28.1.11

há gente que compra tudo feito


Parece que António Barreto disse que "Se não houver uma grande reforma nos próximos tempos, Portugal corre o risco de sofrer uma revolução".(*)

"Sofrer uma revolução"?! Mas já nem uma revolução somos capazes de fazer, limitamo-nos a "sofrê-la"?
Ai estes políticos que deixaram de o ser por não lhes terem reconhecido as magníficas capacidades para "grandes reformas"...

(*) Barreto é assim citado pela RTP, mas acho que ele não usou a palavra "sofrer".

uma viagem à índia (o tempo dos hábitos)


Gonçalo M. Tavares:
Tal como aforismos, os objectos pessoais concentram
múltiplos dias num pequeno espaço. (Cada objecto
envolvido em ritual ou em hábito é, em tempo: muito,
mesmo que tenha poucos centímetros.
Uma Viagem à Índia, Canto VIII, estrofe 1 (excerto)

um umbigo maior que as pernas e a cabeça juntas é no que dá

(Cartoon de Marc S.)

27.1.11

no bojo das últimas presidenciais fermenta um movimento, ou mais ?

14:30

O espaço do comentarismo político, assumido ou disfarçado, é pródigo em pérolas. Uma das preferidas versa o "monopólio dos partidos" neste regime representativo. (Por exemplo: "as presidenciais são dos poucos momentos na vida política que escapam ao monopólio dos partidos".) Já passando ao lado do facto de que há muitos lugares electivos neste regime a que podem candidatar-se cidadãos independentes, dispensando qualquer ligação partidária, essa conversa do monopólio dos partidos evita confrontar-se com esta questão muito simples: o que são os partidos políticos mais do que organizações de cidadãos que se juntam para influenciar os nossos destinos comuns?
Claro que os partidos políticos reais, aqueles que existem mesmo, em lugar de estarem apenas numa ilha em nenhures, têm defeitos, insuficiências, pecados. Muitíssimos, é bom de ver. Só não têm essas metástases pecaminosas aquelas obras humanas que não passam da ideia. E, mesmo assim, a ideia, para se manter limpa, tem de permanecer relativamente vaga e abstracta. O mundo mancha tudo, essa é uma condição só desconhecida de quem nunca tentou levar nada à prática. E esses, puros, que imaginam como seriam imaculados se passassem à acção, usam ser os que mais depressa desatam a morder pai e mãe quando saem a barra e as vagas lhes empurram os órgãos internos para cima e para baixo até à dor. É que a virgindade é muito perigosa quando nos apanha desprevenidos no meio da selva habitada.
Fácil é compreender que dá uma trabalheira criar um partido, coisa que assusta imenso os paladinos da "independência". É precisa a bênção de 7500 cidadãos, um projecto de estatutos, uma declaração de princípios ou programa político, denominação, sigla e símbolo. Tudo isso dá imenso trabalho, uma canseira - e, claro, muitos nem sequer percebem por que é que um partido há-de ter programa, já que o seu "programa" é uma ideia à solta pronta a qualquer pega de cernelha.
A brilhante ideia alternativa é o "movimento": uma antecâmara, um porto de abrigo, um cruzamento que pode fazer-se ou desfazer-se com relativa facilidade, um nó numa rede (tão pós-moderno, o modo de fazer). Claro que há muitos movimentos que nasceram, precisamente, do movimento: numa dinâmica "de baixo para cima", gente que se encontra ao andar e, reconhecendo-se num caminho, cria marés. Essas são as glórias da cidadania. Mas há outros movimentos que nascem da cristalização: a cristalização de um momento, tentando guardá-lo numa gavetinha para o recriar noutro momento futuro (outra eleição, por exemplo).
Estamos fadados, parece, para que as eleições presidenciais sejam fornos de "movimentos", daquela espécie que se destina a guardar a fotografia para mais tarde descongelar um pico de febre. E não há muitos entusiastas que parem para pensar onde acabaram tantos movimentos desses. Já, por outro lado, o nosso sistema, apesar da podridão que tantos lhe apontam com ligeireza, permitiu, ainda mais ou menos recentemente, a emergência e afirmação de um partido politico que veio modificar a arquitectura partidária. E nem foi preciso recorrer ao expediente justicialista, como aconteceu na Itália das "mãos limpas". Trata-se, claro, do BE. O seu percurso até hoje, gostemos dele ou não, mostra que "o sistema" tem espaço para o investimento em novos posicionamentos. Agora, isso não cai do céu. Pois não. Mas quem espera que a solução caia do céu, bem pode deixar descansado o espaço da cidadania - em vez de fazer de conta que tem para ele ideias milagrosas.

***

A propósito de criar "movimentos":


(E este "paralelismo" nem é nada contra o "Movimento Homeostético", entenda-se.)

quando a alemanha começa a ver mais longe do que a um metro dos seus próprios pés


Alemanha inclina-se para Governo económico na zona euro. «O ministro das Finanças alemão, Wolfgang Schaeuble, defendeu hoje que se esclareçam “rapidamente os passos a dar para criar um Governo económico entre os países da zona euro, aberto à participação de outros países da União Europeia. (...) Por seu lado, o presidente executivo do grupo Metro AG, o maior do retalho na Alemanha, Eckhard Cordes, veio dizer hoje que a Alemanha tem o “dever moral” de ajudar países endividados como Portugal e a Grécia. “Existe quase uma obrigação moral para que a Alemanha e as indústrias alemãs dêem apoio a países como Portugal e a Grécia”, afirmou Eckhard Cordes, que falava num dos painéis do Fórum Económico Mundial de Davos, Suíça, citado pela agência Bloomberg. “Temos de ter em mente todos aqueles frutos que fomos capazes de colher ao longo dos últimos anos”, afirmou.»

Sempre quero ver o que dizem agora aqueles (portugueses) que diziam há tempos que a Alemanha não tem nada que se preocupar com os outros, que nós é que tínhamos de nos desenrascar por "isto" ser tudo assunto nosso.

ele há alternativas do diabo



Na Visão de hoje, num trabalho sobre Berlusconi e as suas embrulhadas.


o magalhães dá a volta ao mundo


Comissão Europeia encerra processo contra Portugal por causa da concepção e adjudicação dos Magalhães, informa o Público.
Mais em detalhe: «A Comissão Europeia confirmou que o governo violou o direito comunitário na concepção técnica e na adjudicação directa de mais de um milhão de computadores dos programas de educação, mais conhecidos por Magalhães.Apesar disso, Bruxelas decidiu encerrar o processo aberto contra Portugal depois de o Governo se ter comprometido a corrigir todas as infracções detectadas, embora avisando que vai vigiar de perto o cumprimento das promessas. “Em resultado da intervenção da Comissão, as autoridades portuguesas passarão a realizar concursos públicos e a tomar medidas para assegurar que os contratos de fornecimento serão abertos a todas as empresas da UE interessadas”, afirma Bruxelas.»

O assunto é simples. Mesmo que a Comissão Europeia tenha razão neste caso (não sei), são inúmeras as tentativas de todos os Estados Membros da União Europeia para se furtarem nisto ou naquilo às regras da concorrência do "mercado único". Às vezes conseguem, outras não. Por regra, os agentes políticos e as "forças vivas" de cada um desses países unem-se a favor dessas acções do tipo "o que é nacional é bom", já que se trata de "puxar a manta" o mais possível para os "pés" das respectivas economias nacionais, que isto de Europa é muito "amigos amigos, negócios à parte". Em Portugal, pelo contrário, o que mais há é gente disponível para fazer queixinhas a Bruxelas. A ideia é deixar mal o governo português, criar-lhe dificuldades. Na prática, o resultado é o anunciado: “Em resultado da intervenção da Comissão, as autoridades portuguesas passarão a realizar concursos públicos e a tomar medidas para assegurar que os contratos de fornecimento serão abertos a todas as empresas da UE interessadas”.
Ai que os portugueses são tão amigos dos europeus todos. Com a possível excepção dos portugueses...

26.1.11

não há por aí uma coligação negativa que ajude a preservar privilégios à pala da conversa da liberdade de ensinar?

1961

12:00

Em 1961 - há cinquenta anos - aconteceram muitas coisas importantes. Algumas, como o desvio do Santa Maria, deram dores de cabeça a Salazar. Outras só me dão dores de cabeça a mim. Destas últimas não reza a história. Daquelas outras, reza, sim. Como Irene Pimentel está a mostrar, com primeira lição aqui. A seguir, já que a senhora sabe do que fala e escreve com limpidez.

os mercados (de regresso às duras realidades)

(Cartoon de Marc S.)

irritações de um cidadão

09:22
David Bresó, Inocência Perdida

Confesso que há coisas que, tomadas com o café da manhã, me fazem começar o dia mal-disposto.
Leio uns blogues onde encontro quem aponte o dedo acusador aos que, na esquerda, ou na área do socialismo, não deram o litro por Alegre nestas presidenciais. Embrulhadas as acusações, veladas ou às claras, em considerações relativas à história recente do PS, ao "socratismo" e a quejandos pecados e pecadores, parece que qualquer simpatizante do PS que não se tenha apresentado para pagar o tributo de sangue merece ser rotulado de traidor para pior.
Pois eu, que não fiz nenhuma campanha presidencial, excepto contra Cavaco, que nunca escondi o disparate que considerava estar aninhado nesta candidatura de Alegre, só posso rir-me dessas vozes para evitar a vontade de chorar com tão brutos democratas. Alegre, que há tempos se candidatou contra o candidato do seu partido, reclamando (e bem) os direitos e deveres de cidadania mobilizados nessa opção, foi por isso por muitos muito louvado. Bizarro é que, dos mesmos lados, venham agora contra quem, não sendo poeta mas tendo também direitos de cidadania, e consciência e tudo, entendeu pensar e fazer diferente do que os "órgãos competentes" decidiram que era a "posição oficial". Quem ontem primava pelas delícias do desvio, hoje quer bater com as armas dos alinhados.
Parece que alguns paladinos da cidadania, ou, pelo menos, useiros e vezeiros em encher a boca com tais proclamações, só gostam que cada um pense pela sua cabeça quando pensa o mesmo que tais porta-estandartes. Mas ficam amofinados quando os outros exercem os mesmos tão proclamados deveres de cidadania, um dos quais há-se ser a auto-determinação no pensar e no agir quando se trate de procurar o bem comum. Mais depressa se apanham os falsos profetas da cidadania do que um coxo, essa é que é essa.
Mesmo assim, por muito previsível que fosse a manobra, ela não deixa de ser irritante. Publicada em blogues ou sussurrada entre "adeptos".


25.1.11

uma espécie de sublevação que está em curso mas estava pendente dos resultados das presidenciais


Informação de última hora: «O movimento SOS Educação (dos colégios privados) não é um grupo de tolinhos que apenas quer que seja o Estado a suportar as propinas dos seus filhos em colégios privados. O movimento SOS Educação é um grupo de gente organizada, que tem um plano secreto — e altamente profissional — de sublevação e insubordinação popular (...).»

O "plano da revolta", por capítulos: um, dois, três.
No um, verificar como a "revolução" teria sido abortada se as presidenciais tivessem tido outro resultado.
No dois, ler com atenção a parte sobre os atestados médicos fantasiosos.
No três, ver a parte sobre a manipulação política ("figura política proeminente").

O incentivo de uma certa esquerda parlamentar a este SOS parece estar a dar os seus frutos.

com sete palavrinhas apenas

comentarismo pós-eleitoral




(Cartoon de Marc S.)

a notícia é que Jardim poderá ter falado verdade


Jardim considera que “a degradação do sistema político-constitucional português é de tal ordem, que a ‘aspirina Coelho’ começa a ser um ensaio semelhante ao das últimas décadas em vários países da União Europeia. O protesto contra os sistemas, através da extrema-direita”.

Coelho teve 4,5% a nível nacional e teve 39% na Madeira. Se o tamanho da "aspirina" é proporcional à degradação do "sistema", Jardim terá razão. E está em boa posição para reconhecer a sua criatura.

24.1.11

muitos prometem, eu cumpro (embora com um dia de atraso)

presidenciais, danos colaterais à esquerda (os casos do PCP e do BE)

23:08
Bo Bartlett, America, 2007

Podem tecer-se as mais variadas considerações acerca do desempenho de Francisco Lopes como candidato presidencial, o conteúdo e o estilo da campanha, a instrumentalidade das presidenciais para a manobra interna partidária e muitas outras coisas de que podemos ou não gostar. Não obstante, não foi certamente por culpa do PCP que a esquerda perdeu esta presidencial. Nem esta nem nenhuma outra. O PCP sempre soube, neste tipo de eleições, preservar a sua reserva de identidade sem alienar as condições de convergência à esquerda quando ela se torne possível e útil. Com maior ou menor brilho, foi também o que aconteceu desta vez.
Já o mesmo não se pode dizer do BE. O processo que terminou com a reeleição do pior PR desta democracia constitucional, incluindo a elevada percentagem de voto branco e outras formas de rejeição explícita do "sistema", é o ponto cimeiro da estratégia de condicionamento que Louçã tem conduzido como forma de relacionamento à esquerda.
A vertente anti-PCP dessa estratégia não é desprezível: se Cunhal, para apelar ao voto em Soares, teve de pedir aos comunistas para taparem a cara no boletim de voto com uma mão e marcarem a cruz com a outra, imagine-se o que Jerónimo não teria de lhes pedir se tivessem de votar em Alegre. É que Alegre será uma das poucas pessoas que terá deixado ao PCP do PREC uma recordação mais amarga do que o próprio Soares. Mas claro que, para a estratégia de afirmação de Louçã, fazia todo o jeito humilhar o PCP ao voto obrigado no "seu" candidato.
A vertente anti-PS da mesma estratégia foi ainda mais evidente. Marcando Alegre como candidato do Bloco, Louçã deixava duas alternativas ao PS: arranjar outro candidato e arriscarem-se os socialistas a ficar com menos votos nas presidenciais do que o BE; juntar PS e BE na mesma candidatura presidencial, ao mesmo tempo que em todos os outros sectores do tabuleiro se combatiam ferozmente. Entre os dois males, a direcção do PS escolheu o que lhe pareceu menor, evitando ser derrotado por um entendimento cordial entre o BE e um sector do eleitorado socialista: decidiu embarcar na mesma nau que o escorpião, cuja natureza tem muita força nos momentos decisivos. O PS, a meu ver (e como já aqui escrevi há tempos), escolheu mal: devia ter ido à luta, com um candidato que representasse o melhor do seu impulso modernizador - mas não quis ou não pôde ir por aí.
O resultado da magnífica estratégia de Louçã é bem claro para a esquerda: a campanha de Alegre, mais do que a sua magra votação, representou um grande passo atrás em qualquer ideia de entendimento do PS com a esquerda da esquerda. A evidência de que o herói dessa convergência não colocou em cima da mesa nenhuma ideia nova concreta que fosse inspiradora para as esquerdas; o ziguezaguear de Alegre entre umas bicadas ao governo e uns piscares de olho às oposições; a incapacidade para sair das generalidades; a debilidade conceptual que teve o seu zénite quando Alegre aceitou calado que Cavaco, sentado à sua frente, amalgamasse Estado Social com caridade - tudo isso tornou hoje praticamente impossível defender um esforço de convergência à esquerda. Mesmo para quem, como eu, sempre pensou para esse lado.
Sempre estou para ver se ainda há, no Bloco, força política para questionar esta estratégia. Que há lá quem queira fazer do BE um grupelho radical, acredito que sim. Que haja lá quem queira fazer do BE uma força capaz de induzir mudanças sérias na política portuguesa, por via da capacidade de usar o seu peso parlamentar e social para reorientar políticas, deixando de lado as alianças com a direita (como no caso das escolas privadas), ainda estou para ver.
Entretanto, resta-nos esperar que Sócrates continue a fazer o trabalho de evitar que Portugal seja entregue às receitas do FMI, enquanto Passos Coelho é por isso que suspira - e a esquerda da esquerda, para esse peditório, só dá retórica. Vá lá, se juntarmos também as corporações: retórica e providências cautelares que descredibilizem o esforço de Portugal nos mercados financeiros internacionais (que, por muito diabólicos que sejam, de momento são quem tem o cacau de que precisamos).

presidenciais, danos colaterais à esquerda (o caso do PS)

12:19
Bo Bartlett, Empire, 2007

No espaço do PS há várias formas de ver a relação entre esse partido e os demais elementos do espectro partidário.
Há os advogados do "orgulhosamente sós", que acham indesejável ou impraticável que o PS se entenda com quem quer que seja para dar base a uma solução governativa. Há os que sonham acordados com uma aliança com o PSD, encarando o bloco central como a estabilidade máxima que se pode dar ao regime. E há os que, desejando um PS mais ousado na ruptura com as delícias da "mera gestão do capitalismo", preferem que o jogo estratégico conte com o BE e/ou com o PCP.
Os isolacionistas, na sua aspiração à pureza do "mais vale sós que mal acompanhados", representam esse traço da cultura política nacional que é a identidade imatura. Identidade imatura é aquela que teme as misturas por medo da diluição. Entre nós preza-se pouco a capacidade para juntar esforços, a sabedoria do compromisso; foge-se da negociação concreta do possível como se isso fosse um pecado. É aceitável ter preferência por maiorias absolutas: é também a minha preferência, por ser a fórmula que garante a melhor identificação das responsabilidades pelo rumo da governação. Coisa bem diferente é adoptar a postura "ou nós, ou o dilúvio". O PS, a persistir nessa linha, cairá continuamente na situação de governo minoritário, o que, em geral, nem é bom para o país nem para o PS. (Como se verá: este governo será despedido quando for mais conveniente à direita, não ao país.)
Pelo seu lado, os socialistas adeptos do "bloco central" dão pouco valor a um activo importante de qualquer democracia: a existência de alternativas reais. Meter os dois maiores partidos no mesmo saco pode, em certas ocasiões, ser necessário, mas a prazo equivale a condenar o país a ser sempre governado mais ou menos com a mesma política, mesmo que isso seja feito com "estilos" diferentes. Essa doença do rotativismo já deu maus resultados no passado, não deixará hoje em dia de agravar o desinteresse "do povo" pela governação da casa comum.
Os que vêem o PS como um dos partidos da esquerda, que desejariam dar alguma tradução política à maioria aritmética que PS, PCP e BE têm a maior parte do tempo, têm um problema óbvio para resolver: o ódio de estimação que PCP e BE dedicam ao PS. O PS é, muitas vezes, o principal alvo a abater para bloquistas e comunistas. Esses partidos alimentam uma cultura "de oposição" que dificulta conceber uma governação PS partilhada com eles. PCP e BE são, em questões absolutamente essenciais para o entendimento do mundo de hoje, habitantes de um imaginário passadista. O exemplo mais gritante é a sua posição sobre a União Europeia, que confunde sistematicamente a oposição a certas políticas com a oposição à própria UE, algo inaceitável para os socialistas.
Eu, que estou entre os minoritários (vejo o PS à esquerda, quer pelas suas políticas, quer pelos seus parceiros preferenciais), reconheço que esta "sensibilidade" tem tropeçado num obstáculo de monta: PCP e BE, mesmo nos dias em que se entregam menos à coligação negativa que têm com o PSD e o CDS para esmigalhar o PS, mostram-se claramente avessos a pensar no mundo que realmente existe, preferindo ter programas políticos que dispensem a realidade. O PCP e o BE continuam a falar como se o mundo fosse infinitamente plástico, como se o PS não nos levasse directamente ao paraíso na terra por pura falta de vontade.
Nestas circunstâncias, estamos muito carecidos de que se mostre, pelo exemplo, como é que uma batalha política pode ser conduzida em convergência entre o PS e a auto-proclamada esquerda da esquerda. Isso exigiria reflexão política inovadora, estudo aturado dos problemas essenciais, propostas que quebrem os atavismos de que todos padecemos, uma nova linguagem da imaginação concreta. Sim, imaginação concreta: ser novo, não em generalidades, mas em problemas reais e que as pessoas compreendam. Sim, imaginação concreta: dar respostas atendendo ao mundo que temos e aos problemas que estão aí, não somente conversas vagas e proclamações canoras que ninguém entende como se trocam por miúdos.
Manuel Alegre teve a responsabilidade - e a oportunidade - de fazer essa reflexão e traduzi-la em discurso político. Passou completamente ao lado. Mostrou-se absolutamente incapaz dessa tarefa. Por esse lado morreu. Infelizmente, com isso deu um golpe duríssimo em todos os que entendem ser necessário e urgente que as esquerdas encontrem uma convergência mínima face a este mundo agora ainda mais complexo e incerto. A poesia hoje está mais difícil. Precisa de palavras novas. Que Alegre não teve. Palavras que, do alto da sua sobranceria de quem já viu tudo e percebeu tudo, Alegre não soube construir. É justo debitar-lhe esse dano colateral, que todos vamos pagar, tenhamos ou não sido "alegristas".

devo ou não devo dar os parabéns a Cavaco vencedor?

11:58

No post que escrevi ontem, dez minutos depois das primeiras projecções, onde me reconhecia como derrotado com a eleição de Cavaco, disse que não dava os parabéns ao vencedor.
Um companheiro desta aventura que é "a bloga", Tiago Tibúrcio, critica-me, em comentário a esse post, assim: "dar os parabéns parece-me ser a expressão de respeito que devemos aos nossos adversários políticos e, principalmente, àqueles que os elegem. A prova de que a democracia é a melhor forma de convivermos com as nossas divergências políticas."
Reconheço a pertinência da crítica e reconheço que, para o caso geral, Tiago está certíssimo. Mas insisto em não dar os parabéns ao Cavaco vencedor. Por qual razão? Acontece que eu antevi o que veio a confirmar-se mais cedo do que eu esperava, apenas umas horas depois: Cavaco não acabou a campanha ao saber dos resultados; Cavaco eleito prolongou a disputa eleitoral para dentro do estatuto presidencial, recusando objectivamente ser o presidente de todos os portugueses e escolhendo ser apenas o presidente "dos seus"; Cavaco tratou os que o atacaram politicamente como se fossem maus portugueses e maus democratas; Cavaco, além de se julgar moralmente superior, traça a fronteira da moralidade com a imoralidade junto aos seus pés. Ora, isso é intolerável. Nesses termos, não lhe devo o respeito democrático a que Tiago Tibúrcio se refere. Cavaco, na sua pequenez, esquiva-se ao respeito.

um caso a seguir com atenção

10:54

23.1.11

o princípio do que aí vem

22:37

Cavaco Silva, no discurso da vitória, continua a campanha eleitoral: insiste na afronta aos adversários, auto-elogia-se, fala para os seus e parece convencido que quem não votou nele é mau português. Será que ainda não percebeu que a campanha eleitoral acabou? Quem é pequeno nem nos momentos de vitória é capaz de se transcender.

presidenciais

20:28
Se as projecções anunciadas há dez minutos estiverem razoavelmente certas, Cavaco Silva foi eleito à primeira volta. Várias observações são-me suscitadas por esse facto.
Primeiro, eu estou do lado dos derrotados. Aquilo que é estimável politicamente para a maioria dos portugueses, a mim repugna-me. A vários níveis: político, de carácter, de valores, de cultura. Nada que me espante.
Segundo, Francisco Louçã deve estar satisfeito com o resultado: isto é principalmente o produto da opção da direcção do BE por fazer refém toda a esquerda, em particular o PS, na questão presidencial. A escolha antecipada de Alegre, um militante do PS em permanente tensão com o seu partido, e também alguém pouco estimado pelos comunistas, tornou extremamente difícil qualquer convergência estratégica para derrotar a direita nestas eleições. Louçã colocou acima do interesse presidencial de toda a esquerda um velho sonho trotsquista: derrotar na mesma guerra a social-democracia e o leninismo. Não é assim que se fazem convergências.
Terceiro, o PS não conseguiu escapar ao ardil do BE e não foi capaz de tratar da questão presidencial como a questão relevante que ela é. Não pensou a tempo no assunto - ou, no mínimo, se pensou, não conseguiu nenhum soldado relevante para esta batalha. Agora vai pagar isso muito caro.
Quarto, vamos ter um Cavaco à solta: ferido por finalmente se ter percebido que ele não é o puro que pretende ser, mas talvez ainda mais perigoso por isso, Tendo provado o sangue da pura disputa político-partidária, provavelmente gostou da adrelanina e vai querer mantê-la a níveis suficientemte elevados para mostrar que ainda é o chefe.
Se estes resultados servissem à esquerda para iniciar uma reflexão, talvez ainda valessem a pena. Mas, provavelmente, nem isso.
É a vida, como dizia o outro.
Ah, não dou os parabéns ao vencedor, isso não dou certamente.

re-rite no MUDE


re-rite é uma instalação multimedia produzida pela Philharmonia Orchestra, de Londres. Dá-nos a possibilidade de estarmos no meio de 101 músicos a executar A Sagração da Primavera (Stravinsky), observar diferentes naipes a tocar as suas partes, fazer as vezes de alguns dos músicos tomando em mãos os seus instrumentos, observar o maestro Esa-Pekka Salonen a dirigir e colocar-nos na sua posição. O vídeo reproduz alguns momentos de Salonen a dirigir a orquestra. re-rite está no MUDE (Museu do Design e da Moda, Lisboa) entre 9 e 23 de Janeiro de 2011. Quer dizer: apresse-se!