19.2.11

reserved for drunk drivers



«Pacheco Pereira defendeu um acordo entre os dois maiores partidos (PS e PSD) para se conseguir ultrapassar a crise que, segundo a sua previsão, vai durar cerca de uma década. “Estamos numa enorme crise que, na melhor das hipóteses, demora quase uma década a resolver se tudo correr bem. E correr bem significa ter um plano consistente de austeridade, com princípio, meio e fim, que desloque os poucos recursos disponíveis para aquilo que é fundamental”, disse. “Ninguém tenha ilusões de que nos próximos anos seja possível manter um programa consistente de mudança, sem haver qualquer forma de entendimento entre os dois partidos, sobre isso não tenho dúvida nenhuma”, acrescentou.»

Depois de anos em coligação negativa com o PCP e o BE, apenas para impedir o PS de governar, o PSD, achando que chegou a sua vez de tomar as rédeas, quer um entendimento duradouro entre PS e PSD? O PSD passou anos a conduzir à moda do rali de Portugal no tempo das curvas do Caramulo - e agora quer que o PS seja o menino bonzinho do filme? Mas que grande lata!

18.2.11

afinal, não são só os deputados no parlamento que abusam da linguagem bárbara, assim poluindo o espaço público que merecia mais elevação

19:07

Lê-se no i : «O presidente da Jerónimo Martins, Alexandre Soares dos Santos, acusou hoje o Governo de mentir ao negar que Portugal está em recessão económica, considerando que "estamos em recessão". "Não vale a pena continuarmos a mentir. Não vale a pena pedir sacrificios às pessoas sem lhes dizer a verdade. As pessoas têm de saber para que estão a fazer os sacrificios e não adianta negar que estamos em recessão, porque estamos", afirmou aquele responsável durante a apresentação de resultados do grupo em 2010. Questionado sobre o segredo do sucesso do grupo, que aumentou os lucros em mais de 40 por cento no ano passado, Alexandre Soares dos Santos respondeu: "Os truques é para o [primeiro-ministro] Sócrates. Eles [os políticos] é que gostam de truques. O nosso sucesso assenta em trabalho".»

Há sempre muitas razões para louvar um empresário que faz pela vida, pela sua e pela dos outros, com trabalho e com visão. É o caso deste homem, penso eu. Contudo, a má educação e a pesporrência ficam mal a qualquer um. E assim crescem as provas de que muitas pessoas, competentíssimas no seu domínio, se tornam torpes quando querem fazer-política-como-se-não-quisessem-fazer-política-nenhuma.
O hoje em dia bem sucedido grupo liderado por este senhor já passou por maus bocados num passado não muito distante: teriam gostado, nessa altura, que os achincalhassem publicamente, acusando-os, por exemplo, de falta de clarividência nas escolhas que lhes provocaram as ditas dificuldades?
Que o senhor ache que ele é o único que trabalha, já é lata suficiente. Injuriar, neste caso o PM, acusando-o de mentir quanto à história da recessão, quando a definição técnica de recessão mais consensual entre os economistas é a de um crescimento negativo do produto em dois trimestres consecutivos e Portugal não está nessa situação, é prova do descontrolo comportamental a que chegaram figuras deste país que devemos exigir que se comportem, pelo menos em público, com um mínimo de decência.

prémio "a pergunta ingénua do ano"


Uma semana e meia terá transformado o Bloco num partido igual aos outros?

Há muito tempo que o partido Bloco de Esquerda é um partido igual aos outros. Só quem ainda acredita em amanhãs que cantam, no pai natal ou no menino jesus, em redentores e salvadores do mundo, ou que o dinheiro cai do céu e esse foi o maná que moisés descobriu no deserto, é que ainda não tinha percebido que o PBE (Partido Bloco de Esquerda) é um partido igual aos outros. O que não é mal nenhum, excepto para os profissionais da ingenuidade pretendida.

o PSD tem um programa claro para Portugal



Marques Mendes repete o que Passos Coelho já disse há semanas. A diferença é que agora já "pode não ser o FMI". Temem a evolução do processo europeu para novas articulações entre Estados Membros, coisa com que não contavam, nem previram, nem propuseram, nem esperaram. Não contaram com a política. Sendo políticos, conceberam que o governo ficaria de braços cruzados, que o governo não faria política. Esperavam, e esperam, que baste abrir o regaço e esperar que a fruta caia.

17.2.11

grandes comentadores


Sobre esta notícia Rendeiro só vê reconhecidos 25 euros dos 4,25 milhões que reclama ao BPP (no Jornal de Negócios), José Manuel Fernandes (no FB) exulta: «Ora aqui está uma notícia que gostei de ler! Então o homem levou o banco à ruína e ainda queria receber 4,25 milhões? É preciso ter lata.»
Só posso aplaudir, não é?!


Pois. Se calhar mais valia continuar a ler a notícia: «Porém, o credor 5.647, a sociedade Zenith SGPS, criada em maio de 2004 e presidida por João Rendeiro, que reclama uma dívida de 31,8 milhões de euros junto do BPP, viu ser reconhecido pela mesma comissão um montante superior em mais de 3 milhões de euros ao que era pedido, ascendendo a um total ligeiramente superior a 35 milhões de euros.»
Que aborrecimento: por que insistem em que as notícias tenham mais do que título - e, vá lá, para os grandes acontecimentos, subtítulo? Seria mais fácil comentar sem errar...


e serão só as crianças, senhor?!


O Público titula que "Crianças comem quatro vezes mais sal que recomendações". Gaita! Por cada quatro doses de sal que ingere, cada criança, em média, só engole uma dose de recomendações. É pouco, muito pouco. Fazia-lhes bem tomar recomendações em dose reforçada.
Mas isso, afinal, talvez não se aplique só às crianças.

(O que acima se diz é sobre a escrita do português. Sobre saúde, lê-se na mesma notícia: «As crianças portuguesas ingerem quatro vezes mais sal por dia do que a dose indicada pela Organização Mundial de Saúde, facto que pode retirar-lhes dez anos da esperança média de vida actual, estima a Sociedade Portuguesa de Hipertensão.» )

16.2.11

um governador com a prudência mal colocada


Se Carlos Costa, governador do Banco de Portugal, fosse tão cauteloso a falar da economia portuguesa como a fazer nevoeiro sobre o seu passado político, estaríamos melhor.
O Excelentíssimo Governador do Banco de Portugal diz, apesar de isso ser tecnicamente errado, que Portugal já está em recessão económica. Pode até ser que o futuro venha a ir por aí, ninguém se atreva a pôr as mãos no fogo pelo contrário. Mas isso é, por agora, uma falsidade: A definição técnica de recessão mais consensual entre os economistas é a de um crescimento negativo do produto em dois trimestres consecutivos. Não estamos nessa situação, o Excelentíssimo Governador devia saber isso e devia escusar-se a falar com o rigor das "bocas" de caixas de comentários de jornais e blogues. Quem complique a vida ao país, designadamente nos mercados financeiros sempre prontos a ganhar dinheiro à nossa custa e das más notícias, já há que baste.
Até porque o Dr. Carlos Costa é, para assuntos de que cuida mais, uma promessa de prudência. No sítio oficial do Banco de Portugal, onde cabe a apresentação do Governador, o currículo oficial reza que foi "Chefe de Gabinete do Comissário Europeu (1993-1999)". "Do Comissário Europeu", só com data e sem o nome do dito cujo? Será que Carlos Costa, que foi apresentado ao público como uma inteligência independente e sem mãos sujas em movimentações partidárias, tem vergonha de dizer de qual Comissário Europeu foi impedido? Sabemos, por que nos têm contado, que o Dr. Carlos Costa cultiva essa reserva, e que só empurrado e em voz baixa confessa que não foi de António Vitorino que foi chefe de gabinete. É como aquele tipo que diz que namora a Laura, sempre à espera que pensem que ele fala de Laura Pausini, quando ele afinal namora mesmo é a Laura Silva de Escafandros-de-Baixo. Terá o senhor Governador mais vergonha da sua ligação a João de Deus Pinheiro, esse ex-ministro de Cavaco que foi membro da Comissão Europeia, do que vergonha de prejudicar o país com a sua forma lassa de falar de coisas sérias?

a equação da esquerda

09:11

Estava ali a tomar café ao balcão e um canal de televisão anunciava para hoje um programa sobre Mário Soares, "Soares é fixe!", palavra de ordem de uma campanha presidencial. E fiquei a pensar que a minha equação da esquerda continua a ser o conjunto das fases da vida desse homem: resistências várias, governação, voltar a querer mudar o mundo no sentido de mais justiça e mais liberdade. Nunca fui aquilo que pelas bandas do PS se chama um "soarista" (bem pelo contrário), mas Soares representa, por atacado, todos os ingredientes que a esquerda precisa para a sua receita. E precisa de todos os ingredientes ao mesmo tempo, não uma parte do cozinhado de cada vez, consoante a época. (Isso é, aliás, o que há a criticar a Soares: teve fases, foi muito dominado pelo objectivo estratégico central em cada momento, às vezes esquecendo o que não estava no ecrã principal em dada altura.) É essa esquerda plural, crítica e transformadora mas que ousa governar, que nos faz falta. É esse o meu critério para escolher os meus espaços: a dinâmica da mudança na ecologia da diversidade.

15.2.11

o Bloco não pode falhar o carnaval

14:21

Tendo sido agendada a discussão da moção de censura do BE para o dia 10 de Março, esse partido terá de fazer entrega do texto o mais tardar até ao dia 7, terça-feira de Carnaval.

Terá sido por causa disso que o líder parlamentar do Bloco tentou que se esquecessem de que havia uma moção de censura para agendar? Como escreve o Público: «Os partidos já tinham feito todas as suas propostas de agendamento de projectos e o Bloco não tinha referido a moção. Até que foi o próprio ministro dos Assuntos Paramentares, Jorge Lacão, a lembrar os bloquistas que não tinham agendado. José Manuel Pureza, líder parlamentar do BE, sabe o PÚBLICO, justificou que, afinal, a data da moção estaria adquirida.»
Pois. É como eu ir a tribunal e não apresentar peças processuais "a pensar que já toda a gente sabia".

Vale a pena lembrar:

Atenta no direito da prova e verás, o sistema produzindo a sua diferença,
que nem todos os factos do mundo são tramitados nesta instância,
que nem todas as leis dos reinos vigentes aprovisionam os tribunais competentes
e que, por isso, não é inútil apresentar em juízo coisas que toda a gente sabe,
pois verdades correntes nos céus e na terra que nunca foram reduzidas a peças processuais
alimentam continuamente os depósitos de súbditos inimigos.

(Trata-se de uns versos de o processo.)

"Que Parva que Sou" e "A formiga no carreiro"

10:53


A canção "Que Parva que Sou", dos Deolinda, fala de problemas que existem. Alguns tentam elevá-la a bandeira de uma revolta, outros tentam desvalorizar o objecto, outros até fazem hermenêuticas rebuscadas da letra para lhe encontrarem portas por onde possa entrar algum antídoto. Parece que foi o caso de Maria de Lurdes Rodrigues, o que, a ser verdade, não lhe fica bem. Outros, para quem a arte é um tijolo, "reescrevem" a canção para se colarem com banalidades ao êxito que o seu saber-fazer não sabe. Queria aqui deixar umas breves notas sobre o episódio.
Primeiro, a canção é de intervenção, de protesto. E muito bem, porque fala de realidades obscenas que existem neste nosso país. Não é um rigoroso tratado de sociologia, mas também não era para ser.
Segundo, ainda bem que há quem proteste e denuncie. Também por aí passa a arte, também a música. Em todo o mundo. Isto aqui não é o Irão, ainda bem.
Terceiro, é errado tentar ignorar, muito menos menos menosprezar, estes sinais de descontentamento e revolta. Antes de ouvir a rua é melhor ouvir a música. Ser surdo é uma grave deficiência política, sempre. E costuma dar mau resultado.
Quarto, tentar arrebanhar partidariamente ou sectariamente uma canção de protesto é muito canhestro. Há quem nunca resista à tentação de tentar encerrar o social dentro do político-partidário, o que é pena.
Quinto, se a canção dos Deolinda acelerar a consciência do cancro que é a precariedade, e estimular organizações responsáveis a fazerem propostas viáveis e corajosas para a combater, a intervenção da canção valeu a pena. Não terá valido a pena se for apenas ocasião para o teatro das carpideiras do costume, que são bons a batar palmas nos coliseus mas muito primários a montar a tenda no quintal que não lhes pertence.
Finalmente: ouçam música, pensem se ela vos der que pensar, mexam-se se ela vos der genica para isso - mas, por favor, se forem deputados ou políticos activos, não tentem reconduzir tudo à retórica habitual. Nem contra, nem a favor, nem a assobiar para o lado. É que se arriscam a fazer figura de quem, ouvindo "A formiga no carreiro", diz que se trata de um hino da união zoófila.