23/01/11

presidenciais

Se as projecções anunciadas há dez minutos estiverem razoavelmente certas, Cavaco Silva foi eleito à primeira volta. Várias observações são-me suscitadas por esse facto.
Primeiro, eu estou do lado dos derrotados. Aquilo que é estimável politicamente para a maioria dos portugueses, a mim repugna-me. A vários níveis: político, de carácter, de valores, de cultura. Nada que me espante.
Segundo, Francisco Louçã deve estar satisfeito com o resultado: isto é principalmente o produto da opção da direcção do BE por fazer refém toda a esquerda, em particular o PS, na questão presidencial. A escolha antecipada de Alegre, um militante do PS em permanente tensão com o seu partido, e também alguém pouco estimado pelos comunistas, tornou extremamente difícil qualquer convergência estratégica para derrotar a direita nestas eleições. Louçã colocou acima do interesse presidencial de toda a esquerda um velho sonho trotsquista: derrotar na mesma guerra a social-democracia e o leninismo. Não é assim que se fazem convergências.
Terceiro, o PS não conseguiu escapar ao ardil do BE e não foi capaz de tratar da questão presidencial como a questão relevante que ela é. Não pensou a tempo no assunto - ou, no mínimo, se pensou, não conseguiu nenhum soldado relevante para esta batalha. Agora vai pagar isso muito caro.
Quarto, vamos ter um Cavaco à solta: ferido por finalmente se ter percebido que ele não é o puro que pretende ser, mas talvez ainda mais perigoso por isso, Tendo provado o sangue da pura disputa político-partidária, provavelmente gostou da adrelanina e vai querer mantê-la a níveis suficientemte elevados para mostrar que ainda é o chefe.
Se estes resultados servissem à esquerda para iniciar uma reflexão, talvez ainda valessem a pena. Mas, provavelmente, nem isso.
É a vida, como dizia o outro.
Ah, não dou os parabéns ao vencedor, isso não dou certamente.

3 comentários:

Benjamina disse...

O que mais me chateou foi haver cerca de metade dos eleitores que não querem saber... e como se isso não fosse já mau, ainda houve quem quisesse votar e não tenha votado porque a CNE que não previu o previsível!

Tiago Tibúrcio disse...

Caro Porfírio, dar os parabéns parece-me ser a expressão de respeito que devemos aos nossos adversários políticos e, principalmente, àqueles que os elegem. A prova de que a democracia é a melhor forma de convivermos com as nossas divergências políticas. abraço

Porfirio Silva disse...

Caro Tiago,
Concordo, em geral, com o que dizes. Acontece que eu antevia o que veio a confirmar-se poucas horas depois: Cavaco não acabou a campanha ao saber dos resultados; Cavaco eleito prolongou a disputa eleitoral para dentro do estatuto presidencial, recusando objectivamente ser o presidente de todos os portugueses e escolhendo ser apenas o presidente "dos seus". Nesses termos, não lhe devo o respeito democrático a que te referes. Cavaco, na sua pequenez, esquiva-se ao respeito.