25/05/11

andar a ler o ensaio contra a autoflagelação


Boaventura Sousa Santos (BSS) acaba de publicar mais um livro, este intitulado Portugal - Ensaio contra a autoflagelação. É uma espécie de livro de campanha, porque serve de conforto intelectual para a campanha da esquerda da esquerda, particularmente a do BE. Isto não é uma crítica: tomáramos nós que todas as forças políticas estivessem cheias de pessoas a escrever coisas argumentadas para defender as suas posições.
Um dos temas fortes deste livro cai como sopa no mel do tema da renegociação da dívida, que Louçã acha que já é uma grande vitória da sua campanha. Discordo disso, como já expliquei. De qualquer modo, BSS, não andando por aí a fazer comícios, sempre respeita a obrigação de não ignorar olimpicamente certos aspectos dos problemas. Iremos dando por aqui algumas notas do que escreve neste livro. Por hoje, ficamos com esta pequena citação (pp. 95-96):

«A reestruturação da dívida não é uma solução milagrosa, sem custos. Poderá envolver a suspensão do serviço da dívida, ou seja, a suspensão temporária do pagamento dos juros, que neste momento representam cerca de 4% do PIB, e das amortizações. A consequência poderá ser o bloqueio temporário dos mercados financeiros e o recurso a empréstimos bilaterais de países que acreditem na nossa capacidade de recuperação económica. No entanto, a suspensão do serviço da dívida permitiria libertar recursos que assegurassem o funcionamento do Estado ao longo do período das negociações.»

BSS tem o mérito de reconhecer que a iniciativa unilateral de Portugal para entrar em regime de "não pagamos, não pagamos" nos deixaria em estado de emergência. Supõe que várias coisas poderiam acontecer para amortecer a dor - mas tem o bom senso de não dar por adquirido que esses amortecedores passariam do mundo possível ao mundo real. É pena que os líderes políticos da esquerda da esquerda não sejam tão explícitos a assumir o elevado grau de risco que uma cartada destas representaria para o país. Mas compreende-se: teriam, então, de assumir que uma saída destas só não é suicida se for executada no quadro da União Europeia, ligada a uma estratégia regional para reganhar soberania face aos mercados.
Mas esse era o carrinho que o governo estava a tentar apanhar quando a coligação negativa precipitou a crise política e nos entregou ao forrobodó especulativo (como Boaventura bem explica).


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