8.5.09

dá-me aqui uma mão sff

alguém anda a atear fogos em copos de água


Rogério Moreira, do BE, escreve sobre a questão do financiamento dos partidos:

«Nada do que é fundamental para garantir transparência e seriedade nas contas mudou. Nem os donativos anónimos passaram a ser permitidos. Nem as empresas passaram a poder financiar os partidos. Nem a regra que impede o anonimato foi alterada. Nem os limites aos donativos de particulares foram aumentados. Nem a obrigatoriedade do mecanismo bancário para a recolha de donativos. Nem o modelo de apresentação de contas e de fiscalização detalhada pela entidade competente teve alterações.»

«Até agora bastava que, por exemplo, pouco mais de 1000 aderentes do Bloco pagassem a sua quota anual em numerário para se ultrapassar os irreais limites da lei. Bastavam os pagamentos de 10 ou 15 euros em iniciativas com jantares ou almoços, como as que habitualmente realizamos, serem feitos em dinheiro, para que uma multa fosse aplicada. Já para não falar do ridículo que era obrigar a que o pagamento de uma sandes ou de uma bebida tivesse de ser feito com cheque ou cartão bancário. É apenas nos casos de receitas deste tipo, de quotas e de angariações de fundos, sempre inferiores a 100 euros, que a legislação vem agora ampliar os plafonds e, assim, introduzir alguma sensatez. Sempre devidamente justificadas, contabilizadas e sujeitas a fiscalização, como aliás não podia deixar de ser. No caso das quotas, através da emissão dos respectivos recibos, com o nome e completa identificação do aderente; no caso das angariações de fundos e vendas de bens com os registos próprios que a Entidade das Contas sempre verifica, muitas das vezes com representantes seus no próprio local onde as acções decorrem.»

Se isto não é verdade, alguém que o desminta. Se tudo isto é verdade, anda para aí muita gente a dizer disparates. Porque gostam de falar mal dos partidos. Apesar de não conhecermos hoje em dia nenhuma democracia que funcione sem partidos.

Ferreira Leite disponível para ajustar lei do financiamento dos partidos.

(O texto de Rogério Moreira está na íntegra aqui.)

se eu vi e tomei as imagens destas nuvens...



... de certo não me estará vedado apreciar o surgir daqueles raios de sol, em feixes bem desenhados, que lembram os quadros ingénuos em que se representa o Espírito Santo como pura luz.



(Clicar amplia.)

7.5.09

o declive da colina


«O ano passado, vários investigadores estudaram 34 alunos da Universidade da Virgínia levando-os para o sopé de uma colina inclinada. Aí foi-lhes pedido que calculassem o declive da colina. As estimativas dos alunos que estavam acompanhados por amigos indicavam declives menos acentuados. E quanto mais antigos eram os amigos menos inclinada parecia a colina.»

(Último parágrafo do último texto da última página do primeiro número do novo quotidiano i. Encontra-se também aqui.)

6.5.09

o cravo e a ferradura

para que serve o Parlamento Europeu?

14:30

Hoje, o Parlamento Europeu (PE) toma posição sobre uma proposta de directiva "relativa à implementação de medidas destinadas a promover a melhoria da segurança e da saúde das trabalhadoras grávidas, puérperas ou lactantes no trabalho". Estando essa proposta de directiva enquadrada pelo mecanismo de co-decisão, o PE terá um papel decisivo no seu conteúdo final.
Para esta proposta, a relatora principal, por parte da Comissão dos Direitos da Mulher e da Igualdade dos Géneros do PE, é a socialista portuguesa Edite Estrela. Estes relatórios são o instrumento básico do PE para influenciar a legislação comunitária. Assim, Edite Estrela aproveitou para fazer com que aquela comissão parlamentar propusesse, para todo o espaço da UE, o alargamento da licença de maternidade para pelo menos 20 semanas consecutivas antes e/ou após o parto, com a manutenção da integralidade da remuneração, bem como a obrigatoriedade da licença de paternidade passar para duas semanas. É hoje o dia de o plenário do PE se pronunciar sobre essas propostas. (Relatório na íntegra aqui.)
Estas propostas vão num sentido muito necessário, tanto do ponto de vista da promoção da natalidade como do ponto de vista do aprofundamento dos direitos dos trabalhadores, até no que toca à conciliação entre vida profissional e vida familiar.
Contudo, estas propostas estão condenadas, pelo menos para já, porque contra elas está a direita europeia, nomeadamente o PPE, o mesmo partido que apoia Barroso para presidente da Comissão.
Ainda há quem diga que é indiferente votar esquerda ou direita para o Parlamento Europeu...




photoshop e outras ferramentas

à procura de grão vasco

O fim de semana passado começou cedo, mesmo antes do prolongamento justificado pelo Dia do Trabalhador.
Rumámos a alguns dos locais do país onde, fora de Lisboa, melhor se podem apreciar vestígios da obra de Grão Vasco, o grande Vasco Fernandes, que pintou no Portugal de Quinhentos, de forma notável, principalmente ali para os lados de Viseu e Lamego. Mas incluímos outros prazeres no roteiro.

É em Viseu que está, no Museu Grão Vasco, o maior lote de obras notáveis de Grão Vasco.


Sé de Viseu.


Claustros da Sé de Viseu. (Foto de M.Marques.)


Contudo, a verdade é que começámos por S. João de Tarouca, perto de Lamego, onde terá sido a primeira implantação da Ordem de Cister no nosso país, ainda no século XII. Ainda há sinais do que terá sido a grandiosidade do espaço, apesar de só se encontrarem em (relativamente) bom estado de recuperação a igreja e a torre sineira.




Aqui, na igreja, tivemos a oportunidade de ver o S. Pedro, que parece ser hoje mais ou menos unanimemente atribuído a Gaspar Vaz, da escola de Grão Vasco, mas não à mão do próprio mestre. Tem o interesse de apresentar um claro paralelismo com a grande obra homónima de Grão Vasco (foto seguinte).




Trata-se de uma igreja muito interessante. Por exemplo, a capela-mor está preenchida com painéis de azulejos representando cenas históricas (ou assim consideradas). Um desses painéis representa o lançamento da primeira pedra do mosteiro na presença de D. Afonso Henriques (foto seguinte).




Os azulejos, do século XVIII, revelam detalhes curiosos. Por exemplo, um participante de óculos, que não parece que fossem muito usados no tempo de D. Afonso Henriques (foto seguinte).




Passámos depois por Salzedas, e respectivo Mosteiro de Santa Maria, que datará também do século XII, tendo sido construído em espaço provavelmente doado pela mulher de Egas Moniz. Sofreu sucessivas ampliações e restauros, mas está presentemente num estado pouco louvável (fachada na foto seguinte).




Ainda em Salzedas visitam-se os supostos vestígios da judiaria, que na verdade não me convenceram muito (foto seguinte).




No sábado à tarde, depois de visitar o magnífico Museu de Lamego só para ver mais alguns painéis de Grão Vasco, fomos de fugida ao Porto, Casa da Música, ouvir (e ver) a primeira execução em Portugal da obra Gruppen, de Karlheinz Stockhausen, que envolve uma orquestra reforçada dividida em três secções, dirigidas por maestros diferentes e colocadas em posições diferentes (com o público algures no meio). Um pouco menos de 25 minutos, integrados na 3ª edição do Música e Revolução, que valeram a pena. A visita foi ensejo para rever amigos, que ainda nos levaram ao Museu Soares dos Reis, exclusivamente para uma visita à exposição "Esperando o Sucesso": impasse académico e modernismo", sobre Henrique Pousão, em torno da sua pintura Esperando o Sucesso, realizada em Roma em 1882, na qual se representa o tradicional tema do descanso do modelo no atelier do artista. Não obstante, do que vi de Pousão gostei especialmente de uma obra que não estava nessa exposição: Rapariga Deitada num Tronco de Árvore (1883, inacabada, por morte do artista aos 25 anos).



Henrique Pousão,
Rapariga Deitada num Tronco de Árvore, 1883 (inacabada), Museu Nacional de Soares dos Reis


A caminho do Porto, ali entre Peso da Régua e Amarante, fomos confrontados com magníficas cores da natureza nas serras. Cores que talvez resultem de terrenos excepcionalmente ferrosos (alguém nos corrige?).




Ainda queríamos passar pela sacristia da Igreja de Santa Cruz em Coimbra, para ver um Pentecostes que Grão Vasco aí pintou por volta de 1535. Mas a igreja tinha fechado e não ía reabrir, graças à Queima das Fitas que começava nesse domingo. Pena, porque estava com vontade de revisitar, não apenas a sacristia, mas também os claustros de Santa Cruz, onde brinquei livremente (e sem pagar bilhete, como agora) nos meus tempos de menino. Fica para outra vez.

E, para não terminar sem um toque das paisagens estranhas que por aí andam, fechamos com uma montra de Viseu à noite.





Em torno de Grão Vasco, sem dele nada vos mostrar directamente. Mas basta googlar...

aplauso


Rangel alerta para um "Estado a caminho do declínio" e defende que a solução passa pelo federalismo europeu.


Rangel, apesar das salvas de pólvora seca com que tem povoado a sua entrada em campanha, começa a arriscar fazer propostas e defender ideias. O que é bom, por imprecisões ou mesmo erros que lá venham dentro. Trazer o federalismo para cima da mesa, por exemplo, é de aplaudir. Se outras candidaturas continuarem, pelo seu lado, a ser rodeadas pelo discurso Maizena, ainda vamos ter surpresas. É que para ganhar eleições é preciso fazer por isso.

5.5.09

está tudo grosso?


Paulo Rangel tem de "comer muita papa Maizena", afirma Manuel Pinho.


Já não bastava Basílio Horta, enquanto presidente da AICEP, meter-se numa campanha eleitoral a criticar as propostas de um candidato da oposição - o que, a meu ver, está errado e merecia que alguém que mande alguma coisa em Basílio Horta o repreendesse. (Acharia o mesmo se ele atacasse um candidato do PS.) Para além disso - ou, mesmo, ao invés disso - temos um ministro a defender Basílio Horta e a atacar Paulo Rangel. E esse ministro a ser mal educado nesse ataque. Sim, Paulo Rangel também é frequentemente mal educado: mas ele é candidato e os eleitores é que devem julgar isso, não os ministros. Será que Paulo Rangel já conseguiu convencer toda a gente que o seu estilo kamikaze é que rende?


4.5.09

para não esquecer a unidade de esquerda, again


José Saramago escreve sobre as agressões a Vital Moreira, aqui no Diário de Notícias:

«A Vital Moreira chamaram-lhe "traidor", e isto, queira-se ou não se queira, é bastante claro para que o tomemos como o cordão umbilical que liga o desprezível episódio do desfile do 1º. de Maio à saída de Vital Moreira do Partido Comunista há vinte anos.»
« (...) por uma questão de higiene mental, gostaria eu de saber que relação orgânica existe (se existe) entre os agressores e o partido de que sou militante há quarenta anos. São militantes também eles? São meros simpatizantes? Se são apenas simpatizantes, o partido nada poderá contra eles, mas, se são militantes, sim, poderá. Por exemplo, expulsá-los. Que diz a esta ideia o secretário-geral? Serão provocadores alheios à política, desesperados por sofrerem esta crise e que pensam que o inimigo é o PS e o candidato independente às eleições europeias?»

Outros acham melhor considerar que Vital e o PS é que têm a culpa, por andarem por aí a usufruir da liberdade e a corresponder a convites que lhes são feitos.

[Vale a pena ler Vital sobre o "incidente". Para esclarecer alguns que andam empedernidamente a tentar confundir os perpetradores da violência com as suas vítimas.]

radicalismo provinciano


Ferreira Leite reafirma que não haverá coligação com o PS.


Sou a favor de governos de maioria absoluta de um só partido. Por ser, nessa circunstância, claro a quem atribuir responsabilidades. E por, nessa via, ser mais fácil garantir o rumo à governação numa democracia pouco madura como a nossa. Mas já estamos em idade de crescer: não há mal nenhum em discutir possibilidades. E os partidos têm obrigação de aprender a negociar programas, com a legitimidade dos votos que tiveram - e aceitando a legitimidade dos votos que tenham tido outros partidos. E, em consequência, de fazerem governos de coligação, com contratos claros à vista do eleitorado. Aceito que, por estratégia eleitoral, se não queira discutir tudo em certos momentos. Mas abrir demasiado a boca a fechar portas com estrondo, e ainda por cima elevando esse radicalismo provinciano ao estatuto de princípio moral, é ter gosto em complicar a vida ao país. Em má altura: ou será que MFL pensa mesmo que a crise foi inventada por este governo e ela se evapora mudando de PM?

os agredidos devem reflectir nas suas culpas...


... e talvez pedir desculpas aos agressores, sei lá.

PCP quer que o PS peça desculpa aos comunistas e aos trabalhadores.


É por estas e por outras - por certos partidos "de esquerda" não assumirem as suas responsabilidades na pedagogia democrática, e tudo justificarem em nome da "luta dos trabalhadores" - que pode repetir-se o que aconteceu em outros países: haver franjas importantes do eleitorado que passam directamente do apoio a forças de «esquerda bold» para o apoio a forças de extrema-direita. O que aconteceu, só para citar um dos casos mais recentes entre os mais estudados, em França, com o desmoronar do velho PCF. É que a ditadura do proletariado tanto pode parecer atraente ao proletariado de esquerda como ao de direita.

(No vídeo "explícito" da reportagem das agressões, que inseri em post anterior, vê-se como mesmo os "populares" são capazes de repetir a velha lengalenga, com o clássico da "destruição do aparelho produtivo nacional", à mistura com o mais populista "vais para o parlamento europeu por causa das vantagens". É essa mistura, que alguma "esquerda" pensar ser pagante em termos eleitorais, que encerra todos os perigos. E nenhuma solução.)



violência de colarinho banco


Quanto às agressões a Vital Moreira, PCP recusa pedir desculpa e responsabiliza Governo pela crise da agricultura.


Os que desvalorizam a violência como forma de política, ou, mais do que isso, lhe fornecem caução política, são cúmplices dessa violência. Os líderes políticos que apresentam razões para o intolerável - são eles próprios que dão os pontapés e proferem os insultos soezes. Coisa que, aliás, não espanta naqueles para quem a "democracia burguesa" deveria ser oportunamente substituída pela "ditadura do proletariado". E Jerónimo não se tornou mais democrata por vestir gravata. Ainda o ouviremos a falar do "passado tenebroso" de Vital Moreira?


3.5.09

para não esquecer a unidade de esquerda





Acolhimento à delegação do PS nas comemorações CGTP do 1º de Maio de 2009.

o estado da democracia


Uma central sindical convida um partido político para uma das suas acções de comemoração do 1º de Maio. Esse partido político, um dos que sempre se bateram pela liberdade de comemorar o 1º de Maio, aceita e envia uma delegação. Alguns dos activistas ou simpatizantes dessa central sindical agridem um integrante dessa delegação. O líder dessa central sindical, em primeira reacção, diz que é para verem o que o povo sente acerca da política desse partido. Um director de jornal, e depois outros comentadores, entre quais gente com o título de professor universitário, dizem que o partido político a que pertencem os agredidos é que tem a culpa, por que não devia ter mandado "esses". Este é o verdadeiro estado da democracia.
Quero dizer: há gente, da mais "ilustre", que acha que uma agressão por motivos políticos tem justificação nos dias de hoje. O PS deveria, talvez, perguntar à CGTP quem é que podia mandar a representar o PS. Talvez o PS também devesse perguntar à CGTP quem é que pode ser líder do PS. Por outro lado, os rapazes que agrediram, entre outras coisas por não gostarem que haja pessoas que abandonem certo partido para apoiarem outro, esses é que têm razão: a isso deveria talvez chamar-se, na ideia de alguns, violência revolucionária. E há gente (entre os quais o sr. Fernandes do Público e o "analista" André Freire) que acha que quem tem a culpa é o PS. Isso é gente que tem, no fundo, uma simpatia muito grande pela liberdade: excepto a liberdade dos que não pensam como esses "comentadores".
Quem brinca com o dever de exigir o respeito básico pela convivência democrática, quem justifica a violência canalha só por achar necessário contornar um eventual efeito eleitoral da necessária condenação - quem assim procede brinca com o fogo. E desce demasiado baixo.
Ao mesmo tempo, o partido que foi alvo destes mimos deveria saber distinguir o plano da salvaguarda dos princípios do plano da luta eleitoral imediata. Não me parece de saudar que o PS se precipite a tecer considerações acerca do efeito eleitoral desta erupção antidemocrática, porque numa situação destas estão em causa valores muito mais altos do que a conquista de mais alguns votos nesta ou naquela eleição.

Agressão a Vital poderá beneficiar estratégia do PS para as legislativas.