17/06/10

os ricos que paguem a crise


Apoios sociais vão acabar para famílias com mais de 100 mil euros em dinheiro e acções. (Público)


Ilustração de Le maitre de peinture (Richaud & Makyo & Faure)

A ser verdade, fica assim esclarecido um grande enigma da ciência política: quem são os ricos. Qualquer família (ou indivíduo) que tenha acumulado, certamente fruto da exploração do homem pelo homem, 100 mil euros, não tem direito a prestações sociais.
Mensagem: não poupem. Se têm 100 mil euros e arriscam ficar desempregados longamente (todos arriscamos!), desfaçam-se da massa. Comprem meia dúzia de latas de caviar e blinis e ponham-se a salvo do opróbrio de serem tomados por ricos. Aquela ideia de poupar para precaver o facto de a protecção social cada vez proteger menos? esqueçam! É absolutamente necessário que sejam pobres e sem recuo, sem um centavo poupado: caso contrário, ainda vão exigir-vos que paguem a crise.

12 comentários:

Joana Lopes disse...

Especialmente chocante no caso do Abono de Família, não?

Porfirio Silva disse...

Joana, francamente não sei o que é mais chocante. Parece que só quem esteja reduzido à condição de verme, absolutamente desprotegido e sem nenhuma espécie de retaguarda, é que tem, então, direito à "caridade".

Francisco disse...

Estes limites vão ficar muito mal ao PS até por mostrarem o que se tem passado até agora. Garantido.

Porfirio Silva disse...

Francisco, não estou preocupado com o que fica mal a este ou aquele partido, embora o PS seja o partido que eu apoio. Estou interessado é na lógica, ou falta de lógica, disto tudo. Falar como se uma família que tenha poupado 100 mil euros fosse uma família rica; falar como se uma família que tenha sido suficientemente prudente para tentar precaver-se deva ser obrigada a deitar fora esse esforço e deixar-se ir às lonas - não compreendo. Deveriam incentivar-se as famílias a fazer essa poupança, em vez de as tratar mal por causa disso. O que queremos é que, passada a crise, estejam todos piores, mesmo os que pouparam, quando um dos nossos problemas é a falta de poupança?

Francisco disse...

Posso apostar consigo, pelo menos 20% dos portugueses acham chocante que se ponha dinheiro do estado para apoiar famílias com quase 100mil euros em stock ou famílias que tenham uma casa que valha quase 250mil euros. Mais chocante ainda é saber (infelizmente agora) que esses limites não existiam.
Em quantos meses consegue uma família gastar 100mil euros sabendo que está em crise financeira familiar? Será que se pode contar em anos?
Por outro lado, qual é a percentagem de famílias que têm 100mil euros de dinheiro em stock? Qual será o salário típico dessas famílias?
E o que estará em causa afinal, apoio social ou a qualidade do sistema de saúde? Ou será a qualidade do sistema de apoio ao desemprego?

Porfirio Silva disse...

Francisco, aquilo que choca os portugueses, em si mesmo, não me interessa muito. Ou melhor: pode interessar para perceber como os portugueses funcionam, mas não determina a minha posição.
O que acho interessante é como esta medida revela os estereótipos dominantes na nossa sociedade: uma família que faça uma vida séria, até com sacrifícios, para ter uma margem para o essencial quando houver "crise", torna-se uma família suspeita. Já se apercebeu de quantas pessoas, hoje em dia, chegam aos 50 anos com uma vida estável e, de repente, vão para a rua e ficam na maior das aflições, na perspectiva de nunca mais terem emprego? Os que tomam algum cuidado contra isso, tendo acumulado a enorme fortuna de 100 mil euros, são vistos como uns tolos. Talvez até uns tansos. A merecer crítica. Mas, afinal, 100 mil euros chegam para aguentar sem desespero quantos anos de desemprego? Quantas doenças daquelas que o SNS não resolve?

Joana Lopes disse...

De acordo, Porfírio: claro que, em qualquer Fórum de Opinião Pública, se ouvirá que ter 20 mil contos é uma fortuna que dá para viver o resto da vida.

Mas voltei aqui por uma outra razão. Julgo ter ido que será considerado, para a aplicação desta medida, o conjunto de pessoas com o mesmo domicílio. Se percebi bem: se um casal amealhou os tais 100.000 euros ao longo da vida (ou mesmo o dobro) e dá abrigo a um filho casado, nora e dois netos por estes não terem dinheiro para alugar uma casa, «tira-lhes» o direito aos tais benefícios sociais?

Porfirio Silva disse...

Joana, ontem ouvi o Secretário de Estado a explicar que o aspecto da abrangência da família terá efeitos em vários sentidos (facilitando ou dificultando o acesso às prestações) e acho que nisso ele tem razão (também contam mais cabeças para o cálculo). Mas não sei os detalhes.

Francisco disse...

Concordo consigo no exemplo da família na casa dos 50 mas parece-me um problema (sério e merecedor de atenção) do SNS. Mas esse é só um exemplo que cabe nos limites falados - é um bom exemplo - mas também há maus, dentro dos limites falados - um emigrante que vá trabalhar nas obras junta com moderada facilidade perto de 100mil euros, vá que comece aos 20, parece-me que aos 30 pode regressar a Portugal e receber o RSI e levar uma vida muito pouco produtiva e com muito pouca contribuição para o resto dos pagadores de impostos. Acha isso razoável?
Fiquei mesmo com a pulga na orelha, acho que vou ter mesmo que ler estas decisões no DR, porque afinal entre as noticias e o decretado pode ir uma considerável diferença...

Porfirio Silva disse...

Francisco, estou absolutamente de acordo quanto ao facto de que o Estado e a sociedade devem ser implacáveis contra os que defraudam deliberadamente o bolo comum. Mas, há vários "mas".
Mas, é antes de mais um problema cultural: somos, em geral, tolerantes com o roubo dos bens comuns, por acharmos que "o Estado" são "eles" e por acharmos que defraudar o Estado é uma bela vingança. Essa cultura favorece a fraude e favorece estes mecanismos cegos que pretendem combatê-la. Não vejo ninguém a insultar o taberneiro que não regista os copos que lhe pagamos.
Mas, não pode pagar o justo pelo pecador: um esquema é injusto se comete injustiças, mesmo que outras instâncias da sua aplicação sejam justas. Se não, é o vale tudo.
Mas, último "mas", somos muito lestos a cortar a mão do pequeno ladrão - e muito tímidos a colocar uma algema, mesmo que dourada, no grande tubarão.
Já agora: não pense que o "exemplo dos 50 anos" é uma raridade. Infelizmente não é.

Anónimo disse...

Esta frase revela a mais absoluta desonestidade intelectual: «uma família que faça uma vida séria, até com sacrifícios, para ter uma margem para o essencial quando houver "crise", torna-se uma família suspeita»!


Mas suspeita de quê? De necessitar de apoios do Estado?! E então todos os tesos como eu que estão no "escalão 5" da Segurança Social e não têm tantas ajudas como os dos escalões inferiores, também são "suspeitos"? Mas afinal estamos aqui a falar de quê e para quem, senhor Porfírio?

Júlio de Matos.

Porfirio Silva disse...

Senhor "Júlio de Matos", tenho pena que não saiba ler, muito menos interpretar (que é ler em contexto). É frequente, em quem não saber ler e se põe a tentar escrever, só conseguir insultar. Estou certo, contudo, que o seu caso não é de desonestidade intelectual.