16.4.11

coisas que fazem muita falta em Portugal e talvez Passos Coelho nos consiga dar se lá chegar. ou não

11:00

A direita portuguesa é envergonhada. Ou tem vergonha de não ser propriamente social-democrata, ou tem vergonha de não ser bem democrata-cristã e nunca ter chegado a perceber a "doutrina social da Igreja", ou tem vergonha das duas coisas ao mesmo tempo - porque, no fundo, tem-se dedicado mais a "estar" do que a fazer. O resultado disso é que os únicos governos que tiveram condições para ser de direita-à-séria, os de Cavaco Silva, foram afinal apenas governos de gastar o dinheiro "da CEE" da forma mais acomodada possível, comprando acalmia com a ilusão de que "a torneira" tinha vindo para ficar.
Esta circunstância, aliada a um crónico medo do PS em tentar qualquer coisa que pareça demasiado arrojada para o lado da esquerda, teve um péssimo efeito sobre a política portuguesa: as pessoas estão convencidas que "os socialistas" e "a direita" são mais ou menos a mesma coisa. Esse "rotativismo" ameaça os próprios fundamentos do regime democrático. Parecia, inicialmente, que Passos Coelho vinha com vontade de mudar isto: ele teria, imaginava-se, um programa liberal em economia, que prometia romper a continuidade e desassossegar as pessoas, libertando as "forças ocultas da iniciativa individual" - e demónios associados. Isso teria uma grande vantagem: podermos incluir na história política da nossa democracia as feridas que a senhora Thatcher levou ao Reino Unido. As escolhas deixariam de ser tão teóricas, o termo de comparação com o que temos deixaria de ser apenas imaginário. Claro: o problema dessas "experiências sociais" é que elas custam caro, levam muitos anos a corrigir - e, entretanto, alguns atropelados nunca mais terão a sua oportunidade.
De qualquer modo, começo a suspeitar que nos vai escapar de novo essa oportunidade. Passos Coelho tem medo, quer mesmo ganhar as eleições com qualquer discurso e, por isso, anda a tentar esconder o seu programa com eufemismos. Até ensaia o expediente de ter um discurso em inglês e outro em português. Parece que não compreendeu que as revoluções radicais, com que ele às vezes sonhava antes de ir todos os dias à S. Caetano, são baseadas na frontalidade, na capacidade para assumir o programa. Não pode dizer que vai repensar a despesa com o emprego financiado por dinheiros públicos: tem de assumir que quer despedir funcionários públicos. O sangue só é vivo e queima as calçadas quando as pessoas o fazem com um propósito claro. Com as falinhas mansas com que Passos Coelho anda a encriptar o seu programa, a sua revolução vai ser pífia. Se calhar é pena: vai continuar a faltar-nos um módulo prático prático de introdução à governança. Ou não.


15.4.11

parabéns ao blogue Câmara Corporativa


Segundo este escrito, o tenebroso Miguel Abrantes, além do crime de andar sempre a escrever no Câmara Corporativa, terá também agora uma influência maléfica no The New York Times. Pelo menos parece ser a única explicação que o "articulista" (por assim dizer) encontra para se escreverem coisas naquele jornal, do outro lado do lago, que não colam com a sua (do "articulista") visão do "socratismo".

mensagens curtas para aquecer a crise no colo


Enrique Tabara (Equador), Shrubs, 1994


Pacheco Pereira revela ordem de silêncio a deputados do PSD sobre PEC4.

«O social-democrata Pacheco Pereira revelou na noite de quinta-feira no programa “Quadratura do Círculo”, na SICN, que no dia em que José Sócrates estava a negociar o Programa de Estabilidade e Crescimento (PEC4) em Bruxelas os deputados do PSD receberam uma mensagem em que lhes era pedido para não fazerem “nenhuma declaração” que “pudesse prejudicar as negociações”. "Não façam nenhuma declaração até logo à noite sobre a cimeira europeia", revelou Pacheco Pereira, salientando que este facto já era conhecido.»

liga europa


Vá. não se amofinem. Eu até rejubilei com o golo do Luisão, imaginem...


Fonte: Centro de Documentação 25 de Abril da Universidade de Coimbra.

e português-português, não há?


Universalizar a tradução automática.

«Um executivo português pega num telemóvel topo de gama para falar com um parceiro de negócios em França. Ambos carregam num botão no ecrã do aparelho para activar a funcionalidade de tradução automática. Cada um pode agora falar no conforto da sua língua mãe: o aparelho faz o reconhecimento de voz de cada um dos lados e uma voz computorizada traduz o discurso, em tempo real.»

Estão à espera de quê para inventar a tradução de português para português e vice-versa? (Quero dizer: português-de-Portugal de/para português-de-Portugal; entre portugueses e brasileiros ou moçambicanos não há problema, a gente entende-se.)


alguém conhece esta universidade?

12:17

Falta-me tempo (e às vezes falta-me paciência, engenho ou arte) para partilhar com os passantes por aqui certas pérolas que se vão encontrando pela blogosfera, seja por caixas de comentários, seja pelas primeiras páginas de blogues cheios da capacidade de dizerem o que lhes passa pela cabeça sem o menor receio do ridículo. Abro aqui uma excepção.
Aqui há tempos dei com um exaltado numa caixa de comentários que dizia que José Sócrates é tão mentiroso que, neste currículo que tinha feito chegar à Universidade de Columbia, tinha inventado um MBA que teria tirado numa universidade que nem sequer existe. A tal universidade que nem sequer existe chama-se Instituto Universitário de Lisboa (mencionado no tal currículo como Lisbon University Institute) e é, nem mais nem menos, o ISCTE. Que adoptou mais ou menos recentemente este nome.
Quando estas coisas são lançadas na espuma dos dias, alguém aproveita para esclarecer; perante o que, alguns mais envergonhados, fazem semblante de quem percebeu e calam-se com o disparate. Não obstante, alguns mais distraídos, ou mais renitentes a perceber o que não lhes convém, ou simplesmente mais desonestos, continuam pelas margens do mundo a repetir a calúnia. Uma e outra vez, sempre e sempre. No caso da "universidade que não existe", topei recentemente com um blogueiro e com um "comentador" no FB que voltavam à mesma conversa. Cheios de prosápia, os larápios da honra alheia continuam a ganir os seus ódios, mais ou menos às claras, mais ou menos nos cantinhos com mais sombra, mas sempre e ainda atacando os reservatórios de decência que tanta falta faz à coisa pública.

14.4.11

será mesmo impossível mudar as palavras?


Não pense que não tem nada a ver uma coisa com a outra... Não seremos, também, capazes de mudar as palavras da política portuguesa?


"Filósofos explicam a Literatura"

vemos, ouvimos e lemos: para que não se possa dizer que eu ignorei


Que se critique Passos Coelho e Fernando Nobre desta maneira, é uma javardice. (O "humor" não tem direito a tudo; muito menos o negócio do "humor" rasca.) Que gente decente aceite parecer que aplaude tal javardice, confundindo isso com política, é uma lástima.

(Às vezes fico triste com a blogosfera. Aliás, várias vezes tenho escrito que é um fenómeno incrível como gente normal, decente, inteligente, ponderada, quando afina os dedos para escrever num blogue, fica às vezes de repente tão fraca de forças que escorrega facilmente para uma escrita de segunda ordem capaz de efeitos muito perniciosos. Vou passar a chamar a isso o "efeito blogosténico".)

não, "eles" não são todos iguais

14:14

Cito José Reis Santos, no Diário Económico (12/04/2011):
Aparte as leituras sobre a responsabilidade de quem terá tido mais ou menos culpas na actual situação política nacional (até porque sinceramente delas ninguém poderá verdadeiramente esquivar-se), Sócrates procurou identificar o que poderá ser um debate interessante nestas eleições: que funções, hoje, deve ter o Estado neste cenário de crise económica e financeira mundial? E para o realçar individualizou as áreas da Saúde e da Educação, bem como a proposta de Passos Coelho para a privatização da Caixa Geral de Depósitos.
Este é um debate entre uma visão liberal e minimalista da sociedade, defendida por Passos Coelho, que pretende um Estado reduzido e com funções quase restritas às áreas da segurança e da representação externa (até porque as áreas económicas e financeiras estão cada vez mais em Bruxelas); e uma socialista moderna que entende que o Estado deve estar presente em mais áreas (nomeadamente nas sociais) e garantir, por exemplo, o acesso livre aos serviços de saúde e educação. E apesar de ser expectável que o PSD procure justificar esta visão minimal com o actual estado da economia portuguesa, na realidade estamos perante duas visões ideológicas bem distintas da sociedade.

Na íntegra: O tom e o debate.

"para dar a pessoas como eu um benefício fiscal de 200 mil dólares, eles vão obrigar 33 reformados a gastar mais seis mil dólares cada um em despesas de saúde"

10:38

O Presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, mudou decisivamente o curso do debate sobre o Orçamento para 2012 e, de forma mais abrangente, sobre o futuro fiscal do país, ao defender a necessidade de reduzir de forma drástica o défice público através de uma receita ponderada de cortes na despesa e reformas fiscais, para que os sacrifícios sejam partilhados por todos.

Continuando a citar o Público:
Numa declaração ao país, Obama disse que quer diminuir o défice em quatro biliões (milhões de milhões) de dólares nos próximos 12 anos, até 2023. Esse é um objectivo realista e que pode ser cumprido, garantiu o Presidente, sem "pôr em causa a recuperação da economia, criando postos de trabalho e protegendo os investimentos necessários para o futuro".
Parte da intervenção de ontem foi pensada como resposta à versão de Orçamento para 2012 apresentada há uma semana pela maioria republicana na Câmara de Representantes: um ambicioso documento que reclama cortes draconianos de 6,2 biliões de dólares na despesa, prevê maiores benefícios fiscais para a parcela mais rica da população e prevê a privatização dos programas Medicaid e Medicare.
Obama não se desviou dessa agenda, e até concedeu que os republicanos têm razão em insistir na redução do défice. "Temos de viver dentro das nossas possibilidades, temos de reduzir o nosso endividamento", sublinhou. Mas depois tratou de demonstrar como as "ideias radicais" dos republicanos não servem o país - não podem sequer ser aplicadas com justiça, argumentou. "Para dar a pessoas como eu um benefício fiscal de 200 mil dólares, eles vão obrigar 33 reformados a gastar mais seis mil dólares cada um em despesas de saúde", exemplificou.
"Não podemos considerar sério um plano de redução de défice que prevê um bilião de dólares em benefícios fiscais para milionários e bilionários", criticou. "Todos temos de fazer sacrifícios, sem sacrificar o futuro da América", disse.
Não me venham dizer que a política não serve para nada. Não me venham dizer que são todos iguais. Não me venham dizer que não há diferença entre esquerda e direita.

Acredita Portugal | Realize o Seu Sonho


Tendo como missão "reforçar e desenvolver a confiança dos Portugueses e nos Portugueses", a associação Acredita Portugal promove o Concurso Realize o Seu Sonho, uma iniciativa que desafia os Portugueses a transformarem os seus sonhos/ideias num conceito de negócio, independentemente da sua formação académica ou idade. As inscrições são gratuitas e podem fazer aqui até 15 de Maio. Prémios até 60.000€.




13.4.11

eh pá, palavra de honra, isto é só para nos rirmos um bocadinho enquanto não paga imposto


O PSD e o candidato surpresa.



eu não consigo explicar isto




Aqui ao lado, a sondagem: «Há assim uma diferença tão grande entre um telefonema e uma reunião de 4 horas?»

pronto, lá vem ele com a conversa da política do ódio

14:30

Acho que alguns leitores estranham a minha insistência em denunciar a "política do ódio" que por aí tem andado. Torno-me um chato, eu sei. Mas eu também não ando aqui para vos amenizar os dias, ando aqui para vos espicaçar. Para vos incomodar, mesmo. Hoje quero dar-vos um exemplo concreto do que quero dizer.

A política do ódio tem servido para substituir a política. A política do ódio não é criticar. Criticar, até criticar veementemente, "faz parte". Sarcasmo, ironia, picardias: tudo isso é condimento quando a comida é boa. "Política do ódio" é outra coisa: rasteira, difusa, generalizada, esquiva, insinuante mas fugindo tanto quanto possível à declaração escrutinável.
Convenhamos que a técnica usada contra Sócrates foi mais específica: o primeiro-ministro foi alvo de uma tentativa de criminalização. Tentaram fazer-nos crer que ele era um criminoso, recorrendo mesmo à conspiração (provada em tribunal) entre um político, um jornalista e um polícia para "parir" um processo concebido para o sentar no banco dos réus de um tribunal comum. Também tentaram tratá-lo como um criminoso político: quiseram convencer o país que ele mentira ao parlamento e gastaram horas infindas de trabalho parlamentar para isso. Para acabar em ar o que nunca fora mais consistente do que o ar. Gastaram-se anos de emporcalhamento da vida política a desmontar todas essas atoardas.
Mesmo assim, a política do ódio é outra coisa, mais popular, de consumo mais imediato, mais esquiva, mais vaga, mais babugem apenas. Querem um exemplo: leiam esta posta e respectiva caixa de comentários. Pelo nome, Albergue Espanhol, reconhecem logo a marca do passismo. Vejam bem que não há só gaivotas em terra, vejam bem como eles se vestem bem.
Já agora, para começar a responder à pergunta do tipo que não sabe para que tem servido o Partido Socialista, damos-lhe uma primeira pista. Assim só para começar, que tal o Serviço Nacional de Saúde?


1978 - O Despacho ministerial publicado em Diário da República, 2.ª série, de 29 de Julho de 1978, mais conhecido como o “Despacho Arnaut”, constitui uma verdadeira antecipação do SNS, na medida em que abre o acesso aos Serviços Médico-Sociais a todos os cidadãos, independentemente da sua capacidade contributiva. É garantida assim, pela primeira vez, a universalidade, generalidade e gratuitidade dos cuidados de saúde e a comparticipação medicamentosa.
História do Serviço Nacional de Saúde


cidadania, renovação, entrega à coisa pública - sim, mas sem exageros. que um marechal não pode ser rebaixado a mero capitão

13:37

Fernando Nobre renuncia caso não seja eleito Presidente da Assembleia da República.

Quer dizer: vai ser um falso candidato a deputado. Aparece na lista como candidato a deputado, mas se os eleitores não lhe derem o rebuçado a que ele se julga com direito, vai-se embora. Está, portanto, a gozar com a instituição parlamentar, com as eleições, com os eleitores. Não é o primeiro. Infelizmente, não há-de ser o último. Mas é triste.

'pera lá: hoje é 1 de Abril, não é?!


temos de continuar com janelas pequeninas ao canto



Assim o exige o calibre do filme.

(Cuidado, contém um actor que continua a chamar mentirosos aos outros.)



Zeca numa palavra


Joaquim Vieira dirigiu um documentário em três partes sobre José Afonso, o qual será exibido na RTP1 nos próximos dias 24, 25 e 26 deste mês, a seguir ao Telejornal (cerca das 21h00). A alguns dos entrevistados para o documentário "Maior que o Pensamento" foi pedido que resumissem a figura do artista numa única palavra. Daí resulta um segmento, que não fará parte do programa, pelo que só pode ser visto na rede. Ei-lo. Pensa tu também uma palavra para o Zeca.



12.4.11

programas: de muito pouco ou nada à proliferação desordenada


Nuno Morais Sarmento, no programa "Falar Claro" da Renascença, afirma, sobre a apresentação de Fernando Nobre como candidato a presidente da Assembleia da República, o seguinte: «O lugar de presidente da Assembleia da República é um lugar de intervenção passiva.» Está ele a tentar explicar que a escolha de Nobre para tal função é desadequada.
Ora, não é nada assim que Fernando Nobre entende as coisas. Segundo a edição de ontem do Diário Económico, Fernando Nobre «adiantou estar já a preparar um programa que submeterá aos futuros líderes parlamentares, "para gerar mais consensos, para reforçar o regime e a Democracia, para abrir novas oportunidades de auscultação e diálogo com os cidadãos"». Ah, agora os presidentes da Assembleia da República também têm programa... Com um pouco de jeito, ainda consegue inventar um governo de iniciativa presidencial... do presidente da Assembleia. Havia de ser bonito. (Ainda bem que Nobre não sabe quem serão os futuros líderes parlamentares, se não haveria de querer começar já a reunir com eles para lhes explicar o seu "programa".)

Vamos lá a ver se nos entendemos. Não tenho nada contra a chegada de independentes à política. Se Nobre tivesse andado a dizer este tempo todo que "a política precisa de renovação, os partidos precisam de renovação, isso faz-se com gente que vem de outras vidas, quando eu achar que é importante intervir darei a minha colaboração a um partido, aquele que na altura entender que está a fazer o melhor trabalho para o país" - se ele tivesse andado a dizer isto, a sua actual candidatura seria entendível. O que cheira mal é querer pular para número dois do Estado, poucos meses depois de se ter candidatado a número um, nas listas de um partido político cujas propostas actuais são o oposto daquilo que Nobre defendeu anteriormente, poucos dias depois de ter jurado a pés juntos que nem com uma mó ao pescoço faria tal coisa. Os mais gravosos contributos para a degradação da política vêm muitas vezes dos mais radicais críticos da política e dos políticos. Dito de outro modo: as supostas virgens são frequentemente fracas conselheiras de virtude, porque falam do que não sabem e acontece ficarem alucinadas quando lhes dão a provar da vida.

deixem-me lá colocar isto em tamanho muito pequenino


A ver se passa entre as gotas da chuva.



cenas dos próximos capítulos

15:13
Dennis Sibeijn, Verdade

Enquanto dizia lá fora que não tinha aprovado o PEC IV por este não ir suficientemente longe, ao mesmo tempo que dizia cá dentro que não aprovava o PEC IV porque não se podiam pedir mais sacrifícios aos portugueses; depois de Miguel Relvas passar aquela fatídica sexta-feira a dizer que o PSD não faltaria às suas responsabilidades apoiando todas as medidas que fossem necessárias para enfrentar a crise, Passos Coelho ao fim da noite dizia que não estava para aí virado e que o PEC IV iria ser chumbado. Principal desculpa: o governo não tinha passado cavaco ao principal partido da oposição, sem cujo apoio nada daquilo se poderia fazer. Assim nasceu mais um dos episódios da política do ódio em que o PSD tem mergulhado uma e outra vez: tinha sido esse silêncio desleal de Sócrates que tinha provocado a ruptura, de tal modo que o PSD não podia outra coisa se não chumbar o PEC e, retirando ao governo os meios de governar, empurrá-lo e abrir uma crise política. Depois veio a história do telefonema: Sócrates tinha falado, mas apenas um telefonema. Afinal, Passos Coelho esteve quatro horas a falar sobre o PEC IV com Sócrates. Afinal, o telefonema tinha sido só para combinar o encontro. Agora, Passos Coelho obstina-se em tentar dourar a pílula: eles falar, falaram; mas não negociaram. Uma vez que esta verdade-verdadinha de Passos Coelho vem a conta-gotas, esperemos sentados pelo resto da novela.

Não seria melhor acabar com as tentativas de disfarçar os problemas políticos com querelas pessoais (quantas vezes já acusaram Sócrates de mentiroso, para depois se vez que pinóquios são os que acusam?), assumir a necessidade de compromissos e criar outro tipo de corrida? Seria uma corrida a ver quem encontrava melhores pontos de convergência, melhores combinações de propostas à partida diferentes. Seria uma competição política pela positiva, tentando enterrar de vez esta manobra velha de seis anos que consiste em substituir o nobre combate político pelas tentativas de assassinato de carácter.

Machina Enxuta, número dois

11:47

Os temas de hoje: a chegada do FMI; o congresso do PS.

Um aviso à navegação: não se equivoquem com a aparente bonomia do debate do primeiro tema...

Ah, desta vez conseguimos ser um bocadinho menos longos. A sério!



ainda bem que não foi telefonema; estar ao telefone quatro horas teria causado um enorme buraco no défice


João Galamba anda a ouvir Passos Coelho. O que dá nisto:
A principal novidade da entrevista de Passos Coelho à TVI foi a de este ter admitido que mentiu quando disse que o PSD tinha sido informado do conteúdo do PEC por telefone. Afinal, contrariamente a muito do que foi sendo dito durante o último mês e que justificou tantas criticas ao governo, houve um telefonema, é certo, mas este foi para marcar uma reunião em S. Bento entre Passos Coelho e Sócrates, que, segundo Judite de Sousa, terá durado quatro horas, e teve como tema as linhas de orientação do PEC que o governo ia apresentar em no Conselho Europeu extraordinário de dia 11 de Maço. Perante isto, podemos fazer várias perguntas: por que razão Passos quis, deliberadamente, passar uma ideia errada sobre o comportamento do primeiro-ministro?; o que foi discutido e quanto tempo durou essa reunião?; qual a ligação entre a reunião, as declarações de Relvas e a comunicação de Passos, onde este disse que o PSD afinal não ia aprovar o PEC? por que razão o gabinete do primeiro ministro não revelou, há mais tempo, ter havido uma reunião? Enfim, podem fazer-se imensas perguntas (...).

Na íntegra: Não inscrição.

Acrescento: a mentira ilustrada pelos seus próprios autores. (Já agora, Miguel, seria bom não rejubilar com esta revelação. Umas das perguntas que o João Galamba faz, a propósito deste imbróglio, ainda vai dar pano para mangas. Voltarei a isto. Ou não...)

11.4.11

amanhã há Machina Enxuta

19:53

erro? ou um jornal que mente com quantos dentes tem?

a blogosfera do ódio tem uma falta de brio que até dói


Este vídeo que aqui deixo tem sido muito difundido por uma "certa" blogosfera. Dão-no como exemplo da ditadura que grassa dentro do PS. (A sério, há quem diga isso.) Peço-vos, por favor, que ouçam a intervenção do homem no congresso do alto da tribuna e, depois, esclareçam-me: são palavras destas que acham representativas de alguma crítica interessante à linha maioritária do PS? É nesta elaboração política e programática que se revêm, grandes doutores do ódio ao PS?



em torno da noção de compromisso, acreditar na inteligência dos cidadãos

17:16

Ali mais abaixo divulguei o texto Um Compromisso Nacional, subscrito por um lote muito diversificado de personalidades da vida pública portuguesa, onde se especifica a necessidade de, em dois planos diferentes, fazer convergir diferentes visões acerca das prioridades para o nosso país. Não vale a pena estar aqui a repetir o texto, por favor não deixem de o ler.

Venho aqui agora por causa de um comentário que o estimado JPN lá deixou. Depois de citar o documento, no ponto em que especifica os dois compromissos sugeridos, JPN comenta: «isto é contraditório com algumas posições assumidas por alguns dos signatários».

Respondi-lhe o seguinte: «Joaquim, é claro que é verdade o que afirmas. Qualquer compromisso passa por abandonar algumas das coisas que se disseram anteriormente. Muitas vezes um compromisso passa por aceitarmos pessoas que não apreciamos. Não em nome do que está para trás, mas em nome do que podemos fazer para a frente. Compromisso é isso. Infelizmente, essa tua reacção imediata é a de muita gente. Não conseguimos pensar para lá disso? Devemos, acho eu.»

Trago para aqui este diálogo de caixa de comentários por querer sublinhar isto: precisamos de um compromisso e um compromisso não é uma soma do que já se sabe. Compromisso é admitir que talvez as nossas ideias não sejam as únicas boas, que talvez algumas das nossas ideias até nem sejam assim tão valiosas como isso, que certamente algumas das nossas propostas são menos essenciais do que outras e podem ser trocadas por outras formas de fazer as coisas. Compromisso é encarar positivamente o facto de não vivermos num mundo onde toda a gente concorda connosco, aceitar que não deixámos para os outros o monopólio do disparate, prescindir de estar sempre a fazer contas ao passado e começar a fazer mais contas de futuro. Compromisso há-de ser, também, começar a falar de outra maneira, com menos insultos, com palavras mais neutras para falar dos defeitos dos outros (e dos nossos), incidindo mais nas diferenças objectivas das propostas do que nas cores de guerra que elas prometem. Isto parece-vos conversa da treta?
Dou apenas um exemplo de uma forma menos ideológica de discutir, que gostaria de ver acontecer. Caixa Geral de Depósitos, privatizar ou não. Em vez de dizermos que o PSD quer entregar o ouro ao bandido, podemos explicar quais as funções que a CGD pode desempenhar sendo pública e não pode desempenhar sendo privada. Essa discussão pode, aliás, ter a vantagem de analisarmos mais criticamente se ela tem feito bem aquilo que justifica o seu estatuto. A forma como Paulo Portas colocou a questão, por exemplo, não resolve definitivamente o problema, mas é uma modalidade de discussão mais concreta e menos agressiva ideologicamente neste momento: agora não é o tempo de privatizar a Caixa, porque a situação financeira não promete uma boa venda.

Estou convencido que os partidos que mais rapidamente dêem mostras de querer ir pelo caminho do compromisso, sairão beneficiados eleitoralmente. Já aqui defendi que o PS deve mostrar mais empenho em tecer convergências com outras forças políticas, quer à direita quer à esquerda. Por eleitoralismo? Se ser eleitoralista é reconhecer aquilo que o país precisa e as pessoas entendem, então que seja por eleitoralismo. O PS e os demais partidos parlamentares são co-responsáveis por termos tolamente iniciado esta legislatura com um governo minoritário. Que mal vem ao mundo por reconhecerem, todos, que subestimaram o risco dessa situação? Reconhecendo-o, poderão começar a agir em conformidade.

Está na hora do compromisso. Concreto. Quer dizer: exemplificado. "Estamos dispostos a analisar isto e aquilo, em rever neste e neste ponto o que dissemos antes, para facilitar uma convergência." Não estou a pedir que a política se transforme no chá das cinco das tardes sensaboronas. Nem estou a pedir que desapareça um certo grau de agressividade, que é normal e saudável - e até divertido. Estou a pedir que isso não impeça que se faça o que há para fazer. Será que ninguém acredita na inteligência dos cidadãos?


Jay Reatard - "It Ain't Gonna Save Me"



uma pequena pergunta

14:30

Se o resultado das próximas legislativas mostrar que o PS é indispensável para fazer uma maioria suficientemente grande para enfrentar a crise, e se a aritmética evidenciar que o PS tem deputados para fazer essa maioria quer com a direita quer com a esquerda da esquerda, Louçã e Jerónimo o que farão? Dirão a Sócrates "entenda-se com Passos Coelho"? Se acreditarmos que continuarão então como têm sido até agora, é isso que podemos esperar que façam: que sejam a passadeira vermelha para Passos Coelho. Para acreditarmos que farão diferente, terão de dizer alguma coisa de novo.

economia das postas de pescada


Não vou lá dizer-lho na caixa de comentários - pela simples razão de ele não admitir comentários. Mas certas coisas são simplesmente falta de honestidade e, como tal, apesar de preferir não lhes ligar, não as posso deixar passar em claro.
Anda meia bloga da direita política a espumar de furor ou a remoer o embaraço do convite de Passos Coelho a Fernando Nobre. E estão no seu direito. Contudo, talvez sem tempo para ler esses blogues, Miguel Noronha vem meter-se comigo por causa das minhas opiniões acerca do mesmo assunto. O habitual tique totalitário de Noronha, que consiste em meter todos os que não pensam como ele no mesmo saco, de reduzir o resto do mundo ao indiferenciado "abrantes e afins" (no tempo de Salazar, seria simplesmente "os comunistas"), já não espanta. Pela insistência no truque parece ser-lhe difícil conviver com a pluralidade de opiniões. Enfim, talvez saia com Skip, mas essa nódoa já se lhe entranhou. Agora, meter palas a enquadrar os olhos e fazer de conta que não sabe o que não lhe convém, é sarnento.
Não me lembro nada de ter pago ao Miguel Noronha para fazer publicidade a este blogue. E humildemente confesso que me irritam estes malabarismos daquilo que o grande intelectual orgânico JPP um dia classificou como submundo da blogosfera. O submundo não são blogues, nem blogueiros, nem ideias. Nada me move contra outras tascas como esta, outros editores como eu, ideias parecidas ou muito diferentes das minhas. O verdadeiro submundo da blogosfera é a prática de dar palha a comer aos leitores só para encher linhas e alongar a lista de postas. É que a informação tem uma característica que a diferencia tramadamente de outros "produtos": só depois de a consumirmos é que vemos a porcaria que nos impingiram. Se pudéssemos primeiro consultar o rótulo, poupávamos, pelo menos, tempo. É dessa característica da informação que abusam autores como este de que agora tive de vos falar.

vamos ver se nos entendemos

10:10

Sem entendimento entre partidos não haverá resgate financeiro. «Os responsáveis europeus começam a dar sinais de impaciência com o desacordo público entre o governo, a oposição e o Presidente da República sobre o programa de assistência financeira a Portugal, frisando que só haverá ajuda em troca de um entendimento completo e sólido a este respeito entre os principais partidos políticos.»

Já seria ridículo haver partidos que pensam poder obrigar os outros países europeus (e o FMI) a emprestar-nos dinheiro sem Portugal dizer o que lhe vai fazer (assinar o compromisso para o acordo, que se costuma chamar "memorando de entendimento"). Cavaco Silva ir para a Hungria com a mesma conversa, é de um ridículo acrescido - ele que nem tem a desculpa de estar em campanha eleitoral. (Ou não devia estar, mas se calhar até está, já que foram os seus discursos incendiários que convenceram Passos Coelho que estava na altura de partir a louça toda.) Afinal, tanto barulho para os ministros da economia e finanças da UE virem dizer que o ponto de partida da negociação é o PEC IV.
Agora que terminou o interregno daquele disparate de Teixeira dos Santos (dizendo que não seria o governo a negociar com a oposição a posição portuguesa), graças à clarificação introduzida por Sócrates (é mesmo o governo que vai tratar de confortar a posição portuguesa), está na hora de deixar de brincar com o fogo. Portugal começa a ser ridicularizado "lá fora" por dar a ideia que há quem pense que vai obter um empréstimo a troco da mera promessa de que mais tarde dirá o que pensa fazer com ele. Um pouco de sentido de Estado, que já é tempo. Por favor.

n'obre


Eh, pá, andavam para aí a dizer que "os abrantes" iriam fazer uma campanha contra o candidato Nobre a segunda figura do Estado pelo passismo. Então, mas isto é tudo abrantes?

«Já todos tínhamos percebido que Fernando Nobre foi um candidato inventado por Mário Soares para atrapalhar a vida a Manuel Alegre. O que eu não sabia era que Mário Soares tinha tanta influência ao ponto de indicar o candidato do PSD a presidente da Assembleia da República.»

«Será que alguém se lembrou que para a eleição de Presidente da AR, são precisos os votos da maioria dos deputados.Isto é PSD + PS ou PSD + BE+ PCP ou PSD + CDS.» (A pontuação é deficiente, mas é a original, não vou meter-me em assuntos de outras famílias.)

(Continuo a pedir que me ajudem a compreender o mundo, votando na "sondagem" aqui na coluna ao lado.)

10.4.11

a cidadania chegou à política?


Um novo quadro do blogue Albergue Espanhol escreve um texto sobre a candidatura de Fernando Nobre a deputado, nas listas do PSD. Sobre isso, titula: A cidadania chegou à política. Será que João Gomes de Almeida, pela parte que lhe toca, quer dizer que, sem Nobre, o PSD e Pedro Passos Coelho não estavam imbuídos do espírito de cidadania? Tão pungente testemunho, mesmo vindo de quem parece conhecer o PSD melhor do que eu, não deve ser levado à letra. Eu não acredito que o PSD esteja assim tão desprovido de cidadania que só lhe tenha sentido o cheiro com a chegada de Nobre. Com franqueza, acho uma confissão excessiva.




há um país onde há uma ditadura do PSD

uma Nobre adivinha


O que é que está errado neste vídeo?
(Não, não é a Presidência da Assembleia da República.)

(E não se esqueça de votar na "sondagem" aqui ao lado.)


os sacrifícios que uma pessoa faz pelo país


Fernando Nobre disse que foi “muito difícil” aceitar o convite do PSD para ser cabeça-de-lista do partido por Lisboa. Mas a dificuldade foi amenizada pela promessa da presidência do Parlamento. Nas suas próprias palavras: “Pela primeira vez na história da democracia portuguesa, um cidadão independente, sem vínculo partidário, poderá contribuir, com a sua intervenção, na gestão da política, num lugar de tão grande relevância como é a Presidência do Parlamento”. Ser candidato a deputado, simples deputado, isso não, que esses políticos são uns toscos. Mas presidente do parlamento, isso sim, é coisa fina e onde se pode fazer qualquer coisa de muito interessante pelo pais. ããããã...

o PEC IV e os ilusionistas

19:44

Vários "comentadores" (alguns vestidos de políticos) e vários "políticos" (alguns vestidos de comentadores) fazem declarações onde revelam algum espanto por Sócrates ter dito que as negociações sobre a "ajuda externa" vão ter por base o PEC IV. E dizem "mas isso foi chumbado pelo parlamento nacional". Pois foi chumbado, pois foi. É por isso que o PEC IV será "a base", "o ponto de partida". Depois haverá que acrescentar as consequências da crise política que então não existia e agora existe.
Entretanto, "pormenor" que parece escapar a alguns, não é uma teimosia de Sócrates que suporta essa declaração. O PEC IV, anteriormente apresentado pelo governo agora demissionário, vai ser a base das negociações por assim ter sido decidido pela outra parte negocial, os restantes parceiros europeus: os Ministros da Economia e Finanças da União Europeia e do Eurogrupo, reunidos na passada sexta-feira. Ao pessoal que anda a tratar da campanha eleitoral e não tem tempo para seguir estas minudências, presto o serviço de dar aqui o link para o comunicado respectivo, no original, onde vem esta pequena frase: «The set of measures announced by the portuguese authorities on 11 March is a starting point in this regard.» Se Miguel Relvas precisar, também há versões portuguesas razoáveis do comunicado.
Sim, ou alguém acredita naqueles que, depois de terem provocado a crise política, agora reclamam "mandem lá a massa que nós depois das eleições dizemos o que vamos fazer com ela"?

"sondagem"


Não menos rigorosa do que outras que por aí andam. Está aqui ao lado: "Quem revela mais oportunismo na candidatura de Nobre a deputado pelo PSD?"

Fernando Nobre desmente Passos Coelho?

PSD promove harmonia institucional


Manuela Ferreira Leite, quando era presidente do PSD, achou que Passos Coelho nem para deputado dava, não o tendo deixado ser candidato ao parlamento. Agora, Ferreira Leite aproveita quando Passos Coelho lhe dá o palco, não para defender o PSD, mas para ajustar contas da sua passagem pela presidência do Partido. Em coerência, declinou o convite para ir na lista de Lisboa do PSD, o que Passos Coelho aproveitou para convidar Fernando Nobre a fazer de candidato a presidente do Parlamento. Passos Coelho parece estar a querer avisar os cavaquistas: "por cada cavaquista que falte à chamada, meto um 'Nobre' dentro do barco - e depois não se queixem".

Se Fernando Nobre chegar a presidente da Assembleia República pela mão do PSD, teremos, não uma, mas duas magistraturas activas...

Nobre acusa Cavaco de ter destruído o sector produtivo do país.

Nobre acusa Cavaco de estimular medo
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Nobre defende que Cavaco deve explicar "a quem comprou e vendeu" ações do BPN
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Nobre sublinhou que a presidência de Cavaco Silva "foram cinco anos perdidos".

Fernando Nobre afirmou hoje que “Cavaco Silva falhou na sua função” e que “já poderia ter accionado a bomba atómica e dissolvido a Assembleia da República”.

Nobre responsabiliza Cavaco e Alegre por «iminente» chegada do FMI
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se Luís Fazenda quiser concorrer pelo PSD, Passos Coelho candidata-o a presidente do Tribunal de Contas?

mais um episódio da saga dos independentes na república

17:43

Fernando Nobre é candidato do PSD à presidência da Assembleia da República.

Ora, aí está mais um exemplo do papel dos "independentes" na política portuguesa. Claro, alguns são menos apressados do que outros a "rentabilizar", mas neste conto já só cai quem quer. A tentação do "cheguei, vi e venci" continua a ser muito grande. As ideias de Fernando Nobre, bem misturadas com as ideias de Passos Coelho, talvez já dêem um programa - a menos que a interacção seja a subtrair.