21.1.11

uma viagem à índia (a história de um país)


Gonçalo M. Tavares:
(...) mas mente-se tanto a contar a história
de um país como a história de um amor que
terminou mal.
Uma Viagem à Índia, Canto VIII, estrofe 4 (excerto)

gente que faz

12:10

Proposta de reorganização administrativa do concelho de Lisboa: a infografia compara o mapa das freguesias actuais com o mapa das freguesias propostas (proposta de 17 de Janeiro, depois de negociações inter-partidárias).
Há políticos que fazem. Responsavelmente.
É possível avançar, negociando.
Mas estas coisas não interessam nada aos profetas da desgraça, estejam acantonados nos órgãos de comunicação social, nos postos de comentaristas, ou até em cargos institucionais desta nossa república.


A animação usa os materiais publicados pelo Público.

20.1.11

ainda se fazem presidentes assim?


Faz hoje meio século que terminaram os 8 anos de Dwight D. Eisenhower como presidente dos Estados Unidos. Era uma sexta-feira. O seu discurso de despedida foi proferido na terça-feira anterior, a 17 de Janeiro de 1961. Trata-se de um discurso muito interessante, todo ele. Queremos aqui realçar um aspecto desse discurso: aquela passagem pela qual foi criado o conceito de "complexo militar-industrial". Eisenhower dá uma descrição concisa mas relevante dessa realidade nova - e alerta para as preocupações que ela justifica.

Uma das páginas do suporte escrito do discurso.
(National Archives and Records Administration, aqui)

Eis um excerto (editado) da secção do discurso que trata do "complexo militar-industrial":
«A vital element in keeping the peace is our military establishment. (...) Until the latest of our world conflicts, the United States had no armaments industry. (...) [W]e have been compelled to create a permanent armaments industry of vast proportions. (...)
This conjunction of an immense military establishment and a large arms industry is new in the American experience. The total influence – economic, political, even spiritual – is felt in every city, every Statehouse, every office of the Federal government. We recognize the imperative need for this development. Yet we must not fail to comprehend its grave implications. Our toil, resources and livelihood are all involved; so is the very structure of our society.
In the councils of government, we must guard against the acquisition of unwarranted influence, whether sought or unsought, by the military-industrial complex. The potential for the disastrous rise of misplaced power exists and will persist.
We must never let the weight of this combination endanger our liberties or democratic processes. We should take nothing for granted. Only an alert and knowledgeable citizenry can compel the proper meshing of the huge industrial and military machinery of defense with our peaceful methods and goals, so that security and liberty may prosper together.»

Cabe notar que Eisenhower, ainda referindo-se ao complexo militar-industrial, tece considerações sobre a investigação científica, as quais ainda hoje merecem reflexão:
Akin to, and largely responsible for the sweeping changes in our industrial-military posture, has been the technological revolution during recent decades.
In this revolution, research has become central; it also becomes more formalized, complex, and costly. A steadily increasing share is conducted for, by, or at the direction of, the Federal government.
Today, the solitary inventor, tinkering in his shop, has been over shadowed by task forces of scientists in laboratories and testing fields. In the same fashion, the free university, historically the fountainhead of free ideas and scientific discovery, has experienced a revolution in the conduct of research. Partly because of the huge costs involved, a government contract becomes virtually a substitute for intellectual curiosity. For every old blackboard there are now hundreds of new electronic computers.
The prospect of domination of the nation's scholars by Federal employment, project allocations, and the power of money is ever present and is gravely to be regarded.
Yet, in holding scientific research and discovery in respect, as we should, we must also be alert to the equal and opposite danger that public policy could itself become the captive of a scientific-technological elite.

Vale a pena ler mais deste discurso.
Entretanto, deixo um vídeo sobre parte da secção relativa ao complexo militar-industrial (com legendas em espanhol):


Para lá das diferenças ideológicas, pergunto: ainda se fazem presidentes assim?

China compra 200 votos aos EUA - ou será 200 Boeing?


Acerca da visita do presidente chinês aos Estados Unidos, escreve o Público que "no que diz respeito à economia foi imediatamente anunciada a assinatura de dezenas de contratos comerciais com companhias americanas, no valor de 45 mil milhões de dólares (33,3 mil milhões de euros). Entre eles, está um acordo para a compra de 200 aviões à Boeing até 2013."

Mas, então, não aparece nenhum teórico do isolacionismo a pulsar de receios de que os EUA estejam a alienar a sua auto-determinação política na cena internacional por causa de tão substanciais negócios com o senhor Hu Jintao? É que, quando é Portugal a negociar com a China, dizem logo que se anda a vender a pátria. E agora nem perguntam quantos votos no Conselho de Segurança das Nações Unidas vale cada um dos 200 Boeing...

19.1.11

só não percebo por que não há-de haver um sindicato de presidentes da república


Em Portugal há sindicatos de juízes e de magistrados do ministério público. Sindicatos de titulares de órgãos de soberania, que talvez, se se reproduzissem, pudessem também dar origem a sindicatos de ministros, sindicatos de deputados, sindicatos - sei lá - de presidentes da república em exercício (proporcionando a maravilhosa experiência de um sindicato uni-pessoal). É claro que tão bonito fenómeno acaba por produzir bonitos resultados. Vejamos: João Palma, presidente do Sindicato dos Magistrados do Ministério Público, revela-se um mentiroso. E os associados de tal sindicato parecem achar bem, talvez debaixo do princípio "o crime compensa". Afinal, ele está a tentar que os seus magistrados fiquem de fora dos sacrifícios que estão a ser pedidos a quase todos os portugueses. E isso, lá por aquelas bandas, parece ser tido por legítimo.

as coisas de que o Rui se lembra

um mundo em rede


Cavaco Silva não mudou substancialmente nada desde que apareceu na política portuguesa. As pessoas é que se vão esquecendo dos pormenores. No plano político, Cavaco Silva é, fundamentalmente, o homem que, acabado de chegar à presidência do PSD, tentou travar a assinatura do tratado de adesão de Portugal à CEE, porque queria ser ele a "ficar na fotografia" de uma glória que não lhe cabia; é o primeiro-ministro que presidiu ao esbanjamento dos fundos comunitários após a adesão de Portugal à "Europa"; o político que usou o dinheiro público para comprar maiorias eleitorais concedendo (em momento "oportuno") à função pública regalias insustentadas no estado da nação; o calculista que pensa primeiro em si, depois em si, depois em si, e só em último lugar pensa nos outros se já não se lembrar de nada em que lhe convenha pensar primeiro em si - o que o faz reincidir na traição aos seus companheiros políticos, apesar de se aproveitar bem dos seus amigos de negócios. Em Portugal (e por esse mundo fora), tudo isso dá votos.
No plano pessoal, para não entrar em conversas desagradáveis - são sempre desagradáveis as conversas sobre tipos que se fazem de santos para melhor explorarem a boa vontade dos outros - basta lembrar este episódio (contado no Random Precision) para compreender quem é o verdadeiro Cavaco Silva. E a sua rede.

os filhos saem de casa, a casa é que não se vai embora nem por nada

15:04

Cavaco Silva para Defensor de Moura, agastado por o incomodarem com perguntas que ele há anos evita responder, como quem não tem nada a ver com a malta do BPN e da SLN: "Se nem acompanhamos a vida dos nossos filhos quando saem de casa, o que é que eu tenho a ver com a vida profissional de pessoas que estiveram no Governo há 25 anos?".

Empresa do grupo SLN envolvida na compra de casa de férias de Cavaco (aquela cuja escritura só aparecerá depois das eleições).

Os amigos ele já não conhece. Para o compensar de tamanha tristeza, sempre fica a modesta casinha de milhões.

Eu gostava que pudessem voltar para antes do 25 de Abril aqueles que acham que então se estava melhor. Mas que voltassem eles e apenas eles.

18.1.11

adivinha


Correia de Campos: "Alegre não é alternativa. Cavaco garante estabilidade. E eu já não é a primeira vez que faço merda por falar demais."

Qual é a parte desta declaração, qual é ela, que Correia de Campos não proferiu mas bem podia ter proferido?

Resposta aqui.

(Pode ser conveniente fazer de conta que não se percebe Cavaco, o que anda a fazer e o que já fez no passado. Pode achar-se que a aposta presidencial do PS é uma tolice. Pode alguém querer vingar-se de posições passadas de Alegre. Tudo isso eu até compreendo. Só me custa a perceber que pessoas inteligentes imitem Cavaco na tendência para dar facadas nos seus correligionários políticos durante uma campanha eleitoral. A não ser que o truque de Correia de Campos seja dar a ideia que apoia Cavaco e, com isso, fazê-lo perder votos.)

uma viagem à índia (o mundo é claro e escuro)


Gonçalo M. Tavares:
Na Índia, homens velhos que escutámos
durante horas e julgávamos já eternos,
levantam-se, subitamente, e começam a
urinar em plena rua, para cima do lixo
que cães, segundos antes, tentavam mastigar.
Respeito e nojo coincidem estranhamente
no mesmo homem: o mundo não
é claro e depois escuro, o mundo, cada pedaço dele,
é claro e escuro.
E quando um místico urina com displicência ao nosso lado
ensina-nos isso, e outras coisas.
Uma Viagem à Índia, Canto VII, estrofe 21

o candidato que tem um encontro marcado com a história

atmosferas | juvenis | arquitecturas

17.1.11

o significado das coisas sobe pelas paredes e contamina o ar. feliz quem vê

22:46

o FMI, a China, ... e os duques - continuação

14:28

o FMI, a China, ... e os duques

12:15

João Duque, um dos economistas que comentam comentam comentam como se tivessem pilhas da tal marca:
"Eu, se tivesse votado no PS, tenho dúvidas de que tivesse dado o mandato de venda do País a alguns países com que agora nós procuramos ter relações de financiamento. Não estava previsto em nenhum programa de acção eleitoral ou, mais tarde, no programa do Governo a possibilidade de empenhar a palavra política de Portugal perante a China ou qualquer outro país! (...) Não sei se faz sentido quando há, ou pode haver, uma alternativa, que é o recurso ao apoio do Fundo Europeu, ao mecanismo de estabilização financeira." (no DN)

Dois pontos interessantes (para além da pura mentira/fantasia de que Portugal empenhou a sua palavra política com quem quer que seja).
Primeiro: a coligação de políticos e comentadores que quer o FMI em Portugal não desarma. Querem ganhar eleições à conta de uma intervenção do FMI, para não terem de obrigar Cavaco a fazer o pino para provocar eleições por qualquer motivo fútil. E, claro, querem o FMI como desculpa para as suas políticas, porque não têm coragem para as assumir.
Segundo: continuam a fantasiar com a China, como se estivéssemos a vender a alma ao diabo por eles comprarem dívida portuguesa nos leilões. (Percebo que haja muita gente escaldada com compras "discretas", como as compras e vendas de certas acções do BPN não cotadas, mas convém não extrapolar.) Vale a pena perguntar: faz isto algum sentido? Veja-se, por exemplo, aqui: "A China, o maior detentor de dívida norte-americana, aumentou a sua posição de credor dos Estados Unidos em agosto pelo segundo mês consecutivo, após dois meses de declínio. O Departamento do Tesouro referiu que a participação chinesa na dívida pública dos Estados Unidos subiu em agosto para 868,4 mil milhões de dólares (621 mil milhões de euros), um aumento de 2,6 por cento após um ganho ligeiro de 0,4 por cento em julho." E isto é coisa que já está a rolar há muitos anos, não é de agora.
O que esta malta inventa para continuarem a alimentar os seus teatrinhos.

16.1.11

Beckett por Lupa em Almada

19:57

Peça de de Samuel Beckett, Endgame esteve sexta e ontem no Teatro Municipal de Almada, pela mão de Krystian Lupa, um encenador teatral polaco de renome mundial. A obra é interpretada por uma grande equipa do Teatro de la Abadía, Espanha. Desta feita não pude ir, mas já tinha visto, no ano passado, em Madrid (e relatei aqui). Queria rever, mas não foi possível. Não vi ainda crítica nenhuma desta passagem por cá, mas achei estranha a versão portuguesa do título, Fim de Festa. Por razões que se explicam aqui, algo como "Final de Jogo" ou "Fim de Jogo" parecer-me-ia mais adequado (ou mesmo "Final de Partida", porque, em jogos como o xadrez, uma "partida" é um acontecimento específico dentro de um jogo e os "finais" são quase uma disciplina dentro da teoria do jogo). Mas é recorrente este fado de querermos acrescentar em português algo que, embora mais vistoso, se arrisca a fazer uma pequena traição ao original. Mas isto sou eu a resmungar, apenas. A resmungar por não ter ido, claro.
Está por aí alguém que tenha ido e queira dizer alguma coisa?



subir na horizontal


Única, a revista do Expresso, ao número 1994 (deste fim-de-semana) dedica-se ao tema CHEFE. Uma das peças é uma espécie de "manual de sobrevivência para 10 tipos de chefes" que podemos encontrar nas empresas. Para cada tipo de chefe é dado um retrato-robô e umas instruções para lidar com o robô em causa.
A última categoria de chefe a ser descrita é o "engatatão". O "manual de sobrevivência" para este caso reza assim: "Tenha cautela. Não se deixe envolver e clarifique que não está disposta a entrar no jogo. Se, contudo, considera que pode obter benefícios (mesmo não concretizando a vontade de quem manda), procure manter a chama acesa sem ser demasiado explícita/o." (ênfase nossa)
Para lá das óbvias hesitações acerca do género gramatical a usar em tão magnificente conselho (numa ocorrência, o conselho parece ser só para mulheres; noutra ocorrência usa-se um "a/o" para alargar o campo), ficamos a saber que Joana Madeira Pereira, a autora do texto, deixa em aberto a possibilidade de lidar com situações - que muitas vezes são de assédio - com a técnica de "manter a chama acesa". Alimentar a situação, portanto.
É demasiada leviandade não perceber que todas as técnicas da família do "subir na horizontal" não deviam ser matéria para graçola, já que configuram perigo real para as pessoas envolvidas. Será muito difícil perceber isto?




Joan of Arc , Cohen , Anna Calvi

14:48

Anna Calvi pega na canção de Cohen e trata de nos dar o poema apenas com os seus recursos de instrumentista.


Anna Calvi, a senhora que se segue

11:48


Segredo , Maria Teresa Horta


Segredo

Não contes do meu
vestido
que tiro pela cabeça
nem que corro os
cortinados
para uma sombra mais espessa
Deixa que feche o
anel
em redor do teu pescoço
com as minhas longas
pernas
e a sombra do meu poço
Não contes do meu
novelo
nem da roca de fiar
nem o que faço
com eles
a fim de te ouvir gritar.

Maria Teresa Horta


prendas de fds


John Cage, num programa popular de TV, em 1960, a apresentar a sua obra Water Walk.


(visto em Chemoton, um livro de sabedoria em forma de blogue, por Vitorino Ramos)