17/05/11

a campanha responsável de Passos Coelho


Passos Coelho perdeu definitivamente o tino. A "campanha responsável" por que tanto clama, retoricamente, já caiu na mais barata demagogia de que, ao virar da esquina, vai renegociar o memorando de entendimento com a troika e conseguir que se torne sabor de abacaxi aquilo que realmente sabe muito a fel.
Contudo, a demagogia já se tornou uma irresponsabilidade banal, até relativamente fácil de topar por gente atenta. PPC, não contente com isso, atirou-se a outro tipo de irresponsabilidade mais perigosa: destruir os incentivos existentes para que as pessoas façam o que é correcto para elas e para o país.
É nessa categoria de irresponsabilidade que se situa o seu ataque às Novas Oportunidades. Além de ser um ataque mal informado (podia ir ler os materiais da avaliação externa da iniciativa, que ele exige que se faça como se ela não existisse), é um ataque que se alimenta - e alimenta - um dos piores vícios da nossa vivência em comum: o doutorismo arrogante e excluente, que preza os que "chegaram lá" por serem bem embalados e despreza os que chegam lá contra as dificuldades da vida e remando contra a maré.

Um exemplo flagrante desse vício vinha bem exemplificado na primeira página do Diário Económico do dia 21 de Agosto de 2009: «Domitília dos Santos, gestora de fortunas em Nova Iorque, nasceu pobre, no Algarve. Trabalhou, estudou e quando quis voltar a Portugal, a Bolsa recusou-a por "falta de habilitações".» O jornal traçava-lhe assim o perfil: «Hoje trabalha com milhões e dedica-se ao voluntariado. É gestora de fortunas, está entre as 100 mulheres mais poderosas da alta finança.»
Em discurso directo:
«Diário Económico - A Bolsa de Lisboa é uma brincadeira de crianças?»
«Domitília dos Santos - Só sei que fui recusada por falta de habilitações. Apesar de toda a experiência que tenho, não posso trabalhar lá porque me falta um curso de cálculo.»

Espero que este exemplo ajude PPC a perceber quão aberrante é o espírito da criticazinha "doutoral" ao programa Novas Oportunidades. E que PPC meta a mão na consciência e veja como faz mal ao país fazendo campanha contra as pessoas que se esforçam por evoluir, para seu bem e para bem do país.

É que a rasteira, preconizada pelo conselheiro Capucho, não deve dar a alguém que aspira a ser PM a sensação de que vale tudo.

4 comentários:

Rui P. Guimaraes disse...

O Dr. Porfirio Silva facilmente compreendera que a critica, de aproveitamento politico por parte do PSD, nao e ao conceito das Novas Oportunidades mas sim ao facilitismo na avaliacao que caracteriza este programa. Neste momento tirar um curso nas Novas Oportunidades e o mesmo que comprar um Diploma pela Internet. Mas como e certificado por uma entidade governamental e um engano muito maior. E uma bonita manobra de manipulacao estatisca sobre as habilitacoes literarias dos Portgueses. Vai ver como rapidamente sairemos do fundo da tabela. Certo que deve haver instancias para adquirir conhecimentos durante todas as fases da vida e certo que a certificacao de conhecimentos deve estar aberto a qualquer idade. Mas faca se com seriedade e objectividade e nao com equivalencias grosseiras e enganadoras.

Porfirio Silva disse...

(1) As acusações de facilitismo generalizado nas Novas Oportunidades têm tanto valor como as suspeitas acerca das avaliações da OCDE ao nosso sistema educativo. Há sempre uns especialistas que se acham mais espertos do que todo o resto do mundo.
(2)Além disso, o PSD disse muito mais do que isso: disse que o Governo trocava diplomas por votos no PS. Quem quer que se ponha desse modo neste debate só merece a minha repugnância.
(3) Aqui há uns anos, Portugal quase não dava equivalências a doutoramentos realizados no estrangeiro, e as que dava eram o cabo dos trabalhos. Argumento: qualidade. Era para preservar a qualidade! Como é evidente, pura conversa da treta: há sempre os que, estando do "lado de dentro do sistema", arranjam a desculpa do facilitismo para evitar que outros cheguem ao mesmo sítio.

Rui P. Guimaraes disse...

1. As Novas Oportunidades nunca foram avaliadas externamente pelo desempenho dos alunos ou qualidade da formacao, tal como e admitido pelos proprios responsaveis. Coloquem estes alunos a fazer os testes PISA e acabar se iam as duvidas. (http://dererummundi.blogspot.com/2011/05/novas-oportunidades-e-estigma-social.html)

2. Um governo que em 2009, em plena crise mas ano de eleicoes, aumenta salarios, para em 2010 ser obrigado a fazer cortes cegos porque o deficit passou de 2.7% para 9.4% ja tem um historial daquilo pelo qual esta a ser acusado, agora, na distribuicao de diplomas. O facilitismo, declarado ate por formadores das novas oportunidades, a ser confirmado, merece toda essa repugnancia.

3) Nao sei se o Sr. Doutor acredita em todos os diplomas. Se assim for eu vendo uns doutoramentos pela internet e digo lhes para se candidatarem a seus assistentes

Porfirio Silva disse...

Rui,
O uso da reivindicação de avaliação como mero expediente de luta política é triste. A reivindicação de avaliação, a qualquer momento e por calendário eleitoral, é apenas política da pequenina. Politicamente, muitos dos que gritam por avaliação disto e daquilo são os mesmos que paralisam o país quando se trata de avaliar a classe profissional a que pertencem.

Eu não acredito em todos os diplomas, nem tenho de acreditar. As instituições existem para funcionar, não desconfio só porque sim. Nunca usei esse tipo de "desconfianças de princípio" para alimentar um argumento político. Pode procurar neste blogue, que já existe há uns anos: se encontrar algum exemplo de eu ter tido esse comportamento, faça favor de mo assinalar.

Não sei o que quer dizer com "o deficit passou de 2.7% para 9.4%". Em que ano? Acho que se está a esquecer que o governo de Sócrates registou o MENOR défice das contas públicas desde que vivemos em democracia. Antes da crise internacional, aquela que se calhar o Rui acha que não vem ao caso. Mas isso não lhe convém lembrar, claro.