19.11.07

Os iluminados


Peter Brueghel, A Queda dos Anjos, 1562



O século XX foi um século contraditório.
O mundo progrediu muito nesse século, tanto em termos materiais como em termos "espirituais".
Há menos gente a morrer de fome ou de doenças, trabalha-se menos horas e em melhores condições de conforto e de segurança, há melhores habitações e melhores infraestruturas dos espaços públicos, há mais generalizado acesso à educação e à cultura, etc., etc. Mesmo que muitos continuem a viver abaixo dos limiares mínimos em todos estes aspectos e em outros - e continuam - houve um real progresso por muitos terem passado a ter melhores condições.
Em termos "espirituais" também se progrediu: a discriminação de género já não é o que era, a discriminação racial tornou-se mais discreta, os trabalhadores têm hoje direitos que não tinham em 1900, a censura regrediu, a pena de morte aplica-se em menores áreas geográficas, etc., etc.
Todas as nuvens negras, bem como alguns retrocessos, não desmentem que os avanços foram enormes.
Contudo, o século XX foi também um século de grandes desgraças provocadas por factores propriamente políticos. As ditaduras mais ou menos fascistas ou mais ou menos comunistas estão entre os grandes flagelos. Fizeram muito mal a muita gente. Mas, o que é pior, fizeram muito mal em nome de grandes causas.
O que é curioso é que o mecanismo subjacente a esses flagelos é simples e constante. É o mecanismo dos iluminados.
O "mecanismo dos iluminados" é aquele mecanismo que consiste em alguns tomarem o poder e dizerem: nós vamos salvar os desgraçados. Sabemos quem eles são, qual é o problema deles, e vamos resolver o problema deles quer eles queiram quer não. Se eles não compreendem que nós somos a salvação deles, vamos salvá-los mesmo que seja contra a vontade deles. Vamos fazê-los felizes à força. E esse mecanismo matou milhões.
O problema do mecanismo dos iluminados continua a existir hoje. É o problema dos que pensam poder dispensar a colaboração dos cidadãos na salvação da pátria. O problema dos que pensam poder impôr, ainda por cima em democracia, a felicidade por decreto. Independentemente de os "alvos" compreenderem e partilharem, ou não, as salvíficas metas propostas.
Com uma dificuldade suplementar: em democracia esse método, além de mau, nunca chega ao fim da receita. E o cozinhado sai esturricado.
Pobre país que caia na ilusão dos iluminados.

(Faço deste postal um sinal de apreço por um conjunto de amigos com quem costumo discutir estas coisas.)