25.10.12

mas a má-fé não devia ser proibida a estes tão grandes cristãos ?



Descobri esta pérola no Esquerda Republicana.

Pesquei, apenas, uma citação longa (da p. 209), a dar uma justificação perfeitamente ridícula dos Papas escandalosos:

«Os maus papas, aqueles que deram um mau exemplo com a sua vida desordenada, com os seus prazeres, com a sua avareza, às vezes até com algum despotismo no exercício da sua função, esses papas fizeram um serviço enorme à Igreja, porque, sendo eles maus, não perverteram nem alteraram nada daquilo que era a doutrina, nem a moral da Igreja. Humanamente, como não tinham nenhuma autoridade sobre eles, poderiam ter dito: "Meus senhores, como não vivo desta forma, vou mudar a lei para que não esteja em contradição, para que a minha vida não esteja em oposição com aquilo que eu digo." Mas eles sabiam que, enquanto Simão, por assim dizer, eles eram defectíveis, enquanto Simão, eles eram pecadores, enquanto Simão, eles eram homens iguais aos outros, como todos os papas são. Mas não enquanto Pedro: enquanto Pedro eles são aqueles que têm a obrigação de confirmar os irmãos na fé. São aqueles pelos quais Cristo rezou. Como disse Cristo: "Mas eu rezei por ti, para que a tua fé não desapareça. E tu, uma vez convertido, fortalece os teus irmãos" (Lc 22,32).»

Estes "cristãos" não precisam dos anti-clericais para nada: eles próprios se encarregam de denegrir a religião, as igrejas, as teorias teológicas. Monumentos à má-fé.

carta de Zagreb.


O biógrafo e o biografado, no lançamento do livro, a 23/10/2012. (Foto: LUSA)


Post convidado. Publico hoje um texto que não é da minha autoria, mas que foi escrito propositadamente para este blogue. Que seja um texto de um Amigo, é verdade mas é coisa que só me interessa a mim (e a ele, Autor, suponho). Que seja um texto de um intelectual croata, professor universitário, ex-embaixador do seu país em Portugal, já julgo interessar aos leitores. Trata-se de uma nota de leitura sobre uma obra que acabou de sair, que deve justificar o vosso apetite pela mesma.

***

"A" (e não "uma") biografia de Jorge Sampaio, de José Pedro Castanheira

Jorge Sampaio - Uma biografia, da pena de José Pedro Castanheira é a uma obra que provoca a admiração. No fundo, não se trata apenas de uma biografia. É uma obra historiográfica ímpar sobre um período da democracia portuguesa, entremeada com o papel que o biografado nele desempenhou.

Devem escassear, no mundo, obras semelhantes, para além de algumas sobre estadistas "históricos", dos grandes países. E nem todos. Dos países pequenos, nem se fale. Por exemplo, Tito não tem uma biografia feita com o mesmo rigor historiográfico, neutro do ponto de vista ideológico.

A obra impressiona tanto pela abrangência das fontes quanto pela meticulosidade do autor no seu tratamento, pelo trabalho nos arquivos, pelo exame crítico e pela confrontação das fontes, pelas várias interpretações possíveis e pelas conclusões. E tudo isso vertido numa linguagem suculenta, de fácil leitura, estilisticamente nivelada sempre no mesmo - e alto - nível.

É uma biografia "autorizada", facto que, a priori, poderia criar um certo desconforto. Mas, explicando na Introdução como trabalhou e como o ex-Presidente da República cooperou com ele, José Pedro Castanheira soube dissipar qualquer dúvida que possa surgir a partir desse facto. Lá coloca a questão de uma maneira tão transparente que acalma até os leitores mais desconfiados, que porventura possam pensar, a ver que se trata de uma biografia autorizada, estar perante uma hagiografia encomendada e dirigida, como há tantas.

A obra é muito mais do que uma biografia. É simultaneamente o testemunho sobre Jorge Sampaio, mas também sobre a sua geração e um período histórico que a sua geração atravessou. Frequentemente, as biografias dos homens políticos têm a contextualização histórica como mera moldura para a fotografia. Nessa, o contexto social e político é entrelaçado com a vida pública e privada do biografado, no período escolhido que termina com a eleição de Jorge Sampaio para o presidente da Câmara Municipal de Lisboa.

A outra mais-valia, a que atribuo muita importância, é a insistência do autor, para não dizer obsessão, de documentar o mais completamente possível aquilo que, na época, tinha a sua importância e influência no fluxo político – público e privado - e que, apresentado no livro, adquire um significado novo, ou renovado: falo da apresentação dos discursos na íntegra, vários documentos inéditos, abaixo-assinados completos com os nomes dos subscritores, testemunhos dos actores que testemunharam pela primeira vez, etc.

Face a pormenores que José Pedro Castanheira desenterrou da poeira dos arquivos e a dados que conseguiu reunir sobre várias personalidades ou factos da vida deles, até sem falar do próprio biografado, há de se parafrasear Onésimo Teotónio Almeida a comentar, impressionado, uma tese de doutoramento, minuciosa e exaustiva: realmente, nas 1.060 páginas de Jorge Sampaio – Uma biografia (só o Índice onomástico tem 37 páginas!) faltam só os números de telefone dos protagonistas…

Creio que a muitos leitores, na política e fora da política, se abrirão os olhos perante determinados episódios descritos e explicados, ou pelo menos a imagem já feita obterá novas pinceladas e novas cores. E os leitores mais jovens poderão melhor compreender várias situações políticas em que Jorge Sampaio participou após a época examinada nessa primeira parte da biografia.

O biógrafo é conhecido como um escritor e repórter de raça, mas nesse livro revela-se como um historiador de raça também. E que historiador! Nas estantes abundam vários livros dos historiadores de profissão, até reputados, que nem metodológica nem estilisticamente poderiam chegar à altura dessa obra de José Pedro Castanheira. Esperemos que a historiografia "oficial" e os historiadores "de carteira" encontrem a força de lhe reconhecer o mérito.

Želimir Brala
(Antigo Embaixador da Croácia em Lisboa)

24.10.12

as Pussy Riot são vândalas?

19:18




Houve por aí muito boa gente a aprovar a condenação das Pussy Riot lá para as bandas de Moscovo. O argumento era: elas cometeram um crime. Suponho que o crime seria um acto de vandalismo: elas fizeram uma actuação relâmpago numa igreja para protestar contra o conluio entre a Igreja Ortodoxa Russa e Putin. O conluio passou por uma implicação oficial e explícita dos líderes religiosos nas eleições, com clara indicação de voto no ex-presidente e novo presidente que usa uns truques tipo Isaltino de Morais para se perpetuar no poder.
Defendi, em conversas por aí na rede, que a actuação das Pussy Riot não era um acto de vandalismo contra um lugar de culto, nem um ataque anti-religioso. Eu também seria contra um ataque à igreja, se fosse isso que estivesse em causa. O que julgo é que não era esse o caso. O protesto era contra uma entorse à democracia cometida com a cumplicidade activa dos dirigentes religiosos. Foi isso que as Pussy Riot declararam, as circunstâncias tornavam perfeitamente credível o objectivo declarado das cantoras punk. Defender as liberdades, mesmo na Rússia, justifica meios extraordinários para situações extraordinárias - e a situação da democracia e dos direitos humanos na Rússia é uma emergência. Falar como se a actuação das Pussy Riot fosse equivalente a, no dia de hoje, os Homens da Luta invadirem a Sé de Lisboa, é não perceber nada do que está a acontecer na Rússia de hoje comandada por um ex-KGB (Putin).

O que está em causa torna-se cada vez mais evidente. À luz de "avanços legislativos" destinados a favorecer o controlo social por parte da Igreja Ortodoxa, Igreja que está a ser um aliado fundamental de Putin no cerceamento progressivo da democracia, avançam em várias frentes os movimentos de censura. Agora querem proibir o símbolo da Apple, a maçã dentada, porque faz lembrar o episódio da maçã no Génesis bíblico. Não contentes com o delírio, querem que a Apple use a cruz como novo símbolo.

É isto que está em causa: Putin, que já disse ser contra a separação entre a Igreja e o Estado, tem um projecto ditatorial que envolve a Igreja Ortodoxa como máquina de controlo ideológico e como tenaz para esmagar as ideias inconvenientes. Do ponto de vista da democracia, está é uma situação excepcionalmente perigosa. Para situações excepcionais, actos excepcionais. Os que trataram o caso das Pussy Riot como um "caso de tribunal" não perceberam isto. Infelizmente, creio que o tempo acabará por abrir os olhos aos bem intencionados que subscrevem essa tese. Não podemos é ficar à espera enquanto são distraídos por juridismos fora do mundo.

Russian Christians Demand Apple Change 'Offensive' Logo to Cross.

Russian Christians boosted by Pussy Riot law spank 'sinful' Apple logo

(agradeço os links à Palmira)

Jorge Sampaio, uma biografia.




Ontem fui ao lançamento do mais recente livro do jornalista José Pedro Castanheira, “Jorge Sampaio – Uma Biografia” (primeiro tomo). Pelo que vi e já pude bisbilhotar no livro, não é “uma biografia”, mas sim “A” biografia. E, além disso, como bem sublinharam Rui Vilar e António Costa, apresentadores da obra na sessão de ontem, é, mais do que uma biografia de um homem, uma peça de história política de uma época crucial da história portuguesa contemporânea. Tinha pensado deixar esta leitura para as próximas férias, mas não sei se resisto até lá.

Entretanto, para me associar à homenagem que este livro também representa, e ocasiona, conto aqui um pequeno episódio das minhas andanças pelos bastidores da vida política portuguesa, que inclui a personagem Jorge Sampaio há um bom par de anos.

A coisa passa-se depois de Vitor Constâncio se ter demitido de SG do PS, em Outubro de 1988, abrindo a dolorosa questão da sucessão do líder. Constâncio tinha sido o primeiro líder pós-Soares, rodeado por gente com ideias frescas e uma nova abordagem ao papel dos socialistas no país e no mundo, e a sua demissão, prematura e com estrondo, constituíra um choque para toda aquela gente a tentar dar um fôlego diferente ao PS. Apesar das críticas (mais ou menos veladas) de Constâncio a Guterres (os “generais” do partido, criticados por não darem a cara, seriam, antes de mais, o “general Guterres”), havia na comunicação social e nos mentideros a convicção de que Guterres estava calhado para ser o próximo líder.

Alguma dessa agitação prospectiva em torno do nome de Guterres devia-se a um erro de apreciação quanto às “facturas” que a demissão de Constâncio tinha deixado para pagar. No seio do PS, muitos culpavam Guterres de conspiração para alcançar o topo e, portanto, de deslealdade, enquanto Sampaio era avaliado como tendo feito tudo o que podia para travar batalhas pelo partido. Obviamente, os meios diplomáticos em Lisboa estavam atentos à evolução de um partido que mais tarde ou mais cedo voltaria a ser governo.

Nessa altura eu era mais um jovem colaborador de Sampaio na área das relações internacionais, pela qual ele era responsável, como “Secretário Internacional”. Cabia-me, na distribuição de tarefas, uma área da política internacional que na altura era muito relevante e estava em grande ebulição, além de interessar muito a Sampaio – e na qual aquela direcção do PS tinha mudado muito a forma de estar que tinha sido a do “soarismo”: as relações Leste/Oeste e as questões da paz e do desarmamento. No desempenho dessas funções, uma das minhas tarefas consistia em alimentar o fluxo de informação com as embaixadas dos “países de Leste” na capital portuguesa. Essas relações estabeleciam-se, normalmente, com diplomatas acreditados. Contudo, no caso da União Soviética, com um aparelho mais sofisticado e diversificado, os meus contactos regulares eram com o “homem” da TASS (agência noticiosa soviética) em Lisboa, um georgiano culto e muitíssimo interessante, com quem conversava de muita coisa além da política imediata.

Ora, o nosso Igor quis, por aquela altura, almoçar comigo para confirmar as suas ideias acerca do que se iria passar no PS. Claro que ele julgava Guterres mais do que certo como próximo SG. Eu não tinha nenhuma informação privilegiada: tinha uma boa relação com Sampaio, mas não fazia parte, de forma nenhuma, do seu círculo restrito e, claro, ele nunca iria passar-me nenhuma informação reservada sobre o que se estava a desenrolar. Não tinha informação privilegiada mas conhecia o meio e era capaz de analisar a situação interna, pelo que lhe disse: Igor, estás equivocado, vai ser Sampaio.

Isso deu uma grande conversa, com Igor a tentar perceber os meus elementos de análise, mas desconfiado: afinal, eu era suspeito de simpatia pelo Secretário Internacional. Quando, depois, o homem da TASS viu a realidade confirmar a minha profecia, foi notório que ele me tinha “promovido” na sua “hierarquia” de contactos. Afinal, eu seria um fino analista dos bastidores socialistas! Essas “promoções”, no meio ritualizado das relações internacionais dessa altura e com aqueles interlocutores, eram dadas por sinais muito comezinhos, como a frequência dos convites para almoçar e os restaurantes escolhidos para o efeito. Neste caso, além disso, levou pouco depois a um episódio que me deixou sem nenhuma dúvida de que Igor era mesmo, além de jornalista, um espião a fazer o seu trabalho de estender a rede. A minha sorte era que eu estava bem documentado sobre as armadilhas com que os agentes da espionagem envolviam os seus contactos até tomarem conta deles. Mas essa história deixo para outra altura.

Relato um episódio marginal e sem importância alguma para a história do país. Mas serve-me de pretexto para expressar o meu respeito por um homem íntegro e brilhante, com o qual nem sempre estive de acordo, mas a quem, como cidadão, agradeço a verdade com que sempre se entregou a valores mais altos do que os seus interesses pessoais ou de grupo e a coragem de pensar e agir em horizontes mais vastos do que o imediato.

um suave cheiro a vasconcelos (na nossa política europeia).

12:37


Paulo Rangel, eurodeputado do PSD, fez, em artigo no Público, uma acertada crítica à (ausência de) condução da política europeia por Paulo Portas.
Esta crítica não pode ser lida apenas como uma alfinetada a Portas. Trata-se, muito mais do que isso, de mostrar que os nossos "negócios estrangeiros" estão a ser conduzidos de forma ruinosa para Portugal. Esquecemos o essencial e escondemos a cabeça na areia, para não distrair Gaspar da sua folha Excel. A política internacional deste governo está a ser conduzida de forma a envergonhar os "homens da lavoura" tão citados nas feiras de Paulo Portas. Mas não se pode dizer que o líder do CDS seja o único responsável: se Passos e Gaspar querem que a nossa política europeia seja uma política de silêncio e submissão, Portas pratica essa política escolhendo andar por outras paragens onde essa questão não seja suscitada.
Um tal Miguel de Vasconcelos seria capaz de se rever neste encolhimento dos governantes face aos senhores que mandam a partir do lado de lá da fronteira.

(excertos do artigo de Paulo Rangel neste post)

(imagem roubada ao A Terceira Noite)

Vítor Gaspar e a (nossa) falta de sorte.

2 + 1 Porfírios !







23.10.12

Estamos a viver o sonho de Passos Coelho.

10:57

Este governo já fez cinco revisões do Memorando de Entendimento entre Portugal e a Troika. Nunca chamou a oposição (nem mesmo o principal partido da oposição) para participar nessas revisões. Entretanto, a maioria insiste em que o PS devia respeitar o Memorando, porque o assinou - apesar de já não estarmos a falar do mesmo Memorando. Batota política, portanto.
Só que, além disso, há uma grande diferença entre a posição do PS e a posição da direita. O PS, enquanto esteve no governo, tudo tentou para evitar o "resgate", porque sabia que isso traria o que está à vista e porque tentou que a situação fosse resolvida de outro modo com a ajuda europeia. Não conseguiu. Sócrates teve de engolir a pastilha, quando para isso foi empurrado, já na situação periclitante de governo demissionário. Para que a história tivesse sido assim, contribuiu bastante o interesse eleitoral interno da chancelerina Merkel, mas também a crise política promovida por Passos Coelho, pressionado para assaltar o poder, com a ajuda inestimável do CDS, do PCP e do BE. Pode tudo isto parecer estranho e incongruente, mas, pelo menos do lado do PSD, é perfeitamente compreensível. Tudo o que se está a passar faz parte da agenda ideológica de Passos Coelho, que, com os seus aliados vários, está a aproveitar a oportunidade para fazer a sua contra-revolução.

Têm dúvidas? Não tenham. A seu tempo, isso foi explicado por quem de direito. Vejamos.
A 3 de Maio de 2011, Eduardo Catroga, representante do PSD nas negociações do "programa de ajustamento" entre Portugal e a Troika, afirmou que a negociação do programa de ajuda externa a Portugal «foi essencialmente influenciada» pelo PSD e resultou em medidas melhores e que iam mais fundo do que o chamado PEC IV. (fonte(outra fonte)
Aliás, Catroga anunciava o resultado da sua influência no programa de ajustamento: tudo seria muito melhor do que com o PEC IV, Portugal ganhava uma "oportunidade para fazer as reformas que se impõem". (link para ouvir)

Na verdade, que esta maioria se esteja sempre a justificar com o anterior governo é uma mistificação. Esta maioria está a fazer aquilo que Passos Coelho quis ter a oportunidade de fazer, como, aliás, o próprio explicou. Vejamos.
No final de Janeiro deste ano da desgraça de 2012, Passos Coelho, presidente do PSD e já então primeiro-ministro, afirmou sem rebuços que o seu partido tem um "grau de identificação importante" com o programa acordado com a 'troika' e quer cumpri-lo porque acredita nele. Nas suas palavras: "(...) o programa eleitoral que nós apresentámos no ano passado e aquilo que é o nosso Programa do Governo não têm uma dissintonia muito grande com aquilo que veio a ser o memorando de entendimento celebrado entre Portugal, a União Europeia e o Fundo Monetário Internacional". Ainda segundo o presidente do PSD, "executar esse programa de entendimento não resulta assim de uma espécie de obrigação pesada que se cumpre apenas para se ter a noção de dever cumprido". (fonte) (outra fonte)

Tudo isto explica porque Passos e Gaspar nem querem ouvir falar em agir politicamente para mudar as condições do resgate. Ao ponto de o PM de Portugal ir a um Conselho Europeu e ficar calado acerca do que está acontecer por cá: Cimeira europeia: Portugal não consta entre os países que alertaram para o impacto social da crise. Parece que estamos a viver o sonho de Passos Coelho e ele não quer acordar.

22.10.12

obrigar o governo a governar.


Não se enganem: 8 de Fevereiro de 2011.




memorando só há um, este e mais nenhum. será mesmo?


O "Memorando de Entendimento", o acordo que estabelece as condições em que as fatias do empréstimo da Troika serão entregues em determinados momentos, já foi objecto de cinco revisões. Cada uma dessas revisões foi negociada (às escondidas, pelo governo) e introduziu variações substanciais ao Memorando inicial. Isso traduz-se em eliminar, acrescentar ou modificar exigências que a Troika faz ao governo de Portugal. Uma parte do exercício de avaliar a forma como este governo tem gerido a crise passa por compreender estas revisões. Afinal, é nessas revisões que se traduz, em parte, a política de "ir além da troika" seguida por Gaspar seguido por Passos seguido por Portas (este fazendo de conta, como quem não quer a coisa).
Assim, espanta que se continuem a fazer exercícios de comparação das políticas governamentais com o Memorando, quando se toma para base de comparação o Memorando que já lá vai. Mais espanta que, tendo-se perguntado se não seria melhor actualizar a comparação com as revisões, se tenha como resposta "memorando há só um, este [o inicial] e mais nenhum". Não pretendo afirmar que a comparação específica que Domingos Amaral aqui faz seja afectada pelas revisões do Memorando. Não estudei o suficiente para afirmar isso. O que se trata de afirmar é que não se compreende como este governo tem mudado este nosso mundo se não se compreender como tem feito as coisas para "ir além da troika". E trata-se ainda de afirmar que, se ignorarmos as possibilidades de remendar noutra direcção o Memorando (veja-se o artigo de Miguel Cadilhe no Expresso/Economia de sábado passado, sobre a "renegociação honrada"), estamos a ignorar uma parte fundamental da equação.
É que, na verdade, memorandos há muitos.

21.10.12

grandes teorias económicas.

17:19

Cortar na despesa do Estado é virtuoso; aumentar os impostos (ir pelo lado da receita) é pecaminoso.
Muito bem.
Vejamos a história dos subsídios que foram cortados. Se não lhe pagarem o subsídio de férias, isso é, naquela classificação, virtuoso: cortaram na despesa. Se lhe pagarem o subsídio e depois lho forem buscar com uma taxa suplementar de imposto sobre o rendimento, é pecaminoso, porque aumentaram as receitas por via dos impostos.
A minha pergunta é: para si, que fica sem o subsídio de qualquer maneira, qual é a diferença? Nenhuma. A diferença está no discurso "económico", que se torna, assim, uma mera variante da conversa da treta. De uma certa maneira, a equação fica mais bonita. Para si, o resultado é o mesmo: depenado, ponto final.