10/02/12

a entrevista de Seguro.


Só hoje pude ver a entrevista que António José Seguro concedeu a noite passada à RTP. A importância do PS para a vida política nacional sugere que ela seja aqui comentada.

O pior da entrevista foi mesmo a entrevistadora. Sandra Sousa mostrou-se demasiado interessada em si própria e nas suas próprias opiniões: falou demais, interrompeu demais, parecia pouco interessada em ouvir AJS (o que o entrevistado dizia parecia não ter qualquer efeito no percurso da entrevistadora), exibiu (implicitamente) conceitos estranhos acerca do funcionamento de uma democracia (parece julgar que a oposição só serve para dizer ámen ao governo). Adiante.

Para o seu estilo e propósito, AJS saiu-se bem. Beneficiou da notícia do dia com a conversa privada entre o ministro Gaspar e o ministro Schäubel, usando-a para mostrar que o governo tem duas caras em matérias fundamentais para a navegação corrente deste barco. Exibiu a sua pose de líder responsável da oposição, manteve a sua estudada serenidade (mesmo face à excitação da entrevistadora), assinalou algumas das incongruências mais gritantes da governação actual, deu alguns exemplos do que considera ser a sua via doce para alternativa, aplicou sem falhas a técnica de comunicação que consiste em martelar poucas teclas para essas se ouvirem bem. Esteve muito bem na frente europeia, explorando a carta de Durão Barroso a PPC, e a falta de resposta do PM, para mostrar como este governo descura questões essenciais (neste caso, o desemprego juvenil); mostrando iniciativa, ao mencionar os contactos com o presidente do Parlamento Europeu e outros líderes socialistas (tanto ao defender uma plataforma europeia de resposta à crise, como ao exibir a sua familiaridade com camaradas tão ilustres, técnica velha mas sempre útil). Nesta fase do campeonato, em que o governo é recente e o SG do PS tem apenas meses, esta pose serve perfeitamente a afirmação do líder do PS: convém que os foguetes não estalem quando ainda estão próximos da mão. Explica-se, por aí, que nenhum tema tenha sido adequadamente aprofundado, ficando o chavão do "crescimento e emprego" um tanto vago, a precisar de mais sumo. Mas o sumo pode sempre ser acrescentado no que segue.

Contudo, a entrevista confirma, mais do que revela, certas dificuldades da linha política de AJS. O actual SG do PS continua a ter um problema com a história recente do seu partido, parecendo que a mera menção do nome de José Sócrates lhe causa aftas na boca. Isso é injusto com o anterior ciclo político, facilita a tarefa ideológica do governo em exercício e aliena uma parte do PS e do seu eleitorado, tendo ainda a desvantagem de nos trazer à memória o cinismo passado de AJS face à liderança de Sócrates. Mas, enfim, isso são contas partidárias que não interessam a toda a gente.
Mais grave é que AJS continua a justificar-se um tanto ligeiramente com o Memorando de Entendimento. O SG do PS parece nem sempre distinguir bem o que resulta do Memorando e o que resulta do excesso de zelo deste governo, fazendo, por essa via, um enorme favor político a PPC. Além disso, AJS parece esquecido de que o Memorando já não é o que era, já foi na prática revisto por este governo (leia-se este texto para perceber um aspecto desta minha afirmação). Alimentar a confusão entre o que este governo faz e o que estava originalmente no Memorando, fazendo disso a trave mestra da sua justificação como oposição, é grave. E fundamentalmente errado.
Por outro lado, no tocante ao pluralismo dentro das suas próprias hostes, AJS alia uma retórica de abertura com perturbantes imprecisões. Mostrou isso quando aceitou sem pestanejar o "argumento" da jornalista sobre a incoerência de pedir a fiscalização da constitucionalidade do Orçamento de Estado e o ter votado favoravelmente, quando o pedido de fiscalização não é sobre o OE, mas sobre algumas das suas normas (poucas, embora importantes). Um líder de um colectivo não serve apenas para defender o seu ponto de vista, deve servir também para defender a saúde do colectivo - e, num partido político democrático, o pluralismo (não apenas a pluralidade) é um traço essencial dessa saúde.

Em resumo: esta parece ter sido a entrevista que AJS queria dar. Esteve bem por aí. Mas ela revela algumas das debilidades actuais do PS, partido onde, receio, esteja a fermentar uma divisão interna que em nada serve os interesses do país, um país que não pode ser abandonado a estes governantes ideológicos e radicais - pelo que importa que o PS não se desgaste no que não interessa e se foque no país, com todas as suas forças e não apenas com os fiéis de quem dirige.

Sem comentários: