24.11.12

natura ou culturaleza?






leite achocolatado.


Houve um tempo em que o PSD considerava que pensar num aumento na taxa de IVA do leite com chocolate era uma insuportável afronta às famílias portuguesas. Mas isso foi na altura do assalto. Agora eles acham que nós estamos mais capazes de suportar seja o que for.

(Lembrado por Nuno Pires.)

os prudentes nunca têm razão no momento.

13:17

Manifestantes no Egipto dispersados com gás lacrimogéneo.

Quando começaram as "primaveras" árabes, muitos dissemos que nada no mundo é a preto e branco. E que nem sempre o que vem a seguir a uma coisa má é necessariamente uma coisa boa. Não faltou quem clamasse horrores contra estes tipos prudentes, que logo se tornaram suspeitos de simpatia pelas ditaduras em apuros. Nessa vaga de entusiasmos sem cuidados, quem desconfiava e acautelava era um velho do Restelo.
Infelizmente, os prudentes sempre viram melhor no escuro do que os iluminados da vanguarda. Estes, aliás, perdem o pio com muita facilidade.

23.11.12

somos todos criminosos?

18:51

Organizadora da manifestação de 15/9 constituída arguida. Mariana Avelãs foi constituída arguida pelo “crime” de organização de manifestação não comunicada.

Concordo que o exercício do direito de manifestação não é prejudicado por ser necessário comunicar previamente às autoridades, nos termos da lei, que a manifestação se vai realizar. Organizar o exercício de um direito não é limitar esse direito.
Já coisa bem diferente é tentar perseguir criminalmente uma pessoa - ou quinze pessoas - por se terem juntado num local público para conversar com jornalistas sobre uma manifestação, mesmo que tenham levado um pano alusivo ao tema da manifestação. Parece-me isso mais um passo numa espiral de violência. Sim, porque tentar criminalizar a mais ordeira das aparições das pessoas na praça pública, é o quê se não dizer às pessoas que "estar contra", só por si, já é repreensível? E passível de repressão? Esses sinais de violência do Estado são convites à generalização da violência. Cuidado com essa gente, que tenta criminalizar o próprio facto de respirarmos.

Cavaco, personagem de Jorge Luis Borges?


Só pode. Isto não pode ser apenas insanidade.



Até que a morte nos separe?

17:25


Cito:
Segundo as estatísticas da APAV, entre 2000 e 2011, 76.582 vítimas recorreram à associação, tendo-se registado o maior número de vítimas em 2002, com 7.543 casos. Ao longo destes onze anos, as mulheres têm vindo a representar a maior percentagem de vítimas, atingindo o valor máximo em 2002, com 6.958 casos. No total das 76.582 vítimas, 68.751 eram mulheres, ou seja, 89,7%. Já em relação ao autor do crime, maioritariamente são homens em todos os anos em análise, contabilizando-se um total de 68.770 homens como autores do crime para os 76.582 casos reportados de violência doméstica, o que corresponde a 89,8% dos casos.

Mais aqui.

22.11.12

saudades do futuro. em coisas pequenas.






a tentação da omnipresença.

13:53

Nuno Santos demite-se de director de informação da RTP depois de a PSP ter pedido imagens da carga policial na noite da última greve.

O ainda chefe da Igreja de Inglaterra, comentando a decisão do sínodo da sua igreja que recusou a possibilidade de mulheres poderem ser bisp@s, afirmou que ela mostra cegueira face ao que importa no momento presente à sociedade secular. Muitas instituições deveriam pensar nesses termos: pode viver-se neste mundo sem ser deste mundo? Dito de outro modo: até que ponto podemos tolerar que certos aspectos da nossa vida colectiva funcionem em flagrante desprezo por princípios que consideramos fundamentais? Até que ponto devemos conviver com esse desprezo sem ficarmos e nos mostrarmos incomodados?
Esta pergunta pode - e deve - estender-se a muitos domínios.
As notícias de que a televisão pública pode ter facilitado o uso de imagens colhidas em reportagem sobre manifestações políticas para servirem o trabalho policial - ou, "apenas", de que para isso terá sido solicitada - entra na categoria dos acontecimentos com os quais não podemos conviver. Percebo que a polícia tenha de fazer o seu trabalho. Mas exijo, por outro lado, que informar não seja confundido com policiar, que um trabalhador da informação a tratar de me manter a par do que se passa na rua não seja transformado nos olhos ou nos ouvidos da polícia. Andam por aí estas meias-informações, certamente com contornos suficientemente complicados para já provocarem demissões, e nós fazemos de conta que podemos conviver com isto?
Não, não podemos conviver com a cultura securitária, na medida em que ela é uma cultura totalitária. Uma cultura totalitária é aquela que alimenta a ambição de organizar todo o mundo em função de um único ponto de vista. Mesmo que esse ponto de vista seja legítimo (defender a segurança pública é legítimo), a cultura totalitária tende a destruir a legitimidade de todos os outros pontos de vista e a submetê-los à condição de instrumentos. E isso afecta nuclearmente o nosso ecossistema de liberdade, que será insustentável se algum protector, iluminado ou não, pretender ter olhos e ouvidos por todo o lado. A tentação da omnipresença é uma tentação fatal, que nos obriga a estar atentos a estas notícias.

21.11.12

o mar, a agricultura e a indústria. e o Partido Comunista.

19:10

Segundo o Público, o Presidente da República afirmou que o país precisa de voltar a olhar para os sectores que esqueceu nas últimas décadas: o mar, a agricultura e a indústria.

Não interessa muito agora o facto de Cavaco Silva ter sido, enquanto governante, um dos entusiastas promotores desse esquecimento. A verdade é que a esmagadora maioria dos políticos portugueses - e dos portugueses, mesmo sem serem políticos - alinharam nesse esquecimento. Pensámos que sermos ricos era esquecer essas coisa da produção: os pobres do Sul e do Oriente que produzissem, enquanto nós nos dedicaríamos aos "serviços".
Interessa-me agora outro aspecto da questão: é justo lembrar que o Partido Comunista Português foi durante muitos anos a única força política portuguesa relevante a lutar contra esse esquecimento, ou abandono. Podemos dizer que o fazia por más razões. Por mim posso dizer, pelo menos, que tendo a não me reconhecer num certo nacionalismo que tintava excessivamente essa posição dos comunistas. Mas devo reconhecer que esse alerta se revela, passados todos estes anos, um alerta que fizemos mal em descartar demasiado apressadamente.
Há, aliás, uma mensagem política central a reter nesta questão: a vida política portuguesa há muitos anos que é demasiado teatral e atira para debaixo do tapete muitas questões que deviam ser discutidas mais seriamente. Em geral, as posições do PCP são tratadas com o desdém "lá vêm estes tipos sempre com a mesma conversa". O PCP entrincheirou-se, os demais partidos deixaram que se entrincheirasse, o próprio PCP encontra alguma comodidade nisso. Mas fazemos mal. E isso pode pagar-se caro. Como, se calhar, este caso exemplifica.
A democracia tem de continuar a aprender-se sempre. As vozes são para ser ouvidos e tidas em conta, não apenas para fazer um certo ruído que parece debate sem o ser.

(Rodapé acrescentado. Por alguém me ter chamado a atenção, esclareço que a expressão, da última frase, "as vozes são para ser ouvidos", não é um erro; não devia estar lá "as vozes são para ser ouvidas". Escrevi isso (uma "liberdade poética") para significar que falar e ouvir devem fazer parte do mesmo processo em democracia.)

isto ainda é uma democracia representativa?


Ou trata-se apenas de uma leilão pouco transparente?

Refiro-me a este destaque do Público de hoje:


19.11.12

vá, agradece ao robô.


Um exosqueleto é uma espécie de esqueleto externo: uma estrutura de suporte e protecção para outros órgãos do corpo humano, como também o esqueleto interno é, mas colocado no exterior do corpo. O exosqueleto é algo que outras espécies naturais possuem.
E que tal um exosqueleto robótico, para tornar o corpo humano mais forte, mais resistente? Estão a fazer isso, para soldados em condições extremas. Veja o video. Deixo os comentários para as reflexões dos leitores.



que o poeta seja um fingidor.

17:13

Que o poeta seja um fingidor, aceita-se.
Que a política oficial continue a ser largamente um fingimento, é inaceitável.
O governo finge que vai correr tudo bem. Minto: o governo finge que acredita que vai correr tudo bem.
A oposição responsável (se não quisermos ser simpáticos: a oposição deste rotativismo) finge que está nas nossas mãos fazer diferente apenas pelas nossas forças. Não digo que "a oposição de sua majestade" minta, porque não sei até que ponto vai a sua ingenuidade: quanto maior for a ingenuidade, menos será a sua culpa e menor será, ao mesmo tempo, a sua valia para um país aflito. Mas seria bom ir pondo os olhos em Hollande, cujas ideias não vão a lado nenhum só com vontade e declarações.
A oposição valentona (se não quisermos ser simpáticos: a oposição que quer deitar fora o bebé com a água do banho) finge que as nossas dores seriam menores se virássemos as costas aos nossos credores e vivêssemos desde já com o que produzimos. A retórica do "não pagamos" é pegar ou largar: há poucas pessoas que saibam o que isso nos custaria que ainda se atrevam verdadeiramente a defender tal opção.

O que é assustador no fingimento reinante não é a variedade das vozes. Poderia dizer-se: não saímos daqui porque "cada cabeça cada sentença". Julgo que, na verdade, não é isso o que se passa, mas antes algo bastante mais bizarro. O que assusta os políticos de circunstância é que o momento pede convergência e não brados heróicos contra todos os outros à sua volta, que é aquilo que esta guerra civil não declarada tem desgraçadamente pedido. Vejamos.

Quase toda a gente está de acordo que a actual estratégia de "ajustamento" não vai resultar e, além disso, que a única saída é conseguir uma condicionalidade diferente para os empréstimos da Troika. Desde Miguel Cadilhe a Arménio Carlos, passando por altas figuras dos partidos do governo, toda a gente já percebeu que assim vamos rebentar na praça pública. Claro que o "não pagamos" da esquerda da esquerda não é a mesma coisa que a "negociação honrada" de Cadilhe, ou o "mais tempo e menos juros" do PS. Isto é: todos estão a ver o problema mais ou menos da mesma maneira, embora não pareça. Não parece, porque o discurso anti-Euro tem um aspecto diferente do discurso pró-Euro, mas, em termos práticos, se se conseguir uma modificação substancial das condições, toda a gente vai respirar melhor e os termos do debate evoluem. Mesmo o PCP e o BE não se importam que venha o dinheiro...
Isto dá a ideia de que haveria condições para algum consenso nacional em torno de objectivos mínimos para tentarmos escapar do buraco. Só mesmo Passos e Gaspar remam contra esse consenso. O país ganharia imenso, em termos de margem de manobra internacional, se aparecesse unido contra esta austeridade sem futuro, exigindo outro programa para outro ajustamento - embora comprometendo-se a uma conduta responsável como parceiro na comunidade internacional. Já imaginaram a força que teria lá fora aparecerem os patrões e os sindicatos, a direita e os comunistas, unidos nesta frente?
A dificuldade é que para isso teriam de unir-se agora naquilo em que convergem, deixando para depois as divergências. E isso está contra a moda da guerra de todos contra todos na nossa política doméstica.

Assim sendo, todos fingem que as suas representações habituais continuam a valer alguma coisa. Alguns esperam que o brinde de uma nova orientação europeia (depois das eleições alemãs) chegue antes do dilúvio (e antes de o seu governo cair). Outros esperam chegar ao poder em bom tempo, para não arderem no mesmo fogo que já deflagrou. Outros (na esquerda da esquerda) esperam que tudo corra suficientemente mal (ao PS e à Europa) para mudarem o mapa político português e atirarem os socialistas para o lixo. E todos vão fazendo de conta que isto é forma de lidar com um país.

A convergência, se não o consenso, arde muito nas mãos dos políticos tradicionais portugueses: não sabem o que lhe hão-de fazer. Neste momento, em vez de valorizarem o facto de quase todos verem o perigo vir do mesmo lado, em vez de investirem num consenso político tão alargado como quase nunca é possível, continuamos a esmiuçar os sufrágios. E o tempo a passar. Contra nós.

(No meio disto tudo, esqueci-me de falar de Cavaco Silva. Na verdade, é um esquecimento que não faz muita diferença: o Presidente já não é deste mundo. A menos que tenha regressado ao Pulo do Lobo e à manha de se esconder para regressar vestido de cordeiro.)

um problema das religiões.


Um problema bastante generalizado das religiões é terem tendência para uma visão auto-centrada do mundo.
Será só um problema das religiões? Não, até não é; mas quanto maior é a pretensão de abrangência de um pensamento, mais nítido se torna aquele defeito e mais destruidores se podem tornar os seus efeitos.




não quero mais destas campanhas eleitorais.



Não era preciso fazer mais sacrifícios. Pois não. "Isto" é puro prazer para masoquistas.

18.11.12

governados por comediantes?


O primeiro-ministro descobre-se irónico:

O primeiro-ministro lamentou hoje não ter sido "possível" ao ministro da Administração Interna fazer "uma declaração mais esclarecedora" sobre a intervenção do Governo na sequência da tempestade no Algarve. Mais tarde, veio o esclarecimento: Passos estava a ser irónico.

O que se pergunta é: PPC estava a ser irónico com quem? a propósito de quê?

Devia haver limites para a comédia. E deviam ensinar ao PM como a ironia deslocada pode tornar-se comédia, ou mesmo tragédia.

Mesmo para um governo que consegue tirar Santana Lopes do topo da lista dos governos risíveis. Até por já não haver grande vontade de rir.