9.9.11

a habitual finura do senhor fernandes.


No seu artigo de hoje no Público, José Manuel Fernandes expõe, pela enésima vez, uma das muitas teorias que resultam da ideia de que a actual crise é mero produto do mau comportamento de certos países gastadores e de que os mercados, a coisa que historicamente mais se aproxima do ideal de racionalidade, apenas expressam a natureza da realidade. Nada de surpreendente, pois. Não deveríamos espantar-nos por Fernandes usar todos os recursos a que pode deitar mão para defender a sua dama - neste caso, o ministro Gaspar. Mas, confesso, ainda consegui surpreender-me por JMF atacar as opiniões de Mário Soares chamando-lhe velho. O artigo promete desde o título, que é "O mundo de Mário Soares acabou, e ele ainda não deu por isso". Mas a baixeza torna-se bastante mais clara quando JMF caracteriza certas declarações de Soares escrevendo: "este último raciocínio sintetiza o drama - e o desfasamento com a realidade - de um político a caminho dos 87 anos como é Mário Soares". O ministro Gaspar ainda poderá ter a desculpa que o próprio Soares lhe arranjou: ser um político ocasional. Fernandes, um político a tempo inteiro há muitos anos, apesar de nunca assumir essa condição, nem a frescura pode invocar como desculpa para tamanha boçalidade.

um luxo.


Tentei arranjar uma maneira mais prática de vos dar a ouvir este som. Só consegui assim. Aproveitem. É Todd Levin, álbum De Luxe, com a London Symphony Orchestra.


8.9.11

valter hugo mãe, "gordo e careca"

a estupidez do acaso.


No blogue OutofWorld – Mundo à Parte, ontem foi colocado um post triste: uma fotografia e a frase "Hoje o pai dos meus filhos faria 48 anos".
Um daqueles comentários automáticos, que andam à caça de público sem nada quererem dizer ao que está escrito, caiu na caixa de comentários: "That’s pretty exciting news and I really hope more people get to read this."
Que este acto de spam tenha caído como comentário àquele post exemplifica uma tese bastante ampla: o acaso pode ser bastante estúpido.
Não te deixes empurrar, na relação com os outros, pelo acaso.

a visão europeia de angela merkel.


(Cartoon de Marc S.)


escolhas de seguro.

The 9/11 Tapes.


A selection of audio recordings from the Federal Aviation Administration (F.A.A.), North American Aerospace Defense Command (Norad) and American Airlines from the morning of Sept. 11, 2001.

Áudio com transcrição simultânea.

É preciso esperar um bocadinho para carregar o áudio. Depois... sinta a situação, num grande documento.

7.9.11

para além da novela das nomeações

12:26

A novela das nomeações não larga este governo. É que parece que o cadastro não contém tudo o que a realidade comporta; é que um ou outro super-salário, para um ou outro super-ajudante (que, coitado, se está a sacrificar pela coisa pública) não se coaduna nada com a imagem de austeridade que se quer vender; é que o "pouco" não é assim tão pouco como isso; é que a permanente invenção de grupos de trabalho se vê mais do que os cortes nas gorduras que antes das eleições estavam muito bem estudados e agora não há meio de passarem à prática.
Parece-me que boa parte do "escândalo" feito em torno destas coisas, especialmente na blogosfera e nas "redes sociais", é apenas palha. O Estado, como a generalidade das organizações, é uma coisa muito mais complicada do que as pessoas estão preparadas para admitir e, para a fazer funcionar, são precisos meios, nomeadamente pessoas. Sem as tais "nomeações", a máquina, tal como está, emperra. Claro que o circo em torno das nomeações é a justa recompensa por o PSD e o CDS terem, quando estavam na oposição, alimentado um discurso demagógico-populista nestas matérias: quem com ferros mata, com ferros morre; viram-se contra este governo, agora, os disparates que os seus responsáveis disseram no passado, em troco de mais uns fuminhos de escândalo que empurrasse a água para o seu moinho. Nada de mais natural.
Contudo, o essencial continua por questionar. O que é preciso é mudar a relação entre o governo e a administração pública. Não é com múltiplas comissões e com regras de concurso muito manhosas, destinadas a legitimar tudo, que vamos passar a ter dirigentes de topo que não funcionem como paus mandados do governo de turno. Que haja ministros a pedir a pessoas bem escolhidas para se candidatarem a certos lugares, sem se esquecerem de fazer o pedido também a alguns militantes do PS, pode vir a servir para uma certa cosmética, com certeza, mais não vai resolver nenhum problema de fundo. Porque o podre está mais fundo.
Por exemplo, para que serve ser director-geral num ministério, hoje em dia, se um jovem turco qualquer, aboletado num gabinete governamental, dá ordens ao director-geral, em nome do governante ou simplesmente em nome da sua proximidade ao governante, como se o director-geral fosse um moço de recados? Ninguém, com o currículo que deveria ter um director-geral, está disposto a candidatar-se a um lugar desses para aturar essa dependência e essa subalternidade, para já não falar na falta de educação de alguns moços e moças de gabinete.
Para dar a volta a isto, e acabar com as novelas, é preciso agir em dois sentidos.
Por um lado, definir, a par das missões de cada organismo dentro da administração, as responsabilidades próprias e inalienáveis dos respectivos dirigentes, de tal modo que as suas competências não possam ser atropeladas pela fauna de adjuntos e assessores, garantindo legalmente que só possam ser removidos no caso de incapacidade para exercerem os seus mandatos. É preciso, ao mesmo tempo, impedir que se usem grupos e empresas e institutos para esvaziar as competências dos órgãos próprios da administração. Entendo que, na generalidade dos casos, não é preciso ter dirigentes da cor do governo para que a administração cumpra com as suas missões, basta ter profissionais da coisa pública que sejam competentes. Deve continuar a caber aos governantes governar, mas a continuidade da administração e a permanência dos interesses fundamentais do país e do Estado não se esgotam na política do momento (embora os políticos pensem, amiúde, que vão fazer um mundo novo de raiz e tenham a tentação de deitar fora o que está quando chegam). Com o tempo, por esta via, chegaremos a ter grandes dirigentes da administração que os governos respeitem e não tentem contornar com grupos de trabalho, assessores, adjuntos, pareceres externos ou consultores.
Por outro lado, reduzir ao mínimo a fauna dos impedidos que cercam os governantes. Para cada ministro ou secretário de estado, dependendo dos casos, uma ou duas secretárias, um ou dois assessores ou adjuntos, um carro e um motorista apenas para uso oficial e partilhado com os membros do gabinete se necessário. E, quanto ao resto, trabalhem com a administração. Se assim for, precisarão realmente de dirigentes que façam o seu trabalho - não que sejam seus correlegionários políticos, mas que lhes dêem os elementos que permitam decidir politicamente e, depois, sejam capazes de fazer aplicar as suas decisões.
Nada disto é para dizer que foi o actual governo que criou o pântano actual. Nem foi o governo anterior. Este estado de coisas vem de muito longe, com responsabilidade partilhadas, mais ou menos equitativamente, por PS e PSD. Num processo de degradação que começou durante a primeira maioria absoluta de Cavaco Silva, já lá vão muitos anos. Nada disto é, tão pouco, para dizer mal, individualmente, dos actuais membros de gabinetes e aparentados, nem dos actuais dirigentes, nem dos antecedentes: admito que, na sua maioria, façam o que, individualmente, se pode fazer nestas circunstâncias. O que é preciso é mudar as circunstâncias, para não voltarmos sempre à mesma novela quando mudam os governos.

procuro central de comunicação que, por bom preço, me mantenha actualizado para não ter de aturar o MN.


Um elemento essencial do meu post "o guião" era uma notícia, que entretanto foi desmentida. O caso das facturas do IDP terá, então, ainda de ser esclarecido.
Isso não tira nada ao resto do post: no caso da Parque Escolar, o ministro Crato está a tentar enlamear os seus responsáveis, usando o método de anunciar uma auditoria, quando poderia esperar pelo Tribunal de Contas, que já está a verificar se aconteceu alguma coisa estranha ou não. Mas, para a política de implosão do ministro Crato, o calendário tem de ser apressado, daí o anúncio da auditoria. Afinal, talvez também poupasse dinheiro se esperasse pelos resultados do Tribunal de Contas...
Que eu ainda não tivesse visto a notícia desmentida - e, portanto, não tivesse corrigido o meu post - não devia autorizar extrapolações apressadas, como esta. Não sei se o Miguel Noronha passa o dia todo a ler notícias ou desmentidos, podendo assim estar sempre na linha da frente das actualizações. Eu não posso, nem quero, fazer isso: tenho mais que fazer. Não sendo, tão-pouco, alimentado por qualquer central de comunicação, escapam-me alguns desenvolvimentos de coisas que me interessam. Fazer teorias à la Noronha por tão pouco... enfim, é um estilo - que, certamente, vende mais que o meu.

6.9.11

neste caso Cavaco tem razão.

16:19

Escreve o filósofo João Cardoso Rosas:
"ao contrário do que acontece quando alguém constrói uma fortuna, ninguém tem qualquer mérito por ter nascido numa família rica. As circunstâncias sociais do nosso nascimento são, como se costuma dizer, "moralmente arbitrárias". Por isso os herdeiros não merecem a sua herança e, quando essa herança vai para além de um património razoável que é lícito que os pais queiram deixar aos filhos - por exemplo 500.000 euros, ou mesmo um milhão de euros -, então é da mais elementar justiça que esse património seja taxado."

Por isso, explicita, o PR tem razão quanto à re-introdução de um imposto sobre heranças.

E lembra:
"um imposto deste tipo existe na maior parte dos países, incluindo naqueles que servem de modelo ao actual Governo. A abolição do imposto sucessório em Portugal - um escândalo num dos países mais desiguais da Europa - só foi possível pela insistência de Paulo Portas, o verdadeiro autor do argumento de que ao taxar as heranças estamos a taxar os mortos. Não é verdade. Estamos a taxar herdeiros que não têm moralmente direito àquilo que herdaram e que, na maior parte dos casos, irão desbaratá-lo."

Por mim, o ponto não está no desbaratar. (O desbaratar é outro problema.) Mas, no essencial, o filósofo está a tocar no nervo.

O texto de João Cardoso Rosas está aqui: Taxar os ricos. Encontrei-o graças a João Rodrigues.


Supplement to Hegel’s judgment concerning man.


A philosopher has never looked a man directly in the eyes. The philosopher is the man who turns his eyes away to look man in the eyes: he is a man with a distorted gaze. The philosopher misrecognizes the immediate for he himself is not immediate.

Integral.

os milagres têm uma tendência persistente para não acontecerem.


Quem acredita na política bem feita (informada, participada, séria, concertada) não precisa de acreditar em milagres. Acredita antes em outras virtudes cívicas. Escrever assim é uma virtude cívica: O "milagre sueco" não aconteceu, por Hugo Mendes.

forte apache.

10:50

Não tenho nada contra blogues que defendam ideias muito diferentes das minhas. Nem sou pessoa de começar a disparar contra um blogue novo só por causa de peripécias risíveis na sua genealogia. Mas, confesso: a ideologia implícita no título Forte Apache, já para não falar na estética com que se apresenta, afastam-me instintivamente daquele espaço. Há muitos muitos anos que passei dos livros de cowboys para bandas desenhadas menos maniqueístas. Também por razoes estéticas.

o guião.


O guião é simples.
Primeiro, uma acusação.
Relvas denuncia facturas "escondidas" de seis milhões de euros: Ministro-adjunto e dos Assuntos Parlamentares diz que os documentos estavam escondidos numa sala do Instituto de Desporto.
Quando se descobre que a acusação era uma calúnia (ou seria apenas incompetência do acusador)
A montanha pariu um rato. Afinal as facturas por pagar são 40, as outras 687 encontradas por Miguel Relvas já estão pagas. As 40 estão por pagar por estarem em processo de auditoria, por levantarem dúvidas.
o acusador fecha-se em copas, fugindo às desculpas que devia apresentar publicamente se fosse pessoa decente.
Entretanto, a atoarda já terá feito o seu caminho, esperam os inventores deste guião.
Por isso, o guião continua em aplicação.
Levantam-se suspeitas:
Governo pede auditoria à empresa que gere a requalificação de escolas.
(O truque é jogar com a suspeição que vem associada ao termo "auditoria".)
Quando se verificar que a auditoria não mostrou nada de escondido, o Ministro continua para outra estação.
Neste caso, percebe-se: se Crato queria implodir o Ministério da Educação, deve ser-lhe aborrecido que andem a fazer escolas do futuro no perímetro da escola pública.
Podia era assumir isso como um prurido ideológico, em lugar de seguir a estratégia de tentar lançar lama sobre os que servem a comunidade escolar.

Adenda: aqui.

5.9.11

innuendo

Porque Freddie Mercury faria hoje 65 anos.



dúvidas todos temos (menos aquele que bem sabeis)

14:26

O governo PSD/CDS partiu para esta legislatura com uma vantagem política inestimável: o Memorando de Entendimento agarrava o PS a um acordo com os financiadores internacionais, o qual, por pior que fosse (e bom não é), não podia ser levianamente desrespeitado por Portugal, sob pena de o descrédito nos custar caro. Querendo ser credível como alternativa de governo, o PS não poderia simplesmente fazer de conta que ignorava esse factor: a sua parte de responsabilidade no passado recente. O governo, alardeando (pela voz do PSD) querer ser mais troikista que a troika, sem pensar no sangue que isso custa, ajuda o PS a desembaraçar-se desse laço. Ainda estou para ver o que é que o governo - e o país - ganham com isso.

referendos.


Alberto João Jardim recrutou recentemente António Barreto para a ideia de que a Constituição deveria ser referendada. Nada de novo: é o apelo ao golpe de Estado, para contornar as maiorias definidas para decisões básicas numa comunidade política civilizada. Com mais ou menos paleio pelo meio, o apelo referendário é isso.
A ideia de que um tratado da União Europeia só seria legítimo se fosse referendado é do mesmo calibre.
(Não cito posts onde podemos ler essa tese, por serem muitos mesmo.)

eles não sabem nem sonham.

4.9.11

acho que não contaram a história toda ao PM.


Uma pessoa, para viver com saúde mental no seu país, tem de acreditar minimamente nos seus líderes. (Bom, líderes, líderes, é exigir de mais. Nos governantes de turno, vá.) Para isso, tem de admitir que o "chefe do executivo" não é um aldrabão de feira, que o homem não andou em campanha a prometer coisas que não fazia ideia nenhuma se podia fazer, que não andou a dizer mal dos outros e a convencer-nos que sabia muito bem como fazer melhor - quando não fazia ideia nenhuma do que andava a dizer e estava apenas a querer "ir ao pote". Uma pessoa tem de guardar uma réstia, pelo menos uma dúvida, antes de ir pela narrativa pior. Nas actuais circunstâncias, isso só é possível se acreditarmos piamente que Passos Coelho foi embarretado, que lhe deram os números gatados, dossiers técnicos preparados pela santa da Ladeira, que não lhe contaram da missa a metade.
Se calhar disseram-lhe que tinha direito a estátua e tudo - e agora descobre que tem de subir ao pedestal pelos seus próprios meios. O que está a dar um espectáculo deprimente.

Philippe Ramette, The Instalation (Inner Public Square), 2011
(Fotografado no Centro Pompidou, Agosto 2011.)