11.2.12

culto da personalidade.

15:24




Queremos consultar alguma coisa na página do Ministério das Finanças. No nosso browser digitamos www.min-financas.pt.
Precisamos de alguma informação sobre educação que supomos esteja disponível na página web do respectivo ministério. Digitamos www.min-edu.pt.
No primeiro caso vamos dar ao Ministério das Finanças em linha, no segundo caso vamos dar ao virtual Ministério da Educação, certo?
Não!
Em qualquer caso vamos dar ao Portal do Governo (www.portugal.gov.pt), onde somos acolhidos com a foto de Passos Coelho em tamanho comício ou missa de beatificação. O Estado é o PM!
Isto não é um absurdo; isto é, isso sim, um inaceitável culto da personalidade. Tenho o direito de aceder à informação e aos serviços em linha dos ministérios sem ter primeiro de deparar com (para depois contornar) um cartaz de publicidade a um homem, seja ele o PM ou o menino Jesus.
Big brother is watching you... ou, pelo menos, somos todos nós obrigados a contemplar o "grande chefe"... Que absurdo.


(Fui alertado para isto lendo Luís Miguel Ferreira no FB)

Damásio sobre a consciência.


Dedicado à Mariana B.-R., por razões que ela sabe.



10.2.12

a entrevista de Seguro.

15:27

Só hoje pude ver a entrevista que António José Seguro concedeu a noite passada à RTP. A importância do PS para a vida política nacional sugere que ela seja aqui comentada.

O pior da entrevista foi mesmo a entrevistadora. Sandra Sousa mostrou-se demasiado interessada em si própria e nas suas próprias opiniões: falou demais, interrompeu demais, parecia pouco interessada em ouvir AJS (o que o entrevistado dizia parecia não ter qualquer efeito no percurso da entrevistadora), exibiu (implicitamente) conceitos estranhos acerca do funcionamento de uma democracia (parece julgar que a oposição só serve para dizer ámen ao governo). Adiante.

Para o seu estilo e propósito, AJS saiu-se bem. Beneficiou da notícia do dia com a conversa privada entre o ministro Gaspar e o ministro Schäubel, usando-a para mostrar que o governo tem duas caras em matérias fundamentais para a navegação corrente deste barco. Exibiu a sua pose de líder responsável da oposição, manteve a sua estudada serenidade (mesmo face à excitação da entrevistadora), assinalou algumas das incongruências mais gritantes da governação actual, deu alguns exemplos do que considera ser a sua via doce para alternativa, aplicou sem falhas a técnica de comunicação que consiste em martelar poucas teclas para essas se ouvirem bem. Esteve muito bem na frente europeia, explorando a carta de Durão Barroso a PPC, e a falta de resposta do PM, para mostrar como este governo descura questões essenciais (neste caso, o desemprego juvenil); mostrando iniciativa, ao mencionar os contactos com o presidente do Parlamento Europeu e outros líderes socialistas (tanto ao defender uma plataforma europeia de resposta à crise, como ao exibir a sua familiaridade com camaradas tão ilustres, técnica velha mas sempre útil). Nesta fase do campeonato, em que o governo é recente e o SG do PS tem apenas meses, esta pose serve perfeitamente a afirmação do líder do PS: convém que os foguetes não estalem quando ainda estão próximos da mão. Explica-se, por aí, que nenhum tema tenha sido adequadamente aprofundado, ficando o chavão do "crescimento e emprego" um tanto vago, a precisar de mais sumo. Mas o sumo pode sempre ser acrescentado no que segue.

Contudo, a entrevista confirma, mais do que revela, certas dificuldades da linha política de AJS. O actual SG do PS continua a ter um problema com a história recente do seu partido, parecendo que a mera menção do nome de José Sócrates lhe causa aftas na boca. Isso é injusto com o anterior ciclo político, facilita a tarefa ideológica do governo em exercício e aliena uma parte do PS e do seu eleitorado, tendo ainda a desvantagem de nos trazer à memória o cinismo passado de AJS face à liderança de Sócrates. Mas, enfim, isso são contas partidárias que não interessam a toda a gente.
Mais grave é que AJS continua a justificar-se um tanto ligeiramente com o Memorando de Entendimento. O SG do PS parece nem sempre distinguir bem o que resulta do Memorando e o que resulta do excesso de zelo deste governo, fazendo, por essa via, um enorme favor político a PPC. Além disso, AJS parece esquecido de que o Memorando já não é o que era, já foi na prática revisto por este governo (leia-se este texto para perceber um aspecto desta minha afirmação). Alimentar a confusão entre o que este governo faz e o que estava originalmente no Memorando, fazendo disso a trave mestra da sua justificação como oposição, é grave. E fundamentalmente errado.
Por outro lado, no tocante ao pluralismo dentro das suas próprias hostes, AJS alia uma retórica de abertura com perturbantes imprecisões. Mostrou isso quando aceitou sem pestanejar o "argumento" da jornalista sobre a incoerência de pedir a fiscalização da constitucionalidade do Orçamento de Estado e o ter votado favoravelmente, quando o pedido de fiscalização não é sobre o OE, mas sobre algumas das suas normas (poucas, embora importantes). Um líder de um colectivo não serve apenas para defender o seu ponto de vista, deve servir também para defender a saúde do colectivo - e, num partido político democrático, o pluralismo (não apenas a pluralidade) é um traço essencial dessa saúde.

Em resumo: esta parece ter sido a entrevista que AJS queria dar. Esteve bem por aí. Mas ela revela algumas das debilidades actuais do PS, partido onde, receio, esteja a fermentar uma divisão interna que em nada serve os interesses do país, um país que não pode ser abandonado a estes governantes ideológicos e radicais - pelo que importa que o PS não se desgaste no que não interessa e se foque no país, com todas as suas forças e não apenas com os fiéis de quem dirige.

a história, simplesmente.


Às vezes temos, simplesmente, de repetir, o que os outros dizem.
A Moody's, fundada em 1909, não viu chegar a crise bolsista de 1929. Admoestada pelo Tesouro americano por essa falta de atenção, decidiu mostrar serviço e deu nota negativa à Grécia, em 1931. A moeda nacional (dracma) desfez-se, os capitais fugiram, as taxas de juros subiram em flecha, o povo, com a corda na garganta, saiu à rua, o Governo de Elefthérios Venizelos (nada a ver com o Venizelos, atual ministro das Finanças) caiu, a República, também, o país tornou-se ingovernável e, em 1936, o general Metaxas fechou o Parlamento e declarou um Estado fascista. Perante a sua linda obra, a Moody's declarou, nesse ano, que ia deixar de dar nota às dívidas públicas. Mais tarde voltou a dar, mas eu hoje só vim aqui para dizer que nem sempre as tragédias se repetem em farsa, como dizia o outro. Às vezes, repetem-se simplesmente.

Aqui.

desgraças anunciadas.


Reformas Ortográficas, claro.

Teixeira de Pascoaes, in A Águia, citado por Francisco Álvaro Gomes, O Acordo Ortográfico, Porto, Edições Flumen e Porto Editora, 2008, p. 10:
Na palavra lagryma, (…) a forma da y é lacrymal; estabelece (…) a harmonia entre a sua expressão graphica ou plastica e a sua expressão psychologica; substituindo-lhe o y pelo i é offender as regras da Esthetica. Na palavra abysmo, é a forma do y que lhe dá profundidade, escuridão, mysterio… Escrevel-a com i latino é fechar a boca do abysmo, é transformal-o numa superficie banal.

Fernando Pessoa, Descobrimento, in Livro do Desassossego:
Não tenho sentimento nenhum politico ou social. Tenho, porém, num sentido, um alto sentimento patriotico. Minha patria é a lingua portugueza. Nada me pesaria que invadissem ou tomassem Portugal, desde que não me incommodassem pessoalmente, Mas odeio, com odio verdadeiro, com o unico odio que sinto, não quem escreve mal portuguez, não quem não sabe syntaxe, não quem escreve em orthographia simplificada, mas a pagina mal escripta, como pessoa propria, a syntaxe errada, como gente em que se bata, a orthographia sem ipsilon, como escarro directo que me enoja independentemente de quem o cuspisse.

Daqui.

9.2.12

meandros da incerteza.


«No filme, de Manoel de Oliveira, "O Princípio da Incerteza" (2002), há uma cena de casamento. Um casamento católico. Naturalmente, na cena há um actor que representa o papel de um padre, o oficiante nessa cerimónia, e outros que representam os noivos, outros ainda a assistência. Ninguém fica mais ou menos casado por ter participado como actor nessa cena. Contudo, um dos actores que representam essa cena é um padre. Mais precisamente, quem faz de padre nessa cena é realmente um padre, na vida real, fora do filme. Essa pessoa, que aí faz de padre, poderia casar aquelas pessoas noutras circunstâncias - mas do que se representa num filme não decorrem consequências desse tipo.» Concorda-se, não é? Mas a análise deste caso mostra que ele entra em conflito com certas teorias acerca da acção social.




Clint à presidência. Ou não?

11:59

No intervalo da Super Bowl, a final do campeonato de futebol americano, passou um anúncio da Chrysler, com Clint Eastwood a dar a cara e a voz. Um belo filme de publicidade. Um belo filme, ponto. Um belo texto. Positivo. É sobre estar a meio do jogo. E, diz ele, também a América está entre a primeira e a segunda metade do jogo. Isto foi lido como propaganda à reeleição de Obama. (Transcrevo o texto abaixo.) Para lá das minhas simpatias ou antipatias, é um episódio que mostra bem a insuportável mistura entre política e dinheiro, entre Estado e empresas, nos States. Uma pena. Talvez quisesse dizer, antes, uma vergonha. Não por ser a favor de Obama: estas são as jogadas que se fazem com aquelas regras. Uma pena - por ir tão funda a mistura entre dinheiro e opinião numa comunidade política. É uma espécie de corrupção. Não digo corrupção no sentido de meter dinheiro ao bolso; digo-o no sentido de estarmos no mercado. No mercado do voto. De estarmos, os eleitores-cidadãos, no mercado do voto.



Texto do anúncio:
It’s halftime. Both teams are in their locker room discussing what they can do to win this game in the second half.
It’s halftime in America, too. People are out of work and they’re hurting. And they’re all wondering what they’re going to do to make a comeback. And we’re all scared, because this isn’t a game.

The people of Detroit know a little something about this. They almost lost everything. But we all pulled together, now Motor City is fighting again.

I’ve seen a lot of tough eras, a lot of downturns in my life. And, times when we didn’t understand each other. It seems like we’ve lost our heart at times. When the fog of division, discord, and blame made it hard to see what lies ahead.
But after those trials, we all rallied around what was right, and acted as one. Because that’s what we do. We find a way through tough times, and if we can’t find a way, then we’ll make one.

All that matters now is what’s ahead. How do we come from behind? How do we come together? And, how do we win?

Detroit’s showing us it can be done. And, what’s true about them is true about all of us.

This country can’t be knocked out with one punch. We get right back up again and when we do the world is going to hear the roar of our engines. Yeah, it’s halftime America. And, our second half is about to begin.

isto está complicado.


Não falo do que dizem os de cá, uma vez que a profusão de "palavras desencontradas" é tamanha, tamanha, que já nem vale a pena comentar. Falo das declarações de Martin Schulz, alemão, presidente do Parlamento Europeu, que criticou Portugal por "pedinchar" investimentos angolanos, considerando que, assim, “o futuro de Portugal é o declínio”. Pois, talvez seja; mas, se calhar, devia dar menos vazão à pulsão que muitos políticos europeus têm para falar demasiado para os seus eleitorados internos, em vez de falarem pelo bem comum. Martin Schulz é do SPD, parceiro do Partido Socialista, e não escapa à tentação de agradar à mesma parte do ego alemão que a senhor Merkel acaricia. Uma pena - mas uma pena a sublinhar como está nublado o tempo na Europa, como está a ser difícil ver o caminho de uma unidade europeia que já soa a cartaz de mau circo.

8.2.12

critérios ajuizados.




Procuramos bons critérios para sociedades onde seja bom viver. Não, não é saber se há muito sol; não é saber se as mulheres e os homens são bonitos; não é saber se o solo é fértil. Procuro bons critérios que digam respeito ao que, fazendo colectivamente boas escolhas, podemos tornar melhor por nossa acção enquanto comunidade. Por exemplo, se o sucesso de uma pessoa depende mais ou menos do que ela própria labuta com engenho e arte, em vez de depender principalmente de ter nascido numa família com o rabo virado para a Lua. Interessam-me critérios desses. Podemos tê-los? Podemos - e podemos fazer medições pertinentes armados com eles.

(Imagem de Ben Heine)

Evereste.


Um parêntesis:
Isso não quer dizer que os factos institucionais sejam subjectivos. O pedaço de papel que tenho na carteira é uma nota de dez euros; esse facto não é um facto natural, é um facto institucional, que depende do que muitas pessoas dizem e fazem, tanto no uso dessa nota, como na sua produção; mas eu não tenho o poder pessoal de desfazer esse facto. Se eu não quiser reconhecer aquela nota como uma nota, aquele papel não deixa de ser uma nota por causa do meu querer ou do meu agir individual. Até posso fazer certas coisas como se o papel tivesse deixado de ser uma nota: posso deitá-la para o lixo, como se não valesse nada - mas, mesmo assim, esse é um poder ilusório, porque eu perdi mesmo dez euros por ter deitado esse papel para o lixo. Não é região do mundo onde a minha subjectividade, agindo individualmente, tenha mais importância do que teria a minha ignorância sobre a altitude do pico mais alto do Evereste, sobre o verdadeiro número de metros a que ele está acima do nível do mar.

Daqui.

The Moral Limits of Markets.

13:45

O vídeo abaixo é uma conferência de Debra Satz, em 2010, com o título The Moral Limits of Markets. Um pequeno excerto do início da palestra:
Sometimes, it seems as if everything is for sale. Markets and market-like practices are extending their reach in almost every sphere of our lives. Here are a few of the weirder examples.
A Russian company offers services with a minimum charge of 34 dollars to provide an alibi for an adulterer’s absence.
A Chilean cemetery is now charging 462 dollars for an alarm built into coffins to ensure against being buried alive which has been a problem at this particular cemetery.
Some University of Michigan students have been getting a 100-dollar cash payments if they agreed to keep their dorm rooms presentable and open the doors of respective students and their parents can take a look during campus visits. Participants must let tour groups see their room in the middle of the day and they have to be out of bed and dressed before noon. (…)
The British firm Gamestation has added the following clause to its sales contracts: “By placing an order via this website on the first day of the fourth month of the year 2010 Anno Domini you agree to grant us a nontransferable option to claim for now and forevermore your immortal soul”. Now, as you might have guessed, this was meant as an April fools’ joke. Nevertheless literally thousands of people who bought online games that day unwittingly checked the box agreeing to these terms. (…)
Okay, here’s one that unfortunately is not a joke. Carry Smith sits with her 11-years-old son Brady at a tattoo parlor in Salt Lake City after goldenpalace.com was tattooed on her forehead. Smith advertised the space on her forehead on eBay which the Golden Palace Casino purchased for 10.000 dollars and she plans to use the money to send her son to a private school.

A conferencista entra em cena, depois das apresentações, aos 5 minutos; passa dos preliminares à substância mais ao menos ao minuto 6.


7.2.12

frágil.

já passámos a fase da pieguice há que tempos.





políticas do saber.


Boris Cyrulnik abre o livro-diálogo com Edgar Morin, Dialogue sur la nature humaine (Éditions de l'Aube, 2010), assim:
Eu acho que em termos de ideias, nós temos uma escolha. Ou decidimos ser especialistas, uma situação bastante confortável intelectualmente, porque basta acumular cada vez mais informações sobre um ponto cada vez mais preciso: acabamos então, como diz o dogma, por tudo saber sobre nada. Ou, então, decidimos ser generalistas, isto é, meter o nariz, um pouco de cada vez, na física, na química, na biologia, na medicina forense, na psicologia: acabamos, então, por não ser especialistas em nada, mas temos a melhor opinião sobre a pessoa em frente de nós e que chamamos homem. São duas atitudes, duas políticas do saber completamente diferentes...


Albrecht Dürer, Melencolia I, 1514

6.2.12

desobediência civil, foi o que disse?!


Ainda VGM:
Desobediência civil, aclamam alguns, batendo palmas. Ai, pobre Henry David Thoreau dando voltas na tumba. Só que esta decisão de corajosa ou coerente nada tem. Pelo contrário. Coragem e coerência teriam existido se o ex-deputado europeu tivesse declinado o lugar, alegando incompatibilidade entre as suas posições quanto ao AO e o exercício de um cargo público. Em si mesmo, esse seria um acto de grande pressão, legítima, sobre o governo e o parlamento para a revogação do AO. Assim, a imposição do ex-deputado europeu é mera prepotência. É este tempo.

Daqui, na íntegra.

Claro, ninguém é obrigado a ter coragem de pagar por actos conformes com as ideias. O que qualquer um devia ser obrigado era a não fazer de conta que tem coragem, quando se aninha bem abrigado no posto e de lá ladra, morde e barafusta - mas sem pagar a conta.

Citzalia.



Citzalia: o website que faz de si um deputado europeu.

Acerca do projecto
A plataforma Citzalia é a democracia em acção. Trata-se de uma plataforma de rede social animada que captura a essência do Parlamento Europeu.
A plataforma Citzalia é um mundo onde vive e ajuda a criar. Basta o seu browser da Web para criar um avatar que poderá usar para passear, interagir, ligar-se em rede e debater os problemas actuais nos corredores do Parlamento Europeu, contribuindo para uma vibrante comunidade virtual. Ao contribuir para as discussões e ao adicionar conteúdos, os participantes acumulam pontos de experiência que aparecem nos seus perfis.
A plataforma Citzalia é um meio para perceber de que forma funciona o Parlamento da UE, eleito democraticamente. Ao participar em debates e ao escrever artigos, bem como ao elaborar legislações virtuais sobre problemas relacionados com o Parlamento Europeu e a política da UE, irá compreender e ficar a saber como funciona a democracia na UE.
Esta plataforma interactiva é uma oportunidade para se ficar a saber como se sentem os cidadãos em relação aos problemas actuais e ao papel do Parlamento Europeu. Estarão disponíveis informações oficiais juntamente com os fóruns de discussão. A plataforma estará disponível em todas as 23 línguas oficiais da UE.
A plataforma Citzalia está aqui para o ajudar a entender o Parlamento Europeu e para o tornar mais próximo do processo de tomada de decisões. Tem os instrumentos e os factos de que necessita para se juntar ao debate europeu. Trata-se de uma plataforma divertida e simples de utilizar onde se pode encontrar com outros Europeus e peritos da UE, podendo até mesmo encontrar um deputado quando menos espera! É um local onde pode partilhar as suas opiniões e discutir os problemas que o preocupam.

O mundo Citzalia
A plataforma Citzalia recria partes de vários edifícios do Parlamento Europeu em Bruxelas e Estrasburgo. A plataforma Citzalia tem muitas áreas que o seu avatar poderá explorar:
A Ágora dos Cidadãos é um fórum de discussão geral sobre os trabalhos do Parlamento Europeu e sobre a União Europeia em geral.
A Sala de Imprensa apresenta novidades e opiniões sobre eventos e problemas actuais. Tem alguma história para contar? Relate-a aqui e ela poderá ser publicada no jornal electrónico da plataforma Citzalia. Pode também votar em conteúdos e ganhar pontos de experiência.
O Laboratório UE Lex é uma actividade que oferece uma simulação estimulante do processo legislativo. Pode até propor a sua própria legislação e ficar a saber de que forma são aprovadas as leis ao nível da UE.
O Hall de Exposição é um espaço onde se realizam exposições virtuais.
O Cantinho da Educação disponibiliza um espaço para os jovens, tendo também conteúdos específicos para professores.
A Biblioteca é uma base de dados que abrange todo o conteúdo publicado pela comunidade que se encontra arquivado.

Todas as aplicações disponíveis na plataforma Citzalia se baseiam num quadro de desenvolvimento aberto, permitindo a terceiros acrescentar funcionalidades para enriquecer a experiência dos utilizadores. A plataforma Citzalia irá estar em evolução constante, sendo induzida pelos utilizadores, por isso compete a si torná-la numa plataforma que enriqueça o debate europeu.


Citzalia.

convite. pessoal e, não obstante, transmissível.

É já na próxima quinta-feira.



5.2.12

THOMAS STRUTH: FOTOGRAFIAS 1978 - 2010.


Coube-nos a sorte de ver esta magnífica exposição em Serralves este fim-de-semana que termina. Ficará até 26 de Fevereiro. Aconselhamos, quem goste de fotografia, a não perder. É simplesmente magnífica. O comentário em vídeo que deixamos é sobre a mesma exposição, embora noutras paragens.



O artista fala da sua obra: um interessante documento.

nas ruas de lisboa.





poesia e ciência (4).



Galileu, a sua torre e outras rotações




andamento 1


Olhando agora a mesma torre
onde há trezentos e tal anos ele subiu,
estaria um pouco mais na vertical,
e o sonho em fio
de prumo –

O que dele disseram
foi o ter contemplado
estrelas e mais estrelas,
incomodando togas não de lume,
mas de uma
obliterada fé em fumo

Os séculos haviam de contar
da celeste estrutura,
mais azul que os vestidos
da Virgem em menina,
haviam de mostrar
como esta outra estrutura
cede a outros olhares:

os do flash rompendo movimentos,
tentando aprisionar – um
sentimento? o registo de um dia
ou de uma hora?

O que dele contaram
perdeu-se pelo brilho das estrelas,
e assim o resguardaram
em poemas, museus, guias turísticos,
nomes de ruas e de hotéis sem nome,
o seu nome rodando
quase a repetição

Sobre mortos vagamos,
como a Terra, numa veste diferente
e ainda igual,
e nela nos movemos, como ela,
como ele e outras alturas

Custa mais que um salário
em terras que são quase ao pé de nós,
divididas por súbita península
e um mar tão morno,
custa mais que um salário
subir a esta torre onde ele foi
e se perdeu de amores
por inércias e corpos

Nessas terras tão próximas –
remotas –
ela, contudo, move-se:
tão bela, a sua translação
em torno de uma
estrela

tão bela e mais cruel
que aqui –



andamento 2


Mas como nós:
tão comoventemente
relativa e frágil,
imersa em hélio e os outros gases
que lhe deram vida:

jovem mulher de um século passado,
educada, composta, semiobediente:
ebulição e magmas
nas paisagens de dentro
e um leve traço de vermelho
aceso
a espreitar-lhe entre rendas

Alguns milénios antes,
poucos para as estrelas que ele viu,
a dissonância
ao lado da caverna
em protecção e espanto

E muito antes
dessa lenta fusão de gases densos,
nem rotação de luz –
o que seria dela:
inenarrável ponto de interrogação

Tão frágil como nós,
moveu-se, assim,
num momento qualquer desconhecido,
vazio de tempo,
até que a meio dos tempos,
após inumerável paciência:
fissura humana:

os olhos levantados,
e em vez do chão:
o mar e o horizonte,
e mais no alto:
a branca companheira
das noites e dos medos

Ou quando nela
se fez em vez do toque: um som,
e em vez do som, mil sons,
a garganta a servir tempos de música
e não gritos de alarme

Moveu-se, então,
e frágil, relativa,
as procissões de reis, as multidões de gentes,
monumentos à glória
e ao desejo
a demorarem séculos

– um piscar de olhos
para estrela
nova



andamento 3


O muro cor de fogo
ao lado desta torre:
carregado com átomos de mortos,
o pó de outras
estrelas

Onde o lugar
para falar da súbita península
onde se nasce junto a paredes meias
com a morte?

Inútil tudo?
O flash, o sentimento,
manchas solares?
Um argumento nómada
será?

Ali, junto
da terra, o terramoto,
eppur si muove
este, o meu tempo,
em súbito vagar



andamento 4


Calcula-se que dentro de
cinco biliões de anos,
murchará: como maçã
num sótão às escuras,
a luz rompendo pelas vigas largas:
um brilho muito fresco

Quantos vitrais soprados pelo tempo,
sagrados pelas chuvas
para agarrar o tempo?
Quantos vitrais
hão de faltar ainda?

Há quase quatro séculos
ele subiu aqui

À janela do tempo,
as civilizações brotam e morrem,
desabam devagar,
e outras vertigens
hão de romper ainda,
expandidas em luz

O que sobrar de nós:
só pó de estrelas

Num acaso feliz:
talvez grão de poeira desta torre,
talvez um átomo
da sua gola branca (a do retrato),
a simular curva sinusoidal,
o seu olhar
girando em torno
de um planeta novo

Bordado a fio de estrelas,
desabará o som
em outras rotações

Então, talvez o jovem átomo
a testar o tempo
seja também semi-obediente,
moldura em gás e luz
do andamento próximo:
o quinto
movimento –


Ana Luísa Amaral, in Vozes, 2011