas gastaram porque a economia assim o pedia.


A receita, provavelmente, não vai funcionar: nesse caso, os Conservadores vão continuar a pregar a austeridade como inevitável, ainda e mais, porque ainda não deu os resultados esperados. Mas a estratégia política dos Conservadores também inclui o cenário em que a receita da austeridade funcione. Nesse caso, a brutal redução da despesa em serviços públicos será tomada como um facto consumado – quer dizer, não vão aproveitar a retoma para recuperar o nível dos serviços públicos – e vão aproveitar o regresso da folga orçamental para baixar impostos. Se, nessa altura, os Trabalhistas apresentarem como programa eleitoral recuperar o nível dos serviços públicos, serão acusados pelos Conservadores de quererem voltar a aumentar os impostos. Quer dizer: qualquer programa de reforço (ou mera recuperação) do serviço público será apresentado como despesista – com a ameaça de que, indo por aí, será necessário voltar à austeridade. Esta estratégia de pescadinha de rabo na boca serve o objectivo ideológico de “cortar no Estado” e de dificultar o objectivo político de usar os serviços públicos como alavanca de mais justiça social e mais desenvolvimento económico. E serve o objectivo político de atacar os Trabalhistas, fazendo de conta que eles é que criaram a crise, que a crise é resultado das políticas trabalhistas. Esta estratégia política, estritamente partidária, não se foca nos problemas do país, na economia real: nível de vida, emprego, produção, geração de riqueza – mas apenas na retórica em torno da despesa pública e seus putativos culpados, os Trabalhistas. A política económica, assim, é vendida como se fosse uma questão simples de escolha entre partidos políticos: “não há alternativa” é a palavra de ordem que visa esconder a complexidade da crise actual, a importância da recessão mundial, o colapso do sistema financeiro – e colocar esse simplismo ao serviço de uma estratégia partidária e ideológica.

Em termos políticos, a retórica austeritária visa captar apoiantes que vão ao engano: mesmo pessoas que só têm a perder com essa política, podem apoiá-la se forem convencidas de que ela é um “imperativo nacional”. Por exemplo, muitos são convencidos de que a protecção no desemprego é uma forma de gastar dinheiro com quem não o merece, uma despesa “anti-patriótica” porque vai para “grupos restritos” (“só está desempregado quem quer, quem pede salários demasiado altos, quem quer viver à custa dos outros”) em vez de ir para o interesse de todos. A protecção aos mais pobres também pode ser apresentada como “subsídio aos que não sabem viver dentro do seu orçamento”, uma variante privada do argumento do “despesismo”.
Este é o tipo de estratégia política seguida pelos Conservadores ao longo do século XX – e ela é a inspiração de Cameron neste momento e para as próximas eleições. Trata-se, portanto, de pensar como lhe responder. De acordo com os autores, o Labour tem de evitar esta armadilha. Para isso, tem de se focar na realidade de uma economia com mau desempenho e nos rendimentos minguados das pessoas – e no papel que um “Estado activista” tem de jogar para contrariar essa realidade.

O que os Conservadores querem é que os Trabalhistas se limitem a defender os serviços públicos, o que será apresentado como uma tendência para desequilibrar a despesa pública, ou mesmo como um interesse preponderante pelos interesses dos trabalhadores do sector público. Os Trabalhistas devem ter uma agenda mais vasta, virada para mais crescimento e para uma melhoria dos níveis de vida. Os Trabalhistas devem falar para todos aqueles que estão a ser espremidos pela política de austeridade. Isto quer dizer que os Trabalhistas devem ter uma estratégia clara para o sector privado, incluindo uma política industrial, com o objectivo de criar mais emprego, emprego sustentável, e aumentar o nível de vida. Para isso, os Trabalhistas devem ter uma concepção de um Estado activista. O debate eleitoral terá de centrar-se na questão “quem tem melhores ideias para promover o crescimento”, e não na questão envenenada “quem vai melhor reduzir a despesa pública”.
Os Conservadores estão a usar a política de austeridade para impor mecanismos fiscais mais regressivos (em que, proporcionalmente, pagam mais os que têm menos); os Trabalhistas precisam de avançar com mecanismos mais progressivos, e ao mesmo tempo desenvolver políticas sociais que reduzam a incerteza económica por via da partilha do risco (o que não tem sempre de passar por aumentos da despesa).

As sondagens mostram que uma parte importante do eleitorado continua a culpar o anterior governo Trabalhista pelas políticas deste governo, o que quer dizer que a agenda ideológica está a ser competentemente implementada. Isso quer dizer que os Trabalhistas têm de concentrar-se naquilo que verdadeiramente importa: uma agenda para o crescimento e o emprego. Os Trabalhistas têm de mostrar que têm melhores respostas para essa questão: porque essa questão é que atrai o interesse das pessoas, que não estão propriamente entusiasmadas em baixar o défice como objectivo em si mesmo.
E isso tem de ser feito sem cair na manobra de virar os trabalhadores do privado contra os trabalhadores do público, que visa criar a ideia de que os Trabalhistas só estão preocupados com alguns. É por isso que certas greves no sector público prejudicam mais a oposição do que o governo.
São estas armadilhas que os Trabalhistas têm de desmontar para reconstruir uma alternativa global que apele ao conjunto da nação.




por falar em cooperativas operárias.

13:22

O Estado francês vai ajudar os trabalhadores da SeaFrance a reerguer a empresa de ferries, que está insolvente e se prepara para fazer afundar os seus 800 trabalhadores. O método será o apoio financeiro a uma cooperativa operária.
Não me consta que o Estado francês esteja a ser gerido por nenhuma clique revolucionária. Mas lá, contrariamente ao que se passa por cá, parece haver quem entenda que os trabalhadores não servem apenas para carregar o fardo da austeridade. Afinal, os que mais pagam pela crise poderiam ter direito a outras oportunidades, a benefício de todos. Ou só os tubarões é que têm direito a ser salvos?

SeaFrance: l'Etat va aider les salariés à reprendre l'entreprise.

Adenda. Caso a seguir. A notícia acima pode não constituir uma política, mas antes um expediente (como se explica aqui), uma cartada da metade francesa do Merkozy. Só que, às vezes, em política, há caminhos que se descobrem apesar das intenções (ou da falta delas) dos actores em palco. Em qualquer dos casos, este caso deveria merecer-nos uma reflexão. Os trabalhadores não podem ser "os salvadores" das empresas a que dão o seu trabalho?

A seu ver, o colapso é uma possibilidade?

00:00


George Steiner, em entrevista à Télérama:

Pergunta: A Europa vive uma crise profunda. A seu ver, o colapso é uma possibilidade? 


Resposta: No estado atual, é possível. Mas vamos sair desta situação de uma forma ou de outra. Irónico é a Alemanha poder voltar a dominar. É um passo atrás. Entre agosto de 1914 e maio de 1945, a Europa, de Madrid a Moscovo, de Copenhaga a Palermo, perdeu quase 80 milhões de pessoas em guerras, deportações e campos de extermínio, fome, bombardeamentos. O milagre está em que sobreviveu. Mas a sua ressurreição foi apenas parcial. A Europa está a passar por uma crise dramática; está a sacrificar uma geração, a dos seus jovens, que não acreditam no futuro. Quando eu era jovem, havia esperanças para todos os gostos: o comunismo, com certeza! O fascismo, que foi também uma esperança, não nos deixemos enganar. E, para os judeus, havia ainda o sionismo. Havia ideologias aos montes... Isso já não existe. Ora, quando a juventude não é tomada por uma esperança, mesmo que ilusória, o que resta? Nada. O grande sonho messiânico socialista conduziu aos gulags e ao socialista francês François Hollande – tomo-lhe aqui o nome como um símbolo, não estou a criticá-lo. O fascismo descambou no horror. O Estado de Israel tem imperativamente de sobreviver, mas o seu nacionalismo é uma tragédia, profundamente contrário ao génio judeu, que é cosmopolita. Pessoalmente, quero ser nómada. Vivo segundo a divisa do Baal Shem Tov, grande rabino do século XVIII: "A verdade está sempre no exílio."

Mais, da mesma entrevista, em versão portuguesa: George Steiner, um certo conceito de conhecimento.

2.1.12

procure as diferenças.

o primeiro telemóvel.




piadas alemãs.


Circula na Alemanha.
O original (de 1963), O 90º aniversário ou o jantar a solo, mostra uma velha senhora de 90 anos a querer celebrar com os seus amigos - que estão todos mortos e enterrados. Quem, aos brindes, faz as vezes dos quatro desaparecidos é o mordomo.
Na versão do momento, produzida pelo humorista Udo Eling para a televisão pública ARD, a velha senhora é Merkel, o mordomo é Sarkozy, a festa é a 90ª cimeira de "salvação do euro" e os quatro amigos "falecidos" são Papandreou, Zapatero e Cameron (Berlusconi é o tigre empalhado, que mesmo estendido no chão ainda embaraça), além de Guido Westerwelle, ex-líder dos liberais (parceiros de coligação dos democratas-cristãos alemães) e ex-Ministro dos Negócios Estrangeiros.
Ambos, Senhora e Mordomo, se sentem muito melhor sem os empecilhos.

Fica o vídeo. (Usar a opção CC para legendas em francês.)






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"Os portugueses é que estão a pagar aos alemães"

Alemanha, país de emigração.

15:10

Tenho andado desencontrado do rumor popular na questão da emigração. Há muito tempo, aliás. Desde hoje esperam por si 1.080.565 ofertas de emprego, até mais recentemente a pedir um debate sério.
Hoje deixo-vos para reflexão este dado: "Pela primeira vez desde há décadas, o número de imigrantes na Alemanha ultrapassa o dos emigrantes". O que quer dizer que a Alemanha tem sido um país de emigração. No primeiro semestre de 2011, foram 30 mil os alemães que emigraram.
Isto poderá ajudar a recolocar o problema, em termos de mobilidade?

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a verdade a que temos direito.

12:40

Francisco Ramos, "O triunfo do diácono Remédios", jornal Expresso de 30-12-2011:
A OCDE disponibilizou um relatório sobre os sistemas de saúde dos 34 países que a integram (Health at a Glance, 2011). Os dados confirmam o excelente desempenho do SNS: Portugal é o 5 º país com melhor evolução na esperança de vida e o 1º no declínio da mortalidade infantil. Em indicadores específicos de mortalidade por causas associadas ao desenvolvimento, Portugal está perto da média global na mortalidade por acidente (sendo o 4 º melhor país na redução entre 1995 e 2009), está abaixo da média na mortalidade por AVC (mas é o melhor na redução deste indicador entre 1980 e 2009), é o 4 º melhor na mortalidade por enfarte, e está ligeiramente melhor do que a média na mortalidade por cancro. No indicador global para resultados em saúde, anos de vida potencial perdidos (AVPP), Portugal está acima da média da OCDE, sendo o 2 º país com melhor evolução entre 1970 e 2009.
É um impressionante conjunto de resultados, frequentemente não reconhecido pela opinião pública, mais focada em olhar para o SNS como fonte de desperdício e despesa não controlada Olhemos mais uma vez os números. Na despesa total em saúde, Portugal é o 2 º país com menor crescimento no período 2000 a 2009; na componente pública, Portugal é o 3 º país em que a despesa menos cresceu, 1,3% de aumento anual, o que compara com 4,2% de média da OCDE! Por tipo de despesa, Portugal é o 2 º país a registar o menor crescimento em internamento hospitalar; os custos administrativos representam apenas 1,7% da despesa, bem abaixo dos 3% da média da OCDE. Menos favorável é a comparação em medicamentos, em que a despesa per capita em 2009 está acima da média, bem como a percentagem suportada pelos doentes (40,5% em Portugal e 32,8% na média da OCDE), embora Portugal seja o 7º país em que a despesa per capita em medicamentos menos cresceu (1,9% de aumento médio, face a 3,5% médios da OCDE). Fica evidente que, na última década, foi possível conter o ritmo de crescimento da despesa sem afectar a melhoria dos resultados em saúde.

Vale a pena ler o texto na íntegra. Precisamos não embarcar nas mentiras e nos engodos que distorcem a realidade para melhor nos obrigarem a engolir a pílula ideológica.

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