11/11/12

Eu não vou manifestar-me contra a visita de Merkel.


Eu não vou manifestar-me contra a visita de Merkel. Porquê? Por concordar com as políticas que ela conduz como chefe de governo de um Estado-Membro da União Europeia? Decerto que não é por isso, porque discordo muitíssimo das suas políticas, julgo que elas rasgam de forma profunda a ideia de interesse comum europeu e são uma má resposta à solidariedade que a Europa deu anteriormente à Alemanha. Então, porque, mesmo assim, não vou manifestar-me contra a sua visita?

Primeiro, porque só sou contra a vinda a Portugal de ditadores (e, mesmo assim, depende: há circunstâncias em que isso se justifica diplomaticamente). Merkel é a líder democraticamente eleita de um país amigo.

Segundo, porque estou farto dos disparates de comparação desta Alemanha com o nazismo e parafernália associada e prevejo que nas manifestações contra a visita haja muito material desse – e não quero estar de modo nenhum associado a ajuntamentos onde esses crimes contra a memória se repitam.

Terceiro, porque o problema não é "a Merkel": a chancelerina alemã dá voz à esmagadora maioria do seu povo – que pode estar errado, mas é assim que as coisas funcionam em democracia. Há quem brame muito para que os representantes dos portugueses não vão além da nossa vontade expressa no concerto europeu, ao mesmo tempo esquecendo que os alemães também são gente e têm as suas próprias opiniões acerca do que o seu governo deve fazer na Europa. E não vamos convencer os alemães das nossas razões hostilizando a sua chefe de governo de forma violenta.

Quarto, porque o problema nem sequer é especificamente a Alemanha. Se não fosse a Alemanha, uma série de outros Estados-Membros da EU, mais a norte e mais a leste, já teriam bloqueado tudo o que, mesmo assim, se tem feito. Os eleitorados desses países, se não fosse a imagem de firmeza que Merkel tem transmitido, fazendo dela uma ponte negocial entre interesses em confronto na Europa, há muito teriam desligado dos nossos problemas e teriam batido com a porta na nossa cara.

Quinto, porque pintar a Alemanha como a "grande egoísta" na Europa é uma visão parcial das coisas. Desde logo, (parte "mesquinha" do argumento) a Alemanha é uma das fontes principais do financiamento da União - e de países como Portugal que desse financiamento beneficiam muito; e, também, porque (argumento mais ao largo) a Alemanha tem décadas como um dos parceiros mais responsáveis no seio da Europa. Devemos vender-nos por fundos comunitários? Não, não devemos vender-nos; mas também não faz muito sentido continuar a querer o apoio dos outros e estar sempre a fazer de conta que prescindimos deles lindamente. A Alemanha também ganha com a Europa? Claro que ganha, mas é de interesses mútuos que se trata, não de beneficência.

Sexto, porque o que Portugal precisa não é de se isolar da Alemanha: o que Portugal precisa é de negociar com toda a gente, incluindo a Alemanha. E negociar não é berrar: é ter posições e defendê-las. Se temos um governo que prescindiu de defender Portugal na Europa, não estou certo que isso seja culpa de Merkel, acho que é mais culpa da agenda ideológica de Passos Coelho e do seu ajudante Gaspar. Aplaudiria que várias forças da sociedade civil, e mesmo forças políticas, tivessem solicitado encontros com Merkel para discutir com ela o que a crise exige. Não na qualidade de um César de saias, mas como chefe de governo de um país amigo dentro de uma comunidade de Estados e de povos.

Sétimo, porque cada vez tenho mais vontade de me manifestar, mas cada vez tenho menos condições para o fazer. A rua está cada vez mais tomada pelas correntes anti-europeístas, herdeiras (envergonhadas ou assumidas) do nacionalismo comunista ou do nacionalismo de direita; a rua está cada vez mais radicalizada contra as forças (nomeadamente socialistas) que são mais ciosas do compromisso europeu e percebem que sem mais Europa (outra Europa) isto não vai lá. Para já não falar da crescente ameaça de violência que paira sobre essas manifestações, servindo talvez os interesses eleitorais de alguns (que pensam que só com um cenário grego podem dobrar o PS, por exemplo), mas decerto não servindo a capacidade de construir um largo bloco político-social de alternativa a este entreguismo do governo. O radicalismo da rua cada vez mais se encaixa no radicalismo do passo-gasparismo – e isso a mim não me serve como ecossistema.

Por último, e em resumo, eu até poderia manifestar-me contra a política de Merkel, porque sou contra essa política. Não posso é manifestar-me contra a visita de Merkel, pela razões que acima procurei expor, e quem sair à rua vai fazê-lo com esse propósito que eu não partilho. Não haveriam, pois, de querer a minha companhia.


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