17.6.11

novo governo

23:21

Os governos são como os melões: só se sabe como são depois de abertos. Embora pareça que Passos Coelho não terá tido exactamente os ministros que queria, isso finalmente não quer dizer nada: mais vale um ministro que sai melhor do que a encomenda, do que uma estrela que foge passados três meses para não perder uma reforma. Os "verdes" são, provavelmente, mais genuínos e combativos do que as estrelas - e disso o governo precisa, certamente. Veremos.
Como oposicionista, prefiro que o governo seja competente: assim, a oposição pode centrar-se nas opções políticas, em vez de se perder tempo com os disparates deste ou daquele personagem. É assim que entendo as coisas. Daí que, com toda a franqueza, deseje sinceramente que o governo seja um bom governo - do ponto de vista do programa com que foi eleito. Isso, evidentemente, pede uma boa oposição: capaz de brilhar pelo mérito das alternativas que apresenta, não por ter muitas oportunidades de chacota dos pecadilhos dos governantes.


já não se fazem milagres como antigamente





16.6.11

desta vez não vai haver discurso da tanga?

afinal, já há quem tenha informação fresca sobre ministros do governo em formação


A germânica e democrata-cristã Fundação Konrad Adenauer, no âmbito de uma das suas actividades em Portugal, está a convidar para uma iniciativa em Lisboa no próximo dia 24 de Junho, em cujo programa anuncia uma intervenção de Paulo Portas. Título: "A new Parliament, a new Government – what kind of changes can we expect in Portugal?".

Paulo Portas é descrito como líder do CDS-PP, claro. Há mais, contudo: Paulo Portas é apresentado como "designated Portuguese Minister of Foreign Affairs".

Passos Coelho já sabe que Paulo Portas será o seu Ministro dos Negócios Estrangeiros? E o Presidente Cavaco? Ou ainda só contaram para os alemães?

o grafito


Em qualquer cidade por onde ando vou sempre atento aos grafitos, especialmente os que denotem alguma especificidade local. Em alguma cidades mais "limpas", os grafitos são empurrados para as margens, o que significa que a deambulação tem de nos tirar do centro para encontrarmos alguma coisa relevante. Foi também isso que me aconteceu na recente ida a Cracóvia. Este apontamento é para notar uma técnica que não conhecia.
Este bicharoco aparece em duas paredes que estão a uma certa distância, metade em cada uma. O conjunto do bicharoco só se vê colocando-nos numa certa posição. Deste modo, o grafito organiza o espaço de uma forma específica. Pede-nos uma certa colocação, uma certa atenção, para se deixar ver organicamente: duas metades aproximadamente justapostas.



Entretanto, eu gostaria de ver experimentada uma variante desta técnica: usando metades de tamanhos (adequadamente) diferentes, a perspectiva induzida pela distância daria ao passante, apenas se ele se colocasse num ponto exacto, um bicharoco perfeito com duas metades igualmente dimensionadas (por efeito das distâncias relativas). Estará isto presente neste exemplo de algum modo que me escapou? Ou, de facto, este autor não explorou esta possibilidade?

reflexões pouco apaixonadas entre ciclos políticos

15:15

Chamo "estar na política" a qualquer forma de intervenção pública que vise contribuir para que o país se oriente num determinado sentido (ou vise, pelo menos, que o país não vá por determinados caminhos). Pode estar-se na política militando num partido, escrevendo para ser lido, participando em alguma forma de fazer ouvir certas opiniões. Nesse sentido, "estou na política".
De entre as várias formas de "estar na política" prefiro as que são escrutináveis. Um militante partidário assume uma história, com as respectivas responsabilidades: não pode vir dizer "deviam fazer isto ou aquilo" com ligeireza, porque lhe podem perguntar "qual a razão para o teu partido não ter feito antes isso que agora apregoas". Um tipo que escreve regularmente num blogue é escrutinável pelo histórico dos seus escritos: em termos de coerência, por exemplo. É essa sujeição ao escrutínio que, a meu ver, falta nas formas mais inorgânicas de "independência". Quem nunca se compromete com nada, pode sempre criticar tudo, mas pelas más razões: a sua tarefa é puramente destrutiva. É o modelo da inutilidade prática. Pode dizer mal de tudo, sem rumo e sem linha - mas nunca produzirá, enquanto assim for, o compromisso com os outros que é sustento necessário à vida em comum.
Para os comprometidos, há basicamente duas formas de estar na política. Podemos julgar que "os nossos" são a única peça que é necessária à máquina para funcionar. Ou podemos acreditar que nós representamos uma parte das boas razões, crendo ao mesmo tempo que os nossos adversários representam outra parte das boas razões - e, ainda, que sempre se misturam algumas más razões às boas razões. Para quem, como eu, vai mais pela segunda via (diferentes forças e programas políticos são necessários à capacidade da comunidade para explorar diferentes caminhos e possibilidades), impõe-se uma expectativa positiva para o próximo governo.
Credo, o homem vendeu-se à direita!
Nada disso. Simplesmente, embora receoso das receitas ditadas pela ideologia dos novos governantes que aí vêm, espero que eles sejam capazes de pensar bem no que devem fazer, sejam determinados sem intolerância, não sejam tão ideológicos que esqueçam a força da realidade, sejam ponderados a decidir e competentes a executar o que decidiram. Quer isto dizer que espero não haver motivos para oposição? De modo nenhum. Quer, apenas, dizer que a relação entre governo e oposição pode ser uma relação de qualidade, mesmo no meio das maiores divergências programáticas. E Portugal precisa disso. Sempre precisou, mas agora precisa mais do que nunca nos últimos anos.

15.6.11

olhar para a lua



Em noite de eclipse.


(Certo: tenho de estudar melhor a questão de fotografar a Lua.)

o congresso do PS vai correr bem com toda a certeza



Vladimir Tatlin, Monumento à III Internacional, 1920

Um destes dias, um destacadíssimo dirigente do PS dizia que esse Partido não terá dificuldade em encontrar um bom secretário-geral. Queria ele dizer na dele que não era preciso estarem amofinados por ele próprio não ser candidato. Ao mesmo tempo que se justificava, dava essa nota optimista de que o PS tem muitos e bons, a colheita não deixará ninguém com fome.
Um raciocínio perigoso.
Vejam Portugal. Não há-de por aí faltar quem desse um excelente Presidente da República. E temos o que temos.
O problema das boas searas é que elas não procedem à colheita espontaneamente.

(Pareço um bocadinho cínico quanto à eleição do SG do PS, que é o Partido da minha escolha? Isto passa. Estou só à espera das propostas programáticas...)

passo a citar

basta-nos um robô Einstein ou precisamos do Einstein propriamente dito?


O robô Einstein, projectado segundo a linha de robôs hiper-realistas da Hanson Robotics e desenvolvido pelo Laboratório de Percepção para Máquinas da Universidade da Califórnia em San Diego, pretende ser uma máquina emocionalmente inteligente.
O modelo do famoso físico (ou melhor, da sua cabeça), produz um vasto leque de expressões faciais diferenciadas (graças a 31 motores internos que movem os "músculos" da "face"), segue os movimentos dos olhos dos humanos que se colocam como seus interlocutores, reconhece pistas auditivas e certos gestos (como o abanar da cabeça), reconhece expressões faciais dos humanos e trata de imitá-las, reconhece pistas sobre a idade e o género dos humanos que o rodeiam, bem como certas indicações particulares sobre os mesmos (como usarem ou não óculos).



Nota. Esta coisa do robô Einstein vs. o próprio Einstein não tem nada a ver com a política nacional...

14.6.11

por falar em ciclos políticos

17:44

Cabe agora à direita governar. Ao PSD e ao CDS chegou, de novo, a responsabilidade de mostrar como se marca o rumo.
Contudo, isso não esgota o arco das responsabilidades que mudam com esta mudança de ciclo.
Cabe ao PS mostrar que se pode fazer oposição de outra maneira. Uma contribuição importante dos socialistas para a vida pública nacional será mostrar, na prática, como se faz a oposição responsável que faltou muito no anterior ciclo político.
Não faltarão oportunidades. Mas cada oportunidade é também a possibilidade de perder uma oportunidade.

imagens



Nossa Senhora das Dores com S. João Evangelista, Silésia, c. 1500 (vista parcial)


Tríptico com a Família da Virgem Maria, Silésia, princípio do século XVI (pormenor)


Tríptico com a Família da Virgem Maria, Silésia, princípio do século XVI (pormenor)


Tríptico da crucificação, Wrocław, 1498

Museu Nacional, Varsóvia. Fotografias de Porfírio Silva.

13.6.11

os três candidatos à liderança do PS

21:24

Se há coisa que detesto em política é deixar que o juízo sobre as pessoas envolvidas tolde a capacidade de compreensão política. Conhecendo os três candidatos à liderança do PS (embora, pelo critério de António Costa, nenhum deles, provavelmente, me conheça), temo que a tarefa de opinar sobre essa corrida seja, para mim, um exercício arriscado. Mas tentarei, não como "homem de partido", mas como cidadão interessado no que o PS tenha a dizer à sociedade portuguesa.

(A referência, acima, aos "três candidatos", não foi um lapso. A ausência de António Costa desta corrida não é surpreendente: há muitos anos que deixa outros correrem por ele, quando o assunto não lhe interessa excessivamente. É por isso que, ainda hoje, muita gente, jornalistas incluídos, pensa que ele foi líder da JS, quando nunca foi sequer candidato. Mas, ao mesmo tempo, desdenhar da corrida à liderança do PS, neste momento, pode ter custos elevados para António Costa: muitos militantes do PS não acharão graça nenhuma que ele se preserve tão ostensivamente neste momento difícil. Assim sendo, num certo sentido, a não-candidatura de Costa poder também ir a votos nesta corrida. Quanto melhor se acha que ele poderia ser como SG, talvez mais difícil seja aceitar de bom grado que ele não se apresente. E as tentativas de o "entronizar", no género "agora presidente do partido, à espera para mais tarde ser primeiro-ministro", só poderão suscitar sorrisos escarninhos nos que efectivamente se apresentam ao combate.)

SZTUKA Z ESTONII. Oswajanie modernizmu \ Prowokacje i konfrontacje.
























Marko Mäetamm, Pequenos Dramas (instalação, pormenor), 2009-2010.
A Arte da Estónia, Adaptando a Modernidade, Provocações e Confrontações, 
patente no Museu Nacional, Varsóvia, até 3 de Julho.

gente da casa





Inês Alvim, no Le Cool (issue 569), a propósito do concerto de Nno Mar, quinta-feira passada:
Apaixonei-me por ele antes de o ouvir. Apaixonei-me por ele, aliás, muito antes de o ver (coisa que nunca fiz). Apaixonei-me da única maneira que é total: platónica, intangível, sem saber se é baixote, careca ou corcunda. Apaixonei-me quando me explicou que a sua música explora a relação entre música, fotografia e escrita. E aqui pensei ‘Bem pode ser baixote, careca, corcunda’. A música a que dá vida é orgânica, instrumental, paisagista. Utiliza o som para fotografar uma paisagem e cristalizá-la em palavras e harmonias sonoras. Faz da música um vértice criativo de artes, com várias camadas e leituras transversais, com vida, força anímica, personalidade. Hoje a melhor vista de Lisboa é secundária. Hoje a melhor vista de Lisboa é reduzida a palco e cenário de Nno Mar.
Do "género", ele diz ser "Alternativa / Experimental / Progressivo". Ouça-se aqui.

grafitos de Varsóvia



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