28.5.11

antigamente, os senhores batiam nos criados


Agora, os poderosos gozam com os que têm de fazer pela vida.

Em Vila Real, uma jovem, que frequentou um curso das Novas Oportunidades, furou a barreira e foi agradecer a Passos Coelho ter-lhe chamado ignorante.
Passos Coelho respondeu-lhe: "“Espero que o seu curso lhe sirva para muito, está bem?". Como quem diz: "Boa porcaria, rapariga."
O senhor dr. em economês acha bem gozar com a cara de uma pessoa que não teve, talvez, tanta sorte como ele e teve de aproveitar uma "nova oportunidade", coisa que não parece bem a quem pode dar-se até ao luxo de desperdiçar oportunidades.
Deve ser a fenómenos como este que Boaventura Sousa Santos chama "fascismo social". Eu chamo-lhe, mais prosaicamente, a repugnante mesquinhez de quem vê as pessoas pelo filtro das suas ideias com a longevidade de uma campanha.



(Vídeo roubado ao Miguel.)

a novela das duas versões do acordo com a troika

13:39

O mais recente caso de inventona política contra o PS é a história das duas versões do Memorando de Entendimento assinado entre Portugal e troika para viabilizar o empréstimo. Passos Coelho anda demasiado ocupado com os comícios e tem falta de tempo para pensar: afirma que não sabia de nada, que não conhecia a versão final do Memorando, que é uma surpresa. É pena: se até a versão em português do Memorando está disponível publicamente há uma semana, na sua versão definitiva, o facto de Passos Coelho ainda não se ter dado conta só mostra que anda a descurar os assuntos principais, não faz o trabalho de casa (já se tinha percebido) e é irresponsável (afirma que vai cumprir tudo, apesar de dizer que não sabe o que lá está escrito). Que haja um coro de comentadores e jornalistas a fazer a mesma conversa, enfim... já sabemos que a produtividade de certos trabalhadores é muito duvidosa.
Entretanto, Passos Coelho está a dizer na TV que as suas "fontes europeias" lhe garantem que o ECOFIN (Conselho de Ministros das Finanças da UE) não introduziu alteração nenhuma no texto do Memorando de Entendimento. Manifestamente, as fontes europeias de PPC andam a gozar com ele: de facto, o texto ainda estava a sofrer ajustamentos poucas horas antes de o ECOFIN aprovar, no passado dia 16, o empréstimo - mas, quando chegou à mesa da reunião, estava fechado. Foi este truque de linguagem que as "fontes europeias" de Passos usaram para brincar com ele? E ele foi na conversa?!


27.5.11

a teoria da democracia segundo Raposo


Segundo Henrique Raposo, boicotar um acto de campanha eleitoral do PS é, por definição, um acto democrático. Todos têm direito à manifestação, mesmo que não respeitem os requisitos legais para se manifestarem. Parece que, segundo Raposo, os direitos são uma espécie natural: não têm regras, não têm de ser coordenados com os outros, não implicam respeito pelos outros direitos das outras pessoas. Eu tenho direito à saúde, logo posso passar à frente de toda a outra gente que espera na fila para ser tratada. Melhor: posso raptar a médica e o enfermeiro e levá-los para casa para me tratarem já e a meu gosto. Na democracia segundo a teoria de Raposo todos têm direito incondicionado à manifestação - todos menos o PS. O PS só tem direito a ser boicotado. A teoria Raposiana da democracia é um vómito.

(À atenção de Henrique Raposo: é pertinente falar em fascismo, sim senhor. O fascismo também usou "o direito" dos seus capangas à "manifestação" para habituar os "maus" a deixarem-se de aparecer em público.)

um fraco

16:12

O líder do PSD lamentou profundamente, esta manhã, o que aconteceu na campanha do PS em Faro, mas condenou o recurso à violência sobre a manifestação.

Uma acção de campanha eleitoral do PS foi atacada por uma manifestação ilegal, uma demonstração de selvajaria que recorrentemente toma o PS como alvo.
Passos Coelho, em vez de condenar o boicote ilegal contra uma acção de um partido concorrente às eleições, condena a "violência" sobre os boicotantes.
Provavelmente, Passos Coelho entende que Sócrates deveria ter-se oferecido para ser agredido pelos boicotantes, para eles irem para casa mais contentes. Ou, no mínimo, deveria ter mandado servir-lhes bolinhos.
Alguém explica a Passos Coelho que democracia não é o direito a atacar os outros, quando os outros participam, dentro da lei, na preparação de umas eleições?

Louçã e o contrabandista de porcos


Francisco Louçã, ontem, na Incrível Almadense, contou uma anedota. Bem contada. E com uma moral. Ou mais.
É a história de um contrabandista de porcos na raia de Portugal com Espanha.



O que Louçã quer dizer é que os partidos que assinaram o Memorando de Entendimento fazem de conta que não sabem o que lá está dentro. Quando lhes mostram, espantam-se: "Credo, um bicho!".

Pois, se o PSD e o CDS ganharem as eleições, embalados pela campanha do BE e do PCP a fazerem de conta que o PS fará no governo o mesmo que a direita, é bem provável que Louçã venha depois, perante as políticas de Passos e Portas, a exclamar, como se não soubesse de nada, o  mesmo que o seu contrabandista de porcos: "Credo, um bicho".

26.5.11

UA online


Clicar na imagem.

grandes discursos

formas de fazer política


Apanhem o positrão antes que ele se aniquile contra um electrão.


o aborto na campanha

17:17

Não brinquem com coisas sérias, pode ser?

Diário da Mulher Aranha




Os esquecidos insistem que foi a mania de Sócrates em despender que levou Portugal à crise. Claro, mais nenhum, insisto: nenhum, mais nenhum país está com a corda na garganta, a ser atacado pelas agências de rating e em enormes dificuldades económicas. Só os países governados por Sócrates, claro. Não foi a crise internacional, não foi a UE que tinha uma estratégia (gastar para contrariar a crise) e depois mudou de rumo (cortar, acelerando a crise, mas respondendo antes de mais aos mercados financeiros). São os maníacos dos socialistas que inventam estas coisas.

Pois.

"As derrapagens orçamentais são consequência do declínio drástico das receitas fiscais e das crescentes despesas sociais, como os subsídios de desemprego. Os governos vêem-se forçados a ir aos cofres públicos para fomentar o crescimento e o investimento e, deste modo, lutar contra a pior recessão económica desde a 2ª Guerra Mundial." (Retirado dum comunicado da Comissão Europeia de 24 de Março de 2009.)

"Face à ameaça de recessão, o Conselho considerou que as regras da UE sobre os défices orçamentais, que limitam a dívida pública a 3% do PIB, devem ser aplicadas por forma a reflectir as actuais «circunstâncias excepcionais».( Outro comunicado da Comissão Europeia, de Outubro de 2008.) De acordo com as circunstâncias excepcionais, quer dizer: com liberalidade.

Mas, claro, o Conselho e a Comissão Europeia estão pejados de clones de Sócrates. É sabido.

(Citações roubadas à Sofia C., Diário da Mulher Aranha.)


sim, quem não conta com a Europa na equação da nossa crise está terrivelmente enganado

14:56

Uma pessoa publica uns números, que parecem mostrar certas coisas que andam um pouco olvidadas: um serviço aos esquecidos. O Miguel Noronha, como não gosta dos números, fala como se os números não existissem (o que não cola com a tese dele, não existe: e chama os primos e os enteados para dizerem o mesmo que ele, como se isso mostrasse que ele tem razão). Uma pessoa ainda se esforça por conversar, mas o Miguel Noronha, convicto de que a profundidade da nossa memória acaba no dia de ontem, insiste na fumarada artificial: confunde um texto humorístico com um argumento. Insisto, porque não levo a mal que outro digam piadas: até é giro vê-los brincar com coisas sérias enquanto forem só blogueiros.
Mas, para desbloquear um bocadinho a conversa, trazemos ao Miguel Noronha mais um exemplar do que ele chama, com graça mas sem substância, "Alfama School of Economics". Trata-se do presidente do BES Investimento.

«Embora com algumas nuances, tendo a ter a mesma opinião do eng José Sócrates. As minhas razões são técnicas e não políticas e nem sequer digo que se o PEC IV tivesse sido viabilizado não chegaríamos ao PEC V! O que sucede é que os alemães, bem como uma parte importante dos outros países, preocupados com o risco do contágio da má situação dos países periféricos - veja-se a evolução da Grécia e da Irlanda! - tinham aberto a oportunidade de outra ajuda, a dita flexibilização do Fundo. Ninguém negou que fosse uma ajuda mas era mais mitigada, havia a chance de um auxílio um pouco diferente. O medo do contágio abrira essa possibilidade. E a maior diferença para a situação actual é que os mercados continuariam, eventualmente, abertos. Com taxas altas, mas abertos. O facto de termos inviabilizado isso precipitou um corte sucessivo dos ‘ratings' da República e dos bancos e houve o pedido de assistência financeira. Ninguém de boa fé pode afirmar que a viabilização do PEC IV impediria a ‘troika' em Portugal, mas ganhar-se-ia algum tempo. E na crise que estamos a viver na Europa e no mundo, ganhar algum tempo poderia ser positivo.»
José Maria Ricciardi, aqui.

À atenção de Miguel Noronha (que, provavelmente, dirá que o presidente do BES Investimento não usa as gravatas com o padrão adequado a que as suas opiniões possam ser tidas em conta. Aliás, por definição, qualquer opinião que não corrobore a opinião de MN é uma mera opinião. As outras opiniões são, evidentemente, factos num céu estrelado.)

as Monumentais


Para que conste: posso não gostar de que tenham pintado as Monumentais, mas acho que a barulheira feita à volta disso é bastante exagerada. Acho que já vi as Monumentais "decoradas" outras vezes, sem tanto drama. E desta vez acho que a reacção é contra a presença de partidos no espaço público, como se a mensagem política fosse um nojo e devesse ficar-se pelos cantos. Repito: sem prejuízo de achar que as Monumentais ficavam mais bonitas sem pintura, parece-me que a estética nem sempre pode ser o primeiro critério.

25.5.11

A New Scientist quer descobrir a melhor frase para ser dita quando o Homem chegar a Marte


Acho que o primeiro a sair deve perguntar: "Pode-se fumar aqui?".

Num planeta estranho, essa pergunta vale por um inquérito sociológico.

(Se ganharem o prémio com a minha frase, não se esqueçam de pagar um café.)

perguntam aos especuladores


Há uma série de "companheiros de estrada" da blogosfera que, com mais ou menos piada, insistem na tese de que a crise política precipitada pelo PSD, com a amável contribuição dos restantes partidos da oposição, não teve nada a ver com a embrulhada financeira que levou ao pedido de "ajuda externa". Nem comentam os números, acham suficiente citar opiniões que dizem o contrário dos números. A ideia é a do costume: se há economistas para citar, se até se pode citar o governador do Banco de Portugal, o tal que esconde o brasão para parecer mais independente do que realmente é, não interessam nada os números.
Há uma via alternativa: podiam perguntar aos porta-vozes dos próprios especuladores. No próprio dia da rejeição do PEC IV no Parlamento, a Fitch cortou o rating da República. E explicou-se: «O corte do "rating" é justificado com a crise política em Portugal, depois de o chumbo do PEC, ontem no Parlamento, ter provocado a demissão do Governo. “A revisão em baixa reflecte os riscos acrescidos em torno da implementação das políticas e do financiamento do défice à luz da inviabilização, pelo Parlamento português, das medidas de consolidação orçamental e da demissão do primeiro-ministro”, argumenta Douglas Renwick director da Fitch para o "rating" de soberanos.»
É sabido que é José Sócrates quem escreve o que dizem os directores das agências de rating...

este post é impublicável, mas não resisto


A senhora Catherine Ashton, chefe de política externa da União Europeia, será testemunha abonatória de DS-K.


- Dominique sempre se portou como um verdadeiro cavalheiro comigo !


(Cartoon de Marc S.. Se acham que o cartoonista é mau, façam uma googlada de imagens com o nome da senhora.)

andar a ler o ensaio contra a autoflagelação

16:30

Boaventura Sousa Santos (BSS) acaba de publicar mais um livro, este intitulado Portugal - Ensaio contra a autoflagelação. É uma espécie de livro de campanha, porque serve de conforto intelectual para a campanha da esquerda da esquerda, particularmente a do BE. Isto não é uma crítica: tomáramos nós que todas as forças políticas estivessem cheias de pessoas a escrever coisas argumentadas para defender as suas posições.
Um dos temas fortes deste livro cai como sopa no mel do tema da renegociação da dívida, que Louçã acha que já é uma grande vitória da sua campanha. Discordo disso, como já expliquei. De qualquer modo, BSS, não andando por aí a fazer comícios, sempre respeita a obrigação de não ignorar olimpicamente certos aspectos dos problemas. Iremos dando por aqui algumas notas do que escreve neste livro. Por hoje, ficamos com esta pequena citação (pp. 95-96):

«A reestruturação da dívida não é uma solução milagrosa, sem custos. Poderá envolver a suspensão do serviço da dívida, ou seja, a suspensão temporária do pagamento dos juros, que neste momento representam cerca de 4% do PIB, e das amortizações. A consequência poderá ser o bloqueio temporário dos mercados financeiros e o recurso a empréstimos bilaterais de países que acreditem na nossa capacidade de recuperação económica. No entanto, a suspensão do serviço da dívida permitiria libertar recursos que assegurassem o funcionamento do Estado ao longo do período das negociações.»

BSS tem o mérito de reconhecer que a iniciativa unilateral de Portugal para entrar em regime de "não pagamos, não pagamos" nos deixaria em estado de emergência. Supõe que várias coisas poderiam acontecer para amortecer a dor - mas tem o bom senso de não dar por adquirido que esses amortecedores passariam do mundo possível ao mundo real. É pena que os líderes políticos da esquerda da esquerda não sejam tão explícitos a assumir o elevado grau de risco que uma cartada destas representaria para o país. Mas compreende-se: teriam, então, de assumir que uma saída destas só não é suicida se for executada no quadro da União Europeia, ligada a uma estratégia regional para reganhar soberania face aos mercados.
Mas esse era o carrinho que o governo estava a tentar apanhar quando a coligação negativa precipitou a crise política e nos entregou ao forrobodó especulativo (como Boaventura bem explica).


somos todos parvos, ou quê ?!

14:30


Carlos Fragateiro e José Manuel Castanheira (respectivamente, ex-director e ex-director adjunto do Teatro Nacional D. Maria II) e a dramaturga Margarida Fonseca Santos, andam a ser julgados no Tribunal Criminal de Lisboa. Respondem à acusação de ofensa e difamação da memória de Silva Pais, o último director da PIDE. A sua culpa é o seu envolvimento na peça "A Filha Rebelde", uma obra de ficção sobre Annie da Silva Pais, filha única do Major. Dois sobrinhos do senhor acham que foi manchada a memória do figurão - e por isso foram para tribunal. Pensarão ser tão cândidos como o próprio chefe dos esbirros, que vemos no documentário abaixo a contar histórias da carochinha, como se fossemos todos papalvos?

Excerto de Deus, Pátria, Autoridade (1975), de Rui Simões


quando uma certa direita tem saudades de Ferro Rodrigues


As pessoas que não têm especial simpatia por partido nenhum pensam que os simpatizantes são uns carneiros. Que são todos iguais e dormem todos na mesma cama. Não é, de todo, esse o caso. Eu, para dar um exemplo, nem para beber uma cerveja quereria descer ao Rossio na companhia de José Lello. Já, bem pelo contrário, considero Ferro Rodrigues um dos grandes Políticos deste país, quer em termos de preparação para governar, quer em seriedade intelectual e pessoal. É, por isso, particularmente curioso ver "certa direita" com uma certa "nostalgia" do seu tempo à frente do PS. Eles lá sabem... ou não.





24.5.11

Governantes em gestão continuam a nomear membros de gabinetes


É uma notícia verdadeira: Governantes em gestão continuam a nomear membros de gabinetes. Mas é uma notícia de 2005, do último (em data) governo liderado pelo PSD.
De modo completamente diferente, o actual governo tomou medidas estritas para que isso não acontecesse. É por isso que é justo dizer que a calúnia de Passos Coelho, ontem, sobre essa matéria, ou é ignorância ou é má-fé. Se foi "apenas" por ignorância, curial seria pedir desculpa pela atoarda. Contudo, é pouco provável que tenha sido "apenas" ignorância, dado o chorrilho de insultos que vários dirigentes do PSD têm lançado sobre Sócrates, na modalidade laranja de "campanha elevada": Catroga comparou-o com Hitler, Morais Sarmento com o ministro da propaganda de Saddam, José Luís Arnaut com Drácula.

o dr. Lobo Xavier anda com os partidos trocados



Lobo Xavier liga 'submarinos' a desespero do PS
. «António Lobo Xavier considera que é o desespero que leva o PS a lançar contra Paulo Portas o "recorrente ataque" dos submarinos.»

Olhem aqui o PS a trazer os submarinos à baila:


Estes submarinos são mesmo de lata.

ruído - uma coisa que Claude Shannon poderia ensinar a certos blogueiros


Quando se dão números, como fiz no post anterior, esperam-se duas reacções da parte de quem não gosta daquilo que eles significam. Uma, consiste em discutir (contestar) os números. Outra, é fazer de conta que os números não existem e lançar poeira: insistir na opinião que ignora os números a ver se as pessoas se esquecem dos números e pensam só na opinião. Esta última "técnica" é muito típica de uma certa blogosfera.

(Já que aqui estamos, um recado para o Miguel Noronha: a intenção do meu post anterior não era conversar com os negacionistas: não tenho o mais pequeno interesse em "diálogos" com quem usa como método de "argumentação" negar a realidade. Aquele meu post é um ponto de partida para uma análise das teses de Boaventura naquele livro. Não concordo com muitas delas, mas são teses que - contrariamente aos posts do Miguel Noronha, e aos meus próprios posts - vão estar em discussão em toda a Europa nos próximos meses.)

um serviço aos esquecidos

16:30


Passo a citar Boaventura de Sousa Santos, no seu recente livro Portugal - Ensaio contra a autoflagelação (Almedina), à página 95.
«Não restam dúvidas de que os montantes dos juros da dívida soberana de Portugal a partir do momento da queda do actual governo foram usurários. Possivelmente foram também manipulados para forçar uma solução política em Portugal e na Europa. (...)
Vejamos a sucessão frenética da despromoção da dívida soberana sem qualquer ligação à situação da economia real.

Evolução dos ratings da dívida soberana entre a queda do governo e o pedido de "resgate"

24 de Março Fitch A+ para A-
25 de Março S & P A- para BBB
29 de Março S & P BBB para BBB-
1 de Abril Fitch A- para BBB-
5 de Abril Moody's A3 para Baa1

Entre 24 de Março (o dia seguinte da rejeição do PEC IV no parlamento) e 5 de Abril (a véspera do pedido de resgate pelo governo português) todas as agências de notação baixaram abruptamente o rating da república portuguesa para níveis próximos de "lixo". De 23 de Março a 6 de Abril os juros da dívida portuguesa a 2, 5 e 10 anos aumentaram 2.3, 1.5 e 0.9 pontos percentuais. Nas semanas seguintes continuaram a aumentar a um ritmo semelhante.»
Fim de citação.

Acrescento: aos negacionistas.



Imagens: pormenores de "Desfiladeiro", de Carlos No.

perguntar não ofende



A campanha eleitoral vai ser apenas uma repetição da pré-campanha eleitoral?

a política tal qual se faz


Não é para ser sectário: este não caso é único, certamente.
Mas... não seria possível arranjar uma maneira de fazer política que não passasse por estas cenas tristes?

(Foto: José Sena Goulão/Agência Lusa)


22.5.11

um autarca que se lembra mal da história recente de Portugal

renegociar a dívida como tema de campanha eleitoral

13:50

Renegociação da dívida é a “maior vitória política do Bloco até hoje”.

A quem pensava que a coligação negativa tinha chegado ao fim dos seus dias com o derrube do governo, esta campanha eleitoral demonstra que está longe de se esgotar a imaginação criadora da esquerda da esquerda e da direita para inventarem tenazes com que, tacticamente, se juntam para atacar o PS.
Talvez com mais subtileza do que em outras ocasiões, BE e PSD inventaram um tema comum: a renegociação dos termos das nossas responsabilidades financeiras colocadas no mercado internacional. Louçã já se vangloria, não só de que o tema da renegociação da dívida entrou na campanha, mas de que agora muitos o imitam na sua tese. Nisso, ele tem razão: Passos Coelho, por exemplo, agora já fala em mudar prazos e montantes do empréstimo internacional, para tornar tudo mais suave. Em modo subliminar, tanto Louçã como Coelho, estão a tentar transmitir a seguinte mensagem: o governo do PS assinou um mau acordo com as instâncias internacionais e nós (PSD ou BE) vamos mudar isso se votarem em nós. Esquecem-se, de passagem, de várias coisas "pequenas": por exemplo, de que foram eles que fizeram com que a "ajuda do FMI" fosse negociada com um governo de gestão, em período pré-eleitoral, e por isso mesmo com menos margem de manobra para fazer finca-pé em contrapropostas às ideias da troika. Mas esquecem-se, também de passagem, de um factor gigantesco: o factor Europa. Vejamos.
Uma das razões pelas quais o governo português queria evitar, ou pelo menos atrasar, o pedido de ajuda externa consistia na percepção de que Portugal seria o primeiro beneficiário de uma nova estratégia da UE e da zona euro, que optasse por uma protecção mais eficaz de todos os seus membros face aos ataques especulativos. Essa nova estratégia, quer da UE quer do FMI, permitiria ou evitar a necessidade de ajuda, ou fazer com que as condições da ajuda tivessem menos efeitos recessivos e fossem mais amigas do crescimento. Esse percurso político na cena europeia estava a ser feito - mas devagar, por haver outros governos que, à beira de eleições, não queriam aprofundar esse tema junto dos seus eleitorados. O chumbo do PEC IV, com a consequência do derrube do governo, teve também a intenção de evitar que essa espera táctica desse resultado: se isso salvasse Portugal da ajuda externa, ou tornasse a ajuda externa mais doce, esse facto salvaria também Sócrates - e isso era algo que as oposições de todo não queriam.
Quer dizer: o ponto é que a margem de manobra de Portugal depende das condições da nossa inserção na Europa. Não é Portugal, isolado, que vai impor melhores condições para a ajuda ou uma ajuda em moldes mais amigáveis para o crescimento: isso só pode acontecer num movimento em que o conjunto da UE mude de estratégia. A mesma coisa tem de se dizer de uma eventual renegociação da dívida: se Portugal lançar a ideia de que vai tentar fazer esse movimento sozinho, por sua alta recriação, vai ser tratado como um pária na cena internacional e vai pagar isso muito caro. Isso pode vir a tornar-se possível, em condições aceitáveis, no quadro de uma mudança de estratégia da Europa e do FMI.
É aí que bate o ponto: tanto Louçã como Passos Coelho fazem crer, demagogicamente, que as nossas relações com o mundo da finança e da economia internacional dependem do nosso voluntarismo nacional. Nós abrimos a boca e dizemos o que queremos e o mundo concede-nos. Louçã, que sempre falou como se nós pudéssemos simplesmente dizer "não pagamos", apesar de isso fechar imediatamente a torneira do financiamento sem o qual não vivemos, sofisticou agora um pouco a sua posição: está a dizer coisas parecidas com o que dizem outros responsáveis internacionais, na medida em que está em cima da mesa repensar prazos e taxas das dívidas, de modo a deixar respirar a economia e permitir que o remédio não mate o doente. Falta a Louçã, contudo, reconhecer um ponto fundamental: isso só é viável se o fizermos apoiados nos nossos parceiros, no quadro de uma estratégia europeia, provavelmente incluindo mesmo uma nova orientação do FMI, e nunca será viável numa posição "nós sozinhos contra o mundo". Passos Coelho, esse, depois de o seu partido ter reclamado que o acordo com a troika era bom graças ao PSD, vem agora ter ideias brilhantes que não teve a tempos das negociações, como se há quinze dias atrás ainda não fosse líder do PSD e candidato a PM.
Tanto o PSD como o BE estão a jogar a cartada de esconder que tudo passa pela nossa qualidade de participantes na Europa. Podem chamar-lhe perda de soberania, se assim o entenderem: não façam é de conta que esse factor não conta. Não há mentira mais pesada, hoje em dia, do que fazer crer ao eleitorado que Portugal pode fazer o que bem entender no que toca à sua dívida, seja face aos mercados, seja face às instituições a que pertencemos. E essa grande mentira está em marcha, uma vez mais juntando o BE e o PSD como pinças diferentes de uma mesma tenaz.