29.6.12

a minha ideia do inferno.


Viver dentro de um quadro de Bruegel. Por exemplo, dentro de "A Procissão e o Calvário", que Peter Bruegel pintou em 1564: uma representação a óleo em tela com mais de 500 personagens, sob o tema da crucificação de Jesus e as perseguições religiosas na Flandres. Agora no filme "O Moinho e a Cruz".



a política da vaia.

11:09

O Público escreve que «A ministra da Justiça, Paula Teixeira da Cruz, foi esta quinta-feira vaiada violentamente no Terreiro do Paço, em Lisboa, por centenas de manifestantes, depois de um conjunto de presidentes de câmara terem sido impedidos de entregar à ministra um documento reivindicativo sobre a revisão do mapa judiciário.»

Decididamente, a política em Portugal tornou-se um assunto de vaia. Certos políticos menos apreciados são recebidos, em qualquer lado onde se desloquem, por vaias supostamente populares. E digo "supostamente" porque estou em crer que a maior parte desses "espontâneos" são "encaminhados". Esta técnica de perseguição foi iniciada, na modalidade sistemática, ao tempo da oposição ao anterior governo. Poderia, assim, pensar-se "cá se fazem, cá se pagam", aprovando que os actuais governantes provem da mesma receita com que foram coniventes anteriormente, quando pensavam que esse tipo de oposição lhes convinha. Não é essa a minha posição: fui antes, e sou agora, frontalmente contra essas tentativas de cercar os governantes, contra essa maneira de transformar um governante desamado num alvo de fúria.
Neste caso noticiado pelo Público parece que há alguma convergência entre autarcas - eleitos, também eles - e a multidão vaiante. Pior ainda, se assim foi: políticos usam directamente contra outros políticos aquele dispositivo que pretende usualmente estar legitimado pela "espontaneidade" "popular" (não queiram calar o povo que vaia, parece ser o fundo dessa perspectiva, que aqui perde qualquer credibilidade, se ainda a tinha).
Eu posso até perceber a fúria, perceber que a fúria tenha razões, que seja necessária alguma raiva para não nos deixarmos amordaçar ou adormecer - mas não concordo que essa pulsão seja levada para a posição de substituto da luta de ideias. Se a política deixar de ser fundamentalmente uma luta de ideias e interesses enquadrada por instituições, deixa de ser uma forma de nos entendermos no quadro nacional e passamos ao estado de guerra civil latente.
Já houve, num passado muito próximo, forças partidárias que jogaram nessa espécie de "guerra civil" em lume brando. Foi esse, aliás, o cimento possível para a coligação negativa entre a direita e a esquerda da esquerda, contra o inimigo comum que era o governo do PS. Essa forma de política mínima não deu bons resultados: provocou uma crise política que nos atirou para o "resgate", em nome de promessas tolas que rapidamente se revelaram puras mentiras com os actuais governantes. Como foi possível essa forma irracional de lidar com as dificuldades? Foi possível porque o estado de guerra civil sem tiros criou as justificações para todos os comportamentos irracionais que as guerras civis são quando as olhamos na óptica do bem comum.
É isso que não podemos tolerar, não podemos deixar que volte a acontecer: numa democracia "a rua" tem o seu papel, mas ele não pode ser fundamentalmente esta promoção do desafio físico às pessoas dos governantes, este cerco permanente e omnipresente aos rostos do poder. Por muito desagradáveis que eles nos sejam, tenham eles mais ou menos culpa pelas nossas fúrias.
Por isto sou contra a política da vaia sistemática.


(Adenda: E continua: Ministro da Economia insultado e cercado na Covilhã.)

28.6.12

direito à greve.

16:49

Sou, fortemente, um defensor do direito à greve. Nem costumo alinhar nos protestos contra os prejuízos e os incómodos causados pelas greves: uma greve que não cause prejuízos nem incómodos é apenas um acto de masoquismo inútil. Aliás, o que me preocupa não é que haja muitas greves; o que me preocupa é que a esmagadora maioria dos trabalhadores não tenham, na prática, direito à greve - porque as retaliações efectivas não olham a lei nenhuma.
Contudo, além da legalidade há a legitimidade. Numa sociedade democrática a legalidade não é suporte suficiente para nada que diga respeito à vida em comum. É fácil reconhecer isso no tocante à acção do Estado: certas acções, justificadas pelos poderes com o respectivo suporte legal, não se tornam por isso menos odiosas se for evidente que são desproporcionadas na relação entre fins e meios, ou que afectam o equilíbrio de direitos e deveres vários que não se harmonizam "naturalmente".
O uso da greve também não pode ser colocado apenas no plano da legalidade. Vem isto a propósito da anunciada greve dos pilotos. Quando "estes trabalhadores reivindicam a cessão de funções do director de operações de voo e do piloto chefe e ainda a anulação de sanções e de faltas injustificadas aplicadas pela administração da TAP" e para isso usam a greve, se isso for verdade julgo haver um abuso de um direito. Mesmo que a greve seja legal. Aliás, não é inovador este uso da greve para tentar impor decisões de gestão e, mesmo, cortar cabeças dentro de uma empresa. Assim se deslegitima um direito, porque a maior parte das pessoas não reconhece que a greve deva servir para isso. Quero dizer: mesmo as pessoas que apoiam o direito à greve. Afinal, só a esses importa se o direito é ou não deslegitimado, desvitalizado, por usos impróprios.


26.6.12

o roubo dos gravadores.

16:16

O Público noticia que o deputado socialista Ricardo Rodrigues foi condenado a 110 dias de multa de 45 euros por dia, por ter sido "considerado culpado no caso do roubo dos gravadores aos jornalistas da revista Sábado".
Acontece que Ricardo Rodrigues não foi julgado em nenhum "caso do roubo dos gravadores", apesar de os habituais contadores de estórias insistirem nessa versão. Para qualquer pessoa que tenha investido dois segundos a pensar na questão, é claro que nunca esteve em causa o roubo dos gravadores. E o deputado não foi sequer julgado por tal suposto crime. Apresentar o caso como "o roubo dos gravadores" faz parte de uma estratégia dupla: vender mais (falsa) informação e fazer mais mossa política no partido de Ricardo Rodrigues (na altura dos factos, fazer mossa ao governo Sócrates).
Ricardo Rodrigues foi julgado por atentado à liberdade de imprensa: por causa dos efeitos que, supostamente, obteve por ter levado consigo os dois gravadores. Porque com essa sua acção teria tentado impedir a publicação de declarações suas. E o deputado reagiu assim, na altura, por ter sido obrigado a voltar ao tema da acusação de pedofilia que lhe tinha sido dirigida, apesar de nada justificar o regresso a esse tema depois de ter sido ilibado. De boa-fé, a questão está em saber se um político injustamente enxovalhado - de novo - numa entrevista, tinha ou não o direito de reagir atacando os meios de trabalho dos trabalhadores da informação. O tribunal considerou agora que não.
Pode julgar-se que Ricardo Rodrigues foi tolo em ter agido daquele modo. É a minha opinião. Mas tem de compreender-se que reagiu assim por estar a ser assediado com uma velha história, uma invocação a despropósito que só podia visar sujá-lo sem justificação, diminui-lo moralmente e impedi-lo politicamente. Voltar a afirmar, num "jornal de referência", que ele foi condenado no "caso do roubo dos gravadores", quando nem sequer foi julgado por qualquer roubo de gravadores, só pode ser má-fé. E, quando está realmente em jogo uma questão relativa ao equilíbrio da liberdade de informar com outros direitos das pessoas, um jornal decente deveria ter mais cuidado na forma como apresenta o caso - até por ser, indirectamente, parte interessada.
Bem sei que vir aqui emitir opinião sobre este caso, sem aproveitar para morder as canelas de Ricardo Rodrigues, só vai atrair a raiva ou o desprezo de muitos leitores. Desde logo, os que estão sintonizados com os que bradaram, na altura, contra o "roubo". Tal como então, não me guio pela (im)popularidade esperada da minha posição. Guio-me pelo que julgo ser o meu dever de não embarcar nas evidências enganadoras das certezas propagandistas.