21.5.11

sim, os vampiros são mamíferos

18:11

Eduardo Pitta, Vinte mamíferos. Mil empresas:
«... existem em Portugal 20 pessoas colocadas nas administrações de mil empresas diferentes. Cada uma dessas pessoas ocupa, em média, 50 cargos. A mais bem paga aufere 2,5 milhões de euros por ano.»



nem só com photoshop se reescreve a história

17:24

Passos Coelho é um cândido. Tem uma impressionante capacidade para viver em dois mundos ao mesmo tempo. Pode ouvir ler um excerto do programa eleitoral do seu partido e continuar a falar como se esse programa não existisse, como se tal citação fosse uma invenção, como se proferisse um "não liguem, o programa não interessa, acreditem em mim". E tem também uma enorme capacidade para reescrever a história do seu próprio posicionamento político em matérias essenciais. Um exemplo.
Passos Coelho desde há algum tempo que trata de tentar passar a ideia, quanto ao pedido de ajuda externa, de ter com muita clarividência antevisto que ele deveria ter acontecido mais cedo, porque isso teria sido mais benéfico para o país. Segundo esta tese de PPC, a teimosia do governo do PS é que impediu que tivéssemos mais prontamente dado esse passo salutar. Ora, na verdade, ainda em Janeiro deste ano, Passos Coelho associava um eventual pedido de ajuda externa a uma necessária crise política. Em entrevista ao DN e à TSF, Passos Coelho dizia que se o FMI entrasse em Portugal teria de haver eleições e um novo governo.
É verdade que a entrada do FMI e a crise política estiveram ligadas: foi a crise política liderada pelo PSD que destruiu, em poucos dias, a resistência tenaz à voragem dos mercados e tornou inevitável, no imediato, o pedido de ajuda. Mas não era essa a ligação proclamada por Passos Coelho em Janeiro: nessa altura, Passos Coelho escrevinhava a factura a apresentar: "O eventual recurso ao FMI não pode deixar de ter consequências políticas". Especificamente, dizia que o recurso ao FMI, representando um fracasso do governo, implicava um novo governo e que isso só seria possível com eleições.
Quer dizer: PPC empurrava o Governo contra a parede, dizendo que se chamasse o FMI teria de se ir embora; mas agora quer fazer-nos crer que andou candidamente a aconselhar que seria bom para todos chamar o FMI mais cedo do que tarde. Até se compreendia que tivesse proposto um procedimento à irlandesa: chamamos o FMI, negociamos e fazemos o acordo, depois vamos para eleições. Não foi nada disso o que fez, contudo. Primeiro, identificou a vinda do FMI como causa de queda do governo; depois, como isso não aconteceu, fez cair o governo e, então aí, abriu definitivamente as portas ao FMI. E agora anda a reescrever a história, como se ainda em Janeiro não tivesse dito "se chamarem o FMI serão despedidos".
Mas, claro, isto foi em Janeiro: uma eternidade para um homem que consegue mudar de opinião em menos de 24 horas.


com bombeiros destes temos incêndio garantido


Em destaque no Expresso de hoje, a seguinte declaração de Passos Coelho, é um tratado de política à moda dos tempos que correm: "Era importante que o CDS dissesse que não está disponível para integrar qualquer governo que tenha o PS." Quer dizer: o homem que quer ser PM de Portugal acha que a boa maneira de preparar o futuro é tentar fechar possibilidades dentro do panorama político actual.

20.5.11

custos de oportunidade de pernas para o ar

16:45

A ideia que se transmite às pessoas é que das próximas eleições sairá, inevitavelmente, um governo dos partidos que se encontraram com a troika. Parece que só falta decidir quem será o califa e quem será o grão-vizir.
Vale a pena reflectir que voltas deu a nossa democracia para se ter chegado a um ponto destes. Em particular, por que caminhos se andou para não ser concebível um governo do PS com partidos à sua esquerda. Que as culpas têm muitos accionistas, já sabemos. Que não pareça haver recursos suficientes para eliminar essa restrição ao nosso sistema político, é que me parece de lamentar.
Está-se mesmo a ver, entretanto, quem pode ser o beneficiário líquido desta situação. Os que já fazem fila para comprar as partes doces das empresas públicas sabem bem o que é uma oportunidade. E não a perderão.

uma cambada de infiltrados


Aquela brincadeira de Passos Coelho ser um infiltrado do PS para lançar a confusão no PSD? Não deve ser caso único.

Pegando em "informações" disponíveis, o 31 da Armada sugere uma terrível marosca socialista, envolvendo Sócrates (obviamente!!!) e a câmara socialista da Covilhã. Dizem eles: «Mais uma "habilidade" socialista, envolvendo Sócrates, a câmara socialista da Covilhã e uma obra pública.» Claro, nem se dão ao trabalho de demonstrar a "culpa" de Sócrates na coisa. Mas isso é o costume: basta sugerir e deixar correr a louça, o mal está feito.

Desta vez a coisa até tem mais piada. A ligeireza é muita. A "câmara socialista" da Covilhã... é uma "câmara PSD". Lá está: mais um socialista infiltrado no PSD.

(novela pescada nas águas do Miguel)

Coimbra


Transcrevo:
A Âncora Editora e o Teatro Académico de Gil Vicente têm o prazer de convidar V. Exª para a sessão de apresentação do livro Das Sociedades Humanas às Sociedades Artificiais, de Porfírio Silva.
A obra será apresentada por José Castro Caldas, investigador no Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra.
A sessão terá lugar no próximo dia 20 de Maio, sexta-feira, pelas 18 horas, no Teatro Académico de Gil Vicente, na Praça da República, em Coimbra.

18.5.11

a palhaçada não é a arma do povo

23:59

A noção do que uma campanha eleitoral deve representar em termos de dignidade e responsabilidade cidadã está manifestamente em crise. Vieram dos políticos os primeiros maus exemplos: desde que a demagogia se tornou banal e o insulto, a coberto da política, o pão nosso de cada dia. Talvez a coberto disso veio a ideia de que, em nome do "humor" político, se podem atacar as acções de campanha eleitoral com impunidade. Primeiro foi a "esquerda", com os "homens da luta" a boicotarem a campanha de partidos que não lhes caíam no goto, como se tivesse piada e fosse normal. Agora é a "direita" a usar os mesmos expedientes, com a mesma pretensão ao "humor" e à impunidade.
Estão à espera que venham bandos nazis atacar as acções de campanha eleitoral, também a coberto do "humor político", para se aperceberam da irresponsabilidade destas acções?

fast-food ético

o facilitismo em perspectiva

17:00

Ninguém abomina mais do que eu o facilitismo. Mas também abomino a conversa da treta sobre facilitismo. A conversa que por aí vai sobre facilitismo nas Novas Oportunidades bem podia ser colocada em perspectiva.
Desde logo, uma formação elementar em lógica deveria fazer compreender que o argumento "eu conheço uns casos de facilitismo" não é argumento para ajuizar de um programa. Em primeiro lugar, porque "uns casos" não é base para avaliar o que se passa em centenas de milhares de casos. Na verdade, muitos dos casos invocados de facilitismo são de ouvir dizer. Depois, porque quem assim fala pressupõe, com demasiada facilidade, que tem competência (e informação correcta) para avaliar o que é e o que não é facilitismo. É típico: "ELES são todos uns ignorantes, EU é que os topo".
Valeria a pena, para colocar em perspectiva, fazer o paralelo seguinte. Aqui há uns anos, Portugal quase não dava equivalências a doutoramentos realizados no estrangeiro, e as que dava eram o cabo dos trabalhos (comissões complicadas, tempo infindo para analisar o objecto). Havia o reconhecimento propriamente dito e havia, separadamente, a equivalência. Podia percorrer e chegar ao cabo do calvário do reconhecimento ("toma lá, és doutorado"), mas, mesmo assim, sem equivalência, que estava dependente de uma comparabilidade relativamente forte com alguma coisa que existisse entre nós, o "ser doutor por extenso" podia não ser mobilizável, por exemplo, para prosseguir uma carreira docente decente no ensino superior. Argumento, claro: a qualidade. Era para preservar a qualidade! Não queremos cá doutoramentos que não satisfaçam os altíssimos critérios da academia nacional, que é a melhor do planeta e arredores.
Algumas vezes (as mais das vezes?), estes mecanismos têm uma explicação muito aborrecida: há sempre os que, estando do "lado de dentro do sistema", arranjam a desculpa do facilitismo para evitar que outros cheguem ao mesmo sítio.
Que tal vermos tudo isto em perspectiva?

convite


Transcrevo:
A Âncora Editora e o Teatro Académico de Gil Vicente têm o prazer de convidar V. Exª para a sessão de apresentação do livro Das Sociedades Humanas às Sociedades Artificiais, de Porfírio Silva.
A obra será apresentada por José Castro Caldas, investigador no Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra.
A sessão terá lugar no próximo dia 20 de Maio, sexta-feira, pelas 18 horas, no Teatro Académico de Gil Vicente, na Praça da República, em Coimbra.




17.5.11

a ver quem inventa mais disparates sobre as Novas Oportunidades

20:48

Miguel Sousa Tavares estava agora mesmo ali numa TV a comentar, que é uma coisa que ele faz, suponho, para ganhar a vida. Sobre a polémica das Novas Oportunidades, dá uma no cravo outra na ferradura, diz que o debate parlamentar pedido pelo PS não serve para nada e propõe o seu método "para esclarecer a questão".
O método MST para avaliar as Novas Oportunidades seria assim: convocar aleatoriamente 50 ou 100 diplomados pelas Novas Oportunidades e fazer-lhes um exame, a ver quem passa. MST acaba de resolver o problema da avaliação dos sistemas de educação e formação. As organizações internacionais que se esforçam continuamente por avaliar cada vez melhor os sistemas, como a OCDE, podem poupar muito dinheiro: fazem uns exames, a uma amostra ridícula e já está. (Sim, uma amostra ridícula: MST fará alguma ideia da diversidade de situações de formação abrangidas pelas Novas Oportunidades? Pensa ele que poderia avaliar alguma coisas com uma "amostra" de 50 ou 100 diplomados do universo em questão? É falar por falar, claro.)

Assim, a ideia brilhante seguinte de MST deverá ser usar o mesmo método para avaliar todo o sistema de educação e formação em Portugal. E depois em toda a Europa. E depois em todo o mundo. E, já agora, por que não em toda a galáxia? Se algum terráqueo engolir tal ideia, os ET poderão engolir igual patranha. Entretanto, como MST dispõe das pessoas que passaram pelas Novas Oportunidades como se elas fossem cobaias de laboratório para as suas ideias de comentador, talvez se lhe devesse aplicar a mesma receita: que tal fazer uns exames de direito a Miguel Sousa Tavares a ver se ele ainda tem direito a ser considerado licenciado em Direito?

sim, há quem abuse das novas oportunidades


Em 2009, a anterior direcção do PSD achava que Pedro Passos Coelho nem pinta para deputado tinha. Por isso não o deixou ser candidato. Agora, com nova direcção, juram todos (???) que ele serve para primeiro-ministro. É um caso em que, de certeza, mudaram os critérios de avaliação para os ajustar ao caso pessoal do candidato. Isto, sim, parece ser um caso de abuso das novas oportunidades.

(O caso é sério.)

a campanha responsável de Passos Coelho

18:07

Passos Coelho perdeu definitivamente o tino. A "campanha responsável" por que tanto clama, retoricamente, já caiu na mais barata demagogia de que, ao virar da esquina, vai renegociar o memorando de entendimento com a troika e conseguir que se torne sabor de abacaxi aquilo que realmente sabe muito a fel.
Contudo, a demagogia já se tornou uma irresponsabilidade banal, até relativamente fácil de topar por gente atenta. PPC, não contente com isso, atirou-se a outro tipo de irresponsabilidade mais perigosa: destruir os incentivos existentes para que as pessoas façam o que é correcto para elas e para o país.
É nessa categoria de irresponsabilidade que se situa o seu ataque às Novas Oportunidades. Além de ser um ataque mal informado (podia ir ler os materiais da avaliação externa da iniciativa, que ele exige que se faça como se ela não existisse), é um ataque que se alimenta - e alimenta - um dos piores vícios da nossa vivência em comum: o doutorismo arrogante e excluente, que preza os que "chegaram lá" por serem bem embalados e despreza os que chegam lá contra as dificuldades da vida e remando contra a maré.

Um exemplo flagrante desse vício vinha bem exemplificado na primeira página do Diário Económico do dia 21 de Agosto de 2009: «Domitília dos Santos, gestora de fortunas em Nova Iorque, nasceu pobre, no Algarve. Trabalhou, estudou e quando quis voltar a Portugal, a Bolsa recusou-a por "falta de habilitações".» O jornal traçava-lhe assim o perfil: «Hoje trabalha com milhões e dedica-se ao voluntariado. É gestora de fortunas, está entre as 100 mulheres mais poderosas da alta finança.»
Em discurso directo:
«Diário Económico - A Bolsa de Lisboa é uma brincadeira de crianças?»
«Domitília dos Santos - Só sei que fui recusada por falta de habilitações. Apesar de toda a experiência que tenho, não posso trabalhar lá porque me falta um curso de cálculo.»

Espero que este exemplo ajude PPC a perceber quão aberrante é o espírito da criticazinha "doutoral" ao programa Novas Oportunidades. E que PPC meta a mão na consciência e veja como faz mal ao país fazendo campanha contra as pessoas que se esforçam por evoluir, para seu bem e para bem do país.

É que a rasteira, preconizada pelo conselheiro Capucho, não deve dar a alguém que aspira a ser PM a sensação de que vale tudo.

formas de fazer política




o Blogger continua a fazer das suas


Posts que mudem de data por sua própria iniciativa. Vídeos que trocam de post por sua alta recreação. Isto está complicado...

16.5.11

seria desejável que a campanha eleitoral não se tornasse nisto




(Ana, desculpa o aproveitamento do vídeo.)

não se pode dizer que sejamos ingratos


Apesar dos engulhos finlandeses com a ajuda financeira a Portugal, nós também ajudamos a Finlândia. Em coisas essenciais, note-se: por causa de Portugal, só haverá "falsos finlandeses" no próximo governo. Os "Verdadeiros Finlandeses" não gostaram da finta que consistiu em separar dois carrinhos: para um lado, a aprovação da ajuda; para outro lado, as negociações para a formação do próximo governo. Como não gostaram, decidiram ficar de fora. É para que saibam que nós não somos ingratos e estamos sempre prontos a ajudar.

organização social na ordem dos primatas


Prossegue a edição 2011 do Ciclo de Conferências "Das Sociedades Humanas às Sociedades Artificiais", com a conferência Organização Social na Ordem dos Primatas: Da Simplicidade à Complexidade, pela Professora Catarina Casanova (ISCSP, Centro de Biologia Ambiental, Centro de Administração e Políticas Públicas).

Mais informação na página desta conferência no sítio da edição 2011 do ciclo.

Serão as sociedades humanas assim tão diferentes das sociedades de outros primatas? Esta conferência promete, digo-vos eu. O comentário, que fará a transição entre a conferência e o debate, estará a meu cargo. Como imaginam alguns que conhecem mais de perto o meu trabalho, vou dirigir as minhas questões para a (real ou suposta) especificidade das instituições humanas.

Será no I. S. Técnico (Campus Alameda). Localização aqui. Entrada livre. Estão todos convidados.

15.5.11

a confusão do vinho e da cerveja deu-lhe volta ao miolo

não pagamos! não pagamos! olé olé olé

23:17
No debate com Sócrates, Louçã dá como exemplo de uma parte das "dívidas imorais" que deviam ser objecto de "reestruturação"... os submarinos de Portas, que os alemães investigam se meteram corrupção ou não.
Quer dizer: para os credores aceitarem de bom grado que Portugal diga "não pagamos", basta dizer-lhes que parece que houve uns maganos que meteram dinheiro ao bolso. Ficaríamos, então, famosos, não apenas por sermos caloteiros, mas mais ainda por nos desculparmos com a roubalheira indígena. Assim do género: não pagamos porque uns primos que temos cá em casa nos roubaram a massa que vossas mercês nos emprestaram.

Cada vez mais me convenço que a grande diferença entre Jerónimo de Sousa e Louçã é... a honestidade intelectual de Jerónimo de Sousa.

o PSD? já os topei!



A quantidade de disparates que têm vindo do lado do PSD, com sucessivas contradições, com o candidato a PM a desmentir/ser desmentido pelo putativo seu ex-futuro ministro das finanças, com o simpático avô que ía voltar a ser o homem das contas a prometer mexer em taxas do IVA para as colocar nos níveis em que elas já estão, entremeadas essas promessas com linguagem púbica na TV... falta-me o fôlego para a lista toda... mas o que quero dizer é isto: já topei o PSD. Eles bem sabem que vêm aí tempos difíceis. Portanto, não querem mesmo ganhar as eleições. Eles ainda aqui estão e já lhes está a doer a realidade que seria chegarem ao governo depois de terem dito tanto disparate, depois de tanto fazer de conta. Eles estão mesmo a fazer o mais que podem para evitar chegar a qualquer lugar de efectiva responsabilidade. Eles querem mesmo é morrer virgens. Como eu os percebo. No que a essa virgindade toca, claro.

vistas




Teresa Calem, Daphne 8, 2007



Os incondicionais

19:18

Uma das doenças deste jardim à beira do mar plantado é a praga dos incondicionais.
A maleita dos incondicionais existe desde logo na política. São os incondicionais de um partido, que só vêem virtudes nesse partido e defeitos em todos os outros. São os incondicionais de um líder, que abominam qualquer discordância, logo classificada como ajuda ao adversário externo – ao inimigo, mais exactamente, porque aos incondicionais falta aquela parte dos mecanismos cerebrais envolvida em distinguir os adversários dos inimigos. São os incondicionais de uma solução para um problema, com exclusão de qualquer mistura – como se exemplifica com as parcerias público-privadas, onde parece só haver quem as considere ou “a solução” ou “um crime”, como se não houvesse linhas mais finas para separar o que é útil do que é pernicioso. Em política, os incondicionais criam, nos aparelhos vários que a praxis exige, a nuvem de fumo das realidades encomendadas: um homem rodeado de incondicionais é como se estivesse a jogar aos combates inter-galácticos num simulador e confundisse a realidade virtual com a materialidade cá fora. Obviamente, vem daí um risco para a gestão da coisa pública, risco no qual se afogam tanto a situação como as oposições. Mais o exército de comentadores, sejam encartados ou amadores, grandes ou pequenos. O que quer dizer que, deste canto da blogosfera, não devo estar isento da doença.
Fora da política, a praga dos incondicionais entranha-se no quotidiano das administrações, das empresas, das associações. Também nas repartições há incondicionais. Chamem repartições ao que quiserem, por ser isto geral. Gente que sorri sempre na mesma direcção, quando o chefe está sentado; gente que sorri como um catavento, quando o chefe deambula. Saber fazer um certo tipo de conversa redonda evita aos incondicionais limitarem-se a abanar a cabeça. Podem, dessa arte, falar, não apenas evitando discordar de quem, por definição (pela sua definição) tem razão em tudo o que disse anteriormente, mas também, pela mesma definição, haverá de ter razão em tudo o que venha a dizer futuramente. Mesmo que aquilo que sua excelência dirá somente daqui a minutos esteja ainda no limbo, quer dizer, ainda esteja por magicar na excelentíssima cabeça, tem o incondicional de antever que, quando for proferido, será certo. A emissão de uma opinião própria, mesmo que não contradiga nada das opiniões passadas de sua excelência, corre o risco de vir a entrar em colisão com opiniões mais tardias de sua excelência. Para evitar tais embaraços, há que saber falar sem dizer nada naqueles artigos da matéria em que a excelência está por saber o que opinará. Já há bastante tempo, irritei muito um “alto quadro” que não queria dar a sua excelência um conselho que se antevia que sua excelência não apreciaria. Tive que dizer a tal altíssimo quadro que era para isso que lhe pagavam, coisa que ele não apreciou. Claro, não deu o conselho, mas continuaram a pagar-lhe. Bem entendido, tonto era eu, porque em regra só se pagam os conselhos com o conteúdo previamente encomendado. E mesmo que o jurisconsulto seja de nomeada, a regra é essa. Neste campo, a praga dos incondicionais faz com que muitas organizações sejam raquíticas, não por lhes faltar dimensão, mas por lhes faltar músculo. Cabeça, quero dizer. Essa é também a razão pela qual o quotidiano de muitas organizações é um inferno, sabendo-se desde há muito da teologia verdadeira que no inferno não há fogo: no inferno o que há é uma multidão de incondicionais. E é disso que se faz o inferninho de muitas empresas, repartições, departamentos disto e daquilo.
Fora da política e também fora da economia, da labuta, da parte do dia em que se ganha para o pão, a praga dos incondicionais também mancha por vezes os círculos do lazer, dos tempos outros, da preguiça necessária e honrosa onde nos devemos libertar (mesmo que não acreditemos em Lafargue). Há amizades onde se confundem os amigos com incondicionais: o amigo é uma cópia do que eu estava mesmo a pensar dizer. Isso acontece. Até no amor (ou no casamento, se quiserem) há quem busque incondicionais: o marido extremoso que julga ser essencial que a esposa só o olhe a ele, que nunca olhe para o lado, para outro ser, não vá cobiçá-lo. O homem (para o caso, o homem ou a mulher) que teme que o seu par se interesse por algum perigo ambulante, desvie de si os olhos, pense em assuntos perigosos. Mas, se calhar, ainda é nesta parte do mundo onde há mais esperança que a doença dos incondicionais não medre.
O assunto é esse: a praga dos incondicionais é uma doença dos mundos pequenos, da fragilidade omnipresente ocasionando uma imensa rede de exploração e de opressão, mesmo que nessa exploração a opressão pareça suave e meta gente de gravata e de saia e casaco e com boas maneiras. A doença social que constitui a presença massiva de incondicionais intercalados nas nossas interacções sociais precisa ser compreendida, precisamente, como uma patologia. Ou talvez mesmo como uma perigosa invasão vinda de um mundo estranho à nossa humanidade.