21.1.12

representação política.

19:35





Cerca de 1500 pessoas percorreram neste sábado as ruas do Marquês de Pombal até ao Parlamento, em Lisboa. Os protestos são contra as medidas de austeridade.

Pode ser que a representação política que se vê no Parlamento não esteja nos seus melhores dias. Mas os herdeiros dos controleiros da rua, eternos candidatos a representantes auto-designados, tarde ou cedo enredam-se nos seus rodriguinhos e ficam expostos à sua irrelevância. Perceberão eles que a oposição ao troiko-passismo não equivale a apoiar as efabulações vanguardistas de um punhado de gente?

Cadernos da Rússia. Cadernos da Ucrânia.


Já sabem os visitantes desta casa que aprecio Banda Desenhada, embora não possa dedicar-lhe tanto tempo como gostaria. (Na verdade, cada vez demoro mais tempo a ler um bom álbum de BD - e não ponho os olhos em cima de maus exemplares. É que cada vez é maior a consciência da complexidade do olhar, tendo de deter-me para não avançar demasiado depressa, na voracidade pela história, que me faria perder enorme parte de tudo o que o teatro desenhado tem para ser visto.) É assim que volto, de quando em vez, com umas anotações de uso comum.

Desta vez, venho com Igort, cujo verdadeiro nome civil é Igor Tuveri, um desenhador italiano, educado na cultura russa e que agora vive em Paris. Mencionarei duas das suas obras onde ilumina a história profunda da União Soviética e da Rússia actual como duas realidades políticas onde muito é diferente para muito não ter mudado tanto assim (com as minhas desculpas pelo tom à la Il Gattopardo). Dois álbuns ligados, um já do ano passado, outro acabado de sair.

Em «Les Cahiers Ukrainiens. Mémoires du temps de l'URSS» (Futuropolis, saído em 2010, edição corrigida em 2011) , Igort conta a história da grande fome de 1932-1933, chamada Holodomor, que para alguns se tratou realmente de um genocídio. Para isso, Igort usa duas fontes bem diferentes. Por um lado, testemunhos pessoais. Por outro lado, os arquivos de época da polícia política. Obtém, deste modo, uma mistura de estilos que alguns dizem poder chamar-se "uma comédia" (à italiana).


Em «Les Cahiers Russes. La guerre oubliée du Caucase» (Futuropolis, 2012), Igort segue os passos da jornalista Anna Politkovskaïa e a questão tchetchena para nos mostrar como funciona a "democracia" russa.



Para fazerem uma primeira apreciação gráfica, ficam de seguida mais alguma pranchas destes álbuns.


«Les Cahiers Ukrainiens. Mémoires du temps de l'URSS»







«Les Cahiers Russes. La guerre oubliée du Caucase»









as minorias vanguardistas nem suspeitam que somos tantos.





Seremos capazes de pensar colectivamente sem estarmos sempre a ser embarretados pelas "estratégias de comunicação" e seus idiotas úteis?

tragycomedyaorgya.



Ontem, sexta-feira, no Teatro São Luiz, em Lisboa. Vou escrever já, porque já uma vez me disseram que eu só dava conselhos para ir a coisas que já tinham passado. E desta vez não quero ser responsável se os meus leitores perderem este espectáculo.

Seis horas e quinze minutos de espectáculo, incluindo dois intervalos pequenos (tão pequenos que em nenhum dos dois consegui ser atendido no bar).

As Bacantes, a partir de Eurípedes, pelo Teatro Oficina (de São Paulo). Quem não sabe do texto de Eurípedes, lamento mas a esta hora não dá para contar. Mas procure na internet, se não tem tempo para comprar um livro. Quanto a este espectáculo, deixo apenas a sinopse curta: «Bacantes, de Eurípides, tragédia do embate entre a explosão dos sentidos e as razões de Estado, território de manipulação do desejo em nome da vingança, regressa-nos em forma de ópera carnavalesca, animada por mais de trinta actores, cantores e músicos, divindades afro-brasileiras, música pop e comentário político. Regressa e sobrevive – é já uma criação de 1995 – porque é um espectáculo sempre à procura da distância exacta entre Tebas e o Brasil contemporâneo.»

É um espectáculo total, que virou o São Luiz de pernas para o ar (o palco estendeu-se para todo o espaço da plateia, há actores e acção também por todos os balcões). É teatro, dança, música. É Grécia a sério, dionisíaco a sério. É realmente para maiores de 18 anos. Pode ficar na bancada (zona de participação) ou num balcão, mais recatado, mas não receie: será incentivado a participar, mas não pressionado. Suponho que o "touro" do público que foi integralmente desnudado (como aconteceu a Caetano Veloso, na primeira série), tenha sido conversado sobre essa possibilidade antes de terem passado ao acto. Não é um teatro para quem tenha macaquinhos na cabeça, mas não é pornográfico. Mas se acha que é pornográfico tudo o que tenha gente desnuda, é melhor não aparecer. É o objecto mais resolutamente não burguês que alguma vez vi - e não é por causa da sua retórica anti-capitalista encaixada na tragédia grega. É por causa da forma como lida com o sagrado (se se sente ofendido por mencionarem a sua religião de forma heterodoxa, é melhor não ir). A encenação atira para o longo, como já disse, mas o clímax do crime das bacantes enbriagadas é muitíssimo bem preparado. No total, é uma Grécia brasileira que ficará na memória. Fez-me lembrar a Natália Correia e as suas noções sobre um sagrado primordial e fora das nossas religiões: acho que ela perceberia este teatro.

Informação sobre As Bacantes no S. Luiz, pela companhia Teatro Oficina, aqui.

O primeiro de uma série de vídeos sobre o Teatro Oficina, aqui.

Fica só este sábado e este domingo. É permitido fotografar e filmar. O espectáculo é transmitido ao vivo no site da companhia. Os espectadores só o podem ser se aceitarem essas condições.

Aventurem-se. É um espectáculo único.

20.1.12

Cavaco II, o mendigo.

17:39

Cavaco diz que as reformas dele não chegarão para pagar despesas
.

Vale a pena citar longamente o Público:
No turbilhão de perguntas que os jornalistas lhe colocaram, a que criou maior embaraço a Cavaco foi a que teve a ver com o facto de o chefe de Estado receber subsídio de férias e de Natal, como reformado do Banco de Portugal. O Presidente da República olhou o jornalista durante alguns instantes e depois de fazer uma prolongada pausa disse: “Vou responder”.
E respondeu, afirmando que os 1300 euros que vai receber por mês da Caixa Geral de Aposentações, para onde descontou durante quase 40 anos, e do fundo de pensões do Banco de Portugal para onde descontou durante quase 30 anos, “quase de certeza que não vão dar “ – sublinhou – para pagar “as minhas despesas.”
“Neste momento já sei quanto é que irei receber da Caixa Geral de Aposentações, descontei quase 40 anos uma parte do meu salários para a CGA como professor universitário e também descontei durante alguns anos como investigador da Fundação Calouste Gulbenkian e devo receber 1300 por mês, não sei se ouviu bem 1300 euros por mês”, disse Cavaco, olhando o jornalista. “Tudo somado o que irei receber do fundo de pensões do Banco de Portugal e da Caixa Geral de Aposentações quase de certeza que não dá para pagar as minhas despesas”, afirmou.

Das duas, uma. Ou Aníbal Cavaco Silva tem um qualquer problema de saúde que o incapacita para exercer o cargo de PR - e, nesse caso, não o critico, deixo-lhe a minha solidariedade e peço-lhe que renuncie e vá tratar-se. E desejo-lhe pronta e total recuperação. Ou Cavaco é um político que, consciente do que está a dizer, e de quando o está a dizer, manifesta um total desconhecimento, incompreensão e insensibilidade face ao que se passa no país e com a maioria dos cidadãos. Nesse caso, merece que se organize um buzinão nacional que mostre ao PR que o país não suporta o seu umbigo, não atura que ele se queixe publicamente de uma situação pessoal que é infinitamente melhor do que a de muitos dos seus concidadãos. É que não se suporta um PR que fala pela sua vidinha pessoal, quando se candidatou e foi eleito para pensar no país e não nas suas contas. A pornografia já chegou longe demais.

o PS.

14:15

O Partido Socialista faz falta ao país. Para servir na função que lhe cabe tem de fazer qualquer coisa para mudar o seu actual desempenho na política portuguesa. Já aqui o escrevi longamente, várias vezes: não se fez, de forma séria e pública, o balanço da fase anterior, dita socrática. Essa falta causou dois erros graves. Da parte da direcção, uma tentativa de fazer de conta que o mundo tinha começado com a chegada de AJS à liderança, deixando passar em claro, e facilitando, a manobra do PSD para atirar as culpas todas para o anterior PM. Da parte dos mais fervorosos apoiantes do anterior governo, uma exploração sistemática das dificuldades de dirigir um partido de oposição responsável nas actuais circunstâncias, como se essa dificuldade fosse só de Seguro e não fosse da generalidade dos partidos socialistas, social-democratas e trabalhistas por esse Europa fora. Estes dois erros reforçam-se mutuamente, como erros, e fazem com que os socialistas pareçam andar às aranhas.
Não tenho lições a dar ao PS, como é evidente. Mas gostava mais de ver os socialistas a discutir como poderia o país fazer melhor pelo crescimento e o emprego, que é afinal isso que o país espera de tão boa gente.
(E, claro, vou continuar a escrever o que penso, apesar de, manifestamente, haver por aí quem julgue que um cidadão que escreve num blogue tem obrigação de seguir as conveniências deste ou daquele partido, ou mesmo deste ou daquele partido.)


19.1.12

se podemos ter pleno emprego para matar alemães, por que não podemos ter pleno emprego construindo hospitais e escolas, contratando enfermeiras e professores?

16:45

O seguinte vídeo merece um visionamento - e a consequente reflexão. Trata-se de um excerto do filme de Michael Moore, Sicko. Uma parte do vídeo é claramente virada para o público conservador americano, que pensa que servir no Serviço Nacional de Saúde é algo como ser funcionário da União Soviética. Mas, em geral, as questões suscitadas são questões fundamentais, que devemos ter sempre presentes em debates públicos intoxicados por perspectivas de curto prazo.




Adenda: Como é que se sabe quando um blogue não tem amigos? Quanto tem um erro no título de um post e durante meio dia ninguém protesta! (Já corrigi.)

há conselhos gratuitos?

14:15

O 31 da Armada aconselha António José Seguro, secretário-geral do PS, a "contra-atacar". Contra o governo, a crise, a troika, um ministro das finanças que se esquece que é preciso pagar as pensões dos bancários?
Não, nem pensar.
O 31 da Armada aconselha o secretário-geral do PS a contra-atacar sectores de opinião interna dentro do PS, os chamados socráticos.
O que terá convencido o 31 da Armada de que a prioridade de António José Seguro possa ser atacar uma parte da opinião interna do seu próprio partido?

neste dia em 1923 nasceu Eugénio de Andrade.

11:30

O DESEJO

O desejo, o aéreo e luminoso
e magoado desejo latia ainda;
não sei bem em que lugar
do corpo em declínio mas latia;
bastava abrir os olhos para ouvir
o nasalado ardor da sua voz:
era a manhã trepando às dunas,
era o céu de cal onde o sul começa,
era por fim o mar à porta - o mar,
o mar, pois só o mar cantava assim.

Eugénio de Andrade, O Outro Nome da Terra

18.1.12

trabalho e capital.


Já escrevi o que tinha a dizer sobre o "acordo" de "concertação" "social".
Daniel Bessa, um convertido às soluções post-it (tipo "basta colar nas trombas dos de baixo e já está"), não podia ser mais claro: a meia hora adicional por dia de trabalho era uma brincadeira de meninos, comparado com aquilo que afinal acabou por ser assinado. Se ele o diz, quem somos nós para desmentir?

Stop SOPA !

14:15



Não sou aderente da iniciativa, mas convém que nos informemos. O vídeo que se segue é uma saudável introdução ao problema.




esquerdas.


A propósito deste post: Não, obrigado, não quero recibo, Filipe Moura publica este outro post: O "Cinco Dias" já tem o seu Soares dos Santos.
Vale a pena ler ambos. Ajuda a compreender que, hoje em dia, a reivindicação de se "ser de esquerda" pode ser um embuste. Como escreve Filipe Moura: «Depois de ter exportado um dos seus fundadores para o gabinete de Miguel Relvas, o Cinco Dias tem agora alguém que comunga as ideias sobre fiscalidade da direita mais liberal.»
É, também, isto a nossa crise: o oportunismo e a demagogia tomaram conta também de franjas largas da auto-reivindicada esquerda. A solução não é dizer que já não há diferença entre esquerda e direita, porque isso não é verdade e é uma fuga aos verdadeiros debates (o que fazer de novo, em circunstâncias novas, para preservar valores antigos que permanecem válidos). A solução é não passarmos carta de alforria a grupos, blogues e excitações - só porque berram muito, radicalizam muito, estrebucham muito.

algo de novo no reino da dinamarca?

11:55

A primeira-ministra da Dinamarca apresentou esta manhã no Parlamento Europeu o programa da presidência do Conselho da União Europeia, que neste semestre será da responsabilidade do seu governo. Dado que quase toda a Europa é governada pela direita, mais conservadora ou mais liberal, e que isso influencia enormemente a resposta à crise, estamos curiosos por saber o que pode fazer, ou, pelo menos, dizer de diferente um governo de centro-esquerda.
As oposições socialistas, trabalhistas e social-democratas na Europa, não apenas em Portugal, têm tido extrema dificuldade em convencer os povos de que seriam capazes de responder de forma substancialmente diferente a esta crise, e que essa resposta seria mais eficaz e mais simpática para o quotidiano das pessoas. Se a Dinamarca, liderada pela social-democrata Helle Thorning Schmidt, desse uma luz dessa alternativa, a nível europeu, durante estes seis meses, isso representaria um grande incentivo à reflexão sobre caminhos socialmente responsáveis que não seguissem a actual linha de empobrecimento forçado embrulhado em ideologia.
Do que disse a senhora Helle Thorning Schmidt, apesar da opacidade relativa do palavreado diplomático de uso nestas circunstâncias, cabe realçar o seguinte: o processo de consolidação orçamental não pode ser abandonado, e é importante, pelo que é preciso completar rapidamente o tratado do "compacto fiscal"; mais isso não chega, é preciso crescimento e emprego, e a Europa tem de agir nesse sentido; o reforço do Mercado Interno, fazendo o que ficou para trás, deve contribuir para uma resposta europeia de crescimento e emprego; isso tem de ser feito com o método comunitário, porque já não estamos em tempos de a Europa ser governada pelos que têm a força, estamos em tempos de governo segundo a lei e em democracia.
Tudo isto são boas intenções - e, além disso, um programa que, concretizado, tocaria em alguns aspectos essenciais do que está em causa. Resta saber se isto é apenas a ponta do icebergue, e a Dinamarca tem ideias concretas para colocar em cima da mesa, ou se isto é apenas um floreado necessário a uma audiência no exigente Parlamento Europeu, sem força e sem aliados suficientes para agitar as águas profundas.
O desvelar dessas potencialidades nos próximos seis meses terá de ser seguido com atenção.

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desconcertação social a longo prazo.

10:21


Fundador da UGT diz que acordo pode ser “certidão de óbito” desta central sindical.

Triste acordo de concertação. Triste desconcertação. Triste por tudo, pela forma e pelo conteúdo.

A CGTP não entra no acordo - mas, também, nunca entra. Em vez de ser uma variável, é uma constante. Isso acaba por reduzir o significado da sua recusa, por muita razão que tenha. E muita razão tem. A relevância da CGTP continua a ser a rua. Sim, a rua importa, mas não é possível uma democracia madura sem que os trabalhadores tenham uma voz à mesa das instituições - e a saída fácil da CGTP, fugindo sempre com o rabo à seringa dos acordos, deixa essa necessidade democrática enfraquecida. E debilita a sua voz própria em circunstâncias como esta, por muito grosso que Carvalho da Silva fale. A incapacidade de Carvalho da Silva para dar resposta a essa visão alargada do papel dos trabalhadores numa democracia é um factor negativo para o seu futuro político pós-CGTP, ele que já chegou a sonhar com uma candidatura presidencial e que, quando passar a pasta de líder sindical, certamente não se deixará ficar fechado entre as quatro paredes de um centro de investigação académica.

A UGT assina, porque, explica, todas as maldades seriam feitas de qualquer maneira, porque as maldades estão previstas no acordo com a troika assinado por PS, PSD e CDS. Mas esse acordo já não existe! Já foi revisto por este governo, sem dar cavaco a ninguém (talvez a Cavaco, não sei), já foi ultrapassado pelos acontecimentos - menos para a UGT, que continua a invocar tal coisa. A UGT assina, porque, explica, ainda podia ser pior: por exemplo, podia vir a meia hora a mais. Mas, então, podia sempre ser pior - logo, devem assinar-se todos os acordos. Não faz sentido: a UGT assina um acordo que não tem nada a favor dos trabalhadores. As confederações patronais, desta vez, nem disfarçam: queriam mais, mas tudo o que assinaram é a seu gosto. E, pior: se calhar terão ainda mais, por via legislativa.

No conteúdo, este acordo, pela primeira vez desde há anos, só estende a mão aos patrões, não tem nada para compensar o esforço dos trabalhadores. É um acordo preguiçoso, porque nada exige às empresas. A grande culpada da falta de competitividade da economia portuguesa, bem como da baixa produtividade da maior parte das empresas, é a deficiente preparação de muitos empresários e de muitos dirigentes das empresas. Fazer bem é necessário, mas fazer bem sem desperdiçar recursos e sem explorar as pessoas é mais exigente. Essa eficiência continua a faltar, parecendo que ninguém está interessado em exigir às empresas que façam melhor por esse lado. A culpa é sempre dos trabalhadores, mas nunca fica escrito como é que os trabalhadores saem beneficiados se as coisas correrem melhor: toda a gente tem de "se unir" para pagar a crise, mas, quando chegarem melhores dias, como serão distribuídas as vantagens? Este acordo, fugindo descaradamente a esta questão, é um acordo anti-social.

E isto digo eu, que sou um reformista apoiante fervoroso de uma concertação social forte. Mas, para isso, se calhar temos de perguntar aos alemães como se faz...