22.6.12

coisas que desgraçam uma democracia.

um pequeno delírio sem factura.




Estamos já todos encharcados de piadas "subtis" explorando a coincidência terminológica entre o Euro (moeda, zona monetária) e o Euro (campeonato europeu de futebol), com as para-notícias de que o país tal saiu do Euro, que este empurrou aquele para fora do Euro, que o Euro acabou para... Agora, há uma concentração de atenção no mata-mata de hoje entre a Alemanha e a Grécia, que vai muito para lá da solidariedade portuguesa com o treinador Fernando Santos da equipa grega ou do despeito português contra uma Grécia que nos roubou (supõe-se que injustamente, atentos os méritos relativos) a possibilidade de sermos campeões europeus em festa recente, ainda por cima organizada por nós. Já há quem peça ou anseie por uma solução cósmica, querendo umas meias-finais apenas para PIGS (países aflitos, descarada ou encobertamente, contando Portugal, Espanha, Grécia e Itália). Enfim, com este Euro "a poesia está na rua" (que a poeta me perdoe o abuso).
Tudo isto para dizer o quê? Vejam bem que não há só realidades brutas ao cimo da Terra; que o simbólico por vezes toma o freio nos dentes e produz discursos que pelos séculos dos séculos se tornarão cada vez menos escrutináveis pela antropologia positiva; que encontramos, uma vez ou outra, um descanso momentâneo num pequeno sono da razão. Deliramos e, por uma vez, não ficam cicatrizes: assim espero, para o momento de acordar.

21.6.12

premiar a mentira.

11:19

No caso das pressões do (ainda?!) ministro Relvas sobre o Público, a ERC não encontrou ilícitos, embora tenha visto comportamentos do ministro susceptíveis de reprovação nos planos ético e institucional. Mas isso a ERC deixa para outrém, não se sabe quem.
É notável que a ERC só tenha dado por provados os factos acerca dos quais as partes concordam que tiveram lugar, como afirma a directora do Público. Dito de outro modo: se assim foi, tudo aquilo que Miguel Relvas tenha feito, mas tenha dito que não fez, não havendo outro tipo de prova conclusiva, é dado como não provado. Aparentemente, a maioria dos membros da ERC renunciaram a um juízo de credibilidade das declarações dos vários intervenientes. Ora, como já se tornou evidente que Miguel Relvas tem usado a mentira para se furtar a um juízo cabal do seu comportamento, tendo até mentido ao Parlamento (em condições consideradas sob juramento), o método seguido pela ERC significa apenas isto: beneficiar o infractor. Aliás, a própria deliberação da ERC inclui a constatação do mentirismo de Relvas: o ministro mentiu repetidamente sobre circunstâncias factuais relevantes (sobre a insistência nos telefonemas para o jornal), tendo de ser desmentido por outras vias (registos de chamadas).
Sendo assim as coisas, a ERC premiou a mentira. Contudo, todo o país percebeu o que se passou. Todo o país menos o primeiro-ministro. Será que PPC também escolhe premiar a mentira?

19.6.12

a nova carne.


Há já algum tempo, a filósofa Ana Paula Sena Belo escreveu um texto em que interroga alguns aspectos do meu livro “Das Sociedades Humanas às Sociedades Artificiais”. Comecei há tempos a dar elementos para uma reflexão conjunta sobre as questões por ela suscitadas. Prometi voltar a outros aspectos da interrogação, mas tem-me faltado o tempo para a fala que me falta neste diálogo, aquilo que referi como "a nova carne". Entretanto, fizeram-me notar um vídeo que aborda uma parte substancial do que eu queria dizer com essa expressão. Playing God. Vim aqui para o mostrar.



(Podem activar-se as legendas em inglês no botão CC da janela do vídeo)

18.6.12

só há democracia a sério quando houver...

somos todos gregos. e os gregos, são todos gregos?

14:43
Eduardo Torassa, La Furia del Crepusculo


1. A Nova Democracia, a direita grega cujas aldrabices foram a causa próxima da actual crise naquele país, ganhou as eleições de ontem. O crime compensa, portanto. Neste caso, beneficiar o infractor passou por um problema que é hoje em dia corrente para os socialistas europeus: os socialistas não representam os mesmos interesses, nem a mesma base social, que a direita, pelo que, quando aplicam as mesmas políticas que a direita, pagam um preço muito mais alto por isso. O PASOK foi tirar do lume as castanhas que a Nova Democracia tinha lá colocado, mas, nessa altura desacompanhado no resto da Europa, não conseguiu inventar margem de manobra para uma receita menos brutal socialmente – e assim se tornou uma das principais vítimas da situação. Por muito que custe dizê-lo, é saudável que assim seja: se partidos diferentes fizerem as mesmas políticas quando chegam ao governo, isso constitui uma fraude à obrigação que a democracia tem de oferecer alternativas ao eleitorado. Esta é uma lição que não serve apenas para a Grécia.

2. Parte do sucesso da Nova Democracia é o preço pago pelo medo à coligação Syriza, medo que muitos eleitores tiveram de uma força política que, como muita da esquerda que por aí anda, é boa a protestar mas menos boa a explicar o preço a pagar pelas soluções radicais, menos boa a falar concretamente acerca dos seus reais planos de governação. Hoje, é preciso um debate democrático, quer dizer, um debate em que todos colocam em cima da mesa uma avaliação das consequências expectáveis das suas propostas, uma estimativa de custos e sofrimentos associados. Em geral, os proponentes das saídas mais radicais esmeram-se a apontar os defeitos dos planos dos outros, mas cuidam menos de explicar o dia de amanhã no caso de aplicarem as suas próprias receitas. Curiosamente, entre a esquerda portuguesa, as teses acerca da saída de Portugal do Euro acalmaram um pouco depois de Louçã ter co-autorado um livro cujo primeiro capítulo explica bem o que isso poderia acarretar. A Syriza amedrontou muita gente precisamente por pedir um voto de ruptura sem apresentar ideias claras acerca do que fazer a seguir. A sua reacção inicial aos resultados, recusando à partida entrar para um governo se não for o seu governo, só justifica o medo que provocou em muitos eleitores, apesar de ser mais ou menos evidente que qualquer governo vai tentar obter dos financiadores melhores condições para o país.

3. A estratégia da pureza – os bons contra os maus, os puros contra os impuros, os limpos contra os sujos – continua a ser a marca de uma radical incompreensão. A radical incompreensão de que a democracia não é uma procura da linha absolutamente justa (como é o caso de regimes teológicos). A radical incompreensão de que a democracia só pode ser a procura, em situações historicamente concretas, da melhor combinação possível dos interesses em presença – não segundo um critério dogmático, exterior ou superior, mas a melhor combinação possível segundo os critérios dos próprios interesses em presença. É, por isso, de aplaudir a proposta do grupo dos Socialistas e Democratas no Parlamento Europeu, que apelou a uma grande coligação na Grécia, incluindo a Syriza. Em certos momentos, o conteúdo do que se pode fazer é indissociável da combinação de forças que são chamadas a participar. É este o momento para perceber isso – e é também o momento para saber se a chamada esquerda radical grega percebe o desafio. Isso interessa-nos, por todas as razões: por sermos europeus, por sermos de esquerda.

4. Quer isto dizer que a Syriza deve esquecer o seu eleitorado anti-austeridade? Não; os eleitos devem representar quem os elegeu. O que isto quer dizer é que há uma grande diferença entre insistir num objectivo ou insistir em que tenha de usar-se o nosso próprio método para avançar em direcção a esse objectivo. Uma coisa é firmeza, outra coisa é sectarismo. A firmeza é necessária à salubridade da democracia; o sectarismo é o seu coveiro. E vai nisso uma grande diferença.


17.6.12

o significado da vitória dos socialistas franceses.

22:51

No dia de todos os euros (futebol, França e Grécia), o mais relevante para o futuro foi o que se passou em França. (Na Grécia, a direita trauliteira, o partido que mais directamente contribuiu para espoletar a crise, chega à frente com um alívio incompreensível de alguma esquerda surpreendente - mas disso falamos depois.)
É importante para a Europa que haja um farol de uma alternativa, uma força que chega ao poder (em condições de governar) sufragada para fazer diferente, com apoio popular para alguma coisa que não seja austeridade recessiva em nome das contas certas. A Europa não poderia sobreviver com uma total ausência de alternativas políticas ao pensamento único, com uma visão unanimista acerca do caminho a seguir. Uma democracia (e a Europa é um espaço democrático, mesmo que a arquitectura institucional não facilite a compreensão desse ponto) - uma democracia precisa de gerar alternativas no seu seio, debate, comparação. A vitória segura do PS, e dos seus aliados, em França, garante esse pluralismo real (e não apenas potencial) de que a UE precisa para não perder a alma - e as funcionalidades básicas.
Claro que só agora começa o exercício: ninguém tem soluções de êxito garantido, está tudo por reinventar, incluindo o método comunitário, tão atropelado nos últimos tempos, mas mais do que isso ainda precisamos políticas novas capazes de conciliar rigor, equidade e crescimento. Tudo pode ainda correr mal, mas a França, como ponto de esforço de uma tentativa de fazer diferente, dá uma certa esperança de que não se morra por pura acomodação à ideologia do austeritarismo.

O treinador Fernando Santos não vai ganhar as eleições gregas.

17:20

Vejo por aí que já há uma leitura bem comportada para o resultado das eleições gregas: se a Syriza não ganhar é porque os gregos foram amedrontados pelos alemães e outros maus da fita. Presumivelmente, se ganhar a Nova Democracia, os gregos serão uns cobardes que se deixam amedrontar. Que bizarra visão da democracia!

Será assim tão simples? Não haverá nada a dizer sobre o facto de que a coligação Syriza, além de ser um saco de gatos que pode ter dificuldade até em se entender internamente, na verdade não explicou nada bem o que vai fazer com o rasgar do memorando com a troika se ganhar as eleições? É que isso pode indicar que mesmo eles não sabem o que hão-de fazer se o puderem fazer...

Tenho simpatia pelos que tentam encontrar uma alternativa às actuais políticas dominantes na Europa, principalmente quando só há hipóteses de sucesso em caso de a Europa agir em conjunto. Mas não tenho simpatia nenhuma pela ideia de que é fácil fazer isso, nem pela ideia de que estar contra é o mesmo que ter alternativas viáveis.
Defendo que os gregos, como todos os outros, têm tanto direito à escolha democrática como os alemães ou os holandeses; e sou contra a tentativa de prejudicar o debate interno na Grécia; mas estou firmemente convencido de que ninguém tem a saída ideal para os gregos ou para os europeus em geral. Em qualquer caso, vai ser preciso negociar e continuar a aproximar posições depois das eleições. É por isso que estou convencido que servirá melhor a Grécia o partido que seja mais capaz de continuar a reduzir o fosso interno após as eleições, não o partido com mais ideias feitas acerca do futuro próximo: é que "conhecer o futuro" quando o futuro está em aberto, pode ser boa magia, mas é certamente má politica. Creio, aliás, que a Syriza percebe isso melhor do que muitos dos seus apoiantes lusos.