22.10.11

abafadores.


Há algum tempo encontrei no blogue embalando as horas um apontamento sobre uma certa prática que teria história no norte deste nosso suposto país de brandos costumes. O que mais me despertou a atenção nesse post, apesar do título (Ai tão católicos!), foi a referência à prática do "abafamento" de moribundos. Como acho que não se devem deixar cair pistas em saco roto, fui à procura. Uma das coisas que encontrei foi um conto de Miguel Torga, intitulado O Alma-Grande, publicado nos Novos Contos da Montanha (1944). Não sou um grande leitor de Torga, nem sou um especial amante de contos. Assim mesmo, aconselho a leitura deste exemplar. Ficam a saber mais qualquer coisa sobre "abafadores" - e sobre o tipo de animais que nos calha ser. Ah, pois.

21.10.11

viver no meio de escombros.

16:15

O PSD e o CDS chegaram ao governo de Portugal montados numa estratégia de crispação dura e permanente. A coligação negativa, que juntou em momentos decisivos a auto-proclamada esquerda da esquerda aos actuais governantes, foi a parte institucional desse cenário de confronto. A componente extra-institucional da coligação negativa foi a política do ódio, gerida na comunicação social e nas redes da boataria, servida do cardápio de ataques pessoais de todas as cores e feitios (desde o apartamento da mãe até ao freeport), em que cada escândalo novo vinha substituir mais um escândalo velho cuja vacuidade se tinha tornado incontornável.
Nesse clima de guerra civil em banho-maria, criado para obter efeitos eleitorais, o país não podia respirar. A derrota de Sócrates e a ascensão do mansinho PPC, se trazia no bojo todas as ameaças que a actual governação está a concretizar, tinha pelo menos a virtualidade de aliviar a tensão. Isso seria necessário para restaurar um saudável diálogo numa comunidade política democrática. PPC até começou bem nesse ponto, com alguma contenção. O que implicaria não abusar demasiado da velha conversa de que o governo anterior era o único ou o grande culpado de tudo o que de mau há no mundo.
Entretanto, de cabeça perdida com a constatação de que passara a campanha eleitoral a dizer disparates, a ter de abandonar medidas que tinha dado como estudadas apesar de nunca ter pensado nelas seriamente, a verificar que a sua receita para o país é pouco mais do que um certificado de óbito, PPC regressou à única cartilha que alguma vez consultou com afinco. PPC não soube mais do que voltar à crispação. A culpa é dos outros. O orçamento é meu, o défice é dos socialistas. O sucessor de PPC na JSD quer imitar os métodos estalinistas da Ucrânia e fazer julgar os governantes anteriores. A treta do desvio colossal é a matriz dessa estratégia de mentira e ocultação. Tudo para tentar salvar a pele lançando o país na confusão, reacendendo as chamas da crispação violenta. Essa estratégia de renovar a crispação é suicidária para o país, é tudo o contrário do que faz falta.
Esta gente, de facto, só sabe viver no meio de escombros. Estão, portanto, a construir a casa à medida desse gosto. É pena.

o governador do Banco de Portugal aderiu ao sindicato dos banqueiros?

12:37

O governador do Banco de Portugal (BdP), Carlos Costa, afirmou esta sexta-feira que o facto de os líderes europeus admitirem o default de um Estado provocou uma “falha sísmica” na zona euro e colocou os bancos na dependência dos políticos. Para resolver o problema, a Europa tem de afastar qualquer possibilidade de um país não pagar as suas dívidas.

Eu estou mais preocupado com o facto da política estar dependente dos bancos. Mas o Governador do Banco de Portugal escolhe o seu campo de modo diferente. Estará a confundir o lugar com o de presidente da associação de bancos, que também existe mas é outra coisa?

grandes revolucionários, pá!


Há no 5 dias quem defenda a existência de um tecto para as pensões. À mistura com indignações contra políticos vários. Se o autor do post em questão sabe do que fala, estará ciente de quem tem defendido a existência de um tecto para as pensões, e para quê. Vejamos. Não se pode obrigar uma pessoa a pagar, num regime contributivo, aquilo que já se sabe à partida que não poderá vir a seu benefício. Havendo tecto para a pensão, tem de haver também tecto para as contribuições. A parte acima do tecto fica a descoberto nos regimes públicos - essa parte vai para fundos privados. É por aí que têm atacado muitos dos partidários da privatização parcial da protecção social. Ignorar isto e meter o assunto do tecto das pensões em argumentos "políticos" demasiado esquemáticos e simplistas - é uma lástima.

(Cheguei ao post criticado graças a uma referência do Ricardo Alves.)

20.10.11

ok, Khadafi foi morto.

23:53


E é bom que a guerra na Líbia tenha acabado. Se tiver acabado. Mesmo assim, teve de chegar a vez de Paulo Portas para ouvir um dirigente político afirmar que não festeja a morte de nenhum ser humano, mesmo que ele tenha sido um tirano. E mesmo que isso seja bom para esse país e esse povo. Em tempo de tão pouca coisa, consola-me ver o MNE do meu país, nem que seja uma vez por desfastio, a ser mais decente do que a média.

continuar a interpretar Cavaco.


Aos que ficaram muito chocados com o meu exercício de interpretação da mais recente aparente-rasteira de Cavaco ao governo, digo mais: ainda cá tenho mais intepretações-menos-que-lineares. Aqui vai mais uma.
Cavaco deu ao governo a oportunidade de lançar uma grande operação de negociação do orçamento de 2012 com a oposição. Passos dirá: se o PR tem dúvidas, vamos à procura de alternativas. Isso entala o PS, obrigando-o a apresentar propostas que dêem o mesmo resultado com menos sangue, propostas que, uma vez expostas, passarão a ser o alvo das críticas no lugar das propostas do governo. Assim como o grão-vizir que queria ser califa no lugar do califa, conhecem? Se o PS apresentar alguma alternativa de jeito, o Gaspar terá de engolir e o pragmático PPC mostrará que ainda manda alguma coisa. Caso contrário, a orelha murcha do PS valerá mais que uma orelha cortada numa tourada.
(Senhor PM, se o ofende esta ideia de que quereria realmente negociar alguma coisa, peço-lhe respeitosamente desculpa.)

apelido: crise.

corpos digitais / corpos analógicos.


Até mais logo: o corpo da máquina.



push down
gently
but firmly
until the body is fully connected

by touching
a grounded metal surface
firmly
until the body is fully connected

(excerto de “Fully Connected”, do álbum No Waves dos Micro Audio Waves)

posto a intérprete de Cavaco, posição delicada.


Não alinhei nas hostes dos que ficaram muito excitados com a crítica que o PR fez ao governo, em matéria decisiva neste momento: corte dos subsídios é a “violação de um princípio de equidade fiscal”; corte salarial para grupos específicos é “um imposto”. Aliás, está por ver que água traz essa declaração no bico.
Essa mensagem de Cavaco Silva, continha, contudo, outro elemento que me chamou a atenção. É que o PR, que podia ser interpretado como protagonizando assim uma quebra de solidariedade institucional, ou uma ingerência em matéria governativa, justificou a tomada de posição declarando: “Mudou o Governo, mas eu não mudei de opinião”. Haveria muito que escrutinar quanto à prática desse princípio por este presidente, mas deixemos isso e fiquemos pelo valor facial da declaração: “Mudou o Governo, mas eu não mudei de opinião”.
É que o barruço podia perfeitamente enfiar em muitas cabeças que por aí andam. Governantes que governam ao contrário do que diziam quando eram oposição. Oposições tentadas a fazer oposição com o mesmo estilo que criticaram em outros tempos. Comentadores que comentam tudo ao contrário do que comentavam há uns meses, tendo passado milagrosamente a ver regiões do ser que não suspeitavam sequer que pudessem existir. Blogues que praticam agora a má-língua e a trica que no passado detestavam. Tudo por quê? Por ter mudado o governo. O que deu azo a mudanças, não apenas de opinião, mas também de tom, de estilo, de código de conduta. O que era abjecto passou a ser virtuoso, o que era louvável passou a ser abominação.
Será que Cavaco se meteu ao caminho com aquelas declarações (“Mudou o Governo, mas eu não mudei de opinião”), não para falar de economia e finanças, que era o que parecia ser o seu assunto naquele momento, mas para lembrar que é demasiado indecente tantos intervenientes na coisa pública fazerem tanta pirueta com tanta celeridade?
(Senhor Presidente, se isto é demasiado confuso para si, peço respeitosamente desculpa.)

19.10.11

prova de transparência.


Não posso é dar o link: detesto divulgar as coordenadas GPS.


Afinal, Portugal não é a Grécia. É o Chile.


Leituras.
Afinal, Portugal não é a Grécia. É o Chile. De há 30 anos. Não vamos apenas recuar no rendimento per capita, mas também na História, na integração europeia e, seguramente, na qualidade da democracia.

Pedro Lains, Uma carta fora do baralho. Vale muito a pena ler tudo.

Acho que este texto pode bem ser lido em conjunto com este outro: A Europa e o canto das sereias.

a Europa e o canto das sereias.

12:36


John William Waterhouse, Ulysses and the Sirens (1891)

Uma falha evidente na abordagem do actual governo de Portugal à situação económica e financeira é a miopia em relação ao contexto europeu. Para justificar a política de desmantelar o Estado, entregar as peças aos privados e fazer-nos a todos pagar por isso, com língua de palmo, o governo Passos e Gaspar (por onde Portas passa de vez em quando como cão por vinha vindimada) insiste em que "isto" é tudo culpa nossa: efeito dos erros dos adversários políticos, Sócrates e quem que tenha dormido com ele. A crise internacional, a flutuação louca das expectativas dos mercados, o ataque ao euro por parte de zonas monetárias concorrentes, nada disso existe na cabeça dos nossos ministros do momento. Agora que parece que a Grécia vai ter uma reestruturação parcial da dívida, suportada largamente pelos próprios credores privados, coloca-se a óbvia pergunta: e nós, se pudermos, também queremos? Perguntado, Gaspar responde que não responde, que não se pronuncia sobre cenários ("questões hipotéticas"). Claro que cenários é tudo aquilo com que se trabalha. Não se faz política sem previsões, previsões são cenários, dizer de vez em quando que se não fala de cenários é fugir com o rabo à seringa. Mas Gaspar não se pronuncia, porque, segundo ele, trata-se de cumprir aquilo a que nos comprometemos e já está.
Concordo, contrariamente à esquerda que se regozija com o "não pagamos", concordo que Portugal deve mostrar-se como um país que quererá sempre cumprir com o conteúdo dos seus compromissos internacionais. Não ajudaria nada que fossemos encarados como um bando de gente sem palavra. Só que, e isto importa, cabe termos a noção de quão a "receita" que nos passaram depende do contexto político europeu. Se a Europa passar a agir, não como se a crise fosse coisa de uns pigs isolados, mas como a crise sistémica que é, muita coisa mudará. E mudarão, também, as receitas para os aflitos. E o governo de Portugal, se não tiver um interesse ideológico no "Estado mínimo e pobre", terá de jogar na renegociação. Se os bancos podem querer que o Memorando de Entendimento (MdE) seja renegociado, por que carga de água a renegociação há-de ser tabu para tudo o resto? Na verdade, as condições iniciais de aplicação do MdE já mudaram, com a revisão em baixa da taxa de juro e o prolongamento do prazo dos empréstimos. Outros pontos podem mudar. Se tudo muda no mundo, porque há-de o MdE ser a única peça imutável do puzzle? Para obter isso é preciso jogar no tabuleiro da Europa. Como, aliás, fez Sócrates - apesar de Passos Coelho, com a pressa de "ir ao pote", ter boicotado o que se estava a conseguir por esse lado. O chumbo do chamado "PEC IV" foi o primeiro acto de uma farsa pela qual o actual PM calou Portugal no tabuleiro europeu (excepto para ir a Berlim dizer o que Merkel manda, mesmo contra nós). Antes das eleições, o guião da farsa dizia que tudo se faria sem mais sacrifícios, porque a degradação da situação era exclusiva culpa nossa (de Sócrates). Depois das eleições, a crise é culpa dos outros (a crise internacional afinal existe), mas temos, na mesma, de nos desembaraçar sozinhos. Ou seja: cegueira completa sobre o ponto onde tudo verdadeiramente se joga: a Europa. Por isso Gaspar não mostra interesse nenhum na eventual nova abordagem à Grécia - nem agora, que já todos perceberam que nós também somos a Grécia.
Tudo isto para dizer que o tabuleiro europeu é decisivo. Portugal tem de voltar a ter uma política europeia, em vez de ser o menino surdo, mudo e quedo em que o actual governo nos transformou, como se estivéssemos de castigo no canto. Desse ponto de vista, aquele recente discurso do PR em Florença foi positivo - mas precisamos de mais, com mais consistência. Barroso também tem dito coisas acertadas ultimamente: já não era sem tempo! Temos, contudo, de nos preparar para as complicadas guerras de trincheiras que qualquer episódio europeu sempre implica. O essencial, aí, é sermos capazes de ver o nosso interesse a longo prazo como mais importante do que qualquer interesse de curto prazo. Não se trata de sermos altruístas, trata-se de não sermos míopes e não prejudicarmos os interesses permanentes no altar das conveniências imediatas.
Dou um exemplo: a regra da unanimidade. Muitos "pequenos países" abominam a ideia de deixarem de ter um voto absolutamente decisivo em certas decisões importantes. Raciocínio: em questões fulcrais, temos de poder vetar, como última defesa. Defeito essencial deste raciocínio: qualquer outro também pode vetar o que para nós seria decisivo. Por exemplo, um partido populista na Finlândia pode levar esse Estado-membro a bloquear uma decisão de nos financiar. Afinal, abandonar a regra da unanimidade é uma necessidade para que o calendário interno de qualquer país não aprisione todos os outros. Um governo responsável de um qualquer país, colocado perante uma decisão europeia necessária mas impopular, fica no dilema: ou vota a favor de algo que o seu eleitorado interno não apoia, ou vota contra e impede uma solução (às vezes provocando remendos cosméticos que tornam tudo ainda mais disfuncional). Ora, essa pressão podia ser aligeirada se, precisamente, se eliminasse a possibilidade de um único país (ou um número muito restrito de países) bloquear uma decisão. Em termos de processo de decisão europeia, precisamos de nos libertar da armadilha do excessivo peso das circunstâncias, do aqui e agora de qualquer uma das partes (países), sem que isso signifique qualquer menos respeito por cada parceiro. O ponto é que, visto o conjunto e visto para lá do imediato, às vezes precisamos de nos acautelar contra as más decisões que nós próprios podemos tomar em certos momentos. Trata-se de trocar uma visão simplista dos processos de decisão por uma compreensão mais lata dos seus mecanismos como processo histórico. Ajuda, para compreender isto, ver como Homero, no Canto XII da Odisseia, apresenta o episódio do canto das Sereias.
As Sereias, na sua ilha, atraíam com um canto irresistível os marinheiros que navegavam ao largo, que assim se deixavam conduzir a uma armadilha mortal. Ulisses, avisado por Circe, sabendo que também ele e os seus companheiros não resistiriam à tentação, preparou-se para a ocasião explicando a situação à sua tripulação, tapando com cera os ouvidos dos seus marinheiros e ordenando-lhes que o amarrassem ao mastro do navio e que o prendessem ainda com mais cordas quando ele pedisse para o soltarem. Ulisses não expôs os seus companheiros à tentação e garantiu que ele próprio, concedendo-se a oportunidade de experimentar a situação, seria impedido nessa ocasião de tomar a má decisão que nesse momento haveria de querer tomar: aceder ao armadilhado convite das Sereias. Esta distribuição do processo de decisão revela uma competência sofisticada para, com antecipação, tornar evitável o que de outro modo (e para os que assim não procedessem) era uma inevitabilidade.
Mudar os processos de decisão na União Europeia, para evitar que, em dado momento, este ou aquele país ceda ao canto das sereias, é necessário para tornar mais sábia esta comunidade de destino. Se Portugal perceber onde se joga o seu futuro, entra nesse jogo. Se, como tem sido timbre deste governo, Portugal se distrair desse palco, continuaremos a ter uma governação que pensa que nos safamos, contra o mundo, cortando, cortando, cortando, sem amanhãs. Nem dos que cantam, nem dos outros.


a asfixia democrática, lembram-se?

18.10.11

a arte de contar uma boa história.

uma pergunta pelo seguro.

15:13

Quanto tempo vai a actual direcção do PS - por omissão, inépcia, distracção, ou seja lá pelo que for - continuar a ser cúmplice da táctica do actual governo, que consiste em culpar os anteriores governos socialistas pelas políticas actuais? Se António José Seguro continuar a olhar para o lado, assobiando, sendo ainda aquilo que foi nos últimos anos (um opositor mal disfarçado de Sócrates), em vez de assumir o património completo do PS, veremos a prazo um enterro compósito: Seguro arrisca-se a ser enterrado na mesma cerimónia fúnebre de PPC. Ou será que Seguro simplesmente não percebe o que está em causa e goza, impudicamente, a tentativa de PPC para debitar ao PS esta política, com base em mistificações e ideologia da dura?

O último processo eleitoral no PS teve um gravíssimo defeito: não fez o balanço do socratismo. Fazer o balanço é preencher as colunas do "conseguido" e do "falhado". E as colunas do "ainda bem que não se conseguiu, apesar de tentado" e do "pena não ter tentado". Fazer o balanço é identificar os métodos, respectiva eficiência e eficácia: houve suficiente diálogo social? houve suficiente flexibilidade negocial? houve a sabedoria de distinguir o essencial do acessório? quanto custaram as más opções nesse campo? Fazer o balanço é escrutinar as alianças e seus efeitos na correlação de forças quando a luta aquece: foi sábio desistir do diálogo da esquerda? foi boa ideia não tentar um bloco central? poderia fazer-se melhor com um presidente errante? Fazer o balanço serve para medir o passo, fazer contas com a responsabilidade, consolidar o património, abrir caminhos com melhores mapas. Nada disso se fez. Em particular, o actual SG do PS evitou imprudentemente dizer uma palavra que fosse de relevante para resolver essa questão. Agora, parece que a actual direcção do PS tem um certo gozo em deixar passar a mistificação que por aí anda. Seguro engoliu a narrativa da direita ou não a percebeu - e, por isso, engole-a na mesma? Que tenham de vir antigos ministros e secretários de estado explicar em público como as coisas se passaram, e quais são os números, como se houvesse um PS velho e um PS novo, e o PS novo lavasse as mãos, não augura nada de bom. Porque para estes tempos difíceis não serve de nada um PS de facção.

interacção humano-computador.




17.10.11

ideias para depois da crise.




o corpo da máquina.


Notícias do Centro de Filosofia das Ciências da Universidade de Lisboa.
O Projecto Interno "Perspectivas sobre o Corpo: Filosofia, Ciência e Arte" inaugura este mês um ciclo de palestras sobre o tema do corpo, com uma conferência de Porfírio Silva (ISR-IST) intitulada "O corpo da máquina".

Data e local: Quinta-feira, 20 de Outubro, pelas 18h00, na Faculdade de Ciências da UL, no prédio C8, piso 2, sala 8.2.23.

O CORPO DA MÁQUINA
Porfírio Silva

As primeiras reflexões críticas sobre os fundamentos do programa de investigação da Inteligência Artificial clássica tiveram como foco organizador a questão do corpo, ou, melhor, o problema da ausência (ou incompreensão) do corpo naquela visão dos seres inteligentes. A viragem da IA clássica para a Nova Robótica, que, em larga medida, representa uma profunda transformação das Ciências do Artificial, em parte regressando ao primeiro impulso cibernético, é guiada pela questão do corpo (e do corpo no mundo). Pensa-se o robô autónomo como uma inteligência com corpo, profundamente ligada às competências sensoriais e motoras que lhe permitem certos comportamentos num certo mundo. Nesse sentido, foi dado um certo corpo à máquina para que ela possa ser inteligente. Contudo, no cerne do projecto continua a estar uma concepção de “corpo da máquina” que é profundamente abstracta (digital, por contraposição a analógico). Vamos olhar para certos aspectos desse empreendimento, e serão apresentadas experiências com “hardware evolutivo”, para que se possa começar a questionar o pacote de pressupostos implicados no projecto de “dar um corpo às máquinas inteligentes”.




pensar a indignação.

11:40


A indignação, tal como ela se apresenta agora na praça pública de uma parte do mundo ocidentalizado (convém não esquecer essas fronteiras), merece ser pensada. Tal como convém a um blogue, vamos fazendo isso fragmentariamente. Deixo hoje duas vozes.
Segundo o Público de ontem, o ex-presidente Bill Clinton mostrou empatia com os manifestantes que protestam contra Wall Street, declarando que as movimentações poderiam converter-se em "algo positivo" se não forem apenas contra, se forem a favor de acções específicas. O seu exemplo: deviam apoiar o novo plano de Obama para a criação de emprego. Terá dito, arriscando-se a ser paternalista, que as pessoas que protestam devem abrir-se a pessoas que sabem mais. Penso que o marido da secretária de Estado chama a atenção para uma reflexão importante acerca dos "indignados": é parolo tentar manipular esses movimentos com pura simpatia ou mero apoio de conveniência, tal como é indigno fazer de conta que eles são "a única e grande" oportunidade para fazer mudanças interessantes. Esse atitude de complacência pode ser tacticamente atraente, mas ignora que não foi hoje que começou a haver gente que detectou as injustiças e luta contra elas. Passar a mão pelo pêlo aos "indignados", sem exigir rigor no respeito pelas estruturas da democracia, sem pedir um verdadeiro escrutínio de alternativas, pode ajudar as emoções de pessoas (como eu) que são capazes de reconhecer que têm saudades da efervescência "revolucionária", mas não vai ajudar a construir nenhuma alternativa. A rua é essencial em democracia, mas não há democracia nenhuma que possa viver fundamentalmente da rua. Protestar é necessário, mas o momento exige muito mais do que protestar: exige ver para lá do nevoeiro.
Outro contributo para uma reflexão crítica vem de Zigmunt Bauman, filósofo e sociólogo polaco, professor emérito da Universidade de Leeds, 86 anos. Famoso pelo seu conceito de modernidade líquida, deu uma entrevista ao El País onde aplica o conceito à actualidade da indignação. Diagnóstico do estado do mundo: a origem de todos os graves problemas da actual crise está principalmente na "dissociação entre as escalas da economia e da política." As forças económicas são globais e os poderes políticos, nacionais. Uma das consequências da resultante "descompensação" é que os políticos sejam vistos como incompetentes ou corruptos. E a resposta dos indignados? Bauman diz que este movimento é emocional e que a emoção, se é capaz de destruir, é particularmente inepta para construir qualquer coisa. A emoção é "líquida": ferve muito, mas também arrefece depressa. "A emoção é instável e inadequada para configurar algo de consistente e duradouro." O movimento cresce e cresce, mas "fá-lo através da emoção, não tem pensamento. Apenas com emoções, sem pensamento, não se chega a lado nenhum”. Afinal, resolver os complexos problemas de coordenação no seio de um colectivo sofisticado é uma tarefa exigente, que não pode ser levada a bom porto apenas com uma clara noção do que se recusa. E, para ser sincero, duvido que o movimento dos indignados tenha, sequer, uma noção clara do que realmente recusa.
Mesmo que uma certa esquerda continue a fazer de conta que estas questões não existem, eles sabem que nós sabemos que eles sabem que esta excessiva liquidez implica enormes défices de futuro no seio da indignação. E isso deve ser conversado sem diplomacias. Sob pena de a indignação, mesmo quando justa, não servir para nada.

16.10.11

livro de animais.


Vasco Pulido Valente, para o bem e para o mal, sabe muito de animais. Na sua coluna de opinião, no Público, publica hoje um texto intitulado O "independente". Lê-se como segue.

Este Governo tem um número anormal de “independentes”, coisa que em princípio parece meritória ao cidadão comum. Mas será? Para começar, conviria saber o que é um “independente”. É um senhor (ou uma senhora) que nunca por nunca se interessou por política e menos por política partidária, e que votou sempre segundo a sua “consciência”, ou conveniência, sem se interessar se votava no PS, no PSD, no CDS ou no diabo em pessoa? Admito que haja por aí esse animal indefinido, embora não conheça nenhum. É, pelo contrário, o “independente” um cidadão desconhecido que conseguiu o milagre geométrico de ser, como se dizia, “equidistante” dos grupos e grupelhos que por aí andam? Ou é um sábio fechado num gabinete inacessível, que sabe ao certo o remédio para salvar a Pátria e está calado por humildade cristã e científica?
Em grosso, não penso que o “independente” seja nada disto, pela simples razão que não acredito na “independência” do “independente”. O “independente” costuma esvoaçar à volta à volta dos grandes grupos de interesses, dos lobbies universitários, do PSD e do PS. Verdade que não frequenta sessões de militantes, nem se candidata a cargos que o possam pôr em evidência pública. Prefere o género “encontro”, “simpósio”, “seminário” ou conferência, onde se roça com assiduidade pela gente importante e, principalmente, pela gente séria e onde com o tempo (com pouco tempo) começa ele próprio a adquirir sem excessivo esforço a sua reputação de importante e sério. Não incomoda ninguém, não provoca ninguém, quase não se nota e é útil para encher uma cadeira ou fazer uma pergunta.
Mas não se imagina que o “independente” escolhe ao acaso, como um pássaro tonto, os meios por onde circula e as relações que laboriosamente angaria. Sabe perfeitamente para onde sopra o vento: onde poisa o PS e onde poisa o PSD. Quem tende a “subir” e quem tende a “descer” e, portanto, para usar o termo pornográfico corrente, em quem deve “apostar”. Depois de uma eleição ou de uma remodelação, muitas vezes até ganha. Serve para tapar um “buraco”, para afastar um apoiante incómodo, para resolver com mansidão e “neutralidade” uma querela entre dois “caciques”. A televisão e os jornais declaram o “independente” uma “cara fresca” e ele entra esfusiante pelo Estado dentro na completa ignorância do que sejam a administração e a sociedade portuguesa. Para naturalmente fugir dali a uns meses como um sendeiro triste, à procura de um novo dono.

E assim vos deixa com esta pequena viagem ao jardim dos animais.

manifestações.

16:37

Não me manifesto na rua facilmente. Mas não excluo manifestar-me. Uma coisa é, contudo, certa: não participarei nunca numa manifestação em que julgue provável que se grite, à porta da sede de um órgão de soberania, "invasão, invasão". Como ontem aconteceu frente à Assembleia da República.

orçamento rectificativo.


Afinal, em 2012 o governo não vai cortar o 13º nem o 14º mês a nenhum trabalhador.
Apenas vai pagá-los em vouchers para estadias na Madeira.
O paquete Santa Maria vai ser reconstruído para fazer a ponte permanente entre o Continente e a nova colónia de férias forçadas para funcionários públicos.
Fica o esclarecimento.