25.2.12

lições práticas sobre capitalismo.

11:00

Quando tiver um bocadinho veja este filme: Tucker: The Man and His Dream, de 1988, realizado por Francis Ford Coppola.
Há muito tempo que o capitalismo não é o mercado livre. Por que haveria de ser agora?


24.2.12

não, os políticos não são todos iguais.


Há políticos que continuam a chafurdar na mentira e na sugestão cobarde. Há. Mas não são todos assim. Alguns até apresentam as contas muito contadinhas. Entre os meios de comunicação social, para não variar, também há quem ajude à confusão, quase como uma vocação: a vocação de chafurdar. Não metamos tudo no mesmo saco: acima de tudo, ouçamos as partes e ajuizemos (ajuizar, não julgar, que isso é para outros).

Ora vem lá se isto não condiz com o que vos escrevo.

Não chamo a isto jornalismo de esgoto, para não insultar o esgoto.


A TVI colocou esta tarde no seu site um pequeno vídeo em que a atracção é a deputada Isabel Moreira a dizer que está drogada, com drogas lícitas. Divulga esse vídeo no Facebook com este comentário, assim em maiúsculas: VEJA AQUI O VÍDEO QUE ESTÁ A MARCAR A ACTUALIDADE. No site, coloca ao lado do vídeo o título "Deputada desmaiou no Parlamento", seguido de "Isabel Moreira confessa que teve quebra de tensão". Entretanto, já corre célere por aí "a deputada que disse que estava drogada". A TVI retirou completamente do contexto a curta intervenção onde a deputada anunciava uma declaração de voto, porque não era o trabalho parlamentar que interessa a tal estação "noticiosa". A estação "noticiosa", com este comportamento, quase nos levava a insultar os canos de esgoto.







neste dia em 1927 nasceu David Mourão-Ferreira.

11:30

A Secreta Viagem

No barco sem ninguém, anónimo e vazio,
ficámos nós os dois, parados, de mão dada...
Como podem só dois governar um navio?
Melhor é desistir e não fazermos nada!

Sem um gesto sequer, de súbito esculpidos,
tornamo-nos reais, e de madeira, à proa...
Que figuras de lenda! Olhos vagos, perdidos...
Por entre nossas mãos, o verde mar se escoa...

Aparentes senhores de um barco abandonado,
nós olhamos, sem ver, a longínqua miragem...
Aonde iremos ter? — Com frutos e pecado,
se justifica, enflora, a secreta viagem!

Agora sei que és tu quem me fora indicada.
O resto passa, passa... alheio aos meus sentidos.
— Desfeitos num rochedo ou salvos na enseada,
a eternidade é nossa, em madeira esculpidos!

David Mourão-Ferreira, in "A Secreta Viagem"

23.2.12

redondo vocábulo.



José Afonso morreu a 23 de Fevereiro de 1987. Mas não morreu.
Foi aqui lembrado hoje de hora a hora.


Termino este dia de homenagem como o comecei. Com a minha preferida.


Era um redondo vocábulo
Uma soma agreste
Revelavam-se ondas
Em maninhos dedos
Polpas seus cabelos
Resíduos de lar,
Pelos degraus de Laura
A tinta caía
No móvel vazio,
Convocando farpas
Chamando o telefone
Matando baratas
A fúria crescia
Clamando vingança,
Nos degraus de Laura
No quarto das danças
Na rua os meninos
Brincavam e Laura
Na sala de espera
Inda o ar educa.

Canção de Embalar.



José Afonso morreu a 23 de Fevereiro de 1987. Mas não morreu.
Será aqui lembrado hoje de hora a hora.



Dorme meu menino a estrela d'alva
Já a procurei e não a vi
Se ela não vier de madrugada
Outra que eu souber será p'ra ti
ô ô ô ô ô ô ô ô ô ô ô ô
Outra que eu souber na noite escura
Sobre o teu sorriso de encantar
Ouvirás cantando nas alturas
Trovas e cantigas de embalar
ô ô ô ô ô ô ô ô ô ô ô ô
Trovas e cantigas muito belas
Afina a garganta meu cantor
Quando a luz se apaga nas janelas
Perde a estrela d'alva o seu fulgor
ô ô ô ô ô ô ô ô ô ô ô ô 
Perde a estrela d'alva pequenina
Se outra não vier para a render
Dorme qu'inda a noite é uma menina
Deixa-a vir também adormecer.

menino do bairro negro.



José Afonso morreu a 23 de Fevereiro de 1987. Mas não morreu.
Será aqui lembrado hoje de hora a hora.



Olha o sol que vai nascendo
Anda ver o mar
Os meninos vão correndo
Ver o sol chegar

Menino sem condição
Irmão de todos os nus
Tira os olhos do chão
Vem ver a luz

Menino do mal trajar
Um novo dia lá vem
Só quem souber cantar
Vira também

Negro bairro negro
Bairro negro
Onde não há pão
Não há sossego

Menino pobre o teu lar
Queira ou não queira o papão
Há-de um dia cantar
Esta canção

Olha o sol que vai nascendo
Anda ver o mar
Os meninos vão correndo
Ver o sol chegar

Se até da gosto cantar
Se toda a terra sorri
Quem te não há-de amar
Menino a ti

Se não é fúria a razão
Se toda a gente quiser
Um dia hás-de aprender
Haja o que houver

Negro bairro negro
Bairro negro
Onde não há pão
Não há sossego

Menino pobre o teu lar
Queira ou não queira o papão
Há-de um dia cantar
Esta canção.


vejam bem.



José Afonso morreu a 23 de Fevereiro de 1987. Mas não morreu.
Será aqui lembrado hoje de hora a hora.



Vejam bem
que não há só gaivotas em terra
quando um homem se põe a pensar

Quem lá vem
dorme à noite ao relento na areia
dorme à noite ao relento do mar

E se houver
uma praça de gente madura
e uma estátua
e uma estátua de de febre a arder

Anda alguém
pela noite de breu à procura
e não há quem lhe queira valer

Vejam bem
daquele homem a fraca figura
desbravando os caminhos do pão

E se houver
uma praça de gente madura
ninguém vem levantá-lo do chão

Vejam bem
que não há só gaivotas em terra
quando um homem
quando um homem se põe a pensar

Quem lá vem
dorme à noite ao relento na areia
dorme à noite ao relento do mar.


menina dos olhos tristes.



José Afonso morreu a 23 de Fevereiro de 1987. Mas não morreu.
Será aqui lembrado hoje de hora a hora.



Menina dos olhos tristes
o que tanto a faz chorar
o soldadinho não volta
do outro lado do mar
Senhora de olhos cansados
porque a fatiga o tear
o soldadinho não volta
do outro lado do mar
Vamos senhor pensativo
olhe o cachimbo a apagar
o soldadinho não volta
do outro lado do mar
Anda bem triste um amigo
uma carta o fez chorar
o soldadinho não volta
do outro lado do mar
A lua que é viajante
é que nos pode informar
o soldadinho já volta
do outro lado do mar
o soldadinho já volta
está quase mesmo a chegar
Vem numa caixa de pinho
desta vez o soldadinho
nunca mais se faz ao mar.

traz outro amigo também.



José Afonso morreu a 23 de Fevereiro de 1987. Mas não morreu.
Será aqui lembrado hoje de hora a hora.



Amigo
Maior que o pensamento
Por essa estrada amigo vem
Não percas tempo que o vento
É meu amigo também
Não percas tempo que o vento
É meu amigo também

Em terras
Em todas as fronteiras
Seja bem-vindo quem vier por bem
Se alguém houver que não queira
Trá-lo contigo também

Aqueles
Aqueles que ficaram
(Em toda a parte todo o mundo tem)
Em sonhos me visitaram
Traz outro amigo também.


os vampiros.



José Afonso morreu a 23 de Fevereiro de 1987. Mas não morreu.
Será aqui lembrado hoje de hora a hora.



No céu cinzento sob o astro mudo
Batendo asasas pela noite calada
Vêm em bandos com pés veludo
Chupar o sangue fresco da manada
Se alguém se engana com seu ar sisudo
E lhes franqueia as portas à chegada
Eles comem tudo eles comem tudo
Eles comem tudo e não deixam nada

A toda a parte chegam os vampiros
Poisam nos prédios poisam nas calçadas
Trazem no ventre despojos antigos
Mas nada os prende às vidas acabadas

São os mordomos do universo todo
Senhores à força mandadores sem lei
Enchem as tulhas bebem vinho novo
Dançam a ronda no pinhal do rei

Eles comem tudo eles comem tudo
Eles comem tudo e não deixam nada

No chão do medo tombam os vencidos
Ouvem-se os gritos na noite abafada
Jazem nos fossos vítimas dum credo
E não se esgota o sangue da manada

Se alguém se engana com seu ar sisudo
E lhes franqueia as portas à chegada
Eles comem tudo eles comem tudo
Eles comem tudo e não deixam nada

Eles comem tudo eles comem tudo
Eles comem tudo e não deixam nada.


a formiga no carreiro.



José Afonso morreu a 23 de Fevereiro de 1987. Mas não morreu.
Será aqui lembrado hoje de hora a hora.



A formiga no carreiro
Vinha em sentido contrário
Caiu ao Tejo
Ao pé dum septuagenário
Lerpou trepou às tábuas
Que flutuavam nas àguas
E de cima duma delas
Virou-se pró formigueiro
Mudem de rumo
Já lá vem outro carreiro.
A formiga no carreiro
Vinha em sentido diferente
Caiu à rua
No meio de toda a gente
Buliu abriu as gâmbias
Para trepar às varandas
E de cima duma delas
Virou-se pró formigueiro
Mudem de rumo
Já lá vem outro carreiro.
A formiga no carreiro
Andava à roda da vida
Caiu em cima
Duma espinhela caída
Furou furou à brava
Numa cova que ali estava
E de cima duma delas
Virou-se pró formigueiro
Mudem de rumo
Já lá vem outro carreiro.

filhos da madrugada.



José Afonso morreu a 23 de Fevereiro de 1987. Mas não morreu.
Será aqui lembrado hoje de hora a hora.




Somos filhos da madrugada
Pelas praias do mar nos vamos
À procura de quem nos traga
Verde oliva de flor nos ramos
Navegamos de vaga em vaga
Não soubemos de dor nem mágoa
Pelas praias do mar nos vamos
À procura da manhã clara

Lá do cimo de uma montanha
Acendemos uma fogueira
Para não se apagar a chama
Que dá vida na noite inteira
Mensageira pomba chamada
Companheira da madrugada
Quando a noite vier que venha
Lá do cimo de uma montanha

Onde o vento cortou amarras
Largaremos p'la noite fora
Onde há sempre uma boa estrela
Noite e dia ao romper da aurora
Vira a proa minha galera
Que a vitória já não espera
Fresca brisa moira encantada
Vira a proa da minha barca.

que amor não me engana.



José Afonso morreu a 23 de Fevereiro de 1987. Mas não morreu.
Será aqui lembrado hoje de hora a hora.



Que amor não me engana
Com a sua brandura
Se da antiga chama
Mal vive a amargura
Duma mancha negra
Duma pedra fria
Que amor não se entrega
Na noite vazia?

E as vozes embarcam
Num silêncio aflito
Quanto mais se apartam
Mais se ouve o seu grito
Muito à flor das àguas
Noite marinheira
Vem devagarinho
Para a minha beira

Em novas coutadas
Junto de uma hera
Nascem flores vermelhas
Pela Primavera
Assim tu souberas
Irmã cotovia
Dizer-me se esperas
Pelo nascer do dia


os eunucos.



José Afonso morreu a 23 de Fevereiro de 1987. Mas não morreu.
Será aqui lembrado hoje de hora a hora.



Os eunucos devoram-se a si mesmos
Não mudam de uniforme, são venais
E quando os mais são feitos em torresmos
Defendem os tiranos contra os pais
Em tudo são verdugos mais ou menos
No jardim dos haréns os principais
E quando os mais são feitos em torresmos
Não matam os tiranos pedem mais
Suportam toda a dor na calmaria
Da olímpica visão dos samurais
Havia um dono a mais na satrapia
Mas foi lançado à cova dos chacais
Em vénias malabares à luz do dia
Lambuzam de saliva os maiorais
E quando os mais são feitos em fatias
Nao matam os tiranos pedem mais

no lago do breu.




José Afonso morreu a 23 de Fevereiro de 1987. Mas não morreu.
Será aqui lembrado hoje de hora a hora.





No lago do Breu,
Sem luzes no céu nem bom Deus
Que venha abrasar os ateus,
No lago do Breu.

No lago do Breu,
A noite não vem sem sinais
Que fazem tremer os mortais,
No lago do Breu.

Mas quem não for mau, não vá
Que o céu não se comprará
Não vejo a razão p'ra ser
Quem teme e não quer viver
Sem luzes no céu só mesmo como eu
No lago do Breu.

No lago do Breu,
Os dedos da noite vão juntos
Para amortalhar os defuntos,
No lago do Breu.

No lago do Breu,
A lua nasceu mas ninguém
Pergunta quem vai ou quem vem
No lago do Breu.

Mas quem não for mau, não vá
Que o céu não se comprará
Não vejo a razão p'ra ser
Quem teme e não quer viver
Sem luzes no céu só mesmo como eu,
No lago do Breu.

No lago do Breu,
Meninas perdidas eu sei,
Mas só nestas vidas me achei,
No lago do Breu.


redondo vocábulo.


José Afonso morreu a 23 de Fevereiro de 1987. Mas não morreu.
Será aqui lembrado hoje de hora a hora.


Era um redondo vocábulo
Uma soma agreste
Revelavam-se ondas
Em maninhos dedos
Polpas seus cabelos
Resíduos de lar,
Pelos degraus de Laura
A tinta caía
No móvel vazio,
Convocando farpas
Chamando o telefone
Matando baratas
A fúria crescia
Clamando vingança,
Nos degraus de Laura
No quarto das danças
Na rua os meninos
Brincavam e Laura
Na sala de espera
Inda o ar educa.

22.2.12

uma pergunta a António José Seguro.


Visto que o camarada secretário-geral do PS criticou Passos Coelho por não ter subscrito a carta de Cameron e outros aos presidentes do Conselho Europeu e da Comissão Europeia, poderia fazer a fineza de explicar ao povo se, caso fosse hoje primeiro-ministro de Portugal, subscreveria essa carta?

É que receio, pela crítica dirigida a PPC, que AJS apoie o conteúdo da carta. E, nesse caso, ou eu não percebi a carta, ou AJS não percebeu a carta - ou eu não estou a perceber o secretário-geral do PS, tal como não estou a perceber outros amigos da esquerda e do socialismo em geral e de estar contra o excesso de liberalismo na Europa e isso.

uma Pompeia vegetal.


«Na China desenterrou-se uma Pompeia do mundo natural com 298 milhões de anos. As cinzas de uma erupção cobriram uma floresta de fetos arbóreos, que ficou preservada até agora. O retrato deste pântano tropical está descrito na revista Proceedings of the Natural Academy of Sciences desta semana e permite compreender melhor a evolução das florestas da Terra numa altura em que ainda não havia flores.» (no Público)




O artigo científico completo pode ser acedido livremente aqui. As imagens (reconstituições) vêm daí.

não foi nesta armadilha que caiu Cameron.

18:24

Muitas pessoas querem que alguém na União Europeia faça qualquer coisa para não continuar este disparate de deixar alastrar a crise e a pobreza, só porque há uns tantos que julgam que a crise e a pobreza são marcas de pecado, logo devem ser expiadas. E porque esses mesmos tantos esperam ganhar, algum dinheiro e eleições, com a crise e a pobreza dos outros.
Eu estou entre esses que querem que alguém faça alguma coisa para mudar o rumo.
O primeiro-ministro britânico, mais os primeiros-ministros da Holanda, Itália, Estónia, Letónia, Finlândia, Irlanda, República Checa, Eslováquia, Espanha, Suécia e Polónia, escreveram uma carta a Herman van Rompuy, Presidente do Conselho Europeu, e a Durão Barroso, Presidente da Comissão Europeia, clamando por um plano para o crescimento. Está aqui a carta.
Entre as pessoas que, justamente, querem que se faça alguma coisa pelo crescimento, houve em alguns casos uma certa indignação por Passos Coelho não se ter associado à iniciativa.
Acho que há nessa indignação um bom ponto: quem não tenha percebido que a solução para a nossa crise não é possível sem uma solução para a crise europeia, não percebeu patavina deste mundo. O governo do passismo não quer perceber isso por uma razão muito simples: derrubou o governo de Sócrates fazendo de conta que isso não era verdade, fez uma campanha eleitoral demagógica fazendo de conta que não sabia disso. Custa-lhe, pois, agora, reconhecer o nó górdio da sua campanha de assalto ao pote, que foi uma campanha de ilusionista: esconder o jardim zoológico todo, entretendo o eleitorado a olhar para um unicórnio de papel.
Contudo, há dois aspectos a sublinhar quando olhamos para a carta de Cameron e associados.
Primeiro, embora seja interessante constatar que começa talvez a haver mais do que uma direita europeia quanto à forma de pegar a crise, deve notar-se que estão no grupo dos subscritores alguns dos Estados-Membros onde é mais forte o "castigacionismo", a inclinação para castigar "o Sul" pelos nossos pecados.
Segundo, poucos parecem ser os que se lembram de interpretar esta carta à luz dos princípios permanentes da diplomacia europeia dos britânicos. O Reino Unido tem várias tácticas diplomáticas permanentes na UE. Uma delas é que negoceia sempre até ao fim, obtendo o mais que pode da negociação, mesmo que acabe por ficar de fora do acordo final. Outra é que continua sempre a negociar, mesmo depois de ter ficado de fora da solução, para continuamente aproximar qualquer resultado das suas pretensões. Qualquer uma destas tácticas já tinha sido evidenciada na negociação deste tratado tipo-europeu-mas-entre-países-fora-das-instituições (o "compacto fiscal"). Esta carta, agora, exibe outra táctica: o RU nunca fica muito tempo fora de jogo, arranja sempre modo de voltar ao campo da derrota com metade da ex-equipa adversária integrada nas suas hostes, apresentando-se a jogo como campeã de um campeonato por si inventado.
É este último dispositivo que acaba de ser espoletado com esta carta: de repente até algumas almas da esquerda europeia viram os olhos esperançosos para a iniciativa de Cameron. Acompanhado como está, já o disse, por algumas das pátrias dos castigadores.
Os britânicos são uns ases. Confesso que tenho alguma saudade de lidar com a diplomacia deles. Mas sempre me vou divertindo a ver, ao longe, a máquina a funcionar.

temos um P.M. que usa óculos?!




trabalho.


O trabalho não devia ser uma mercadoria. O trabalho é gente, é um fluxo da vida de gente real e concreta. A economia do trabalho não devia esquecer isso.
Confesso que não sei como explicar isto melhor.

piegas, nuestros hermanos.

repensando as artes do corpo.




«Há 13 anos criamos na PUC-SP (Pontifícia Universidade Católica de São Paulo) um curso chamado Comunicação das Artes do Corpo. Até então, não se usava esse termo, hoje já tão disseminado.»
Continuar a ler Christine Greiner em MILPLANALTOS.

20.2.12

as vaias.

17:24

Não tenho simpatia por este governo. Cada vez tenho menos. Pelo conteúdo das políticas, mas também pela arrogância ideológica, tanto como pelo troca-tintismo (ora "a herança" do Memorando é tramada, ora o Memorando é a solução programaticamente coincidente com o programa do PSD).
Isso não me impede, contudo, de discordar que se normalize um dispositivo de cerco aos membros do governo, bem representado pela técnica de "apertar" e vaiar o PM para onde quer que ele vá.
Acho que todos sabemos distinguir uns apupos espontâneos contra um dirigente qualquer, provocados pelo natural descontentamento com a sua acção ou por alguns disparates recentes saídos de sua boca, de outra coisa bem diferente: "esperas" organizadas e destinadas a rodear de máxima tensão qualquer tentativa do PM para mostrar o nariz fora de portas. O PM deve ser confrontado, no sentido de as pessoas falarem com ele, o criticarem directamente, lhe darem exemplos concretos e vividos das consequências da sua política. Só que esse confronto directo, popular e genuíno, deixa de ser possível se for montado um dispositivo de acosso sistemático às suas deslocações.
Lembro que esta técnica de bloqueio cívico ao PM já foi seguida contra Sócrates. Está agora a ser ensaiada contra PPC. Fui contra, antes; sou contra, agora. Melhorar a qualidade da democracia e alargar o debate não podem tornar-se incompatíveis com a contestação. A anulação de uma das partes nunca é o caminho para a resolução dos problemas. A tentação de fazer com que a rua cale os governantes é uma tentação totalitária: como totalitária é a tentação de calar pelo ruído quem quer que seja. A rua também tem o seu papel numa democracia representativa, mas o seu papel tem de ser o de lugar onde as palavras se trocam com sentido. A rua, em democracia, não pode ser o lugar para tentar anular o outro. As vaias, se forem instaladas como método de perseguição, são um procedimento, no mínimo inútil; são, mais provavelmente, contraproducentes.

do argumento ontológico ao argumento das mãos sujas.


Ontem, a propósito de Borges, andei por aí a conversar sobre o seu "argumento ornitológico".
Uma das coisas que muitas vezes se dizem acerca desse curto e fascinante texto de Borges é que ele é uma versão do argumento ontológico como prova conceptual da existência de Deus. Opino contra essa leitura naquele meu post anterior. De qualquer modo, isso dá-me oportunidade de acrescentar duas coisas.

Primeiro, uma notícia: Nelson Gomes, Professor Titular da Universidade de Brasília, dá, em Lisboa, uma conferência intitulada "O Argumento Ontológico segundo Gödel". É no próximo dia 15 de Março. Mais informação aqui.

Segundo: uma interessante paródia ao argumento ontológico, na sua formulação inicial por Anselmo de Aosta, também conhecido por Santo Anselmo, veio de outro frade, seu contemporâneo (século XI), Gaunilo de Marmoutiers. Eis como António Zilhão resume essa "reductio ad absurdum" do argumento ontológico como prova da existência de Deus:
1. Perdida é a ilha paradisíaca mais perfeita e agradável que qualquer outra.
2. A ideia de ilha paradisíaca mais perfeita e agradável que qualquer outra existe na nossa consciência.
3. Se a ilha real a que esta ideia corresponde não existisse, teria de faltar um predicado à ideia, a saber, o predicado da existência, pelo que então essa ideia já não seria a ideia da ilha paradisíaca mais perfeita e agradável que qualquer outra, uma vez que seria possível pensar-se noutra ilha que tivesse exactamente as mesmas propriedades de Perdida e ainda a propriedade da existência.
4. Logo, se a ideia de ilha paradisíaca mais perfeita e agradável que qualquer outra existe, então o objecto que lhe corresponde tem também que existir pois, caso contrário, a ideia em causa deixa de ser a ideia que é, o que constitui uma contradição.

E comenta António Zilhão (na excelente Enciclopédia de Termos Lógico-Filosóficos): «A reformulação do argumento de Anselmo por Gaunilo mostra-nos as conclusões inaceitáveis que se podem extrair de tal estrutura argumentativa mas não diagnostica o vício subjacente ao mesmo. Um primeiro diagnóstico da natureza deste vício foi efectuado por Hume e tornado célebre por Kant. Consiste na consideração de que o termo «existir» não é adequadamente utilizado no argumento, uma vez que ele é aqui tratado como se referisse um predicado quando a existência não é um predicado.»

Para terminar, dei um uso literário a esta questão das provas da existência de Deus num texto muito pior do que o "Argumentum Ornithologicum" de Borges, aqui: o argumento das mãos sujas.


a teoria da esmola.

12:03

Receber esmola não é um direito. A relação esmolar é uma relação arbitrária, sem critério público (embora possa ter um critério moral, mas a moral não é para impor universalmente), onde quem dá detém todo o poder sobre a relação, onde quem recebe só pode estar infinita e reverentemente grato a quem dá.
Dar esmola é gratuito, é uma graça, não tem lei. Isso, nos melhores casos, porque também há quem só dê a quem se dobre a certas conveniências ideológicas, a quem se incline ao credo e aos sinais da tribo, às vezes apenas a quem se incline à mão que dá. Mas nem vou por aí. Nos melhores casos, a relação esmolar é livre para o benfeitor - mas não para o recipiente. Aí está toda a diferença entre a relação esmolar e as relações que resultam dos direitos sociais numa comunidade política civilizada.
É, por isso, abominável que se escreva isto: «Há décadas que, por opções ideológicas e populismo eleitoral, os poderes públicos nacionalizam as esmolas. Metem-se entre pobres e benfeitores, tributando os segundos para ter o mérito de ajudar os primeiros.» Quando João César das Neves fala em "nacionalizar as esmolas", diz claramente ao que vem: o seu projecto é o de uma sociedade fundada na relação esmolar, no arbítrio do benfeitor, onde os direitos humanos deixaram de ser assunto para a comunidade e passaram a ser uma benção de pequenos deuses caseiros. Uma espécie de feudalismo em ponto pequeno, uma espécie de jardim infantil para os pobres e todos os que precisem da sua parte de solidariedade num dado momento. O seu projecto parece ser o de esquecer os direitos e trocá-los pela esmola liberal. Diz ele: «Agora os poderes públicos têm de encontrar o seu lugar subsidiário numa sociedade equilibrada.»
Quando a relação social no seio de uma comunidade política com regras públicas for subsidiária da esmola, estamos de novo na selva. Ou antes: estaremos ainda mais na selva.

em resumo...

dificuldades dos jornais "de referência".


O PSD tem uma porta de entrada e outra de saída - e os porteiros, embora jornalistas do Público, não são o mesmo, não falam entre si e não lêem o que o outro escreve.

No Público de 13 de Janeiro de 2012:


No Público de hoje:


Roubado aqui e aqui.

19.2.12

Letter to the Queen.


"So in summary, Your Majesty, the failure to foresee the timing, extent and severity of the crisis and to head it off, while it had many causes, was principally a failure of the collective imagination of many bright people, both in this country and internationally, to understand the risks to the system as a whole."
Letter to the Queen of England, by the British Academy. July 2009

(colhido aqui)

ARGUMENTUM ORNITHOLOGICUM, Borges.



ARGUMENTUM ORNITHOLOGICUM
Fecho os olhos e vejo um bando de pássaros. A visão dura um segundo ou talvez menos; não sei quantos pássaros vi. Era definido ou indefinido o seu número? O problema envolve o da existência de Deus. Se Deus existe, o número é definido, porque Deus sabe quantos pássaros vi. Se Deus não existe, o número é indefinido, porque ninguém pode fazer a conta. Nesse caso, vi menos de dez pássaros (digamos) e mais de um, mas não vi nove, oito, sete, seis, cinco, quatro, três ou dois pássaros. Vi um número entre dez e um, que não é nove, oito, sete, seis, cinco, etc. Esse número inteiro é inconcebível; ergo, Deus existe.
(Jorge Luís Borges, O Fazedor)

Isto é um argumento?
Se é um argumento, será sobre a existência de Deus?

(Umas horas passadas, deixo umas reflexões sobre este texto borgiano, com base numa nota que deixei noutro sítio.)


O argumento parece escrito a olhar para o argumento ontológico de Santo Anselmo para provar a existência de Deus. Digamos, em passo rápido, que o argumento ontológico tem basicamente a seguinte estrutura: concebemos Deus como a entidade mais perfeita; é mais perfeito existir do que não existir; portanto, essa entidade Deus tem a propriedade de existir; logo, Deus existe. O “argumento” de Borges copiaria o de Santo Anselmo (e outros) em pretender que Deus é necessário para garantir a existência de coisas que sabemos que têm de existir. Em Borges, um número definido de pássaros que estaria entre 2 e 9.

Isto não quer dizer que o “argumentum ornithologicum” seja uma variante do argumento de Santo Anselmo, nem para escorar o antigo argumento com uma variação confirmatória, nem para o apoucar com uma variação paródica. Embora não querendo negar que literatura e filosofia possam confluir, possam entrar nas mais criativas mestiçagens, não me parece que aqui seja verdadeiramente o caso. Ou talvez seja, mas numa forma fraca: Borges alimenta o seu texto de um argumento importante na história da filosofia. Mas, a meu ver, não está a produzir nenhuma variante da prova da existência de Deus que se diz ter começado com Santo Anselmo. Aliás, se o texto pretendesse ser tal coisa, mal iria se teimasse nele sem responder às críticas que o assolam (a principal sendo a que sustenta que a existência não é um predicado, mas uma condição para predicar, o que destrói a lógica do argumento original, apesar de repetido por filósofos como Descartes).

Entretanto, julgo que é errado tentar ler o texto de Borges como um argumento acerca da existência de Deus. Explico-me de seguida.

Desde logo, o argumento não parte de uma visão de um bando de pássaros. Começa, lembremos, assim: “Fecho os olhos e vejo”. Não começa “vejo e fecho os olhos”. Trata-se, pois, de imaginação. Não se trata de algo que aconteceu e eu não captei de maneira definida. Não está em causa, pois, a existência de pássaros em certa quantidade. Está em causa um conteúdo mental.

Não se tratará, contudo, de uma qualquer imaginação livre: trata-se de uma questão de número. Estamos, provavelmente, próximos de uma questão de filosofia da matemática, uma questão sobre a existência dos objectos matemáticos (e aparentados). Ora, cabe lembrar que os objectos matemáticos não nos deixam grande espaço para uma imaginação solta: os objectos matemáticos são regrados, de forma muito apertada, por todo um edifício conceptual que os coloca dentro de baias muito estritas. Há quem considere que o facto de os objectos matemáticos não serem livremente manipuláveis, e de podermos fazer descobertas matemáticas no universo definido pelas axiomas e teoremas já demonstrados, e de claramente estarem por descobrir as respostas a questões formuladas acerca do mundo dos objectos matemáticos, há quem considere, dizia eu, que isso mostra que existe uma realidade matemática, diferente da realidade física, mas mesmo assim com uma certa autonomia relativamente a nós (veja-se, por exemplo, a teoria dos três mundos, de Popper). Assim sendo, se alguma coisa está em causa no argumento, não são os pássaros: podiam ser bolinhos de bacalhau; o que interessa é o número, que me parece representar aqui um certo tipo de objecto conceptual (regrado). O número podia ser de pássaros ou de bolinhos de bacalhau.

Se levarmos o “argumentum ornithologicum” para este lado, sem Deus não existiriam questões capazes de ter respostas que nós não conhecemos. Consideremos a “conjectura de Goldbach”, segundo a qual todo o número par maior do que 2 é a soma de dois números primos. Não se sabe se isso é assim, nunca se conseguiu demonstrar que a conjectura esteja certa ou errada. Mas a conjectura está certa ou errada, embora nós não o saibamos (pelo menos por enquanto). Se levarmos o “argumentum ornithologicum” a sério, como argumento, Borges estaria a defender que não há questões em aberto, como esta que acabei de mencionar como exemplo. Acho difícil de defender que Borges estivesse a querer dizer isso.

Um dos nós do “argumento” reza assim: “Vi um número entre dez e um, que não é nove, oito, sete, seis, cinco, etc. Esse número inteiro é inconcebível”. Isto parece querer dizer que está a discutir (a negar) a existência de um número menor que dez e maior que um, que não é nenhum dos números de 2 a 9. Suponho que aqui está a chave do texto: isto parece um argumento porque faz uma confusão entre “ser” e “saber”. Seria muito simples dizer: “Vi um número entre dez e um, mas não sei se é nove, oito, sete, seis, cinco, etc.”. Aqui entronca a minha proposta de interpretação do texto de Borges: é um texto acerca de como pode ser complicado confundir questões de existência com questões de conhecimento. É um aviso contra a mistura de ontologia com epistemologia.

Acho que um texto sobre a sinuosa confusão entre ontologia e epistemologia faria todo o sentido no quadro dos impulsos fundamentais presentes na obra do grande Borges.