27/07/10

a Turquia é o algodão da UE


Cameron faz defesa apaixonada da adesão da Turquia à UE.

MNE alemão entende que a Turquia não está pronta para aderir à UE.

O assunto da hipotética e sempre adiada adesão da Turquia à UE ganha em ser visto à luz da visão que os "grandes" têm do que deve ser "esta" Europa. É a questão de saber se a UE deve ou não ter unidade política e rumo estratégico enquanto actor na cena mundial.
A França quer que a UE tenha uma visão estratégica para o mundo - na medida em que acha que a sua (francesíssima) visão do mundo é a única razoável para a Europa e poderá ser assimilada pelos seus pares, tornando-se europeia a visão francesa.
A Alemanha acha tolice que a UE perca tempo a gerar internamente uma visão estratégica própria, quando seria muito mais fácil simplesmente adoptar a visão germânica já bem definida e pronta a consumir.
O Reino Unido prefere que a UE não tenha de todo nem unidade política nem visão estratégica, para que a política internacional do colosso infantil seja mais facilmente manobrável a partir de Londres e Londres possa prosseguir os seus interesses no mundo sem grande empecilho.

(Ah, finalmente, a Comissão Europeia. No actual estado de coisas, a Comissão pensa que a Europa ter uma visão do mundo é Barroso poder sentar-me à mesa dos grandes nas cimeiras internacionais.)

São estas reflexões que alimento quando parece discutir-se (ainda e ainda) o que fazer com a Turquia relativamente a deixá-la ou não entrar na UE.


7 comentários:

Vega9000 disse...

Não concordo com a sua análise da posição Inglesa - eles são sobretudo pragmáticos, e sabem perfeitamente que a unidade política e visão estratégica comum é uma impossibilidade numa união de estados soberanos, cada um com os seus interesses individuais, e sem um governo central. O bloqueio decorre naturalmente - qual é o politico francês que adopta a politica alemã que, sendo benéfica para a União, é prejudicial aos interesses franceses, só para dar um exemplo? É impossível tomar decisões difíceis, e a politica internacional é feita de decisões difíceis. Nesse aspecto, é o pântano completo, e não se vai sair dele.
Por isso concordo com os Ingleses - se ninguém se entende como conjunto, então ao menos não atrapalhem os países individuais. E se é de países individuais que falamos, porque não a Turquia? Vai colidir com a ideia de Europa? Qual ideia de Europa? Existe alguma, para além da económica?

Porfirio Silva disse...

Vega9000,
Acho que, mais do que não concordar com a minha análise da posição inglesa, o que faz é dar uma explicação para o facto de os ingleses terem a posição que têm.
Quanto ao resto: concordo basicamente com o diagnóstico das dificuldades, mas não concordo (nunca) com demonstrações de impossibilidade. A menos que sejam mesmo demonstrações, o que parece não ser o caso.
À Europa da UE falta história comum: a história que existe é de competição. Por isso, naturalmente, há mais divergências do que convergências, especialmente em assuntos que são de natureza profundamente histórica, como é o caso dos interesses internacionais. Mas, também, quem diria que os Estados dos EUA viriam um dia a ter a mesma política externa? E têm, não é?

Porfirio Silva disse...

Já agora,
A UE tem, talvez, poucas ideias. Mas tem algumas. Não vamos voltar a essa coisa banal que é a paz. Podemos ficar por essa outra coisa banal que é a economia. "Só" tem uma ideia económica. "Só"? Por acaso essa "ideia pouca" até interessa a muita gente...
Isto não tira que a UE esteja cada vez mais míope, que está, concordo.

Vega9000 disse...

Ah, tem razão caro Porfírio, estava a responder ao que me parecia ser uma visão negativa da posição inglesa da sua parte, mas não sei se é esse o seu entendimento. Pareceu-me, daí o "não concordo". Mas note que não usei a palavra "só", considero a união económica e a paz e prosperidade que daí decorre uma das conquistas mais importantes da história europeia. Mas chegados aqui, há que tomar decisões: ou nos mantemos por aqui, mas assumimos que não seremos players a nível mundial, deixando isso para os EUA como de costume, ou avançamos para a integração completa - os Estados Unidos da Europa. Moeda única, governo central, exército único, presidente de todos os Europeus eleito. Até lá, é escusado fingir que, nesse ponto, somos mais do que uma manta de retalhos, e é isso que os Ingleses reconhecem, e eu concordo com eles.
Quanto aos EUA, não é comparável, já que é uma mistura de povos (como nós)mas unidos por uma língua e identidade comum numa terra sem história. E mesmo assim, foi preciso uma guerra civil...mas podemos aprender com eles, em termos de organização política para fazer uma união funcionar.

Em jeito de brincadeira:

"God bless the USE"

A mim, soa-me bem ;) Mas parece-lhe viável?

Porfirio Silva disse...

Em termos europeus, eu sou federalista. Mas sem pressas. Só podemos fazer uma federação quando houver condições para que ela seja democrática. E acho que ainda não há. Além do mais, faz parte do credo de qualquer bom federalista o seguinte disfarce : nunca digas que és federalista!!!
Quanto aos ingleses: eles têm falhado, tanto como os demais grandes da Europa, em equilibrar o ser europeu com o ter outros amigos no mundo. Alguns, como a França, arriscam dar-se mal com o mundo para tentarem ser o farol da Europa. Os ingleses, quando toca à fidelidade com o grande irmão do outro lado, esquecem facilmente os interesses europeus. São dois excessos que têm dado poucos resultados (para a Europa).

Vega9000 disse...

"nunca digas que és federalista"? ahahah, percebo mas com essa não concordo mesmo. Sou mais partidário do assumir frontalmente, e passar pelas fases todas: ser ignorado, chamado de traidor e vendido, vilipendiado, combatido sem piedade, despertar curiosidade, convencer os outros um de cada vez, impor essa visão depois de muitas lágrimas, suor e sangue (de preferência no sentido figurado). Pela calada não me parece que se chegue lá.

Agradeço a sua simpática atenção, como sempre.

Porfirio Silva disse...

"Nunca digas que és federalista" é uma forma de dizer. Como se vê, até digo. Mas acho que os rótulos às vezes baralham as conversas.
Eu é que agradeço ter proporcionado a conversa.