02/12/10

a questão alemã


Der Spiegel: A reputação da Alemanha na União Europeia degrada-se dramaticamente. A opinião alemã começa a perceber que o país está de novo a ser visto como um Estado dominador que trata de impor os seus pontos de vista egoístas aos demais parceiros.
O secretário de estado alemão dos negócios estrangeiros, Werner Hoyer, declarou à Spiegel que os seus colegas em Bruxelas lhe perguntam "se a Alemanha ainda é a favor da Europa" - o que mostra que a pergunta não é apenas "popular", também atinge as esferas governativas.

Ulrike Guérot, perita do European Council on Foreign Relations(ECFR), avisa que cada vez há mais dificuldade em compreender o que quer a Alemanha e aumentam os receios de que esse país esteja numa viragem nacionalista. Ao mesmo tempo, também lembra que há dois lados da moeda: os alemães também estão mais desconfiados da Europa e do que pensam que ela lhes custa a eles, alemães.

José-Ignacio Torreblanca, director do ECFR em Madrid, escreve no Financial Times que "a Espanha se prepara para uma crise feita na Alemanha". Relembrando a distinção de Max Weber entre a ética da convicção (como em ciência ou em religião, o que importa é agir segundo o que se pensa estar certo, ser intrinsecamente bom ou verdadeiro) e a ética da responsabilidade (como na política, o que importa são as consequências do que fazemos) - mostra-se preocupado com o facto de a Alemanha parecer incapaz de pensar em termos políticos e estar a agir como se pensasse em termos religiosos. E quem paga a factura são países que partilham com a Alemanha a periferia: Espanha pode ser periférica para a Alemanha, mas até a Alemanha é periférica para a Ásia.

Mesmo o germanófilo primeiro-ministro luxemburguês, presidente do Eurogrupo, mostrou a sua inquietude por parecer que a Alemanha está pouco a pouco a perder de vista o interesse comum europeu.

Diz-se que a diplomacia alemã está a preparar uma pacote de iniciativas para propor ao governo, visando "redourar o brilho" do país na Europa.

E assim vai a novela da nova questão alemã. Que é, afinal, a questão da saúde e do futuro dessa extraordinária experiência colectiva que é a construção europeia. É preciso não esquecer que o que é belo e bom pode perfeitamente acabar mal. Mesmo a mais bela mulher pode morrer num estúpido acidente de viação. Se a culpa for da condução perigosa, mais estúpida se torna a circunstância. Pior é se nós estivermos embarcados no mesmo veículo.

(Correcção do link do Der Spiegel: quase às 23 horas. Tarde. Espero que não a más horas.)

2 comentários:

Tiago Tibúrcio disse...

Excelente post

Anónimo disse...

Parabéns. O Post é sugestivo. Especialmente a última parte. Até parece que estou a ver a Uma Turman, com uma camisa azul cheia de estrelas amarelas a conduzir o seu Pussy Wagon, com aquele trambolho da Merkl no lugar do pendura, a tentar guinar o volante.