25.6.10

provérbios que ainda ficam melhor de pernas para o ar


Pedro Rosa Mendes:
"em casa onde não há razão, todos ralham e ninguém tem pão"
in Peregrinação de Enmanuel Jhesus


hoje é dia de jogo



O Bolas e Letras diz que era para ser sobre futebol e livros. E que depois se dispersou. Bom, por estes dias até está bem focado. Como hoje é dia de jogo, fomos lá buscar dois apontamentos imagéticos.





comunicado aos amigos da praia grande do rodízio


Por este andar, assinalado nos últimos dias, terão Vossas Excelências de ir passar férias de Verão para outros poisos. A minha máquina fotográfica não viu, mas eu vi. As rochas, sendo embora muito românticas, deixam espaço para poucos românticos. Provavelmente (não fui verificar) estará a Praia Pequena maior que a Praia Grande.










curso de verão, precisa-se


Portagens nas Scut avançam apesar do chumbo no Parlamento.

Para evitar títulos "lindos", alguém pode explicar ao jornalista que o Parlamento ontem não aprovou nada? Que a votação de um diploma, na generalidade, carece (em geral) de uma apreciação na especialidade (em sede de comissão), durante a qual muita coisa pode ser negociada e modificada? E que só depois disso o diploma, às vezes muito diferente do projecto original, será de novo votado e eventualmente aprovado? E que, como neste caso se tratava de revogar legislação em vigor, continua por enquanto tudo na mesma - até que o processo conclua?
Claro, falta negociar como se podem e devem fazer as coisas. Infelizmente para o jornalismo apressado, legislar não é a mesma coisa que abrir uma lata de cerveja: não é só puxar pelo penduricalho e já está.

24.6.10

art i ficial

notícias deste pequeno mundo

Cavaco sempre sempre alerta

negociar


Governo apresentou contra-proposta ao PSD sobre as Scut.

Negociar é próprio de uma democracia com alguma maturidade. E uma exigência de respeito pelos eleitores: se não há maioria absoluta, a legitimidade é ainda mais partilhada do que habitualmente. Defendemos isso aqui há muito tempo.
Ora, que isso é possível está a ser demonstrado. O PSD mostrou ser capaz de negociar. O Governo, embora devesse ter tido mais cuidado no calendário, mostrou ser capaz de negociar. Fica demonstrado: é possível negociar, apesar dos distraídos e apesar dos incendiários. Só recomendaria, para aumentar a sustentabilidade do método, que as negociações não dependam excessivamente de conferências de imprensa: falar olhos nos olhos à volta de uma mesa talvez seja mais fácil...
Entretanto, como também já aqui mostrei muitas vezes, eu preferia que fosse possível a negociação entre o PS e aquela "esquerda da esquerda" que não me canso de criticar, por discordar da amálgama em que PCP e BE se têm deixado cair (com o PSD e o CDS, compagnons de route improváveis). Pois, insisto: o que está a acontecer entre o PS e o PSD mostra que outras vias poderiam ter sido seguidas. Mostra o que vale a intransigência do PCP e o BE, em termos de oportunidades políticas para a esquerda. Mostra que só fala contra "dançar o tango" quem só sabe dançar sozinho.

chip e chispalhada não são a mesma coisa

a transformação de M.


Cara mdsol:

Venho, em sincero espírito de colaboração, oferecer esta ilustração para o seu post intitulado sei lá, é blandícia. Talvez ajude os seus leitores à compreensão do retrato que aí traça.

Do filme Metropolis, de Fritz Lang (1927), a cena da transformação de Maria.


inquérito à comissão de inquérito

14:32

Val, no Aspirina B:
«Dizer que o Governo sabia do negócio por este ter sido noticiado na imprensa no dia anterior ao debate no Parlamento talvez não justificasse a existência de uma comissão de inquérito.»
Talvez não.

Na íntegra, aqui.

sagradas vaidades


Pescado com a cana da Alice.




George Soros speech at Humboldt University


Para reflexão.

(Peço desculpa por não traduzir, mas não há tempo para isso.)

So what should Germany do? It needs to recognize three guiding principles.

First, the current crisis is more a banking crisis than a fiscal one. The continental European banking system has not been properly cleansed after the crash of 2008. Bad assets have not been marked-to-market but are being held to maturity. When markets started to doubt the creditworthiness of sovereign debt it was really the solvency of the banking system that was brought into question because the banks were loaded with the bonds of the weaker countries and these are now selling below par. The banks have difficulties in obtaining short-term financing. The interbank market and the commercial paper market have dried up and banks have turned to the ECB both for short-term financing and for depositing their excess cash. They are in no position to buy government bonds. That is the main reason why risk premiums on government bonds have widened, setting up a vicious circle. (...)

Second, a tightening of fiscal policy must be offset by a loosening of monetary policy. Specifically, the ECB could buy treasury bills directly from Spain significantly reducing its financing cost below the punitive rate charged by the German inspired European Financial Stabilization Fund. But that is not possible without a change of heart by Germany.

Third, this is the time to put idle resources to work by investing in education and infrastructure. For instance, Europe needs a better gas pipeline system and the connection between Spain and France is one of the bottlenecks. The European Investment Bank ought to be able to find other investment opportunities as well.

Integral aqui.

no horse




The Dead Weather - No Horse (Sea of Cowards)

o mundo é muito grande...

10:00

... para certas cabeças.

Episódio 1. Excerto de conversa, hoje de manhã, numa aldeia a trinta quilómetros da capital: "Hoje é feriado em Lisboa. É dia de S. João."

Episódio 2. Eles não as medem.

Biblioteca Nacional de Portugal, conhecem?


Planeia-se o encerramento da Biblioteca Nacional de Portugal por um período de dez meses durante o próximo ano. Isso vai tramar a vida profissional de muita gente. Há que fazer com que "a coisa" seja repensada.

Seguindo este link pode ler-se a petição contra tal encerramento - e, caso se concorde, assinar por baixo.


manuela no país dos tontinhos (in)úteis


A justiça, a política e a comunicação social.
Passo a citar:
«(...) o advogado da senhora desconhece a lei e entregou a dita queixa no DIAP em vez de a entregar na secção criminal do Supremo Tribunal de Justiça; o procurador adjunto do Ministério Público também desconhece a Lei e, em vez de remeter a denúncia para o Tribunal competente, abriu inquérito e encaminhou para o juiz titular do 4º juízo do Tribunal de Instrução Criminal o pedido de constituição de arguido do primeiro-ministro; o Juiz do Tribunal de Instrução Criminal também desconhece a Lei e pediu à Assembleia da República autorização para a constituição de arguido. A comissão de Ética da Assembleia da República já informou o senhor Juiz que não está nas competências do parlamento autorizar o bizarro pedido. Parece que alguém já explicou a todos estes «operadores de justiça» que desconhecem a Lei e que todos os seus actos são nulos. São nulos, mas produzem efeitos. Não na Justiça, mas na comunicação social.»
Por Tomás Vasques.

23.6.10

dificuldades na coligação negativa


Parece que o PS e o PSD estão a negociar o que fazer com as portagens nas Scut. Apesar do desgosto que isso causa a alguns dirigentes do PSD, e de outros terem uma vaga esperança insurreccional no assunto, o que é natural é que os dois partidos que acordaram uma certa via de ataque à crise não falem apenas de teses gerais, mas negoceiem também como elas se hão-de concretizar. Concorde-se ou não com esse acordo, essa negociação é exigível.
Vejo agora nas televisões que há dirigentes da "esquerda da esquerda" que dizem que essa negociação é uma "troca de favores". Chamar "troca de favores" a uma negociação entre forças políticas, negociação essa conduzida no seio do parlamento e no quadro de um processo legislativo, é um gesto indigno. É uma tentativa de cuspir no melhor que há na democracia: a capacidade de compromisso. Chamar "troca de favores" a uma negociação é mostrar que se prefere a destruição das instituições ao seu funcionamento. Criticar o conteúdo de uma negociação é legítimo; apontar outras soluções e defendê-las, é desejável. Falar de "troca de favores" é sintoma de arrogância: mesmo na oposição, há quem se ache detentor do exclusivo da verdade. Lamentável.

a Alemanha vai matar a União Europeia?

20:34


George Soros declarou hoje ao semanário alemão Die Zeit que a Alemanha pode causar o colapso do Euro e destruir o projecto Europeu com as suas políticas orçamentais de poupança. Segundo Soros, "A política alemã é um perigo para a Europa, poderia destruir o projecto europeu”. Acrescentou: "Se os alemães não mudarem a sua política, a sua saída da União Monetária seria útil para o resto da Europa". É que "o que os alemães estão a fazer neste momento é arrastar os seus vizinhos para a deflação, o que ameaça uma longa fase de estagnação. E isso leva ao nacionalismo, à agitação social e à xenofobia. A própria democracia poderia estar em risco". E diz mais: "A Alemanha está isolada no plano global. Por que não deixam subir os salários? Isso iria ajudar ao arranque de outros estados da UE."

o estado da nação, ainda

14:47

Ministério Público pediu levantamento da imunidade parlamentar de Sócrates e juiz concordou.
Comissão de Ética delibera que não tem competência para suspender Sócrates.
Queixa de Moura Guedes vai para o Supremo Tribunal de Justiça.

Uma jornalista, ex-deputada do CDS/PP, pode dizer o que lhe apetecer, usando a tribuna de uma televisão, de forma que muitos jornalistas (e não só) consideram mau jornalismo ou mesmo não-jornalismo.  (Marinho e Pinto diz a Manuela Moura Guedes, cara a cara, como se pode ver no vídeo abaixo:  "Você viola todos os dias, de forma sistemática, o seu código deontológico.") Um político tem obrigação de comer e calar.

Um ou mais agentes de justiça podem correr para qualquer acto que dê publicidade à sua movimentação baseada na queixa da pura jornalista, aparentemente sem qualquer cuidado formal (pedir ao Parlamento que levante a imunidade parlamentar de um não deputado, numa fase prematura do processo) - sem que o país se espante com o desplante.

"Vende-se". Cartaz à porta do país. "Vendido". Cartaz à porta de muita gente que deveríamos respeitar. Não, "vendido" não: "fechado para obras".

o estado da nação, again

14:34

Henrique Granadeiro: "O país é governado por coligação de procuradores e jornais". (Jornal de Negócios)
«"O País é governado por uma coligação entre alguns procuradores da República e alguns jornais", denuncia Henrique Granadeiro. " É uma verificação. Sei muito bem como as coisas são cozinhadas". A denúncia parece dirigir-se ao "caso TVI" e à sua evolução para a "Face Oculta", que, aliás, levaram Granadeiro à Comissão Parlamentar de Inquérito que acaba de encerrar.»
Comentário do Pedro: «A questão é que ou alguém quebra a espinha a essa coligação ou o País pura e simplesmente não poderá ser governado. »

o estado da nação

14:31

Ontem, no "telejornal", ouvi um "condutor do Norte", em vias de buzinão contra o pagamento de portagens nas Scut do Norte, dizer algo como "eles [governantes em sentido lato] que paguem a crise, que foram eles que a criaram".
Claro, a enorme dívida privada, mais a dívida dos bancos privados (contraída para satisfazer a procura privada de crédito), é culpa dos governantes. As carradas de consolas de jogos de vídeo, os carrinhos cujas prestações consomem o ordenado, as salas cheias de presentes de Natal para esquecer na hora seguinte, os vestidinhos renovados na estação, as moto-4 que vemos a estragar as nossas zonas costeiras, os sapatos ténis de boas marcas que se vêem nos pés de rua, etc., etc. - são tudo coisas que os pobres dos portugueses compram para consumo dos governantes.
O consumo sem tino (quando desligado das reais necessidades de uma "vida boa"), a falta de juízo na gestão doméstica, a fatal ingenuidade na avaliação das armadilhas colocadas pela publicidade e pela profusão de cartões de crédito e até de créditos sem cartão - nada disso aconteceu, nada disso importa. Quem tem a culpa são os "governantes": eles é que vestem as nossas calças e bebem as nossas bebidas espirituosas.
A crise é, em grande medida, esta tendência para passar as culpas. É uma crise de (in)consciência, apoiada pela incivilidade dos que pensam ganhar algo com isto.

22.6.10

cá vou eu no meu Trabi


PSD faz ultimato ao Governo para alargar portagens a todas as Scut.
Acrescenta o Público: «É um ultimato e a reafirmação de um desmentido: O PSD desafia o Governo a dizer se avança para a cobrança de portagens em todas as Scut e impõe uma data limite – 9 de Julho - dia em que o Parlamento aprecia o decreto que determina o pagamento das portagens nas três Scuts. Caso contrário, o PSD votará a favor nesse dia da revogação do diploma que introduz as portagens no Litoral Norte, Costa de Prata e Grande Porto.»

Concorde-se ou não em substância, esta posição do PSD tem a virtude de ser clara. O Governo tem de optar entre dois caminhos. Ou, terceira via, deve apresentar na praça pública uma razão compreensível para querer excluir determinada Scut da regra geral e tentar convencer o PSD da bondade dessa razão. Isto talvez não deixe contentes os social-democratas que preferiam a insurreição, mas faz sentido. De qualquer modo, qualquer dia não haverá dinheiro para o gasóleo, portanto...


Marco António está cheio de razão


Marco António desmente negociações com o Governo sobre portagens nas Scut
.

Marco António é que é sábio. Dado que se vislumbra uma possibilidade de secessão "do Norte", dada a tremenda injustiça de só haver portagens pagas no Norte, como toda a gente sabe (acho que há tipos que pensam que a passagem da Via Verde é um canal especial para passarem os sulistas sem pagar), é preciso evitar qualquer coisa que pareça negociar. Do que estamos a precisar é, primeiro, igualdade (o pessoal do Norte também deve poder passar nos tais canais especiais onde se passa na acelera, parece que sem pagar) e, segundo, confronto. Claro que, para o futuro do país, as Scut são o mais decisivo. Saúde ou segurança social, comparados com portagens que não existem em mais lado nenhum em toda a extensão do território nacional, são temas irrelevantes e que. obviamente, não merecem sequer uma pequena insurreição.

(Declaração de interesses: eu também sou do Norte. E, em Lisboa, pago para ter o carro estacionado à porta de casa. E não me convém nada a secessão do Norte, pelo incómodo de depois ter de passar fronteiras para ir a casa dos pais e dos irmãos, nomeadamente. )

insurrectos de trazer por casa amarrados ao baraço

17:32

Rui Rio, a propósito das SCUT: "Estamos à beira das pessoas se poderem revoltar a sério".

O Eduardo Pitta, sem papas na língua, como de costume:
Vamos por partes. Eu, quando vou a Cascais, a Óbidos, a Palmela, ao Porto ou a Elvas, pago portagens. Até para ir à Marmeleira se paga portagem. E sempre me fez muita confusão não ter de pagar entre o Porto e Afife (na realidade, entre o Porto e Vila Praia de Âncora, local em que é preciso deixar a A28 para retroceder a Afife), ou entre o Ancão e os Salgados, servindo-me da Via do Infante. Portanto, na minha, as Scut devem ser pagas. Todas. Desconheço a razão de começar por aquelas três. Se é por causa da crise, deviam ser oneradas as sete.
Isto dito, a ameaça ontem proferida por Rui Rio é inqualificável.
Na íntegra, SCUT, CHIPS & INSUBORDINAÇÃO.

títulos de pernas para o ar


Autarca de Faro ameaça punir funcionários que façam pausas para café prolongadas. (Público)


A mim parece-me que pausas demasiado longas durante a jornada de trabalho, seja para tomar café, fumar charros ou ler o Povo Livre, seriam sempre merecedoras de "repressão". O Público, no seu estilo de "jornal de referência", prefere falar da ideia de Macário Correia como se este fosse um troglodita a planear chicotear os funcionários. Gostava de conhecer a política de bicas do jornal Público.

a propósito de franceses que falam inglês


Contaram-me que, há uns anos, uma equipa que levou um robot a uma demonstração em França, a um evento onde a comunicação seria em língua inglesa, baptizou esse robot como Z Robot. Uma piada mais ou menos subtil ao The Robot dito pelos franceses. Este cartoon bate (amigavelmente) na mesma tecla.

(Cartoon de Marc S.)

21.6.10

política de verdade

11:23

Lembra-se aqui uma intervenção do dirigente do BE, Luís Fazenda, na Convenção do Partido Bloco de Esquerda em 2009. Um exercício de política de verdade, um estilo muito espalhado na "arena política portuguesa". (via Convenção Extraordinária)


Dada a mania que o BE tem de "não ser bem um partido", manobra que se destina a deixar margem para a demagogia anti-partidos, enquanto usam todos os truques do partidismo exacerbado, acho que devemos começar a referir-nos a essa formação como "o Partido BE". Com todo o respeito, claro.

20.6.10

o PSD e Saramago - isto existe?

18:49

O Grupo Parlamentar do PSD, através da sua conta no Twitter, reagiu como segue à morte de Saramago.

Eu não quero acreditar. Mas, se calhar, tenho mesmo de acreditar. Lembro-me de Sousa Lara. E lembro-me, ainda há pouco tempo, deste deputado europeu do PSD.

Imagem e info do Ponte Europa, via Câmara Corporativa.



Saramago, um espelho


Quando morre um grande, de repente todo um exército de outros mortais se lembra de o terem conhecido, admirado, ouvido, lido. Meio mundo, de um momento para o outro, tinha, com os seus próprios ouvidos moucos, escutado umas palavras muito sábias da sua própria boca. Outro meio mundo, também de um momento para o outro, descobre que o agora falecido tinha esta e aquela mancha nos bastidores da história pequena, paredes meias com a história grande. Há sempre uns funcionários do ódio que pensam aproveitar a ocasião para tentar ter a última palavra na conversa. Ridiculamente, não percebem que, empurrando na memória dos outros, apenas ficam mais enterrados na sua própria armadilha maniqueísta, uma heresia que há muitos séculos a própria ortodoxia católica teve de expurgar. E, indispensavelmente, há um cardume de peixes a ajeitar a gravata e a chegar-se à frente para ficar na fotografia, do velório ou do funeral. Este é o teatro da morte dos grandes, cuja parte invisível são os funcionários do protocolo a tratar do aspecto das coisas que devem menos ao aspecto do que a nossa cara barbeada em cada manhã. Para tudo isso os grandes foram - e são - grandes: para terem de suportar o nosso teatrinho.

A morte tem a grande vantagem de coar. Pelo pano da morte poucas cousas resistem a passar. Saramago, tão apenas por ter escrito dois ou três grandes livros, deixa umas pepitas que não passarão facilmente pelo pano de coar com esquecimento. Claro que, como cidadão, Saramago pertencia à cidade e, aí, o aplaudimos, citámos, criticámos, gozámos (como se pode ver neste blogue). Isso não nos impede, agora, de perceber que a morte depura, modifica o horizonte, entorna os líquidos e as areias ao ponto de misturar o nosso universo de outra maneira.

Saramago esteve exposto em câmara ardente - com óculos. Li que ouve quem estranhasse isso: "nunca vi um morto com óculos". Mas, afinal, para quem sem óculos não consegue ler nem escrever (como é o meu caso, a única coisa em que eu era parecido com Saramago), isso é o mais natural. E o mais humano, pois seria crueldade imensa aproveitar que Saramago esteja morto para, tirando-lhe os óculos, o impedir de ler e de escrever.

***

últimos posts com referências a Saramago, antes da sua morte, neste blogue:
as lágrimas, Galileu e Saramago, Saramago e os monstros, outro Lara?, devem andar mal as finanças de Saramago, para não esquecer a unidade de esquerda, again, as guerras são dos homens, avaliação contínua, palavras, Ibéria, Saramago, Cavaco.


deus lhes perdoe


O diário do Vaticano atacou, este sábado, o recém-falecido escritor português José Saramago. L'Osservatore Romano considera que «Um populista extremista como ele, que tomou a seu cargo o porquê do mal do mundo, deveria ter abordado em primeiro lugar o problema das erróneas estruturas humanas, das histórico-políticas às sócio-económicas, em vez de saltar para o plano metafísico». O artigo afirma ainda que Saramago não devia ter «culpado, sobretudo demasiado comodamente e longe de qualquer outra consideração, um Deus no qual nunca acreditou, através da sua omnipotência, da sua omnisciência, da sua omniclarividência». (TSF)

Não deixo de me espantar com a capacidade dos escribas de serviço no "funcionalismo público" da Igreja Católica. Quero dizer: a capacidade para a arrogância, para a presunção de superioridade, para o sem sentido de quererem que o diálogo seja sempre nos seus termos. E depois ainda se queixem de, coitados, não serem entendidos pelo mundo. E isto, a meu ver, não tem nada a ver com o Deus que invocam, nem mesmo com a religião que dizem servir. Parece-me, apenas, comportamento e mentalidade sectária. Uma lástima, por, assim, só darem razão aos que os atacam, aos que os acusam de manterem um impulso censório.