10.11.12

lá fora, o dia do cão negro espreita.

11:24



Não sou contra o protesto da cidadania. Também por estes dias tudo em mim protesta contra a (des)ordem do mundo, cada vez menos acolhedor. Contudo, creio que, se todas as forças políticas do país se tornarem apenas forças de protesto, estaremos acabados como comunidade política viável. Quer dizer: tornar-se-á muito difícil vivermos juntos e vivermos bem neste jardim à beira do mar plantado.

Nestes tempos infaustos, o grito tornou-se a única palavra ouvida. Grita-se contra os ministros, contra os deputados, contra o presidente, contra a Merkel, contra o protectorado. Tornou-se popular dizer que se cerca o parlamento, que se invade o parlamento, que se parte a tralha toda. Publicam-se listas de nomes e de fotografias de deputados que votaram o orçamento do Estado, porque o orçamento, dizem, é assassino, e será cúmplice todo aquele que o vote. Querem julgá-los no tribunal, como criminosos, e invocam o exemplo da Islândia, ignorando que na Islândia, em substância, nenhum político foi condenado pela crise, apesar dos julgamentos. E parecem ignorar que quem realmente ganha com a crise não são os políticos. Fazem-se esperas aos ministros, perseguem-se deputados da maioria na rua aos gritos de ladrão, ladrão, fazem-se manifestações contra Barroso quando ele vai - como pessoa privada - a um teatro e há quem bata palmas e augure que daqui a pouco "nenhum deles sairá à rua". Como arma de luta política, abandona-se o terreno do debate político para criminalizar a divergência. Poucos dos que assim procedem têm a real noção de como começaram os fascismos. Quero dizer: alguns saberão e andam nisto por saberem que isto é o alimento das ditaduras, mas a maioria anda nisto sem sequer ter consciência disso. É que a "justiça" às mãos da rua, a intimidação como método, a criminalização das divergências políticas, podem não ficar sempre pelos alvos de hoje - e os alvos de amanhã podem vir a ser determinados pela habilidade dos incitadores e não pela pureza virginal dos protestantes. E os que realmente enchem os bolsos com a crise nunca são cercados, nem invadidos, muito menos travados, sequer inibidos.

Todos os que assim gritam assumem-se como sumamente patriotas, competentes, esforçados e honestos. Partem do princípio de que qualquer político é um calaceiro, um incompetente, um vende-pátrias. Só não se percebe em que se fundamentam para partirem desse princípio, quando é público e sabido que, se há deputados que nunca fizeram nada na vida a não ser deputar, muitos deputados e outros políticos já tinham uma vida profissional e cívica antes e para além da política e alguns chegaram mesmo ao topo das suas carreiras profissionais antes de serem políticos - e esses são, pelo menos nisso, escrutináveis, o que os distingue de muitos que os criticam no remanso do anonimato, da multidão, da caixa de comentários. A crítica generalizada aos "políticos" é um substituto aguado da verdadeira discussão política, ocupa o lugar mas não o papel do confronto de programas, substitui o debate pelo anátema. E o anátema nunca discute razões, porque toma a razão como sua prisioneira e serva, para a manietar. A crítica indiferenciada aos políticos é, no plano individual, simples arrogância de quem se julga acima dos outros sem ter para isso créditos firmados. E é, no plano do país, o desprezo pela democracia concreta: jurar a pés juntos que se é democrata e, ao mesmo tempo, tudo fazer para desmantelar a máquina da democracia - a democracia que existe, não a ideal numa ilha perfeita em lugar nenhum -, é colaboracionismo com os que gostariam de uma "democracia" musculada ou tutelada - na qual, aliás, estes protestos não mais seriam possíveis. Os políticos não são todos iguais, podem ser avaliados pelo que fizeram e fazem, mas quem critica a eito não tem tempo para esse escrutínio, porque faz da sua voz pública um mero exercício de azia. E a azia nunca foi boa conselheira.

Eu também detesto o rumo que este país está a levar, detesto a estupidez desta Europa corrente, detesto as injustiças deste mundo. Mas já pensava isso antes de sermos todos vítimas do processo. É por isso que, francamente, não me sinto obrigado a ter muito respeito por quem só se lembrou dos males do mundo quando perdeu uma fatia do ordenado, quando começou a pagar mais impostos. Por quem só se apercebeu quando foi tocado pessoalmente, se calhar tendo antes andado a bramir contra o rendimento mínimo, contra "os subsídios" (se calhar, até contra o salário mínimo). Por quem, se calhar, reclamou a candura da "livre iniciativa" sem freio. Não me sinto obrigado a ter muito respeito por quem, depois do que está à vista, ainda está contra os sindicatos (não me refiro à discordância das orientações concretas, discordância que é legítima; refiro-me ao ataque sistemático à sua acção em geral). Não me sinto obrigado a ter muito respeito por quem diz querer um sistema político melhor e no entanto também diz que nunca vota: como se os sistemas políticos caíssem do céu como as águas da chuva. Por isto, o grito, em si mesmo, não me mobiliza - muito menos me convence necessariamente. Nem sequer me obriga sempre ao simples respeito.

Posso perceber que se grite: eu também grito e protesto. Julgo é que se pode perguntar aos manifestantes: e para além disso, não há nada a fazer? Todos sabem como resolver a crise em três horas e um quarto. Duvido é que, na sua maioria, estejam dispostos a fazer mais qualquer coisa de concreto na vida política. Uma sugestão: os que se queixam tanto do monopólio dos partidos, que se reclamam excluídos da participação política pelas leis eleitorais, têm proximamente uma boa oportunidade: apresentem listas de cidadãos às próximas eleições autárquicas. É um ponto para começar a trabalhar perto das pessoas, onde as pessoas conhecem melhor os políticos e estão dispostas a avaliá-los pelo seu trabalho concreto, onde se pode mostrar a genica e o saber que sugerimos ao mundo quando protestamos e sugerimos servir melhor a polis.

O sopro anti-políticos, que por estes dias sopra forte, mesmo violentamente, é um sopro anti-democrático, assanhado por ideias simplistas acerca de um mundo complicado. Os deuses do Olimpo nos salvem de algum dia sermos governados por esta fúria. Precisamos de melhor política, porque o mundo está difícil. Mas o mundo nunca deixou de estar difícil para a quinta parte dos portugueses que vivem abaixo do limiar da pobreza, mas muitos nunca se preocuparam com isso e olharam para eles com desdém. E o mundo nunca deixou de estar difícil para milhões de pessoas por esse mundo fora que sobrevivem com quase nada durante todo o seu calvário do nascer até à morte. Precisamos de melhor política, porque o mundo está difícil, mas o "grito" de radicalismo, ideias feitas, violência verbal, justicialismo, por vezes com muita mentira e ignorância à mistura, esse "grito" que campeia neste país por estes dias, é política da pior, é o pão dos ditadores, é a negação da palavra argumentada e reflexiva de que precisamos hoje.

Lá fora, o dia do cão negro espreita. Mas não abriremos um caminho entre os perigos apenas gritando. Porque o breu não se assusta com gritos.



(A foto lá em cima foi encontrada no facebook de Inês Meneses, mas não consegui determinar a fonte.)

9.11.12

crescer atrás da cortina de ferro, de Peter Sís.


Sendo hoje 9 de Novembro, e por estas razões, justifica-se comemorar com Banda Desenhada.

***

O álbum que hoje nos faz falar é de Peter Sís, que escreve e desenha The Wall, Growing Up Behind the Iron Curtain, no título do original norte-americano de 2007, publicado pela Frances Foster Books. A edição que possuo é italiana, de Setembro de 2008, na editora Rizzoli.




Peter Sís cresceu na Checoslováquia comunista e apresenta-nos mais uma obra da vaga de obras de BD que pensam e divulgam a história contemporânea recente a partir dos olhos de uma criança. Em 1982, Peter Sís foi a Los Angeles para trabalhar num filme para o governo checo e, uma vez lá, optou pelo exílio - como muitos outros foram fazendo ao longo da história.




A história que nos conta, apesar de tentar partir do olhar de uma criança, é densa - e o autor faz alguma coisa para nos levar para mão, fornecendo vários elementos de contexto. Não é, contudo, história que um adolescente desprevenido possa compreender cabalmente como quem lê "histórias aos quadradinhos" ...




Graficamente, o que temos como elemento básico são desenhos a preto e branco, sugerindo uma atmosfera cinzenta - política, cultural e socialmente cinzenta. Muitos dos desenhos têm pormenores a uma única cor, o vermelho - funcionando o vermelho quase sempre como marca do poder comunista, por exemplo nas bandeiras, nos símbolos (foice e martelo, estrela), no lenço ao pescoço da "farda" dos pioneiros. Dado este ponto de partida, os poucos elementos fortemente coloridos são marcas de ruptura, normalmente festiva ou pelo menos "agitada", de momentos em que a contestação às normas imperantes é vivida como um gozo suplementar da vida. A cor é o outro lado da vida (do muro): "tudo o que vem do Ocidente parece colorido". A cor é também o que distingue os desenhos que Sís faz desde miúdo.




As duas páginas inteiras que reproduzimos de seguida, constituindo uma única imagem, aparecem na narração da Primavera de Praga. A Primavera de Praga foi, em 1968, uma tentativa do partido comunista local para seguir uma via democrática para o socialismo, afastando-se da ortodoxia soviética. Esta imagem, com esse colorido pop, e por contraste com o preto e branco com pormenores de vermelho do grafismo dominante, dá uma conotação fortemente festiva a essa possibilidade de liberdade, possibilidade que foi frustrada pela invasão dos tanques do Pacto de Varsóvia, o bloco militar do leste comunista da Europa liderado pela União Soviética.




A representação dessa invasão segue o plano gráfico dominante: preto e branco com o vermelho do poder a salpicar: neste caso os elementos vermelhos são os tanques invasores espalhados pela cidade como um vírus que toma conta de um corpo.




Esta obra de BD não é de leitura imediata para quem esteja demasiado alheado do contexto da época e de algumas referências históricas. Vemos abaixo a referência a um concerto dos Beach Boys, de uma pequena tournée que fizeram por aquelas bandas alguns meses depois da invasão antidemocrática, a qual teve o condão de ainda dar um pequeno sopro à esperança de que talvez não se tivessem fechado todas as portas.




Nos desenhos que se seguem, que são parte de uma sequência um pouco maior, há uma luta entre o preto e branco do grafismo dominante, representando o cinzentismo do regime, e a cor como representante da expressão que alguns tentaram que fosse livre. Os grafitos que os anónimos tentam pintar nas paredes são coloridos e as peripécias do confronto com a polícia - entre pintar e apagar, e voltar a pintar - são um ir e vir entre a sobrevivência e a extinção da cor.








A queda do Muro de Berlim, datada de 9 de Novembro de 1989, é o fim desta história. Uma história que, neste álbum, passa pela insurreição popular na Hungria em 1956, esmagada pelos "aliados" soviéticos; pela construção do próprio Muro em 1961; pela crise dos mísseis em Cuba em 1962; pela visita do Presidente Kennedy dos EUA a Berlim em Junho de 1963 e pelo assassinato desse mesmo presidente em Dallas mais tarde nesse mesmo ano; pelo papel de Alexander Dubcek, líder do partido comunista checoslovaco em 1968 e verdadeiro herói da Primavera de Praga, quando "tudo parecia possível"; depois do fim, ou depois do princípio do fim, pelos estudantes checos Jan Palach e Jan Zajic que se imolaram pelo fogo no centro de Praga "para despertar a nação da letargia"; pela Carta 77, o grupo dissidente formado em 1977 e que contaria com alguns dos heróis da futura revolução democrática. A queda do Muro de Berlim é o fim desta longa e amarga história, um fim que não é só uma data, mas um conjunto de datas para várias revoluções no leste europeu, assinaladas junto a estes desenhos (mas aqui não visíveis). É um fim apropriado para uma narrativa que não é só uma história da Checoslováquia recente - mas uma história de uma parte importante da Europa e das suas vicissitudes num período de cerca de meio século.

É um pouco pena que a narrativa seja, do ponto de vista ideológico, um pouco unilateral - como se todas as desgraças do mundo tivessem a cor vermelha. Por exemplo, logo no início dá-se como definição de "comunismo": um sistema de governo em que o Estado controla toda a actividade social e económica. Mas o regime fascista nazi também era isso, pelo que a definição não faz o trabalho de uma definição. Além disso esquece-se que a história do leste europeu é também a história das derrotas que sofreram certos sectores dos partidos comunistas que tentaram a via democrática. A "insurreição popular" na Hungria de 1956 tinha a cumplicidade da liderança comunista, que foi afastada por pressão e acção soviética. E o mesmo aconteceu na própria Checoslováquia com a Primavera de Praga. E, se é para fazer história, mesmo aos quadradinhos, talvez fosse bem não ver só certas coisas e esquecer sempre outras. Por outro lado, certas coisas que se denunciam como se fossem exclusivas das ditaduras comunistas - não o são. Ser obrigatório fazer parte da organização de juventude do regime, nós por cá também sabemos o que isso é (foi). O mesmo para as actividades da polícia política, da censura. Certas coisas até existem ou existiram em países democráticos, como a obrigatoriedade de hastear a bandeira nas festas oficiais (eu já vivi num país onde isso era assim e ninguém considerava repressivo).
Mas será justo fazer este tipo de críticas a uma obra de BD? Porque não, pergunto eu. A BD é coisa séria. Às vezes, como neste caso, está a apresentar uma visão da história recente, de uma história que ainda interessa muito à compreensão do presente. E, nesse caso, o rigor que se pode exigir é o que se exige a qualquer obra séria.




Como o autor escreve no posfácio: alguns terão dificuldade em compreender que as coisas eram mesmo assim. Estamos a falar de história recente, mesmo muito recente, e muito próxima geograficamente. É também por isso que livros destes são um serviço prestado à memória cívica. Mas parece que não têm muito público em Portugal... Ou há por aí edições que eu desconheça (o que não seria de estranhar, porque sou um mero leigo curioso)?

(Republicação)


Memórias. Berlim, 1989, um dia como este, um muro como qualquer outro.




Na noite de 9 de Novembro há 23 anos, o governo da então chamada República Democrática Alemã anuncia de forma desastrada (por não corresponder exactamente ao que queriam fazer, que era uma liberalização cautelosa das saídas para o estrangeiro), anuncia, dizíamos, que os cidadãos desse país poderiam atravessar as respectivas fronteiras (de dentro para fora...) livremente. Em consequência, logo nessa noite, cerca de vinte mil alemães de leste atravessaram o posto fronteiriço de Berlim Leste para Berlim Oeste. No dia 11, as máquinas começaram a abrir mais passagens através do muro da vergonha, já que os postos normais não davam vazão à enchente dos que queriam experimentar o sabor dessa nova liberdade. Logo foram anunciadas conversações para a abertura da simbólica Porta de Brandemburgo, que só viria a tornar-se uma ampla passagem entre dois mundos em Dezembro desse ano. No fim de semana seguinte à abertura, cerca de dois milhões de alemães orientais visitaram Berlim Ocidental.
Tive a sorte de estar nessa Berlim esfuziante por esses dias. Tinha ido à conferência "Security in Europe: Challenges of the 1990's", organizada pelo Politischer Club Berlin e pela Amerika Haus Berlin,  que decorreu entre 15 e 17 desse mês, tendo ficado mais uns dois ou três dias. A conferência acabou na tarde de sexta-feira (17) e, desde aí até ao regresso no domingo, deambulei como uma esponja pela cidade que era nessa altura o centro do mundo. Havia, além do povo que estava a fazer a sua história, uma multidão de jornalistas por todo o lado, especialmente postados em frente à Porta de Brandemburgo, por haver então a expectativa de esse local histórico ser aberto imediatamente.
Descobri há algum tempo duas folhinhas que escrevi na altura, "do lado de lá", no meio da agitação. Estão a ficar roídas pelo tempo. Antes que desapareçam, transcrevo-as para este arquivo-pessoal-público.

Folha 1. "Aqui é a Marx-Engels Platz, em Berlim Leste. Hoje são 17 de Novembro de 1989. O Muro já tem aberturas mas ainda falta muita coisa. Aqui está a ocorrer uma manifestação (ou concentração) de estudantes (pelo menos parecem, pela sua juventude, apesar de também haver gente mais velha). Vim para aqui directamente da estação de metropolitano, onde comprei o meu visto e troquei os obrigatórios 25 DM por 25 marcos da DDR. Do lado de lá vale, não 1 para 1, mas 1 para 10 ou ainda mais. Há o pequeno pormenor de que tenho a máquina fotográfica da Guida ao ombro, mas não consigo tirar nenhuma fotografia. Até o azar pode ser histórico... Outro pormenor é que está um frio danado, que entra por todo o lado apesar de estar com dois pares de meias calçados, camisa, camisola de gola alta, casaco de inverno e gabardina. São aqui 15.50H."
Folha 2. "No mapa, tenho aqui uma indicação sobre a Igreja de S. Nicolau, no centro histórico de Berlim. Fui para entrar, vi que se pagavam entradas e que havia um museu. Como não estou com grande tempo para museus, fui perguntar se também se pagava para ver a igreja. Resposta: «Isto não é uma igreja. Isto é um museu.» Entendi: estamos, realmente, no Leste. São 16H 13M."

Memórias das minhas ingenuidades, pois. Como se vê, ainda havia muita coisa por mudar. Eu não falava uma palavrinha de alemão, mas recolhi um comunicado da SPARTAKIST - Herausgegeben von der Trotzkistischen Liga Deutschlands, com o título "Für eine leninistisch-trotzkistische Arbeitpartei!". E em baixo de página: "Für den Kommunismus von Lenin, Luxemburg und Liebknecht!". Ainda tenho uns jornais, uns autocolantes, uns "alfinetes de peito", desses dias. E, claro, umas pedrinhas pequeninas que eu próprio rapei do muro, à unha, enquanto outros já andavam em cima dele com picaretas.

O mundo, realmente, mudou muito. Nem tudo correu bem, como se sabe. Só que ninguém, sabendo do que fala, pode desprezar o valor da liberdade - haja o que houver, com todos os defeitos que as democracias possam ter. Isso sentiu-se naqueles dias (e ainda se sente) em Berlim. Claro, ainda há quem, por cegueira ideológica, ache que tudo não passou de uma operação das forças reaccionárias conspirando por todo o mundo. Por hoje, a esses nada a dizer.

(Republicação)


Um fã de popós.


O ex-deputado e ex-secretário de Estado Vasco Correia Guedes, mais conhecido por Vasco Pulido Valente (não gostava do nome, mudou-o – e isso é importante em gente que vive do nome), cuja acção na governança não deixou para a memória dos feitos da nação sequer um pum, mas julga sempre com muita sanha a falta de grandeza dos demais políticos, dedica as horas vagas (mas, decerto, não gratuitas) a destilar ódios na forma de arrogância, não poucas vezes tintada de ignorância, caindo o fruto desse labor, por vezes, nas páginas do Público.

Saiu hoje mais uma rifa dessas. O mote é um problema qualquer de azia que ele tem contra os que ficaram contentes com a vitória de Obama. Para Vasco Correia Guedes, - o homem que, quando deputado, se deu ao trabalho de ocupar a Câmara com o pedido para ser nomeado como Pulido Valente - essa maltosa que gosta de Obama é “a populaça”. A populaça deve ser a massa de gente que nunca teve tempo para se dedicar a mudar de nome. Ou, simplesmente, talvez a populaça seja quem, de momento, não aplauda vibrantemente as suas opiniões. “De momento”, escrevi, porque, por auto-pluralismo, o Vasco-qualquer-coisa pode ter uma opinião hoje e, sobre o mesmo assunto, ter outra assaz diferente em próximo artigo. Sempre brilhante, claro. Quem não siga a manobra, um iletrado.

Mas, afinal, qual é o problema com Obama, na óptica de VCG/VPV ? Basicamente, ele foi eleito por uma coligação social de não-brancos. O tipo é preto, caraças !

(E aqui VCG/VPV faz alarde da sua ignorância, invocando o conceito de raça como cimento da coligação. “A raça (é bom chamar os bois pelos nomes) determinou…” – escreve ele. Mas não há distintas raças dentro da humanidade; só há uma raça. É uma questão de biologia, mas isso não interessa nada ao escriba: a ciência deste mundo e do outro é feita por ele, ele sabe tudo, todos os demais são ignorantes, quem não lê pelo manual dele não é cientista nem nada ponto final.)

E é isso: Obama é preto e os brancos, maioritariamente, não estão com ele. Quem está com ele são os africanos, os latinos e os asiáticos. E os Republicanos (que, pelos vistos, são o partido dos brancos) vão, com a maioria na Câmara dos Representantes, continuar a boicotar a sua acção. E, segundo ele, a esquerda, pelo menos a esquerda que gosta de Obama (ou que, no mínimo, preferia Obama ao outro senhor), não percebe nada de nada: “a nossa esquerda nunca na vida olhou a sério para a realidade do mundo”. Isto quer dizer o quê? A grande divisão “racial” seria a mesma se Obama tivesse perdido estas eleições. Mas a chatice é que ganhou o preto em vez de ganhar o branco. Os Republicanos, com a sua acção partidária, vão tentar travar Obama. A crítica devia ir para o partidarismo exacerbado dos Republicanos? Não, Obama é que devia ter perdido para facilitar a vida aos Republicanos. Tem tudo imensa lógica, claro. Tem a lógica de VCG/VPV, um tipo amargo porque o mundo não se limita a pensar pela cabeça do articulista, logo ele que é tão brilhante que consegue defender uma tese e a respectiva antítese com a mesma maestria e o mesmo auto-convencimento.

Que lhe paguem para isto não é desculpa: este tipo é mesmo um fã de popós, essa é que é essa.


é pecado criticar Isabel Jonet?

11:35

O que acho, explicado com mais vagar, das teses de Isabel Jonet sobre o empobrecimento, já o escrevi anteriormente, antes das últimas declarações. Nada disso me leva a assinar petições contra a senhora, nem a chamar-lhe nomes, nem a fazer suposições que, a menos que sejam provadas, são puras tolices. (Apesar de alguns dos que se escandalizam contra esses métodos, quando aplicados a Jonet, não se importarem nada quando eles são aplicados a outros alvos.) Entretanto, está em marcha a operação "escudo invisível": não se pode criticar Isabel Jonet "porque ela tem obra feita". Exemplar dessa linha de raciocínio é este texto de Henrique Monteiro, Isabel Jonet, as palavras e os atos, no sítio do Expresso.

O núcleo do que julgo errado no artigo de Henrique Monteiro (e nos que seguem a mesma linha) está nesta frase: "A obra de Isabel Jonet fala por si."

O que as pessoas fazem (bem ou mal) é um elemento de juízo acerca delas, da realidade, do mundo. Claro, não é indiferente o que as pessoas fazem. Contudo, a opinião é outra coisa. Vejamos. Se Estaline desse aos pobres o que o Banco Alimentar dá, Estaline não passava a ser boa pessoa por causa disso, nem as suas ideias passavam a ser maravilhosas por causa disso. (Podem colocar Pinochet onde está Estaline, se preferirem.) Discordo de muitas formas que tem assumido a contestação às palavras de Jonet, mas discordo igualmente da tentativa de bloquear a crítica à ideologia de Jonet por causa da sua "obra". (Sim, "aquilo" é ideologia, nem sequer é "doutrina social da Igreja", como alguns querem fazer crer.)

Seria preciso sermos muito cínicos para aceitarmos que quem quer que seja está acima da crítica por causa de ter feito coisas úteis, boas ou necessárias.

8.11.12

coisas que Passos e Gaspar tornaram necessárias.

Coisas desproporcionadas.


(fonte)

Invest in Science.

descoberto mais um Cavaco esquecido que só as leis da física impedem de ter um papel qualquer nesta peça em desvario.

11:13

Um excerto da crónica de Ricardo Araújo Pereira, hoje, na Visão:
A jornalista Ana Sá Lopes topou esta semana, por acidente, com um livro de Cavaco Silva. E, por abnegado sentido profissional, leu-o. Beneficiamos todos do seu sacrifício, porque a jornalista citou um texto de 2001 em que o autor se insurge contra o então primeiro-ministro António Guterres, que pretendia cortar na despesa pública para fazer face à diminuição do crescimento económico. Escreve Cavaco Silva: “O que terão pensado os meus alunos da Universidade ao ouvirem o primeiro-ministro e o ministro das Finanças afirmarem perante as câmaras de televisão precisamente o contrário do que lhes ensinei e que leram nos livros de macroeconomia e de finanças públicas? Porque estamos em época de exames, entendi que era meu dever não ficar calado. O argumento é falso.” E acrescenta, para ilustração dos seus alunos: “Quando o crescimento económico de um país abranda, a política correcta é precisamente deixar que a receita fiscal baixe automaticamente e não cortar na despesa pública. (...) Se quando um país é atingido por uma crise económica se cortasse a despesa pública, a crise ainda se agravava mais. É por isso que não se deve fazê-lo”.
Em 2001, o professor Cavaco Silva tinha o dever de não ficar calado (…). Em 2012, tem estado bastante silencioso perante o mesmo problema. (…) Se todos os portugueses se matricularem num curso de economia, talvez o Presidente da República intervenha, para que o Governo não nos imponha uma solução que qualquer economista considera desastrosa. Se, em vez de cidadãos, formos alunos, talvez tenhamos direito a uma palavrinha.

Conclui RAP, na crónica intitulada "O fantasma do Cavaco passado", que, por causa das leis da física, "não me é possível votar, em 2012, no Cavaco de 2001. Mas talvez este nos desse jeito, agora." Safa.

Ler o texto de Ana Sá Lopes: No tempo em que Cavaco falava.




o jornal Público continua folgazão.



Este recorte da primeira página do Público de hoje mostra que este jornal ainda não percebeu que o governo não quer fazer nenhuma reforma do Estado. (Não percebeu ou não quer perceber?)
O governo quer cortar na despesa e inventou esta coisa da reforma do Estado a 100 à hora para ter uma narrativa que sirva de cobertura à operação. Se o governo pretendesse reformar o Estado não tinha esperado ano e meio, mais o descalabro das suas contas, para se meter a caminho. Esta "reforma" percebe-se bem quando o calendário proposto pela maioria para o discutir é ditado pela Troika e pelo ritmo das "revisões" do programa de "ajustamento".
Não, assim não, obrigado.

7.11.12

o incansável Durão Barroso.


Hannes Swoboda, líder do grupo socialista no Parlamento Europeu, falou recentemente em apresentar uma moção de censura a Durão Barroso e ao comissário Olli Rehn (à Comissão Europeia) pela forma como tem gerido a crise que afecta a zona euro. Swoboda afirmou: "nunca ouvi Barroso, nem Rehn defender que se dê mais tempo aos países para se adaptar. Eles dizem as coisas sempre depois dos outros, do FMI, dos peritos. A minha crítica é que ele nunca está na liderança, vai sempre a correr atrás. Se é que corre, ele vai a andar atrás".

Estes socialistas são mesmo uns ingratos! Eles pensam que Barroso não trabalha?! Trabalha, sim, e muito. Vejam só este magnífico resultado do seu labor, que teve mais uma peça no movimento diplomático recentemente anunciado:

- João Vale de Almeida, embaixador da União Europeia nos Estados Unidos;
- Nuno Brito, embaixador de Portugal nos Estados Unidos (Washington);
- Mendonça e Moura, embaixador de Portugal junto das Nações Unidas (Nova York).

Três fiéis de Barroso a postos nos States. Seja pela via da Comissão Europeia, seja pela via do governo português, Durão Barroso está ao assalto do lugar de secretário-geral das Nações Unidas. Para isso, é extremamente conveniente ter conseguido colocar três "braços" da sua confiança no país onde decorre grande parte da manobra para produzir uma solução. Como de costume, Barroso gosta especialmente de lugares que poderiam ser ocupados por outros portugueses. Insinuou-se para presidente da Comissão Europeia enquanto dava o seu apoio oficial a António Vitorino, tendo esperado pela hora certa para lhe espetar a faca nas costas. Agora mexe-se com todos os braços do polvo para ganhar a corrida contra António Guterres, muito bem colocado para o lugar devido ao excelente trabalho que tem feito como Alto Comissário das Nações Unidas para Refugiados - mas que, obviamente, será prejudicado com a movimentação de mais um português.

Barroso, de facto, não tem tempo para se dedicar à crise europeia: a crise dele é o próximo passo da sua própria carreira. E, se não der resultado, ainda o vamos gramar como candidato a presidente da nossa República. Que grande estadista.


Obama terá de novo que repetir o juramento presidencial ?




Depois de ter vencido pela primeira vez as presidenciais, Obama jurou como presidente pela primeira vez. Teve agora nova vitória, jurará de novo como presidente dos EUA.
Ainda se lembram que, da primeira vez, Obama repetiu o juramento como presidente, no dia seguinte à cerimónia de tomada de posse assistida por milhões de pessoas? Que essa repetição, sem anúncio prévio, teve lugar num ambiente recatado e perante um restrito número de testemunhas? O como e o porquê desse facto é relembrado e interpretado no meu livro "acerca da profundidade do quotidiano" intitulado "Podemos matar um sinal de trânsito?". Trata-se, afinal, de questionar o intrincado mundo de instituições em que vivemos, não apenas teoricamente, mas a partir de situações concretas do nosso tempo.


não, nós não somos anti-americanos.

11:39

Obama foi reeleito. Nem sequer foi à tangente: perdedor no voto popular, apesar de ganhador no colégio eleitoral, era o que alguns sonhavam como mínima consolação para o seu aborrecimento com o "esquerdista". Ontem ouvi na rádio umas portuguesas dos States a dizer que ele é comunista: não sou um fanático de Obama ("da outra vez" eu até preferia a senhora Clinton), mas teria detestado que estes radicais do reaccionarismo tivessem ficado com a boca doce.
Obama não mudou o mundo, nem sequer a América tanto como alguns queriam. O ponto está em que não têm autoridade para apontar isso como defeito aqueles que tudo fizeram para o travar no que ele queria fazer. Isso: republicanos e seus simpatizantes. E o ponto está também em que é difícil imaginar o que teria sido sem Obama, designadamente sem a sua acção contra o alastrar da crise... mas o raciocínio contra-factual é incerto e muito difícil de entender para certas cabeças.
O curioso está em que, contra os costumes, Obama promete melhor para o segundo mandato, que usa ser a parte com menos chama de uma prestação presidencial. E há uma explicação para isso: o homem era relativamente inexperiente como governante e isso pesou; ele conta agora estar mais preparado e, assim, conseguir fazer melhor na segunda parte do jogo. Como ele diz, "vocês fizeram de mim melhor presidente". Ponham os olhos nisto aqueles que apreciam políticos instantâneos, em vez de políticos com experiência de governar.

6.11.12

"Boa noite, um dia eu estarei morta."

10:30


A "Companhia Maior" foi criada em 2010 e integra profissionais da área do teatro, dança e música com mais de 60 anos. Numa sociedade onde ser jovem é que é bonito, onde os velhos estão a incomodar imenso porque a sua longevidade dá cabo da sustentabilidade da segurança social e porque mostram uma vida que já não depende necessariamente da agitação, eles e elas fazem teatro porque querem fazer teatro e por não quererem parar no cantinho bem comportado que era para lhes estar guardado.


Desta vez, cativaram Mónica Calle para encenar "Iluminações", que está no CCB até hoje à noite, no pequeno auditório. Calle pega em textos vários sobre o envelhecimento e cria um espectáculo poderoso para esta companhia que é um feito da imaginação criadora e de resistência tão apenas por existir. A inconveniente alma da Casa Conveniente habituou-nos a um teatro visceral, um teatro material, físico, sujo, com o corpo dos actores a vibrar no nosso próprio corpo pelas entranhas, numa estranha acção a distância, um teatro que incomoda e não deixa muitas pontas onde possamos ancorar algum apaziguamento. Como faria ela isso com os corpos dos sexagenários? Lá estamos nós, com medo de lhes chamar velhos, a alinhar nesse pudor. Como faria ela isso com os corpos dos velhos, porque é como velhos que eles aqui são personagens, mesmo que alguns não sejam assim tão velhos como isso como actores?


Falar da morte é falar da vida. A morte pode ser uma merda, porque a vida pode ser uma merda. A morte pode ser a passagem para a outra página, porque a vida pode ser uma obra escrita em inúmeras páginas de um incessante trepar ou escavar. Este espectáculo é vida por ser de quem não renuncia à vida. É uma ternura, porque mostra como continuar a ser quem sempre se foi sem se deixar intimidar por ser o mundo composto de mudança. É forte e intenso, como teria de ser com Mónica Calle, mas é contido, apesar de ser um espectáculo de Mónica Calle. É talvez, face ao mundo actual, demasiado contido no tratamento da violência sobre os velhos - e entre os velhos. A violência sobre os velhos está lá, mas com um manto de distância, apontamentos dispersos num percurso que é a maior parte do tempo dominado pela ternura, onde a tristeza quase nunca passa além da melancolia.

Um espectáculo comovente, que nos modifica um pouco por dentro. Um espectáculo contra a desistência: isso é para nós, espectadores. Um espectáculo de celebração sem cerimónias: isso é para eles e elas, actores e actrizes. Mónica Calle disse algures que o espectáculo estava para lá das idades, mas esse é um pudor excessivo e que poderia até resultar encobridor: assuma-se que o espectáculo vale também pelas magníficas idades da maioria dos seus intérpretes, por ser um olhar sobre a velhice, sobre o caminho para a morte, sobre a possibilidade da desistência que é uma possibilidade que não tem de se concretizar.
Vai andar por aí: apanhem-no onde puderem.


Mais informação: Companhia Maior no CCB.

(Fotografias de Bruno Simão, excepto a primeira, que é da LUSA.)

5.11.12

qualquer dia acabam-se as cobaias.



Marko Mäetamm, Pequenos Dramas (instalação, pormenor), 2009-2010.
Exposição "A Arte da Estónia, Adaptando a Modernidade, Provocações e Confrontações".
Fotografada no Museu Nacional, Varsóvia, Junho de 2011, por Porfírio Silva.

a saída para a crise, nem mais nem menos.

17:02

Vejo que há por aí imensas ideias catitas acerca da melhor maneira de nos desembaraçarmos deste governo liderado por um rapaz impreparado e irresponsável, que tem dificuldades em distinguir a governação de um país de um laboratório de teste de brinquedos. Ele há quem queira eleições outra vez, quem reclame um governo de iniciativa presidencial (não sei como, quando não é sequer certo que a República Portuguesa ainda tenha um presidente), um governo de salvação nacional. Não sei se conheço todas as fórmulas imaginadas, até porque tenho uma certa aversão a certas formas de imaginação.
Cá com os meus botões, penso não querer nada disto. Temos no Parlamento uma maioria eleita há tão pouco tempo, que só me ocorre pedir o simples: quero um governo desta maioria que cumpra o que prometeu em campanha eleitoral. Que deixe de seguir um programa que nunca mostrou a ninguém quando pedia o voto, que esqueça a sua agenda secreta e, apenas, aplique o programa que apresentou ao povo. Mandem o rapazola embora, mais o brincalhão da ideologia-Excel, e ponham lá um primeiro-ministro escolhido pelo PSD e pelo CDS para aplicar o que o PSD e o CDS prometeram aos portugueses.
Será que peço demais?!

Os Desastres do Amor.





Falamos todos com as mesmas palavras. Mas é com as palavras comuns que encontramos a nossa própria voz, a nossa forma de dizer, um pensamento próprio. Ninguém pretenderá que digo o mesmo que tu por usar “eu”, “tu”, flexões várias de “dizer”, sendo essas palavras do mesmo saco.
Luís Miguel Cintra anda há tempos a dizer o que tem para dizer com textos afinal seus que são feitos com pedaços de textos de outros que antes dele escreveram. Misturou comédias de Aristófanes em “A Cidade”, fez um “Auto da Alma” que era mais do que isso em “Miserere”, no “Fingido e Verdadeiro” enxertou Santo Agostinho e Tertuliano na peça original de Lope de Veja. E outros casos há, que de momento não me vêm à pena. Se, em vez de pegar nos textos ordenados dos clássicos, os remistura, Cintra não diz o que já estava para ser dito, mesmo se a re(a)presentação diz sempre qualquer coisa de novo. Escolhe a sua própria voz com as vozes dos outros e nisso expõe-se como autor, não já apenas como encenador (ou actor).
Desta vez, neste “Os Desastres do Amor”, Cintra usa textos de Marivaux (1688-1763), sem que isso seja fazer a Pierre Carlet de Chamblain de Marivaux a violência de falar de amor, porque também Marivaux falava de amor. Mas os tempos não perdoam: Cintra vem falar de amor em tempos de crise. Vem falar de amor em vez de falar expressamente desta crise. É um espectáculo onde, se desligarmos os neurónios certos, podemos até esquecer a crise, fazer de conta que tudo aquilo é um conto de fadas (com uma fada a fazer o papel de deus, com deuses incertos quanto ao fado). Podemos sair do Teatro do Bairro Alto bem-dispostos com a companhia Cornucópia. Até soltos: afinal, falar de amor entre o vale da depressão e o vale da revolta poderia ser uma paisagem verdejante, um intervalo. Será? Não, não é.
N’Os Desastres do Amor somos confrontados com as virtudes, os valores, os velhos e os novos, o velho a fazer de novo, a facilidade de trocar o velho pelo novo e pensar isso com ligeireza, a possibilidade sempre presente de vender e comprar tudo em mercados vários – e o sentido ou a falta de sentido de assim proceder. Neste espectáculo, o risco eminente da superficialidade, da facilidade, da volatilidade, é o espectáculo mais profundo de todas as crises que nos assolam nesta crise (os escrúpulos andam mesmo em maus lençóis).
Costumamos ir à Cornucópia para ver espectáculos maximizados para a metafísica e podemos convencer-nos que, desta vez, temos uma festa de possibilidades em torno do tema doce do amor. Só que, bem vistas as coisas, sair dali a pensar que Cintra cumpre a sua palavra de nos falar de outra coisa que não seja a crise, será a crise da própria compreensão. Tudo aquilo que nos é dado a ver é a paisagem da crise antes da crise, sob a crise, fundamento da crise, a crise da nossa ligação ao mundo. A crise da autenticidade, que levará sempre à crise da cidade. Não ver isso debaixo das peripécias do amor será a sua própria pedra contribuída para o muro dos tempos árduos que são os de hoje. Coerentemente, a Cornucópia não lhe retirará a liberdade de ir ver Os Desastres do Amor e voltar confortado. Alegrado, mesmo. Mas não foi esse o teatro que ali vi. Porque não é esse o teatro que ali vou ver.
(Estreou a 1 de Novembro, nesse dia o vimos. Estará na Cornucópia até 25 de Novembro. Mais informações aqui.)






4.11.12

uma escultura de José Pedro Croft.


Não, não é uma mesa de um laboratório de química. Não é uma bancada de ensaios. Veio desses lados do mundo, mas agora é uma escultura. José Pedro Croft continua a pegar nas peças deste mundo corrente para criar o mobiliário de um outro mundo, do mundo que nos propõe existir se outros olhos existirem. Está, aliás, esta peça como se fosse mostrada sobre um plinto onde as esculturas clássicas eram mostradas: só que, desta vez, o plinto não é um elemento exterior à escultura, parece um suporte da escultura mas faz parte da própria escultura. Aliás, um plinto exterior à escultura, um mero suporte de exibição da escultura, não estaria inclinado. Esse elemento denuncia/anuncia que aquele objecto foi lançado em outra vida.

Foi uma mesa de laboratório de química, mas agora é um ponto de vista. O espelho, que Croft já utilizou outras vezes, não permite um olhar único, nem meramente contemplativo. O espelho modifica a peça, à medida da nossa procura; modifica o espaço onde convivemos com a peça; pede que viajemos à procura do nosso olhar. Vi ali um piano onde só poderia tocar se descobrisse outras teclas que não as teclas de um piano (mas eu não sei tocar piano!). Vi ali um barco com velas num mar revolto a levantar-se das águas (mas eu não sou navegador!), a navegar numa cave bem seca e bem iluminada, sem tempestade à vista. Uma peça quieta pode implicar que nos movamos, pode fazer o mundo girar. Croft tem vindo a fazer-nos isso, esta sua escultura faz-nos isso.

"Dois desenhos, uma escultura", de José Pedro Croft, na Appleton Square. Curadoria de João Silvério. As imagens (fotografias com telemóvel) fi-las para voltar a olhar.