21/01/12

tragycomedyaorgya.



Ontem, sexta-feira, no Teatro São Luiz, em Lisboa. Vou escrever já, porque já uma vez me disseram que eu só dava conselhos para ir a coisas que já tinham passado. E desta vez não quero ser responsável se os meus leitores perderem este espectáculo.

Seis horas e quinze minutos de espectáculo, incluindo dois intervalos pequenos (tão pequenos que em nenhum dos dois consegui ser atendido no bar).

As Bacantes, a partir de Eurípedes, pelo Teatro Oficina (de São Paulo). Quem não sabe do texto de Eurípedes, lamento mas a esta hora não dá para contar. Mas procure na internet, se não tem tempo para comprar um livro. Quanto a este espectáculo, deixo apenas a sinopse curta: «Bacantes, de Eurípides, tragédia do embate entre a explosão dos sentidos e as razões de Estado, território de manipulação do desejo em nome da vingança, regressa-nos em forma de ópera carnavalesca, animada por mais de trinta actores, cantores e músicos, divindades afro-brasileiras, música pop e comentário político. Regressa e sobrevive – é já uma criação de 1995 – porque é um espectáculo sempre à procura da distância exacta entre Tebas e o Brasil contemporâneo.»

É um espectáculo total, que virou o São Luiz de pernas para o ar (o palco estendeu-se para todo o espaço da plateia, há actores e acção também por todos os balcões). É teatro, dança, música. É Grécia a sério, dionisíaco a sério. É realmente para maiores de 18 anos. Pode ficar na bancada (zona de participação) ou num balcão, mais recatado, mas não receie: será incentivado a participar, mas não pressionado. Suponho que o "touro" do público que foi integralmente desnudado (como aconteceu a Caetano Veloso, na primeira série), tenha sido conversado sobre essa possibilidade antes de terem passado ao acto. Não é um teatro para quem tenha macaquinhos na cabeça, mas não é pornográfico. Mas se acha que é pornográfico tudo o que tenha gente desnuda, é melhor não aparecer. É o objecto mais resolutamente não burguês que alguma vez vi - e não é por causa da sua retórica anti-capitalista encaixada na tragédia grega. É por causa da forma como lida com o sagrado (se se sente ofendido por mencionarem a sua religião de forma heterodoxa, é melhor não ir). A encenação atira para o longo, como já disse, mas o clímax do crime das bacantes enbriagadas é muitíssimo bem preparado. No total, é uma Grécia brasileira que ficará na memória. Fez-me lembrar a Natália Correia e as suas noções sobre um sagrado primordial e fora das nossas religiões: acho que ela perceberia este teatro.

Informação sobre As Bacantes no S. Luiz, pela companhia Teatro Oficina, aqui.

O primeiro de uma série de vídeos sobre o Teatro Oficina, aqui.

Fica só este sábado e este domingo. É permitido fotografar e filmar. O espectáculo é transmitido ao vivo no site da companhia. Os espectadores só o podem ser se aceitarem essas condições.

Aventurem-se. É um espectáculo único.

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