24.5.14

A nave dos loucos.


O Presidente do Instituto Superior Técnico, Prof. Arlindo Oliveira, escreve um artigo no Público. Deixo-vos o seguinte excerto:

Considere-se o exemplo de uma portaria recentemente publicada que impõe a obrigatoriedade de consultar a Direção-Geral da Qualificação dos Trabalhadores em Funções Públicas (anteriormente designada e ainda conhecida por Instituto Nacional de Administração, INA) antes da abertura de qualquer concurso que implique a criação de uma relação jurídica de emprego público. Se a ideia base é, em si, louvável, uma vez que, conceptualmente, permite usar mais eficazmente os recursos do Estado, a sua aplicação cega a todas as posições na administração pública, sem exceção, e a todos os contratos de prestação de serviços é inconcebível, ridícula e inexequível. Considere-se o caso de uma escola de engenharia como o IST que, numa perspectiva de manutenção da competitividade internacional, decida abrir, por exemplo, um concurso internacional para uma posição de Professor Catedrático em Fusão Nuclear (ou em Tecnologia Mecânica ou em Informática Industrial ou em Nanomateriais). Fomos devida e inequivocamente esclarecidos pela entidade competente que, a partir de 26 de Março passado, deve o IST consultar sempre o INA antes de abrir qualquer destes concursos para inquirir se não estará porventura disponível, naquela instituição, um funcionário público com as condições e competências necessárias para exercer o cargo. Só por si, esta abstrusa situação, caso venha a ser conhecida no estrangeiro, cobrirá o sistema de ensino superior português e os seus responsáveis de ridículo.

Mas a referida portaria vai mais longe. Ao equiparar qualquer prestação de serviços a uma relação jurídica de emprego público, obriga as universidades (e as outras instituições públicas) a consultar o INA caso necessitem de adquirir uma passagem aérea ou transporte entre o aeroporto e o centro de uma cidade. Presume-se que o legislador terá imaginado que o INA tem à sua disposição pilotos, aviões e um batalhão de taxistas em todas as cidades do mundo, para além, naturalmente, de técnicos de manutenção de microscópios eletrónicos, e de espectrógrafos de massa (para dar apenas dois exemplos), e de um sem fim de outras especialidades. A implementação e regulamentação do que era originalmente uma ideia positiva é tão desastrada que acaba por impor mais um nível de ineficiência e de burocracia a um sistema já tão sobrecarregado com obrigações inúteis.

Para ler na íntegra: A nave dos loucos.

23.5.14

as sugestôes do João Miguel.




[o que é isto?]



Para conseguirmos faire marcher le devoir et l'amour. (Carmen, 2º acto)


No cumprimento do objectivo de acinzentar (mais rigorosamente: enegrecer) as nossas vidas, o Ali Bábá de Massamá vai acabar com a gratuitidade das visitas dominicais aos Museus: a partir de 1 de Junho só é aplicável no primeiro domingo de cada mês. O mesmo diploma fixa em 10€ a entrada nos Jerónimos e cria 14 modalidades de bilhetes-circuito (agregação de várias entradas num único título, válido por um ano). Esta iniciativa pode atenuar o agravamento de preços, mas quando do assalto aos utentes dos transportes públicos não usaram o argumento da simplificação tarifária para eliminarem as modalidades menos dispendiosas? (Um exemplo: acabaram com o passe do Metro, obrigando à compra do Passe Metro e Carris). Claro que ele tem mentiras maiores …
Já está disponível a programação da Gulbenkian Música 14/15 (vou analisar logo que conclua esta edição).

Fui a Cascais para:
  • visitar a exposição: Os Relógios de Sol e a Matemática, no Forte de S. Jorge de Oitavos. Interessantíssima! Pena que não tenha um «catálogo» para guardar, estudar e recordar. Assim, tive de tirar apontamentos (4 preciosas páginas A5), ultrapassando a hora de fecho, sem ser interrompido nem incomodado!
  • assistir à conferência: A Viagem em William Shakespeare, por Mário Vítor Bastos (apresentado como Prof. Universitário especialista em Shakespeare). Uma desgraça! Um alinhamento de lugares comuns ao nível da TV generalista. Completa ausência de associações e de ideias relativas ao tema. O Sr. Prof. nem se lembrava da outra peça, para lá do Mercador de Veneza, que se passa em Veneza … Se (por lapso) voltar a sugerir uma conferência dele, não vá!

Uma sugestâo do Jorge Calado (recebida às 23h30): Vim agora da Gulbenkian do "Written on Skin" - uma experiência inolvidável. A melhor ópera dos últimos cem anos? Avisa os subscritores das Sugestões. … e para notarem a harmónica de vidro (copos), instrumento fundamental no Written on Skin. (Dica: falo da harmónica no Haja Luz!, a propósito do Benjamin Franklin) Os detalhes: última oportunidade, sexta-feira, dia 23, às 19h00, na Gulbenkian (imensos lugares disponíveis de 11 a 22€).


A decorrer:
  • Abertas inscrições para a visita guiada Um Percurso pelo Modernismo Português: Bairro Residencial de Nova Oeiras, às 10h00, de 28 de Maio (0€; 214 408 536, 214 408 544, dct@cm-oeiras.pt)
  • De 29 de Maio a 15 Junho, no Parque Eduardo VII, Feira do Livro.

(Se o texto parece acabar aqui, clicar em Read More para ver as sugestões por dia.)

22.5.14

Rei Só.

11:02


Se querem teatro de sofá, coisa burguesa e bem aperaltada, podem largar aqui.
Ainda aí estão? Tenho uma coisa para vos dizer.

O Rei passa os dias a mandar.
Quando o Rei não manda, é preciso adivinhar o que ele quer.
O Ministro passa os dias a ser mandado. Escreve as leis e gere o Reino.
A Dama joga e dá opiniões, mesmo quando não lhe perguntam nada.
O Palhaço serve para fazer o Rei rir. E o Rei gosta de rir.
O Rei, às vezes, não quer ser Rei, quer mandar de outras maneiras.
Tudo está como deve estar.
Uma invasão surge no horizonte.
O Rei é o alvo do inimigo.
O Rei não aceitará tal coisa.

Isto é como eles falam da peça REI SÓ.
É uma alegoria do poder e do povo e das manhas. As manhas do poder e do povo, porque o povo também tem manhas. As alegorias não pegam o animal de frente, pegam o assunto de cernelha. Vêm de cernelha, para não nos fazer a papinha toda, porque quem come só papinha acaba por dar cabo do aparelho digestivo. E nós precisamos de ter todos os aparelhos a funcionar. Os olhos e o resto.

Fui à estreia, ontem, e recomendo. O texto é original, escrito pelo António Pedro Lima, que é também encenador, e que é também o Palhaço. As interpretações são perfeitamente adequadas a um universo que tem tanto de muito sério como de divertido. Sim: eles dizem as coisas e fazem-vos rir e, se vossas mercês quiserem ficar pelos risos, divertem-se - mas não terão percebido nada. Não terão percebido o aviso. Quem não percebe os avisos... bem, pode acabar mal quando chegar o fim dos tempos. Há por aí muitos avisos. Vejam e ouçam o que mostra esta gente nova que anda por aí a ferver e não se armem em distraídos.

Não é propriamente uma novidade pegar nestas personagens para falar da política para lá do dia-a-dia, mas julgo que aqui as coisas seguem um caminho diferente do que é mais costumeiro. E talvez dê que pensar, especialmente aos que (queixando-se ou gabando-se) julgam que "o povo é sereno" e encaixa tudo. Acautelem-se! Eles não vos explicam tudo, é preciso ver mais além...

Interpretação: Alice Medeiros, António Pedro Lima, João André, Jorge Albuquerque.

REI SÓ está na Adamastor Studios, na Praça dos Restauradores, 13. É no 2º andar. Podem ir de elevador ou, subindo umas escadas daquelas que denunciam o descuido do prédio, seguir as deusas das escadas. Ah, quando lá chegarem verão de que falo (verão do que eles falam, essa coisa da deusa das escadas). O espaço está perfeitamente arranjado, podem ir à janela espreitar a praça de um ponto de vista próprio. Reservem, só entram 18 pessoas em cada sessão.

Não sejam invejosos: tenho aqui comigo o bilhete nº 1. Mas não tive nenhum privilégio por causa disso. Apenas cheguei primeiro.

Até 1 de Junho.
De quarta a sábado, às 21h30.
Domingo, às 16h00.
Na sexta-feira 30 de Maio não há.
Reservem pelos telefones 213.460.945 ou 966.526.532.
Ou para info@adamastorstudios.com



21.5.14

vamos sair do euro, vamos?

19:35

Uma das teses que fazem as delícias de algumas pessoas que se acham radicais, embora isso nem sempre seja mau e nem sempre seja bom, é a da conveniência de Portugal sair do euro. Não vou tecer grandes considerações sobre isso. Limito-me a deixar-vos um material que me parece relevante.

Como saberá quem me acompanha, não sou admirador de Francisco Louçã. Mas reconheço, desde sempre, que é um pensador consistente, muito bem preparado, actualizado e profundo, além de um político combativo e pessoa que considero honesta. Por isso vê longe as consequências que certos passos poderiam ter e não quer ficar associado a confusões. Em Março de 2012 deu à estampa um livro, com Mariana Mortágua, "A DIVIDADURA - PORTUGAL NA CRISE DO EURO", que na altura interpretei como um testamento político num ponto essencial, que resumiria assim: "não me misturem com essa malta que defende a saída do euro, porque não quero arder na fogueira dessa irresponsabilidade, se vier a acontecer".

Deixo-vos largos excertos do primeiro capítulo desse livro. É uma leitura longa, mas vale a pena.

(Se vê abaixo um "Read More", clique lá para continuar)



Os nove cantos d'Os Lusíadas.

16:39

O meu post hoje foi em papel (jornal "i").


20.5.14

Monstros Antigos.


Nuno Júdice sobre "Monstros Antigos":

"em termos globais, é um livro que marca este ano, (...) que tem muitos poemas que são já poemas para ficar"




19.5.14

Cristóvão Colombo e Jean-Claude Juncker.


Jean-Claude Juncker, candidato do PPE a presidente da Comissão Europeia, estando em Portugal com os seus correligionártios do PSD e CDS, terá querido fazer umas graças (as campanhas parece que pedem graças) e terá escolhido adoptar circunstancialmente a teoria (que outros levam a sério) segundo a qual Cristóvão Colombo era, afinal, português.
A "teoria" teria a seguinte explicação: Colombo "partia nunca sabendo para onde ia e, quando chegava, nunca sabia onde estava". Enfim, se era para os portugueses acharem piada, deixo a intérpretes mais doutos do que eu a explicação do motivo para se pensar que nós devamos gostar que nos tratem assim. Mas, enfim, haverá quem ache que, se votamos nestes partidos que nos governam, deve ser por gostarmos que nos tratem assim.
Entretanto, mais interessante, Juncker continua a sua teoria dizendo, ainda na chacota com Colombo, que "era o contribuinte que pagava a viagem”.
Pois, se a malta que, tirando a tropa, a polícia, os tribunais e pouco mais, diz mal de qualquer acção do Estado, estivesse lá para decidir, não tinha havido descobertas para ninguém - porque nada teria começado sem o Estado e não seriam os privados a meter-se por sua conta e risco no arranque dos descobrimentos. Como ainda acontece hoje em dia. E como alguns continuam a querer esquecer.
Mas, enfim, Colombo ainda nos lembramos dele - e é pouco provável que daqui a outro tanto tempo ainda alguém se lembre do próximo presidente da Comissão Europeia. Seja Juncker ou outro - e eu até não regateio alguma simpatia por Juncker, embora me pareça mau para a Europa e para Portugal que os seus amigos vençam as eleições europeias.
Às vezes as graças eleitorais até merecem mais reflexão do que pretendiam os seus autores.