20/04/11

um livro


Este livro...
Este livro fala abundantemente de máquinas. Computadores e robôs, especialmente. Contudo, ele não é sobre os perigos e potencialidades das máquinas. Este livro é sobre pessoas. Sobre humanos em sociedade. Sobre o que somos capazes de querer e o que somos capazes de fazer com os meios que temos ao nosso alcance – assumindo que não devemos deixar-nos substituir na definição dos fins para que esses meios podem ser mobilizados. Este livro é sobre a possibilidade de que as sociedades em que vivemos sofram determinadas transformações que tornem apropriado dizer que elas são sociedades artificiais.
Este trabalho é uma investigação em Filosofia das Ciências do Artificial, incidindo sobre essa constelação de teorias e práticas científicas que inclui, por exemplo, a Inteligência Artificial e a Nova Robótica. Quem esteja convencido de que há uns anos um computador venceu um campeão mundial de xadrez num torneio dessa modalidade – deve ler este livro. Desde logo, porque vamos tentar mostrar-lhe que não deve estar assim tão seguro disso. Depois, porque deve querer saber que há equipas de robôs a ser preparadas para vencer a equipa campeã do mundo de futebol segundo os regulamentos oficiais da FIFA. Será divertido esse momento? Por muito desafiadora que seja essa perspectiva, talvez devesse ser mais assustador saber que há ramos das ciências sociais que pensam nos humanos como se fossemos computadores, como calculadores impenitentes e moralmente indiferentes.

Do Prefácio:
Este livro é parte de um já longo percurso do autor em torno do tema do paralelismo entre as Sociedades Artificiais e as Sociedades Humanas. O que mais fascina nesse percurso é a forma natural como nele interagem disciplinas aparentemente estanques ou mesmo contraditórias. Como diz Porfírio Silva, ele tem sido “um Filósofo entre Engenheiros”. Nesta altura, alguns filósofos sorrirão imaginando como deve ser impossível a alguém que vive no mundo das ideias interagir com uns seres estranhos, que dedicam a sua vida a olhar para um computador ou para uns chips incrustados numas estranhas placas verdes, produzindo tecnologia que faz maravilhas, mas que os transforma em seres associais e não pensantes. Ou, então, antevejo o sorriso amarelo dos engenheiros mais empedernidos, que agem primeiro e pensam depois, assumindo que tudo na vida é gerido por uma imensa equação matemática cuja solução pode ser complexa de encontrar mas existe. Pessoalmente, mais professor universitário de engenharia que engenheiro, prefiro pensar que o Porfírio Silva tem estado a “fazer filosofia com uma chave de fendas”, conforme a citação que ele próprio faz de Inman Harvey.
Pedro U. Lima
Instituto de Sistemas e Robótica
Professor do Instituto Superior Técnico

Numa boa livraria perto de si.
Lançamento: 3 de Maio, 18:30, Centro Nacional de Cultura

12 comentários:

Francisco Clamote disse...

Parabéns, Porfírio. Abraço.

joaninha versus escaravelho disse...

Anda o Porfírio nestes dilemas e eu a tentar escrever sobre Donna Haraway e os feminismos cibernéticos. E também eu sou engenheira electrotécnica.
Não está fácil... :)
Se por um lado entendo a posição das feministas que pretendem, com uma visão de um corpo ciborgue, um novo tipo de linguagem, uma nova forma de libertação do corpo para as mulheres, por outro vejo uma completa despersonificação (se é que isto existe - mas eu também posso inventar palavras, não é?)do ser feminino para o tornar numa espécie de máquina híbrida que não vai, nunca mais, ser uma mulher...
Eu sou ateia mas não consigo entender a frase de Dostoievski "se Deus está morto, vale tudo"...
Porque é que continua a ser tão complicada a igualdade sexual?
Há algum chip que nos indique a solução?
:)
(desculpe o desabafo mais sentimental que académico)

Anónimo disse...

Parabéns.

Porfirio Silva disse...

Francisco Cavaco, por engano eliminei um comentário teu. Desculpa. Um abraço.

Obrigado a quem deixou parabéns.

Porfirio Silva disse...

joaninha versus escaravelho:
Por mim, feminismos, ok. Cibernética, essa é outra conversa. Só como aperitivo: sou radicalmente contra a ideia de "controlo social" maquínico, que muita cibernética sonhou.
Não, os chips não têm soluções. Mas também não têm problemas sexuais. Não se pode ter tudo, não e?
:-)

joaninha versus escaravelho disse...

(A seguir ao aperitivo servem-se as entradas... :) )
Percebi a sua ideia acerca da dominação das máquinas sobre o ser humano, no seu post, e por isso me senti à vontade para fazer o comentário. Além de ser contra esse poder sou contra qualquer tipo de poder social, sexual, político... Mais ainda contra um poder que para tentar a igualdade ou em nome da igualdade, wathever... entre os seres humanos femininos e masculinos possa exterminar-nos tal como somos agora.
Estamos então de acordo neste ponto.
Sou uma entusiasta da ficção científica e dos sonhos (foi numa procura sobre as tartarugas electrónicas - que não são ficção mas são uma espécie de sonho - "corpos máquinas" para o tal trabalho que me encontro a "tentar" fazer, que encontrei o seu blog). Pelo que li no seu post (não li ainda o livro mas penso lê-lo) estamos também de acordo sobre o facto de que quem concebe as máquinas são os humanos com todas as inerências e envolvências que daí advêm e que podem passar por uma subserviência das mulheres e dos homens às máquinas…
A questão que se impõe é: Vamos deixar-nos dominar por aquilo que criamos? (pergunta de retórica esta, se me vem imediatamente à ideia a palavra "ambição"...).
Pois, provavelmente vamos…
Tudo o que eu possa pensar de repente acerca do assunto está explicado sucintamente no resumo que apresenta do livro, no post, à excepção da questão: Não somos já todos ciborgues? Não vivemos já todos dependentes de sistemas máquinas? Eu, por exemplo, sou muito controlada por uma máquina que tenho no pulso e que se chama relógio (também posso referir o computador em que escrevo e a máquina de calcular para determinar logaritmos no meu dia a dia, a máquina do café, a máquina de lavar roupa… Não lhes posso chamar tentáculos? Mas nem preciso vir por aqui.) O sonho comanda a vida mas o tempo… :)
E não. Não se pode ter tudo. Mas pode-se pedir, não pode?
Afinal sou mulher e tenho um curso de engenharia – coisa rara no “meu tempo” e ainda hoje - e nem assim… Eu gostava de ser um pouco só mais igual aos meus colegas homens. :)

PS. Prometo que não torno a encher a caixa de comentários. :)

Porfirio Silva disse...

joaninha versus escaravelho, essa sua ideia de querer ser mais igual aos seus colegas homens... parece-me mal! Se quer dizer "ter os mesmos direitos e oportunidades", apoio tanto quanto eu seja capaz. Igual? Acho mal. Fica a paisagem menos animada.

Quanto a máquinas e humanos: preocupa-me quanto tratam os humanos como máquinas. Tratar as máquinas como humanos pode ser um caminho para o mesmo. Mas a culpa nunca é das máquinas. Pelo menos por enquanto. Daí que eu não seja contra as máquinas. Tento compreender o que se faz com elas. Embora o efeito das máquinas no mundo não dependa inteiramente das intenções que presidiram à sua criação: muito escapa ao domínio das intenções.
Já agora, eu não sou engenheiro electrotécnico. Nem sequer engenheiro. Tento ser filósofo. Pois é...

Escreva sempre!

من disse...

Dos supercrocodilos e dos crocodilos galopantes aos reinos dos dinos


as evoluções sociais biológicas ou mecânicas têm muito que se lhes diga

joaninha versus escaravelho disse...

As palavras são traiçoeiras e eu costumo dizer que sou ingénua, embora ninguém me dê crédito nisso... :)
No entanto eu disse "um pouco só mais igual" que até, em português correcto, pode não estar bem redigido mas foi essa a intenção. Estou muito satisfeita por ser mulher. A Dolly Parton partilha comigo esse sentimento e tem uma frase engraçada que diz: Ainda bem que nasci mulher, se não teria que ser uma drag queen (ou qq coisa do género...). :)

Peço desculpa pelo engenheiro. Li em qualquer lado algo que me transmitiu essa ideia. Ainda bem que não é porque assim, enquanto estudante, deve ter tido umas aulas com a tal "paisagem" mais variada. :)
Obrigada pela sua opinião acerca do uso das máquinas. Gosto de "muito escapa ao domínio das intenções".

Lena Berardo

(algo de errado se passa aqui na publicação de comentários. Se este aparecer muitas vezes elimine-o por favor. As máquinas nem sempre colaboram.)

Porfirio Silva disse...

Lena,

Não se passa nada de especial com os comentários: apenas que são "moderados", quer dizer, têm que esperar que eu os leia para serem publicados.

Eu não sou engenheiro, mas estou de momento "entre engenheiros". Coisa relativamente banal em "países avançados", mas ainda rara em Portugal (raridade que faz com que alguns "professores de economia" pacóvios até sugiram que isso é um sinal de "degradação" do Técnico.)

Já agora, eu quando era novo também achava que os homens precisavam de ser mais "mulher". Não me lembro de pensar que as mulheres deviam ser mais "homem". Hoje continuo no fundo a pensar o mesmo, mas a falar menos disso, por me parecer que o debate está um pouco encaixado em "palavras de ordem".

Volte sempre.

CF disse...

Parabéns e sorrisos. E já agora, amêndoas :)

Porfirio Silva disse...

CF, agradeço os parabéns e partilhos os sorrisos. As amêndoas, como-as todas...