14.9.10

boa educação e política

20:18

A dirigente do PS, Edite Estrela, escreveu uma carta aos militantes do seu partido, na qual dava razões para o empenhamento desse colectivo nas eleições presidenciais, argumentando com a forma - talvez subtil mas efectiva - como Cavaco Silva tem exercido o seu mandato em contravapor ao governo do PS (e com a esperança de que Alegre será melhor).
Cavaco Silva, o candidato instalado no palácio, levou desta vez longe demais a sua táctica de se fazer de morto: sugeriu que os ataques eram má educação e que ele, do alto da sua sabedoria, não respondia a tais vozes. Que CS insista na sua táctica de sempre, que é fazer política a fazer de conta que não é político - e acusando os outros de fazerem política - não espanta: a democracia como lugar de escolha entre visões diferentes do interesse nacional não lhe cabe na cabeça. Continua a sonhar com o consenso nacional, desde e sempre que esse consenso se faça em torno de si e dos seus.
Já que tantas outras vozes tenham caído na velha armadilha cavaquista, não percebo. Anda por aí quem aceite que o candidato CS se esconda no palácio para melhor fazer a sua campanha e que se furte ao debate, dizendo generalidades moralistas que aplica a toda a gente menos a si próprio. Quem faça por se esquecer que CS deu acampamento a verdadeiras inventonas anti-democráticas, com fontes de Belém escondidas com o rabo de fora para prejudicar o governo. E essas vozes escandalizam-se com o facto de um partido criticar o PR - embora, obviamente, não se escandalizem nada com o facto de partidos e mais meio mundo estarem na crítica permanente ao PM, que também exerce um alto cargo do Estado e nem sequer está em campanha (nem pré-campanha) eleitoral.
Isto já parece, para voltarmos à expressão, o clima de "A Bem da Nação": há uns senhores que querem ser tomados por deuses do universo nacional, querem ser dispensados do escrutínio democrático - que é muito mais do que votar -, e andam a tentar instalar (e instilar) a ideia de que haver projectos diferentes e debate é coisa má e que deve ser evitada para preservar o clima de chá das cinco que vai bem com a hipocrisia mansa e de falinhas arredondadas do actual primeiro magistrado. Que, aliás, é um homem que discursa muito bem sobre ordenhas, como se prova por aquele vídeo ali na barra lateral.

povo


A exposição "Povo", ainda patente no Museu da Electricidade: uma desilusão. Um pedagogismo de escola, com pouco pensamento. Se era para o povo, o povo já conhece. Se era sobre o povo, podiam pedir-nos para pensar um pouco mais. De boas intenções está o republicanismo cheio, já se sabe. Desculpem qualquer coisinha.




bom dia


"Take This Waltz", Leonard Cohen, olhando Federico García Lorca


Now in Vienna there's ten pretty women
There's a shoulder where Death comes to cry
There's a lobby with nine hundred windows
There's a tree where the doves go to die
There's a piece that was torn from the morning
And it hangs in the Gallery of Frost
Ay, Ay, Ay, Ay
Take this waltz, take this waltz
Take this waltz with the clamp on its jaws

Oh I want you, I want you, I want you
On a chair with a dead magazine
In the cave at the tip of the lily
In some hallways where love's never been
On a bed where the moon has been sweating
In a cry filled with footsteps and sand
Ay, Ay, Ay, Ay
Take this waltz, take this waltz
Take its broken waist in your hand

This waltz, this waltz, this waltz, this waltz
With its very own breath of brandy and Death
Dragging its tail in the sea

There's a concert hall in Vienna
Where your mouth had a thousand reviews
There's a bar where the boys have stopped talking
They've been sentenced to death by the blues
Ah, but who is it climbs to your picture
With a garland of freshly cut tears?
Ay, Ay, Ay, Ay
Take this waltz, take this waltz
Take this waltz it's been dying for years

There's an attic where children are playing
Where I've got to lie down with you soon
In a dream of Hungarian lanterns
In the mist of some sweet afternoon
And I'll see what you've chained to your sorrow
All your sheep and your lilies of snow
Ay, Ay, Ay, Ay
Take this waltz, take this waltz
With its "I'll never forget you, you know!"

This waltz, this waltz, this waltz, this waltz
With its very own breath of brandy and Death
Dragging its tail in the sea

And I'll dance with you in Vienna
I'll be wearing a river's disguise
The hyacinth wild on my shoulder,
My mouth on the dew of your thighs
And I'll bury my soul in a scrapbook,
With the photographs there, and the moths
And I'll yield to the flood of your beauty
My cheap violin and my cross
And you'll carry me down on your dancing
To the pools that you lift on your wrist
Oh my love, Oh my love
Take this waltz, take this waltz
It's yours now. It's all that there is.

13.9.10

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a coisa pública

09:57

José Luís Sarmento pôs-se a ler Marquand e depois reflectiu. Excerto:
A demonização do funcionalismo público; a sujeição dos seus quadros superiores a um dever de lealdade pessoal aos governantes enquanto pessoas privadas em detrimento das pessoas públicas que eles também são - e em detrimento, sobretudo, da lealdade que devem à república; a proletarização e desautorização das classes profissionais; a obsessão com tudo o que seja objectivos quantificáveis e a destruição iresponsável e bárbara de tudo o que o não é; o proliferar de sistemas de avaliação estilo rococó que são, no dizer de Boaventura Sousa Santos, tão impecáveis no rigor formal quanto fraudulentos na substância; a falsa descentralização e as falsas autonomias que puxam para o centro todo o poder de decisão ao mesmo tempo que empurram para a periferia toda a responsabilidade pelas decisões tomadas; o anti-elitismo populista; o combate cego aos impostos, sobretudo aos progressivos, como se pagar impostos não fosse marca e condição da cidadania - tudo isto é descrito por Marquand , com abundantes exemplos, em referência à realidade britânica. Mas nenhum autarca português, nenhum médico, enfermeiro ou professor, nenhum advogado que não pertença aos grandes escritórios, nenhum académico, intelectual ou artista, nenhum cientista, nenhum jornalista, nenhum economista que não pertença ao reduzido grupo que trabalha para a banca e domina os media poderá ler Marquand sem encontrar acrescida confirmação na sua própria experiência profissional e pessoal.
Integral aqui. A propósito de Decline of the Public, de David Marquand.

Salazar era um democrata-cristão?


Quando uma comunidade se torna civilizada (mesmo que seja localizadamente civilizada), passa a ser possível pensar sem que chovam anátemas. Começa a ser possível ultrapassar os esquemas simples, deixar de querer juntar todos os debates numa única "grande guerra", falar de coisas que nos desgostam com objectividade e sem raiva (ao mesmo tempo que a raiva justa não se amolece pela necessidade de compreender). Salazar, um dos pais da preguiça mental do nosso país, teria a sua definitiva vitória se não fossemos capazes de o discutir sem ódio. Não é que ele não mereça o ódio do país, mas merece mais, como ilustração de que a sua vitória não foi definitiva, a maturidade do país - e a lucidez, a única verdadeira desforra que podemos tirar dos males morais que nos legou.
O recente debate sobre a sua putativa condição de democrata-cristão mereceu, a nosso proveito, uma bela análise de Irene Pimentel, num post intitulado Salazar democrata-cristão?, dado à estampa, por assim dizer, no jugular.