16.11.07

Memórias. Berlim, 1989, um dia como este, um muro como qualquer outro.



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Quando começaram a abrir rasgões no muro da vergonha, eu estava lá (tinha ido à conferência "Security in Europe: Challenges of the 1990's" e fiquei mais uns dois ou três dias, porque era a primeira vez que ía a Berlim e queria conhecer). No princípio, as máquinas abriram só umas "portas" no betão e só passavam (de leste para oeste) os reformados que tinham família do lado de cá, talvez porque o regime achava que já só davam despesa. Só depois é que a brecha se foi alargando. Descobri agora duas folhinhas que escrevi na altura, "do lado de lá", no meio da agitação. Estão a ficar roídas pelo tempo. Antes que desapareçam, transcrevo-as para este arquivo-pessoal-público.

Folha 1. "Aqui é a Marx-Engels Platz, em Berlim Leste. Hoje são 17 de Novembro de 1989. O Muro já tem aberturas mas ainda falta muita coisa. Aqui está a ocorrer uma manifestação (ou concentração) de estudantes (pelo menos parecem, pela sua juventude, apesar de também haver gente mais velha). Vim para aqui directamente da estação de metropolitano, onde comprei o meu visto e troquei os obrigatórios 25 DM por 25 marcos da DDR. Do lado de lá vale, não 1 para 1, mas 1 para 10 ou ainda mais. Há o pequeno pormenor de que tenho a máquina fotográfica da Guida ao ombro, mas não consigo tirar nenhuma fotografia. Até o azar pode ser histórico... Outro pormenor é que está um frio danado, que entra por todo o lado apesar de estar com dois pares de meias calçados, camisa, camisola de gola alta, casaco de inverno e gabardina. São aqui 15.50H."
Folha 2. "No mapa, tenho aqui uma indicação sobre a Igreja de S. Nicolau, no centro histórico de Berlim. Fui para entrar, vi que se pagavam entradas e que havia um museu. Como não estou com grande tempo para museus, fui perguntar se também se pagava para ver a igreja. Resposta: «Isto não é uma igreja. Isto é um museu.» Entendi: estamos, realmente, no Leste. São 16H 13M."

Memórias das minhas ingenuidades, pois. Eu não falava uma palavrinha de alemão, mas recolhi um comunicado da SPARTAKIST - Herausgegeben von der Trotzkistischen Liga Deutschlands, com o título "Für eine leninistisch-trotzkistische Arbeitpartei!". E em baixo de página: "Für den Kommunismus von Lenin, Luxemburg und Liebknecht!". Ainda tenho uns jornais, uns autocolantes, uns "alfinetes de peito", desses dias. E, claro, umas pedrinhas pequeninas que eu próprio rapei do muro, à unha, enquanto outros já andavam em cima dele com picaretas.
Agora, já não há muro, mas há um grande fosso que permanece. Se aquilo fosse um fecho éclair, em vez de um muro, ainda estaria aberto?


(Texto publicado pela primeira vez a 17/11/03, no Turing Machine. Precisamente aqui.)



Robótica Institucionalista

O meu blogue "sério", "científico", "filosófico", realmente ligado ao meu actual trabalho de investigação (pelo menos aos seus aspectos mais generalistas), já está a funcionar em pleno. Uma ou (excepcionalmente) duas vezes por semana, lá estarei. É o Institutional Robotics.

Para saber mais sobre o assunto, mesmo antes de ir para outro blogue, pode ler este postal e/ou esta reportagem.




A Instituição, Manuel Botelho, 1985, carvão sobre papel, colecção Fundação Calouste Gulbenkian, Lisboa

(clicar para aumentar)

15.11.07

Amor e sexo com robots




O blogue sobre tecnologia da New Scientist publica uma série de perguntas e respostas sobre o livro Love and Sex with Robots. The Evolution of Human-Robot Relationships, de David Levy, que deve sair em Abril de 2008. (resumo aqui)

O postal pode ser lido clicando aqui: Your questions on love and sex with robots answered...

Não leiam e depois queixem-se de que perderam alguma coisa...

Compreender o papel das instituições na vida social (para lá da teoria económica neoclássica) - 5/5

Andámos a fazer uma leitura da crítica institucionalista de Geoffrey M. Hodgson à teoria económica neoclássica, em três pontos:
Primeiro, uma crítica do individualismo metodológico;
Segundo, uma crítica da hipótese da maximização;
Terceiro, uma crítica do conceito racionalista de acção.

Ora, estas críticas convergem para a necessidade de considerar a existência e o papel das instituições na vida económica e social – porque não existem indivíduos como átomos constituídos de forma absoluta fora da interacção social. As motivações económicas são formadas ou moldadas pelas mais variadas circunstâncias sociais e históricas. Uma economia moderna não funciona sem instituições: as trocas não são apenas transferências de bens, serviços e dinheiro entre agentes. Na verdade envolvem muitas instituições, como, por exemplo, direitos de propriedade, que são protegidos pelo Estado, por um sistema legal, por precedentes que tomam força de lei; os próprios contratos obedecem a certas regras, em parte legais e em parte sociais, que os enquadram; certas profissões são regidas por obrigações morais que ultrapassam as disposições contratuais formais (o juramento de Hipócrates para os médicos, por exemplo); a compra e venda de força de trabalho envolve a dignidade da pessoa humana, fazendo com que a generalidade dos países civilizados regule essa troca de forma que tem em consideração muito mais do que o seu interesse económico; o próprio dinheiro é uma complexa instituição social.



Um aspecto importante da abordagem institucionalista é que ela rejeita o determinismo. As instituições não determinam unívoca ou estritamente o comportamento dos indivíduos. Os indivíduos são constituídos pelas instituições, mas também participam na sua constituição. As instituições têm estabilidade e inércia, nascem de processos rotinizados partilhados por conjuntos de indivíduos de uma mesma sociedade e reforçam essas rotinas, tornando-as duradouras. Uma parte importante do papel das instituições é o seu peso cognitivo: estabelecem quadros de interpretação dos dados sensoriais e da informação, criando caminhos de construção do conhecimento. Até certo ponto as instituições fazem os indivíduos ver o mundo de certa maneira, em formas habituais. Isso não significa, contudo, que as instituições não possam mudar.




Um aspecto da dinâmica dessas mudanças, e do papel que os indivíduos nela desempenham, é discutido por Hodgson noutra obra (Hodgson 1993: capítulo 16). Há uma interacção complexa entre instituições formais (por exemplo, organizações explícitas) e instituições informais (hábitos, costumes). Por exemplo, uma empresa tem uma hierarquia e certas regras explícitas codificadas, mas também comporta relações pessoais entre indivíduos, quer pertençam ao mesmo nível hierárquico, quer pertençam a níveis diferentes – e tanto o aspecto formal como o aspecto informal contribuem para o impacte da empresa no mundo e para influenciar a acção individual.



As instituições mudam, mas de forma complexa e de acordo com ritmos diferenciados, combinando elementos de estabilidade e de instabilidade. Por um lado, por vezes a mudança institucional formal é mais difícil do que a mudança dos comportamentos individuais, provocando até a percepção de um desfasamento entre as instituições vigentes e novos desafios. Isso pode dever-se, por exemplo, à dificuldade de alcançar acordos entre os indivíduos para actualizar as instituições. Por outro lado, é por vezes mais fácil mudar as regras formais de funcionamento de uma instituição (por exemplo, o regulamento de um organismo) do que mudar os hábitos e rotinas que estão enraizadas de forma não explícita. Por vezes a mudança institucional faz-se com as mesmas pessoas (que mudam de comportamento), enquanto outras vezes a mudança só se torna efectiva quando mudam as pessoas (quando chegam novos indivíduos sem memória dos hábitos antigos). Estes exemplos reforçam, portanto, a ideia de que as instituições não são máquinas que determinam o comportamento dos indivíduos, comportando uma mistura de poder e de flexibilidade, de inércia e de potencial modificação, que agem sobre os indivíduos mas que também são afectáveis pelos seus membros individuais.


REFERÊNCIA
(Hodgson 1993) HODGSON, Geoffrey M., Economics and Evolution: Bringing Life Back into Economics (todas as referências são para a tradução portuguesa, Economia e Evolução: O Regresso da Vida à Teoria Económica, Oeiras, Celta Editora, 1997)


Esta série fica por aqui. Já de seguida (mais ou menos...) vamos dar outros desenvolvimentos a esta viagem. Voltem e verão. Proximamente começaremos uma série intitulada “Testar a hipótese da ordem social espontânea em Simulação Multi-Agentes”.


***




14.11.07

Prémio Nacional de Professores


Leio nos jornais que o Prémio Nacional de Professores foi atribuído, logo nesta primeira edição, a Arsélio de Almeida Martins, professor de matemática, de Aveiro (Escola Secundária José Estêvão). Acho a iniciativa uma boa coisa em si mesma, mas fiquei particularmente contente com o nome do primeiro laureado com o prémio.
É que interagimos na comunidade do ensino secundário em Aveiro, eu como suposto "representante dos alunos", ele como suposto "representante dos professores" (o "suposto" e as aspas vão à conta das debilidades da democracia representativa...) vai para mais de 20 anos. Nunca fui seu aluno de matemática (talvez infelizmente, talvez a minha matemática fosse melhor hoje em dia), mas lembro-me de um professor com uma característica sem a qual nada vale a pena, sem a qual nada tem qualidade: humanidade. Lembro-me do Professor Arsélio como uma pessoa de uma extraordinária humanidade e sensibilidade. Sei que há mais "professores Arsélios" neste país, mas este foi aquele que me deu a grande alegria do dia de hoje, quando li a notícia do seu prémio nos jornais. Apesar da distância, o seu prémio deu-me contentamento por um dia. O que já é tanto! Parabéns!

Ao Diário de Notícias Arsélio Martins diz coisas de imensa sabedoria, que alguns (por não perceberem nada do que é educar) devem achar banais. Perguntam-lhe "O seu método de trabalho tem algumas características especiais?" e ele responde: "O meu método de trabalho é baseado em coisas simples: ser persistente. Não esperar resultados de imediato, porque não há milagres. Tentar explorar várias formas de explicar a matéria. Não aceitar nenhuma limitação ao meu trabalho e lutar até ao fim. Tento ser agradável com as pessoas, levá-las a gostar de mim, porque é importante estabelecer uma relação de confiança. É um luxo as pessoas com quem trabalhamos gostarem de nós."

Uma nota: estava a mostrar esta notícia no DN ao meu colega de gabinete, que é um investigador holandês. Ele, olhando para o início da notícia, leu que o Prémio tinha sido atribuído a um "membro do Bloco de Esquerda" e perguntou: mas porquê escrevem isto? o que tem uma coisa a ver com a outra? Pois...

Para saber mais sobre o Prémio Nacional de Professores.
O blogue de Arsélio Martins, o lado esquerdo.

A espuma dos dias

Não sejas tão leve com o que chamas a espuma dos dias. Porque nem sempre vem uma onda de mar que limpe essa espuma. E essa espuma pode ganhar consistência, enrijar, tomar posse dos trilhos por onde ainda precisarás de passar, travar-te os passos, tolher-te os movimentos, encher-te a boca de mudez. Disso se faz a poluição mais refractária. É do uso e abuso da leveza, do tanto-faz, do não-é-nada-comigo, do quem-sou-eu-para-saber, ... que fluem tantas inesperadas barreiras que nos atravessam a pele e nos escurecem os dias.


(Foto de Porfírio Silva)

13.11.07

Compreender o papel das instituições na vida social (para lá da teoria económica neoclássica) - 4/5

Andamos, apoiados em Geoffrey M. Hodgson, a recensear a crítica institucionalista à teoria económica neoclássica. Estamos a organizar esse material em três pontos:
Primeiro, uma crítica do individualismo metodológico;
Segundo, uma crítica da hipótese da maximização;
Terceiro, uma crítica do conceito racionalista de acção.

Hoje chegamos ao terceiro ponto.

Terceiro, temos uma crítica do conceito racionalista de acção (Hodgson 1988: capítulo 5).



Nem toda a acção relevante em economia é dominada pelo cálculo racional: há acções relevantes em economia que surgem de maneira diferente. Há processos mentais inconscientes e subconscientes que influenciam a acção (se todo o comportamento relevante para a economia fosse estritamente racional não existiria, por exemplo, a publicidade tal como a conhecemos, apelando a dimensões simbólicas). Na própria percepção há processos computacionais inconscientes.


A informação não entra em bruto na mente do decisor. Muitos teóricos da economia falam como se a informação fosse um fluido indiferenciado de dados sensoriais a entrar na cabeça de um indivíduo. Só que não é isso que acontece: a informação é acedida através de um enquadramento cognitivo afectado pela cultura e pelas instituições. Ora, o nosso aparelho conceptual, que filtra os dados dos sentidos, é formado em interacção com os outros.


É importante, para seres com capacidades computacionais limitadas, que nem todos os processos mentais sejam conscientes e deliberativos, porque isso permite poupar capacidade computacional para aquelas acções que efectivamente são decididas de forma consciente e deliberativa. Uma das formas dessa poupança de capacidade computacional está naqueles níveis de acção em que dependemos de rotinas e hábitos. Crenças, atitudes e valores também orientam a nossa interpretação da realidade. Também a autoridade, que tendemos a aceitar quando a consideramos legítima, tem esse papel. Em parte aceitamos padrões normativos que definem aquilo que as pessoas pensam ser modalidades apropriadas de acção e relacionamento social. O conformismo é uma aceitação generalizada desse mecanismo, mas mesmo o inconformismo em geral não questiona tudo, mas apenas certas regiões de normas. Mesmo o que os economistas referem como o “interesse próprio” de cada um é algo que também é formado socialmente: o que um servo da gleba medieval podia considerar como interesse próprio não coincide com o que um assalariado do século XXI pode considerar como o seu interesse próprio, porque há aí uma dimensão social e histórica.


Os hábitos e as rotinas definem linhas de acção frequentes que não são sujeitas a avaliação racional contínua, que seria incompatível com a fluidez da própria acção; os hábitos e as rotinas podem começar por mera imitação ou também por escolha consciente, podendo também ser abandonadas ou modificadas por verdadeiras decisões. As rotinas, além de pouparem a capacidade computacional disponível, também reduzem a incerteza, na medida em que reconhecemos que os outros agentes também seguem rotinas e se tornam, assim, mais previsíveis.

(continua)


12.11.07

Ir além da mediania

No número de Junho (2007) da revista científica IEEE Robotics and Automation (Volume 14, Número 2, pp. 16-17), o Professor Pedro Lima, do Instituto de Sistemas e Robótica (Instituto Superior Técnico) publica um pequeno texto intitulado "Robotics Educational Activities in Portugal: A Motivating Experience". O texto é antecedido de uma pequena "Nota do Editor" que mostra que é possível, entre nós, ir além da mediania. A nota do editor, subscrita por Paolo Fiorini, reza assim (em tradução ao correr da pena):

«Embora o número de actividades de investigação e disseminação em robótica estejam correlacionadas com o tamanho do país em que são realizadas, a contribuição desta coluna, escrita por Pedro Lima, de Portugal, mostra que o tamanho do país não é uma condição necessária para um ambiente robótico animado. Se o número de actividades é normalizado pela população, Portugal é provavelmente um dos países mais activos na investigação robótica, assim como na organização de eventos educacionais e de promoção. Nesta coluna Lima descreve sucintamente as actividades que têm sido organizadas em Portugal nos últimos anos. Queremos ter a esperança de que, numa coluna futura, nos dirá igualmente qual o segredo para o enorme sucesso da robótica em Portugal.»