11.10.07

Boca do Inferno

Como de costume, também hoje a coluna de "humor" do Ricardo Araújo Pereira na "Visão" diz, na reinação, coisas com mais acerto do que muitos comentadores sérios (sérios porque não se riem).
Só isto: «a ASAE [Autoridade de Segurança Alimentar e Económica] verifica se a lei está a ser cumprida - o que, para a grande maioria dos portugueses, é intolerável.»

Um blogue em destaque

A autoridade moral da natureza (1/6)

O volume The Moral Authority of Nature, editado por Lorraine Daston e Fernando Vidal (Daston e Vidal 2004a) ilustra, por uma série de estudos de carácter histórico, como se tem de forma recorrente utilizado a ideia de “natureza” para pensar padrões de bem, de belo, de justo, de valioso. Na introdução a esse volume, Daston e Vidal (2004b) sublinham como o mecanismo subjacente requer dois tipos de dispositivos. Por um lado, o que é “natural” é apresentado como irrevogável e/ou perfeito – por contraste com o que aparece como “mera” convenção social ou arranjo político. Assim, a “naturalização” confere universalidade, firmeza, necessidade – numa palavra, a autoridade do dado – ao que de outro modo seria inventado ou produzido. Por outro lado, para que a “natureza” assim funcione como padrão é necessária a existência de “peritos no natural”: poetas, sacerdotes, médicos, filósofos, cientistas. Todos, uns numas épocas outros noutras, se afirmam como intérpretes alegadamente desinteressados dos veredictos da natureza, capazes de mobilizar o significado da natureza para resolver questões controversas e por vezes politicamente carregadas: raça, género, sexualidade, colonialismo, trabalho.

Um aspecto importante é o seguinte. O que é considerado “natural” intervém na marcação da fronteira entre liberdade e necessidade no plano dos humanos. Esse ponto é assinalado por (Cadde 2004), quando precisa o significado do livre-arbítrio na Europa medieval. É que, embora a ordem da “necessidade” estivesse ligada à dinâmica da natureza e a ordem da “liberdade” à esfera moral, o facto é que nem o governo da natureza era considerado absoluto nem a liberdade era da ordem da escolha ou da elaboração autónoma da sua própria realidade política. Desse modo, o livre-arbítrio medieval consistia em alinhar ou não alinhar com a vontade divina, expressa pela ordem da sua Criação. E daí a importância do apuramento do que seria “ o natural”.

Continuaremos a ver, nos próximos dias, outros aspectos desta questão da “autoridade moral da natureza”.

REFERÊNCIAS

(Daston e Vidal 2004a) DASTON, Lorraine e VIDAL, Fernando (eds.), The Moral Authority of Nature, Chicago, The University of Chicago Press, 2004

(Daston e Vidal 2004b), DASTON, Lorraine e VIDAL, Fernando, “Doing What Comes Naturally”, in (Daston e Vidal 2004a), pp. 1-20

(Cadde 2004), CADDE, Joan, “Trouble in the Earthly Paradise: The Regime of Nature in Late Medieval Christian Culture”, in (Daston e Vidal 2004a), pp. 207-231



Charles Sheeler, The Artist Looks at Nature, 1943



10.10.07

Será isto inteligência artificial?

No site que a seguir indicamos está um jogo: pensas numa coisa, respondes (com verdade) a 20 perguntas do programa acerca dessa coisa e ele adivinha em que estás a pensar. Se "ele" gastar mais do que 20 perguntas para chegar ao resultado, admite que perdeu. No fim faz comentários à forma como nós jogámos. Para aceder, clicar aqui no 20 perguntas.
Agora digam-me: acham que este programa é inteligente?

A public school teacher was arrested this morning at John F. Kennedy International Airport...

A public school teacher was arrested this morning at John F. Kennedy International Airport as he attempted to board a flight while in possession of a ruler, a protractor, a set square, a slide rule and a calculator. At a morning press conference, Attorney General Alberto Gonzales said he believes the man is a member of the notorious Al-gebra movement. He did not identify the man, who has been charged by the FBI with carrying weapons of math instruction.


"Al-gebra is a problem for us," Gonzales said. "They desire solutions by means and extremes, and sometimes go off on tangents in a search of absolute value. They use secret code names like 'x' and 'y' and refer to themselves as 'unknowns', but we have determined they belong to a common denominator of the axis of medieval with coordinates in every country. As the Greek philanderer Isos Celes used to say, 'There are 3 sides to every triangle'."


When asked to comment on the arrest, President Bush said, "If God had wanted us to have better weapons of math instruction, He would have given us more fingers and toes."


White House aides told reporters they could not recall a more intelligent or profound statement by the President.


(Recebido por e-mail. Merci Joëlle.)

Lekton - Lista Portuguesa de Filosofia

Para quem esteja interessado em estar em contacto com a comunidade de filosofia em português, surgiu um novo instrumento. Informação genérica, e possibilidade de se inscrever, em Lekton - Lista Portuguesa de Filosofia.

Jardins Metafísicos

Plano do jardim do Hojo do Tofuku-ji, "Jardim das Oito Vistas" (versão original inserida no livro de Christian Tschumi, Mirei Shigemori: Modernizing the Japanese Garden, Berkeley, Stone Bridge Press, 2005 ).
Estamos aqui num complexo religioso com muitos templos, que é a sede da escola Tofuku-ji do Budismo Zen de Rinzai. Este espaço foi fundado em 1236, mas foi sendo modificado muitas vezes posteriormente. Vamos aqui focar-nos principalmente na última grande reconstrução do jardim, já no século XX.
Shigemori (1896-1975) foi o maior dos renovadores do jardim japonês no século XX, apostando em voltar à inspiração tradicional em vez de participar na importação dos modelos ocidentais.
O jardim do Hojo (instalações do abade) no templo Tofuku-ji é a sua primeira grande obra, datando de 1939. Shigemori ofereceu o projecto ao abade da comunidade budista (que não tinha meios para lhe pagar). O abade ofereceu algo muito valioso para Shigemori: prometeu que aceitaria o projecto sem modificações. E assim se fez. Um único pedido fez o abade e aceitou o artista: para honrar um princípio religioso, seriam aproveitados materiais que tinham sobrado da reconstrução do templo. Algumas das pedras deste jardim têm essa proveniência.




Na zona oriental do jardim, um aproveitamento de pedras que sobraram das fundações dos edifícios. Trata-se de uma representação da constelação da Ursa Maior, num céu nublado feito de gravilha penteada.





Na zona sul do jardim: os quatro grupos de rochas representam (como muitas vezes acontece nestes jardins) as ilhas dos imortais, enquanto os cinco montes cobertos de musgo (ao fundo) representam as cinco seitas do budismo Zen existentes em Quioto. A zona de musgo ao fundo, tal como a gravilha penteada, representam o mar.





Aspecto parcial das ilhas dos imortais no jardim sul.





Aspecto parcial das cinco seitas zen de Quioto, no jardim sul.





Ilha no mar de gravilha e ilhas no mar de musgo.





O jardim ocidental, inspirado nas paisagens de campos de arroz. A estrutura de base é uma quadrícula (uma espécide de tabuleiro de damas)marcada por pedras (coisa que se vê mal nesta imagem). Em algumas interpretações, representa-se aqui uma batalha, correspondendo aos dois tipos de preenchimento da quadrícula.





Pormenor do jardim do norte, no qual se aproveitaram mais restos de pedra da construção, desta vez para um desenho muito simples de xadrez pedra/musgo.





A estrutura de xadrez dispersa-se no jardim do norte, progredindo de uma malha clara e organizada para uma dissipação progressiva, até ao desaparecimento na pequena mata. Trata-se de um exemplo, entre outros, do uso que Shigemori fazia de elementos pontilhistas nos seus jardins, o que é um deslocamento relativamente às práticas dominantes no jardim tradicional.





A ver o mar, na gravilha. Coisa só possível num jardim metafísico.




(Fotos de Porfírio Silva. 6 de Novembro de 2005, Quioto, Japão.)

9.10.07

A tecnologia do religioso

09:00
As grandes religiões dominantes no Ocidentes fizeram um percurso civilizacional que as conduziu a uma certa intelectualização. Nesse espaço cultural, as instituições (as igrejas) preocupam-se com a ciência, procuram esse saber, procuram conciliações e alianças entre conhecimento da matéria e vida do espírito. Individualmente, também muitos crentes esforçam-se por conciliar a sua fé com os seus conhecimentos científicos. Há nisso algo de atraente: a religião não tem de ser obscurantismo. Mas há nisso, também, uma cedência ao núcleo ideológico central do cientismo. Na ideologia do cientismo, a ciência tende a tudo explicar e as alternativas de compreensão que não passam pela ciência tendem a extinguir-se. Muitas vezes, a “fé esclarecida” assemelha-se perigosamente à fé explicada aos intelectuais.


Essa intelectualização abriu um espaço às concepções mágicas do sagrado. Nessa mundividência, a manipulação de certos objectos, com certas conotações, por pessoas com certos “saberes” e “poderes”, produz certos “resultados” e “resolve” certos problemas. Por encomenda. Esse é o fascínio de certas seitas, mas também de certas franjas das igrejas dominantes. Que assim respondem à dominante “ideologia do tecnológico”. Um caso que, para o meu ver, é disso exemplo: as práticas exorcistas, que a hierarquia mais formal vê com maus olhos e tenta enquadrar e limitar, mas que continuam a existir e são bem aceites pela “religião popular”. O exorcismo pretende resolver, por uma manipulação de certos sinais, uma avaria do espírito. A possessão é um desarranjo que um bom mecânico repara. O exorcista é o especialista que detém o segredo das peças de origem. A marca da sua capacidade tecnológica é que a sua intervenção transforma um comportamento anterior aberrante num comportamento posterior estatisticamente normal. E tudo isto depois de o behaviorismo mais descarado ter sido expulso da posição dominante mesmo na psicologia científica.


Este, como outros fenómenos de magia “para resolver desarranjos”, traduz talvez uma resposta à intelectualização das religiões oficiais dominantes. À tendência pesada para esquecer o corpo, para esquecer as emoções e os afectos que deveriam contar numa experiência do sentido (do sagrado). Mas, creio eu, esse recurso à tecnologia do religioso traduz a nossa própria redução à condição de robot que precisa de uma intervenção. A experiência tecnológica da religião é o grau zero do sentido – mas vai muito bem com o ar do tempo.


(Publiquei este texto originalmente, como convidado, no extinto Terra da Alegria, a 21-Jun-2004)

8.10.07

O problema alimentar das modelos de moda

(Clicar para aumentar. Cartoon de Marc S.)

Navegar


Aos que esperam o milagre do agente económico privado (Lendo Teodora Cardoso - 4)

08:45
«Portugal tem reconhecidamente um problema orçamental, mas tem também um sério problema de qualidade do investimento, público e sobretudo privado. Em termos de atribuição dos recursos – o factor que determina o crescimento da produtividade e o enriquecimento geral do país –, este é, de longe, o problema mais grave da economia portuguesa. Desde a adesão à UE, em 1986, Portugal tem o mais elevado racio de investimento da UE-15. Se quisermos ir mais longe, observaremos que, desde que há dados (cuja publicação se iniciou na década de 50), o racio de investimento privado em Portugal é dos mais elevados do mundo. O peso do investimento público acentuou-se após a adesão à UE mas, como não podia deixar de ser, o investimento privado permanece largamente dominante.

Ao contrário do que se esperaria, deste investimento não resultou o acréscimo paralelo da produtividade. Ao longo das quatro décadas e meia cobertas pelas estatísticas europeias, a produtividade em Portugal não cessou de distanciar-se da maioria dos seus parceiros europeus.
É claro que são muitos os factores que explicam esta divergência, desde os culturais aos institucionais, à definição e execução da política económica. Por isso mesmo, é tempo de deixarmos de contentar-nos em atribuir à fiscalidade ou à má qualidade da administração pública os problemas da economia. Menos ainda podemos esperar repor os equilíbrios macroeconómicos somente através da redução do peso do sector público, supondo que – por alguma espécie de milagre – o sector privado se torna subitamente eficiente e competitivo.»

(Teodora Cardoso, “Matérias de Reflexão”, Portal da Ordem dos Economistas, 16/05/05)