22.4.11

puxar pelo lado bom dos portugueses, em espírito de Páscoa




«A perfeição transparente do futuro digital»


Eu gostaria de ir ouvir Manuel Portela, Professor do Departamento de Línguas, Literaturas e Culturas da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, falar sobre «A perfeição transparente do futuro digital».
O computador e o software oferecem-nos um futuro automatizado numa sociedade totalmente administrada. A ubiquidade do discurso digital serve para legitimar a crescente penetração dos dispositivos digitais em todas as esferas de actividade. Observando a relação entre discursos e dispositivos, conseguimos ver algumas promessas de felicidade em curso.
Será em Coimbra, a 2 de Maio próximo, pelas 17 horas, no Departamento de Ciências da Vida - Antropologia, Anfiteatro I, Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade de Coimbra.
Mais informação - e outras coisas que surgem - em milplanaltos.

por causa da liberalização do mercado de trabalho como panaceia universal

21.4.11

eu troiko, tu troikas, ele troika | não tenho troikos


A história seguinte, sobre Agostinho de Hipona, conhecido na literatura cristã como Santo Agostinho, faz parte da tradição dessa religião.
Conta-se que Santo Agostinho andava a passear na praia a meditar sobre o mistério da Santíssima Trindade. Enquanto caminhava, observou um menino que tinha um balde com água. A criança ia até o mar, trazia a água e deitava-a dentro de um pequeno buraco que tinha feito na areia. Após ver repetidas vezes o menino fazer a mesma coisa, perguntou-lhe:
- Que estás a fazer?
O menino, olhando-o, respondeu:
- Quero colocar a água do mar neste buraco.
Santo Agostinho sorriu e respondeu-lhe:
- Mas tu não percebes que isso é impossível, mesmo que trabalhes toda a vida? O mar é infinitamente grande. Nunca o conseguirás colocar aí todo, dentro desse pequeno buraco...
Então, novamente olhando para Santo Agostinho, o menino respondeu-lhe:
- Ora, é mais fácil a água do mar caber nesse pequeno buraco do que entenderes o que estás a pensar.
Tanto quanto se pode esquematizar um problema teológico, a dificuldade teria mais ou menos a seguinte forma:


De qualquer modo, o esquema acima seria uma traição à incompreensibilidade característica da própria divindade: tentar reduzir "o mistério" à razão humana seria demasiada pretensão, uma espécie de arrogância, quase pecado (para alguns).

Por que será que este "mistério" me faz lembrar a troika?

Boaventura Sousa Santos disse que "este não foi um dos dias mais felizes da sua vida", depois de duas horas e meia de reunião de trabalho com a troika.

grandes títulos (outra vez)

a cidadania não tem donos; já agora: a esquerda também não

15:12

Publiquei aqui, recentemente, dois manifestos:

Um compromisso nacional.

Convergência nacional em torno do emprego e da coesão social.

Declarei-me de acordo com o primeiro e subscrevi o segundo. Acho que fui coerente ao apoiar ambos. Compromisso não é unanimismo; diferentes opções não devem impedir os compromissos; os compromissos devem ser escolhas sobre a importância relativa das diferenças.

Outro cidadão que se juntou a ambos os documentos foi Boaventura de Sousa Santos. Ao que eu faço ninguém liga, mas Boaventura foi atacado (vi no facebook) por ter assinado ambos os documentos. Dizia a pessoa em causa que os documentos são "opostos". Em concreto, Joana Lopes pergunta: será que Boaventura SS já explicou porque assinou, a uma semana de distância, dois documentos opostos? Afirma ainda Joana Lopes que Quem «exige» um próximo governo de «salvação nacional» não reconhece, de facto, que ele é impossível sem cedências gravíssimas ao estado social e à democracia.

Por favor, expliquem-me devagarzinho, para eu perceber: qual é a contradição/oposição entre os dois documentos?

Ou estaremos apenas perante mais uma manifestação de "clubismo", aquele tipo de reacção cuja matriz se resume a isto: mantém-te com os "nossos", não dês a mão ao inimigo, conversar com o diabo é pecado? Deve ser por isso que Joana Lopes escreve: [o segundo manifesto é uma resposta ao primeiro], "E foca os mesmos problemas, de modo diferente porque o posicionamento POLÍTICO dos subscritores é outro." É isso: como o "posicionamento POLÍTICO" é diferente, não pode haver compromissos.

De facto, se isso é que é ser de esquerda, fiquem lá com a bicicleta que eu não dou para esse peditório.

design atrás das grades


“Design Atrás das Grades” junta o improvável: prisões e design, num mundo que procura um futuro sustentável. Do pequeno estúdio de costura do Estabelecimento Prisional de Tires sai uma mistura de idiomas, aqui são produzidas as consagradas malas La.ga. Vikki, uma reclusa romena, diz que o tempo que passa na “fábrica” voa. Como as La.ga, as mulheres também saem das prisões com um carimbo. Seguimos a sua luta para melhorar e fortalecer as suas vidas em Portugal, dentro de Tires, e na Venezuela, onde a ex-reclusa Yanetzi continua a coser.

Design Atrás das Grades,
Dia 25 de Abril, às 19h20m, na RTP2.
Realizadora: Margarida Leitão.



Este documentário narra uma experiência muito interessante, que me impressionou ao primeiro contacto. Espero agora aprender mais sobre o seu desenvolvimento com este trabalho da Margarida Leitão, que realiza sempre com grande sensibilidade e inteligência. Trata-se de algo que nos dará a possibilidade de continuar a libertação: continuar o 25 de Abril, por assim dizer. A nossa própria libertação dos horizontes estreitos, quero eu dizer. Uma pequena libertação de cada vez, claro.

Quero dizer-vos que no Natal passado houve várias prendas a circular na minha família que foram produzidas pela iniciativa descrita neste documentário. E que não foi por "caridade" ou "pena" que essas prendas foram muito apreciadas. Foram apreciadas pelo seu valor artístico próprio. Mas, sim, com um gostinho especial acrescentado.

Ver para crer.

grandes títulos

são guerras, senhor, são guerras

12:00

Nações Unidas preocupadas com envio de militares europeus para a Líbia.
«A chefe da agência de ajuda humanitárias das Nações Unidas expressou-se muito preocupada com a possibilidade de uma presença militar europeia junto do movimento rebelde a Muammar Khadafi, na Líbia Oriental, alertando para os perigos de misturar operações militares com o trabalho de assistência humanitária.»

A questão, a meu ver, não é apenas a atrapalhação que causam uns aos outros no terreno. Problema maior é que o "Ocidente" se meta nos vespeiros que bem lhe apeteçam, ao sabor das circunstâncias e dos efeitos políticos imediatos e eleitoralmente pagantes. Duas teorias opostas concorrem pela compreensão do mundo: "que se matem à vontade, nada temos a ver com isso"; e "cabe às 'democracias' vigiar a ordem e os bons costumes em todo o globo". O equilíbrio entre essas duas teorias (quer dizer, longe de qualquer uma delas), tem sido difícil de encontrar. Não me parece que seja ainda no caso da Líbia que o "Ocidente" se evite a si próprio mais uma tolice.


a ratolândia

11:30

Tommy Douglas, 1904-1986, canadiano de origem escocesa, social-democrata/socialista, introduziu o modelo de saúde pública universal no Canadá. Um exemplo da sua oratória, ao serviço do seu idealismo, é o discurso em que apresenta a fábula "Mouseland" ("Ratolândia"). É esse discurso que aqui se apresenta.
É fácil pegar neste discurso e usá-lo para criticar os partidos do "centrão" em Portugal. O PS e o PSD. Será fácil à esquerda da esquerda, que tem feito tudo para fugir às responsabilidades da governação, usar este discurso para sacudir a água do capote. Se eu detesto essa atitude do PCP e do BE, por que coloco aqui esta peça? Por uma razão muito simples: julgo que qualquer cidadão, hoje, sendo democrata, independentemente da sua opinião político-partidária, deve preocupar-se com o rotativismo que deslegitima o sistema. Quando as pessoas tendem a pensar que "são sempre os mesmos", ou "acabam todos por fazer o mesmo", isso põe em perigo a própria democracia. O discurso dominante acerca do "arco da governação", que assume que há partidos que podem governar (PS, PSD e CDS) e partidos que não podem governar (PCP e BE), é uma perversão da democracia. Perversão que os próprios "excluídos" (PCP e BE) alimentam, colocando-se sempre de fora de qualquer tentativa séria de assumirem responsabilidades da governação. Mas não quero, agora aqui assim a correr, distribuir responsabilidades. Quero é chamar a atenção para um perigo, bem desenhado nesta fábula da Ratolândia.




o bom povo português, ah ah


Nada vou dizer sobre os valores que a sondagem publicada pelo Diário Económico dá aos partidos. Há muito ainda por discutir, isso é que conta de momento. Não resisto é a registar o espectacular resultado que Cavaco Silva consegue com todas as suas tropelias. Bem merece, ele que é o principal responsável por esta crise. Foi ele que deu ordem para avançar, com os discursos assassinos que fez.


Em 124 meses de barómetro da Marktest, é a primeira vez que o saldo da imagem do Presidente é negativo.

«Pela primeira vez desde Janeiro de 2000 (124 recolhas mensais) um Presidente da República tem um saldo negativo de popularidade num barómetro da Marktest. Por outras palavras, nunca como neste mês de Abril um Chefe de Estado teve um número de opiniões negativas superior às opiniões positivas. No mês de Abril, 47% dos inquiridos pela Marktest disse ter uma opinião negativa de Cavaco Silva, face aos 35% que responderam em sentido contrário, o que dá um saldo final de -11%.»

20.4.11

um livro


Este livro...
Este livro fala abundantemente de máquinas. Computadores e robôs, especialmente. Contudo, ele não é sobre os perigos e potencialidades das máquinas. Este livro é sobre pessoas. Sobre humanos em sociedade. Sobre o que somos capazes de querer e o que somos capazes de fazer com os meios que temos ao nosso alcance – assumindo que não devemos deixar-nos substituir na definição dos fins para que esses meios podem ser mobilizados. Este livro é sobre a possibilidade de que as sociedades em que vivemos sofram determinadas transformações que tornem apropriado dizer que elas são sociedades artificiais.
Este trabalho é uma investigação em Filosofia das Ciências do Artificial, incidindo sobre essa constelação de teorias e práticas científicas que inclui, por exemplo, a Inteligência Artificial e a Nova Robótica. Quem esteja convencido de que há uns anos um computador venceu um campeão mundial de xadrez num torneio dessa modalidade – deve ler este livro. Desde logo, porque vamos tentar mostrar-lhe que não deve estar assim tão seguro disso. Depois, porque deve querer saber que há equipas de robôs a ser preparadas para vencer a equipa campeã do mundo de futebol segundo os regulamentos oficiais da FIFA. Será divertido esse momento? Por muito desafiadora que seja essa perspectiva, talvez devesse ser mais assustador saber que há ramos das ciências sociais que pensam nos humanos como se fossemos computadores, como calculadores impenitentes e moralmente indiferentes.

Do Prefácio:
Este livro é parte de um já longo percurso do autor em torno do tema do paralelismo entre as Sociedades Artificiais e as Sociedades Humanas. O que mais fascina nesse percurso é a forma natural como nele interagem disciplinas aparentemente estanques ou mesmo contraditórias. Como diz Porfírio Silva, ele tem sido “um Filósofo entre Engenheiros”. Nesta altura, alguns filósofos sorrirão imaginando como deve ser impossível a alguém que vive no mundo das ideias interagir com uns seres estranhos, que dedicam a sua vida a olhar para um computador ou para uns chips incrustados numas estranhas placas verdes, produzindo tecnologia que faz maravilhas, mas que os transforma em seres associais e não pensantes. Ou, então, antevejo o sorriso amarelo dos engenheiros mais empedernidos, que agem primeiro e pensam depois, assumindo que tudo na vida é gerido por uma imensa equação matemática cuja solução pode ser complexa de encontrar mas existe. Pessoalmente, mais professor universitário de engenharia que engenheiro, prefiro pensar que o Porfírio Silva tem estado a “fazer filosofia com uma chave de fendas”, conforme a citação que ele próprio faz de Inman Harvey.
Pedro U. Lima
Instituto de Sistemas e Robótica
Professor do Instituto Superior Técnico

Numa boa livraria perto de si.
Lançamento: 3 de Maio, 18:30, Centro Nacional de Cultura

a blogosfera é um local muito giro


Uma das coisas mais interessantes da blogosfera é a argumentação: cita-se um tipo (de qualquer género), faz-se um link, dá-se uma bordoada, denuncia-se uma incongruência, junta-se um dado, contesta-se ou engrossa-se a corrente. Com maior ou menor elegância, esse jogo é sumo da parte boa desta fruta.
Como há gente que não sabe distinguir um fruto maduro de um fruto podre, há uns bizarros que pensam que aquilo (discutir ideias, com mais ou menos picardia, por blogues entrepostos) se confunde com escrever umas atoardas ou chamar uns nomes feios (pensam eles: alguns acham mesmo que "socialista" é um insulto). Bolsar disparates, para alguns, é quase como escrever uma tese de licenciatura à bolonhesa. (Já para não falar de um certo maluco do Porto, com uns patins mirabolantes, que tenta "insultar" um mínimo de 750 blogues em cada post.) Nunca percebi se esse comportamento resulta, simplesmente, de calos mal tratados, que dão muitas dores e indisposições, ou da tentativa de atrair conversa. Confesso que continuo sem perceber, especialmente na parte em que entram adereços estranhos na peça (por exemplo, deixar insultos anónimos na caixa de comentários, embora os mesmos insultos sejam depois "elaborados" em postas lá nos blogues dos seus autores.)
Admito que parte da minha incompreensão por fenómenos deste tipo seja defeito meu: provavelmente, nem sempre me apercebo quando topo com um blogue de humor. Ora, como é sabido, confundir uma palhaçada com uma coisa séria é um equívoco no mínimo embaraçante. Afinal, tudo tem uma explicação: fazer humor é mais difícil do que se pensa. Detectá-lo, também. Mesmo quando é humor negro.

19.4.11

nós somos os heróis, os patriotas que não vão a reuniões com os representantes do capital estrangeiro invasor


Jerónimo, Louçã e Apolónia, juntos cantando aos feitos heróicos.



malabarismos verbais com a nossa vida, não, por favor

21:48

A nova estratégia do PSD é fazer de conta que fala verdade - para mentir. Assim no género: Pedro Passos Coelho vem e conta a história do Capuchinho Vermelho; o pessoal não percebe a que vem aquilo, mas ri-se, por compaixão; depois das eleições, se chegar a PM, o homem vem dizer "eu bem avisei que os vermelhos iam ser comidos pelos lobos". Parece estúpido, mas é assim que PPC está a apresentar o seu programa ao país: diz umas coisas, como se nem soubesse exactamente o que está a implicar, para depois dizer que tinha prometido isso.
Espécime mais recente desta mentira organizada: PPC anuncia na rádio que vai voltar à ideia do plafonamento no sistema de pensões; explica com detença a parte que parece saborosa: "ah, não vamos andar a pagar pensões muito altas, que isso derrete os cabedais à nação"; diz de passagem "claro que cada um só contribuirá na parte em que pode depois beneficiar". Quer dizer: veste uma promessa de privatização parcial da protecção social - entregar a fatia mais rica à exploração privada - com as roupagens demagógicas do "não vamos andar a pagar pensões milionárias".
A estratégia é sempre a mesma: vender a nossa vida aos privados. O que é estranho: se os privados querem, é porque é bom negócio. Se é bom negócio, porque não há-de ficar no Estado, se não se trata propriamente de "coisa" (a nossa segurança social) que deva ser mercantilizada? A táctica também é sempre a mesma: o Estado que tome conta dos mais pobres, ou dos remediados, que as "companhias" tomam conta dos mais abonados.
Pedro Passos Coelho, mais uma vez, tentou dizer a coisa de modo que parecesse o contrário do que realmente estava a dizer. E depois manda um sargento qualquer tentar embrulhar as palavras a ver se ninguém percebe.
Este comportamento do PSD tem um nome: desonestidade política.

(Fernando Medina explica o que está em causa.)

notícias estrondosas

e não há um crime de gestão danosa do debate público?


O Diário Económico promove a iniciativa "Uma ideia para Portugal sair da crise. Qual é a sua?". Pedro Sousa Carvalho, subdirector, acha-se na obrigação de ter também uma ideia.
Bem sei o que custa por vezes precisarmos de uma ideia de jeito e só aparecerem trambolhos. Nesse escabroso processo de tentar parir uma ideia que valha a pena, Pedro Sousa Carvalho percorre o doloroso caminho das pedras (dizer cobras e lagartos de todos os partidos, ou quase todos), passa pela ideia não original de criminalizar a política (os fracassos da governação) e acha que isso é demais - mas fixa-se numa brilhante contribuição para a teoria política nacional. Passo a citar: "os políticos que façam uma gestão danosa da coisa pública deviam ser proibidos de voltar a ocupar o lugar".
Claro, não passa pela preclara mente de Pedro Sousa Carvalho que para saber o que é "a gestão danosa da coisa pública" não há um danómetro que meça a coisa mecanicamente. Para apreciar isso seria preciso fazer um juízo político. Que depende de muitas coisas: pontos de vista, interesses, projectos, avaliações, etc. e tal. E que a vida em comum é muito mais complicada do que parece ser entendível para certos subdirectores de diários económicos. Que os programas eleitorais e as responsabilidades políticas não são livros de fiado da mercearia da esquina. E que, por isso, fazer passar esta ideia como uma "ideia para Portugal sair da crise" - é uma fraude. Talvez apenas intelectual, mas uma fraude.
Mas, claro, quem irá julgar essa fraude e condenar Pedro Sousa Carvalho por ela? Talvez os mesmos que fariam o julgamento da gestão danosa da coisa pública. Os quais teriam, portanto, de ter também competência para julgar crimes de gestão danosa do debate público.

despesismos

procura-se, vivo ou morto


De 1991 a 2011 vão estes anos (conto devagar, para pessoas com mais dificuldades em usar os dedinhos das mãos): 1991, 1992, 1993, 1994, 1995, 1996, 1997, 1998, 1999, 2000, 2001, 2002, 2003, 2004, 2005, 2006, 2007, 2008, 2009, 2010, 2011. Qualquer coisa como vinte anos. Entre a primeira e a última data, só para dar o meu caso pessoal, vivi no estrangeiro por três períodos diferentes, fiz um mestrado e um doutoramento, publiquei três livros. E envelheci vinte anos. É muito tempo para qualquer pessoa. Mas isso não inibe estas tolices primárias. Deve ser escrita de querubim, espécime de uma espécie de seres que, como se sabe, têm outra escala temporal.
(O problema dos querubins, contudo, é outro: não vivem numa comunidade política, razão pela qual nunca tiveram que aprender que nem tudo o que troa é argumentação.)

o PS passou à clandestinidade?


Vejo notícias de que o PCP, o BE e o partido melancia recusaram falar com "a troika"; de que o CDS já está reunido com eles; de que o PSD não vai apresentar propostas nenhumas. Não vejo notícia nenhuma sobre o encontro do PS com a CE, o BCE e o FMI. O PS não foi convidado? O PS foi convidado mas recusou e não disse nada a ninguém? O PS reuniu ou vai reunir mas conseguiu melhor do que os demais esconder o tempo e o lugar? Ou o PS passou à clandestinidade?

quem mais não pode, a mais não é obrigado

há quem tenha propostas, há quem fique nas covas

18.4.11

o FMI está em greve


Os funcionários da Comissão Europeia, do Banco Central Europeu e do Fundo Monetário Internacional, que estão em Portugal para apalpar o pulso ao país que foi empurrado para um pedido de ajuda externa, depois de lerem esta posta do Jumento, entraram em greve por tempo indeterminado. Pelo menos até lhes fornecerem sondas de profundidade para perceberem o país que lhes deram para análise. Pelo contrário, não ficaram nada surpreendidos com a recusa de certos partidos da oposição em falarem com eles. Segundo fontes ouvidas à socapa, terão dito: "se eles nem falam entre eles, por que haveriam de querer falar connosco?".

«Jardim, a grande fraude», de Ribeiro Cardoso


Acabei de ler no fim-de-semana. Não diz muito de novo, mas é, no mínimo, uma compilação útil de muito material que já se tem publicado acerca da ditadura em vigor na Região Autónoma da Madeira. Um manual de malfeitorias, que vamos usar intensamente, mais para a frente, para que ninguém esqueça que Portugal é um país onde há uma ditadura. E muitos cúmplices.



não se riam


Dirigente republicana diz que Obama é filho de macacos.
Continua o Público:
«A dirigente do “Tea Party” Marilyn Davenport enviou um e-mail para os seus companheiros do Partido Republicano no condado de Orange, na Califórnia, em que diz que o Presidente dos EUA, Barack Obama, é filho de macacos. “Agora sabeis porque não há certificado de nascimento”, diz o e-mail de Devenport, que incluiu uma fotomontagem com Obama acompanhado por dois macacos.»

Não se riam, portugueses. Deixem lá esse desdém que vos faz julgar que somos incapazes dos piores dislates dos americanos mais alucinados. Se ainda não vimos uma tolice deste tamanho por cá (não vimos?), o princípio é o mesmo: a política do ódio, esse ingrediente que tem servido para arregimentar tropas independentemente das ideias políticas.

convergência nacional em torno do emprego e da coesão social

17:58

Num momento dramático como o que vivemos, a sociedade portuguesa precisa de debate e de convergências democráticas. Precisa também de reconhecer que a crise do liberalismo económico, de que a acção dos programas patrocinados pelo FMI tem sido uma expressão, obriga a reavaliar opiniões e prioridades e a construir soluções novas, assentes em ideias e escolhas claras e num programa explícito, sabendo que na democracia nunca há a inevitabilidade de uma escolha única, porque a democracia procura as melhores soluções da forma mais exigente.

É indiscutível que o estado das finanças públicas, que é em grande medida o resultado da profunda crise económica, exige um conhecimento e avaliação exigentes de todos os compromissos públicos. E que se torna urgente identificar a despesa pública desnecessária, supérflua e geradora de injustiças sociais, distinguindo-a da que é indispensável, colmata problemas sociais graves e qualifica o país.É também útil que se reconheça a importância do trabalho, dos salários e dos apoios sociais na sociedade portuguesa, se admita a presença de carências profundas, sob a forma de pobreza e de desigualdades crescentes, e se considere que os progressos alcançados na nossa sociedade são o resultado da presença de mecanismos de negociação colectiva e de solidariedade cujo desmantelamento pode significar uma regressão socioeconómica que debilitará o país por muito tempo.

Qualquer solução para os nossos problemas tem de partir de uma constatação realista: até agora as intervenções externas foram a expressão de uma União Europeia incapaz de perceber que a alternativa à solidariedade, traduzida em cooperação económica e integração sem condicionalidade recessiva, é o enfraquecimento das periferias sob pressão da especulação e de cúmplices agências de notação. A zona euro paga o preço de não ter mecanismos decentes para travar a especulação em torno da dívida soberana e para promover políticas de investimento produtivo que permitam superar a crise. As periferias pagam o preço da sua desunião política, única forma de colocar o centro europeu, principal responsável por este arranjo, perante as suas responsabilidades.

No momento em que se vão iniciar negociações entre o Governo e a troika FMI-BCE-CE, sabe-se que a austeridade provoca recessão económica e gera fracturas profundas, de que o desemprego elevado é a melhor expressão. As experiências grega e irlandesa exigem uma revisão das condições associadas aos mecanismos de financiamento em vigor. De facto, devido à austeridade intensa dos últimos dois anos, a economia irlandesa contraiu-se mais de 11% e a recessão grega atingiu 6,5% só entre o último trimestre de 2009 e o último de 2010. O desemprego ultrapassa já os 13% nestes dois países. A este ritmo, e apesar dos cortes orçamentais intensos, nenhum deles conseguirá reduzir a sua dívida. Isso só acontecerá com crescimento económico e com uma noção clara de que não é nos salários e no trabalho, mas antes na escassa inovação e na fraqueza organizacional de grande parte das empresas portuguesas, que residem os problemas de competitividade. Portugal não pode ser um laboratório para repetir as mesmas experiências fracassadas, e corremos o risco de uma recessão ainda mais prolongada, se tomarmos em consideração as previsões do próprio FMI.

Por tudo isto, considera-se necessário um apelo a um compromisso sob a forma de um programa de salvaguarda da coesão social em Portugal, de manutenção e reforço das capacidades produtivas do país para gerar emprego, com atenção às pessoas, evitando sacrifícios desnecessários. Os pontos essenciais de tal compromisso são os seguintes:

1. Garantir que em todas as decisões económicas e financeiras se coloca o objectivo de promoção exigente do crescimento e do emprego, reconhecendo que a sociedade portuguesa não comporta níveis de desemprego que outras sociedades registam, dada a fragilidade da estrutura de rendimentos e a insuficiência dos mecanismos de protecção social. A presença, já sugerida, da OIT nas negociações entre o Governo e a troika FMI-BCE-CE seria um sinal construtivo muito importante, colocando a questão do trabalho digno.

2. Desencadear um escrutínio rigoroso da despesa pública, auditando a dívida do país, sobretudo a externa, identificando com rigor as necessidades reais e os desperdícios da administração pública e salientando a necessidade de concentrar os recursos na esfera essencial das políticas públicas que combatem a exclusão social e a desigualdade, qualificam as pessoas e promovem a actividade produtiva, a competitividade e o crescimento da economia.

3. Afirmar que a educação, a saúde e a segurança social, bem como outros bens públicos essenciais como os correios, não podem ser objecto de privatização, fazendo da lógica lucrativa um mecanismo de regulação nestes domínios, visto que tal solução seria cara e insustentável financeiramente, levaria à exclusão de muitos e generalizaria injustiças sociais e regionais.

4. Recusar qualquer diminuição do papel do Estado no sector financeiro, sublinhando que a Caixa Geral de Depósitos deve permanecer integralmente pública e com uma missão renovada e que a regulação do sector terá mesmo de ser reforçada para evitar novos abusos.

Os signatários entendem que um compromisso deste tipo viabiliza as acções necessárias ao momento presente, capacita a sociedade para enfrentar positivamente as dificuldades e tem como objectivo tornar claro que, em circunstâncias graves, há direitos associados à dignidade do trabalho, ao respeito pelas pessoas e à garantia da coesão social que não podem ser postos em causa, sob pena de fragilizar gravemente o país e de eliminar qualquer capacidade própria de superar a situação dramática em que nos encontramos.

(Pode subscrever-se aqui. Eu subscrevo.)

quando certas coisas me cansam a mim, que devoro literatura negra, nem imagino quão devastador seja o seu efeito sobre cidadãos de alma pura

14:15

Ontem ouvi umas declarações do secretário-geral do PS sobre o "caso Nobre". Uma inutilidade - essas declarações. Já toda a gente percebeu o que se passou. E quem não percebeu é porque não quer perceber. Voltar a "explicar" tudo tintim por tintim é tratar os cidadãos como incapazes de perceber o que está à vista de todos. Que o líder do partido do governo desperdice tempo de antena com essas novelas, nesta altura do campeonato, como se fosse preciso mostrar às pessoas o que elas já viram, arrisca-se a ser interpretado como sinal de não ter nada de mais substantivo a dizer ao país. As pessoas não gostam disso. E está muito bem que não gostem.

É preciso largar a retórica do costume. O episódio pouco Nobre de um recente candidato presidencial embrulhado nas suas próprias fraquezas não passa, afinal, de uma amostra de um pecado generalizado na vida pública portuguesa (não só na política): o exercício voluptuoso da arrogância. Diz-se mal com demasiada pressa, faz-se de conta que a vida comum é fácil de levar e só corre mal por os outros serem tontos. Faz-se assim crer que "se fossemos nós" tudo seria fácil e escorreito. Nobre, com o seu discurso anti-partidos, e com este repentino volte-face, ilustra bem a coisa: os demais são culpados de todos os pecados; eu, se me puser no lugar deles, tenho, pelo contrário, direito a todas as interpretações favoráveis. É este emaranhado de arrogâncias que tem alimentado o fedor a ódio que tresanda na vida pública portuguesa.

Sócrates, que tem sido o principal alvo - vítima - da política de ódio que invadiu a vida pública portuguesa, pode ter a tentação de responder na mesma moeda. Até admito que tenha o direito de o fazer, já que não se lhe pode exigir que ofereça a outra face e é compreensível que queira que os outros provem uma gota que seja do veneno que lhe têm despejado em cima como dilúvio. Contudo, a meu ver não é disso que o país precisa nesta altura. O país precisa de quem seja capaz de reinventar a palavra no espaço público. Não a palavra de aparência poética mas sem conteúdo útil. Não a palavra da destruição, que essa está já em uso corrente. É preciso reinventar a palavra capaz de refrescar o laço social, a palavra capaz de virar os nossos olhos para o futuro comum, para o sonho concreto que seja possível. As próximas eleições, e a próxima campanha, não deveriam ser um ritual de desistência de nós próprios, mas um refrescamento das nossas cabeças e disposições.

Só poderá ganhar as próximas eleições quem perceba e pratique isso.