17.10.12

as gorduras.

qual a diferença conceptual entre um salto e um mergulho?

gente que polui mais do que chaminés fabris sem filtros.

13:00

António Barreto denunciou a existência de "cláusulas secretas" nos contratos das PPP, considerando que "não é aceitável" que haja condições escondidas em contratos de "um Estado democrático".

"Eu sei há muito tempo, por acaso, há quatro anos que sei que há cláusulas secretas nas PPP", declarou aos jornalistas o sociólogo António Barreto, à margem do 4.º Congresso Português de Demografia, que decorre hoje e quinta-feira em Évora.

A comissão parlamentar de inquérito às PPP dos sectores rodoviário e ferroviário questionou António Barreto sobre essa crucial informação para se perceber tamanho escândalo.

António Barreto respondeu não conhecer "nenhuma" cláusula secreta nas parcerias público-privadas. Admite, por outro lado, ter criado "a convicção que existem cláusulas secretas ou reservadas ou contingentes", na resposta enviada hoje à comissão parlamentar de inquérito.

Com tudo isto, eu criei a convicção de que António Barreto é um poluidor da nossa vida pública. Um irresponsável. Um demagogo. Um fala-barato. Um tipo que usa os seus créditos académicos e a sua visibilidade para propalar boatos convenientes às suas inclinações políticas e às suas embirrações. Claro, depois disto vai continuar a dizer coisas em público, sem vergonha nenhuma - porque, manifestamente, a vergonha foi coisa que já perdeu há muito.

alô, é do governo? está aí alguém?!

11:55

O debate internacional acerca da forma como as instituições relevantes estão a obrigar os países a lidar com a crise está cada vez mais animado. A noção de que continuamos a cozinhar o desastre é cada vez mais nítida (ver abaixo notícias do FMI).
Alguns, contudo, ainda andam pelas redes sociais, televisões, blogues e jornais a fazer de conta que nada disto existe, que tudo isto é fado. São como aqueles guerrilheiros que continuam perdidos na selva, a disparar as suas armas impotentes contra inimigos que persistem em imaginar, sem saber que a sua guerra já acabou, que os seus comandantes já desertaram, que o mundo é já outro.
Que isto se passe com esse mundo de guerrilheiros perdidos no mato (entre os quais se contam os que ainda tentam culpar o Tribunal Constitucional por exercer a vigilância do respeito pela lei fundamental), é o menos. As ilusões não se lavam com sabão, percebe-se. Agora, que o governo de Portugal, também ele, continue perdido em parte incerta, escondido da Europa, mudo como um alienado, é que não se percebe. Um governo que não entende que a batalha na frente europeia é a batalha de todos os dias, é um governo regional. Menos: um governo calado na Europa, que se limita a acenar em concordância com as reguadas, é um governo que vale menos que uma junta de freguesia.
É preciso mobilizar a inteligência de Portugal para entrar no debate internacional das alternativas. Não falo de levar Louçã a manifestações na Grécia. Nem de mandar Borges tentar recuperar o contacto com os seus amigos do FMI ou da Goldman Sachs. Falo, por exemplo, de organizar uma conferência internacional para debater as alternativas no caso português. Conferência que pode ser organizada em Lisboa ou em Frankfurt, em Zurique ou em Nova Iorque, em Paris ou em Estocolmo. Falo, por exemplo, em incentivar alguns dos nossos académicos a pedirem audiências a Merkel e aos primeiros-ministros que tendem a ser mais duros com Portugal. Falo, por exemplo, de incentivar as nossas universidades a convidar académicos estrangeiros que não nos compreendem para debater cá as nossas alternativas. Pugno por uma ofensiva de pensamento ao nível internacional, ao nível europeu e mais longe. Se o Álvaro é tão orgulhoso do seu recanto académico no Canadá, use esses contactos de emigrante, que nós agradecemos (já que o Gaspar se entretém a lembrar que fomos nós que pagámos para ele saber tão bem como dar cabo de nós).
Isto, claro, deveria sempre ser acompanhado de uma atitude do governo que não fosse de submissão e reverência face aos nossos parceiros internacionais. Porque a nossa perda de soberania começa com o nosso silêncio na política europeia. E se há silêncios que custam caro, este é um deles.

***

FMI: redução da dívida pública leva tempo e tem de ser realista.

Jorge Nascimento Rodrigues no Expresso:

Um estudo do Fundo Monetário Internacional (FMI) sobre as políticas de ajustamento orçamental nos países desenvolvidos aponta para três lições e analisa "o bom, o mau e o feio" em 26 episódios em que a dívida pública esteve acima de 100% do PIB. (...)

Da história económica dos ajustamentos orçamentais desde o final do século XIX nos países desenvolvidos com níveis de dívida pública (bruta) superiores a 100% do Produto Interno Bruto (PIB), retiram-se lições importantes para a atualidade, segundo um estudo do Fundo Monetário Internacional (FMI) publicado no "World Economic Outlook" (WEO) divulgado na semana passada em Tóquio. (...)

Ainda que os pacotes de políticas em cada um dos 26 episódios analisados tenham sido muito diversos, a equipa do FMI liderada por John Simon, Andrea Pescatori e Damiano Sandri retira, para a atualidade, três lições:

# A redução com sucesso da dívida pública requer tanto consolidação orçamental como uma mistura de políticas que apoiem o crescimento económico. Aspetos fulcrais são uma política monetária que apoie o crescimento e medidas que ataquem as fraquezas estruturais na economia;

# A consolidação orçamental deve privilegiar reformas estruturais e persistentes das finanças públicas e não medidas orçamentais temporárias e de curta duração que não gerem uma trajetória de redução consistente;

# Reduzir a dívida pública e o défice orçamental leva tempo, e ainda mais num contexto de ambiente económico externo fraco como é o atual. Mesmo em contextos mais favoráveis, no passado, "melhorias sustentáveis de mais de um ponto percentual por ano são raras".

O estudo aponta ainda para dois alertas:

# As políticas de "desvalorização interna", como a que foi seguida no Reino Unido depois da 1ª Guerra Mundial, são particularmente arriscadas. Em geral, têm custos elevados. No caso britânico teve resultados "desastrosos" - mais desemprego, crescimento económico medíocre durante duas décadas e continuação da trajetória de aumento da dívida pública. O ambiente social e político aqueceu culminando com a greve geral de maio de 1926. Determinar se o custo dessa "desvalorização interna" ultrapassa o benefício para a competitividade exige mais investigação;

# A situação atual de continuação da crise internacional aponta para um "ambiente externo" que não é favorável, ao contrário dos casos com sucesso no pós-2ª Guerra Mundial e nos anos 1980 e 1990. "As expetativas sobre o que se consegue alcançar têm de ser colocadas de um modo realista", sublinha o FMI. (...)

Vale a pena ler na íntegra.





16.10.12

Merkel vem aí.


Merkel vem aí e podemos começar a pensar no que isso vai representar para a nossa posição como país na Europa e no mundo. Sem ser simpático (para os gregos), este artigo de Jean Quatremer pode, mesmo que em parte ou no todo discordemos dele, perspectivar os desafios dessa ocasião: Os anti-Merkel imbecis e maus.

finalmente, uma boa explicação para a UE ter o Nobel da Paz.

isto é um beco?

12:58

Manifestamente, o líder do PSD candidatou-se a primeiro-ministro sem consciência do que isso exigia. Sem preparação, limitou-se a prometer tudo o que lhe parecia que o poderia alcandorar ao pote (para usar a expressão do próprio). E agora anda à nora e alguém que pague.
Não lhe querendo ficar atrás, o líder do CDS pensava que podia fazer parte do governo e da oposição ao mesmo tempo. E insiste numa receita que já conhece: já uma vez ajudou a atirar Portugal para uma crise política, que entornou definitivamente o caldo, e agora parece estar tentado a fazer o mesmo, esquecido do verdadeiro custo de andar sempre a ir a votos. Só não percebo que ainda se depositem esperanças no "patriotismo" de Portas: a única pele que conhece é a sua própria; sairá quando julgar que isso lhe rende mais.
No meio disto, seria conveniente que o Presidente da República não alimentasse ilusões, mesmo que o alimento venha do silêncio. Julgo que Cavaco Silva deveria exigir a esta maioria que limpe a casa e governe - de preferência, cumprindo o que prometeu aos portugueses. Julgo que o Presidente deveria matar pela raiz os sonhos de "governos de inspiração presidencial", deveria reclamar dos partidos da maioria o mínimo de não alimentarem mais a fogueira, deveria reclamar uma reestruturação a sério deste governo (não só nomes, também organização, com ou sem Passos Coelho) e deveria exigir que o governo governasse. E deveria fazer isso pelos meios institucionais próprios, não nas "redes sociais" - e tem meios institucionais mais claros do que "os bastidores".
Claro, muitos gostariam de "refrescar" tudo desde já. Mas não vejo que se possa avançar só por ir a votos quase todos os anos. Não podemos gastar o que não temos: o nosso sistema político já não tem as reservas de credibilidade que lhe permitam desgastar-se mais em legislaturas-fósforo (que ardem como um fósforo).

15.10.12

A causa longínqua (outra "epístola aos deterministas").


De Chirico, O Grande Metafisico (1916), Neue Nationalgalerie, Berlim


Dedico este excerto de uma obra de Jorge Luis Borges a todos aqueles que acreditam que o mundo é uma grande máquina, com peças muito bem encaixadas umas nas outras, em que, causa após causa, tudo o que nós fazemos (melhor, tudo o que nos acontece) é determinado pela longa sequência de tudo o que aconteceu antes, de tal modo que a nossa liberdade é pura ilusão (e assim deverá ser, também, a nossa responsabilidade).


A causa longínqua.


Em 1517, o padre Bartolomé de las Casas teve muita pena dos índios que se extenuavam nos laboriosos infernos das minas de ouro das Antilhas e propôs ao imperador Carlos V a importação de negros, que se extenuaram nos laboriosos infernos das minas de ouro das Antilhas. A essa curiosa variação de um filantropo devemos factos infinitos: os blues de Handy, o êxito alcançado em Paris pelo pintor doutor oriental D. Pedro Figari, a boa prosa bravia do também oriental D. Vicente Rossi, o tamanho mitológico de Abraham Lincoln, os quinhentos mil mortos da Guerra da Secessão, os três mil e trezentos milhões gastos em pensões militares, a estátua do imaginário Falucho, a admissão do verbo linchar na décima terceira edição do Dicionário da Academia, o impetuoso filme Aleluya, a forte carga de baioneta conduzida por Soller à frente dos seus Pardos y Morenos no Cerrito, a graça da menina Fulana, o mulato que assassinou Martín Fierro, a deplorável rumba El Manisero, o napoleonismo corajoso e encarcerado de Toussant Louverture, a cruz e a serpente no Haiti, o sangue das cabras degoladas pela catana dos papaloi, a habanera mãe do tango, o candombe.

Além disso: a culpável e magnífica existência do atroz redentor Lazarus Morell.


Jorge Luis Borges, História Universal da Infâmia (1935).
(Primeira secção de “O atroz redentor Lazarus Morell”. Tradução portuguesa de José Bento, in Jorge Luis Borges, Obras Completas, Volume I (1923-1949), Lisboa, Círculo de Leitores, 1998, pp. 295-355)