6.6.09

obras de misericórdia (ou o credo dos liberais)


Contrariamente às catolicíssimas obras de misericórdia à moda antiga, o credo liberal sobre a responsabilidade individual como fronteira altíssima de tudo o que mexe comporta uma visão mais "realista" e mais conforme ao cinismo da média classe equivocada acerca de o copo estar meio cheio ou meio vazio.
Nesse credo liberal as obras de misericórdia, em vez de terem a estrutura que se pode consultar na imagem acima, deixam de estar divididas em corporais e espirituais e passam a um catálogo de fusão, segundo estas linhas: 1. Dar bom conselho a quem tem fome. 2. Ensinar a quem tem sede. 3. Corrigir os nus. E assim por diante.

(A foto é de um painel visto no Museu da Misericórdia em Viseu. Clicar amplia.)

saudades dos homens livres


Mário Cesariry, O Navio de Espelhos




5.6.09

Michael Nyman Band - Water Dances






Repetitivo, dizes tu?! Também o meu coração é repetitivo no bater.
(A um dos mais memoráveis concertos que vivi.)

4.6.09

ver de relance uma rainha ou duas


"Montra" de bar em Léon.

ver sinais de um caminho e querer percorrê-lo


Marcas do caminho de Santiago (Léon).
Porque nem todas as caminhadas têm de ser à beira do mar.
Uma vez que o mar nem sempre está por perto.
Uma vez que nem sempre podemos estar perto do mar.
Por não bastar desejá-lo.

acordei durante o dia e tive uma visão



Na catedral de Léon.


proposta para nova bandeira nacional



Decoração de restaurante em Léon.
(É o que dá ter um trabalho muito arejado.)


3.6.09

criacionismo, socialismo... e populismos



Richard Lewontin, num artigo intitulado "The Wars Over Evolution", que publicou na The New York Review of Books (número de 20 de Outubro de 2005), escreve a páginas tantas:

«The political identification of creationism with conservative politics is recent. Before World War II, rural populism in the Southwest and Midwest, motivated by resentment against politically and socially powerful Northern urban elites, included both creationism and socialism. In the election of 1912, the poorest rural counties of Texas and Oklahoma and Arkansas gave more votes to Eugene Debs than did the urban populations of Chicago and New York. At the same time the best-selling weekly in America was the Appeal to Reason, a socialist periodical published in Girard, Kansas. So, what's the matter with Kansas these days? The shift of American populism from the left to the right is part of the history of the disappearance of the American left as a serious political force.»

A afirmação tem um interesse mais geral. Mas o que fez mais imediatamente trazê-la para aqui é a última frase do parágrafo: «A passagem do populismo Americano da esquerda para a direita faz parte da história do desaparecimento da esquerda americana como uma força política relevante.» Ora, aí está uma coisa que dá que pensar.


Clicar sobre a imagem para chegar a mais informação.

1.6.09

os humanos são grandes caçadores

16:20
Os humanos são grandes caçadores.
O animal mais fácil de ferir é o amigo.
É o que se chega mais perto:
aninha-se nas sombras frescas
à espera de uma ceia de palavras
e aí fica ao alcance das pedras.
É o que vem de peito nu
banhar-se nas águas correntes
acreditando na bondade dos ciclos naturais,
das rotinas familiares,
até acabar com a cabeça mergulhada
tempo de mais, até ao sufoco, no sangue
das partilhas entre irmãos.
É o que se aproxima sem armas
não porque as não possua
mas por não lhe ocorrer a utilidade do incómodo
vindo tão-somente ao comer do pão.
O amigo é um animal ingénuo,
que pensa que os outros só podem ver
o que existe.
É um animal de purgatório,
que nunca calcorreou uma ínfima porção sequer
dos tortuosos caminhos
nem dos escuros pecados
que os seus próximos, de ciência certa
sabem e afiançam que acometeu
em algum recanto escuro do universo.
Mais do que a águia ou o leão ou o urso polar
o amigo é a presa real do predador humano
o troféu dos deuses terrenos
o prémio primeiro dos vencedores
porque só ele morre pelas armas da espécie:
ele é a única vítima possível da palavra insensata,
(coisa que o animal da selva ou do gelo não sofre),
a única vítima possível da folia da imaginação,
da sensibilidade desatinada,
a única vítima possível
daquele grão de narrador que todos escondem
e defendem como dom divino quando o esgrimem
queimando com sangue o peito dos próximos
num gesto belo de pura insensatez metálica,
ferindo e despedaçando uma planície plena
de amigos desprevenidos.
Ou apenas um só.
São grandes caçadores, os humanos.

Porfírio Silva, in Horas do Tempo Comum

(Horas do Tempo Comum foi o trabalho vencedor da edição de 2007 do Prémio Literário Políbio Gomes dos Santos, instituído pela Câmara Municipal de Ansião em colaboração com a Associação Portuguesa de Escritores)

as vozes anónimas anunciam o regresso


Corretores queixam-se de que fiscalização excessiva da CMVM prejudica negócio.

A fiscalização atrapalha o negócio. As empresas não percebem o que o regulador procura. Assim os clientes sentem-se intimidados e procuram corretoras estrangeiras, fora da alçada do regulador português, com prejuízo do negócio português. É o que eles dizem.
Ora aí está o regresso, por enquanto por via de vozes anónimas, o regresso do "mercado livre-mesmo-livre-sem-reguladores-a-atrapalhar". Quando alguns partidos da direita e outras forças "liberais" criticam hoje a passada suposta ineficiência dos reguladores, querem fazer-nos esquecer que, se de facto no passado os reguladores tivessem sido mais efectivos, tivessem insistido e pressionado e inspeccionado mais, essas forças "liberais" tê-los-iam criticado por excessivo intervencionismo, por verem aí o Estado a esmagar a iniciativa privada. Como agora (re)começa a ser feito para a CMVM, por enquanto à conta de vozes anónimas. Quando voltarão essas forças "liberais" a mostrar a sua verdadeira face, a face dos "negócios livres" sem "Estado a atrapalhar", depois de terem esquecido os actuais discursos de ocasião num mundo que não se auto-organiza candidamente?


Nuno Melo em comício das europeias: CDS-PP revela hoje parecer do Banco de Portugal sobre nacionalização do BPN .

31.5.09

apelo de cidadania

[ see / hear / do]



Nas ruas de Frankfurt (fotografado a 24 de Maio de 2009).
[Clicar amplia]