14.5.11

tesourinhos da decência nacional

Parece que o jornal Público agora tem um sistema para filtrar comentários. Parece que o objectivo é que só sejam publicados comentários decentes. Parece que o filtro é humano: jornalistas que lêem os comentários e só deixam passar o que é limpo.
Então, vejam este exemplo do que é limpo nos critérios do Público.
Comentário decente que passou o filtro humano do Público: "Só cá é que ninguém faz uma espera destas ao Pinóquio."
Um lamento, portanto. Que passou o filtro do Público.
Exemplar.



estão-se a afogar, os cachorrinhos

10:45


Andam por aí muitos alquimistas que julgam conseguir transformar uma mentira numa verdade pelo processo simples da repetição exaustiva. O ponto é central: dizem que Sócrates trouxe o país à bancarrota, à necessidade de pedir ajuda externa. Mas essa grande verdade é simplesmente uma grande mentira: quem empurrou materialmente o país para fora dos mercados foi a coligação negativa, liderada pelo PSD. Só depois do chumbo do PEC IV, declarada a crise política, Portugal deixou de conseguir financiar-se no mercado.
Cabe lembrar aos esquecidos que, após o chumbo do PEC IV por Cavaco + Passos Coelho + Louçã + Jerónimo + Portas + a senhora Apolónia:
- em menos de dez dias os juros da dívida subiram mais do que haviam subido nos três meses anteriores (subiram três pontos e meio);
- grandes empresas públicas de transporte foram classificadas pelas agências de rating como "lixo";
- os bancos portugueses ficaram praticamente sem acesso a financiamento externo, viram a sua "reputação" (rating) baixar para níveis assustadores, perderam 500 milhões de capitalização bolsista;
- o rating da República baixou cinco escalões;
- em poucos dias entre o pré e o pós chumbo do PEC IV, o juro a seis meses nos leilões de dívida pública subiu de 2.98% para 5.11% (um aumento de cerca de 70%).

Será a isto que se refere Catroga quando fala de responsabilizar judicialmente os políticos?

Quem empurrou o país para isto foi Cavaco, com o sinal aos rapazes de que era preciso passar à fase da rasteira (segundo a designação do conselheiro de Estado Capunho); foi Louçã, com uma moção de censura que serviu para a esquerda-mais-esquerda-não-há sinalizar à direita que alinhava no derrube; foi Passos Coelho, que decidiu lançar o país numa crise política para salvar a sua própria pele dentro do Partido. A coligação negativa empurrou o cesto para o poço e agora berra: "estão-se a afogar, os cachorrinhos".

13.5.11

o programa eleitoral IKEA

23:00

Pois. Houve tempo em que "o essencial" para o país era o Freeport; a licenciatura de Sócrates; o andar da mãe de Sócrates e as contas ignorantes acerca do mercado imobiliário, para acusar Sócrates de uma imundície qualquer; a sexualidade de Sócrates; os projectos de moradias de Sócrates; Sócrates que andava a espiar Belém.
Até chegaram a fazer uma comissão parlamentar para investigar se Sócrates tinha mentido, para se meter na cabeça das pessoas - mesmo que a comissão parlamentar não concluísse coisíssima nenhuma - que Sócrates é um mentiroso. Foi preciso Mota Amaral zangar-se com os seus correlegionários para o parlamento não fazer um uso perfeitamente abusivo de escutas.
Fizeram desse emporcalhamento da vida política nacional uma ferramenta da política do ódio, cimento essencial para a "esquerda da esquerda" e a direita poderem andar de braço dado como se não fosse nada de estrnhar. E isso passou por espectáculos degradantes como aquela coisa de sexta-feira à hora de jantar na TVI.
Nessas alturas muito menino bonito nunca se lembrou de que era preciso "falar do essencial". Até me lembro de um artigo no Expresso, de um tal Raposo, a gozar com o "respeitinho", quer dizer, a gozar com a ideia de que um mínimo de respeito deve ser... isso: respeitado na vida política.
E agora gostariam de, em nome do "essencial", ter uma comunicação social que desviasse os olhos do espectáculo do "programa eleitoral tipo IKEA": leve as peças para casa e monte você mesmo.

um retrato de campanha

22:26

(João Abel Manta)

O episódio da baixa da Taxa Social Única (TSU) é muito revelador do que se anda a passar nesta campanha.

Louçã, a esse propósito, acusa Sócrates de ser igual a Coelho por ambos terem subscrito o memorando de entendimento que prevê a baixa dos custos do trabalho. Louçã não parece nada interessado na lembrança de que, no passado, o PS recusou a insistente proposta do PSD para baixar a TSU - e, com a arrogância do costume, diz a Sócrates que este promete "lá fora" uma coisa e diz outra "cá dentro" (um toque de nacionalismo, não menos serôdio por ser subliminar). Louçã prossegue a narrativa de que, entre PS e PSD venha o diabo e escolha.

Sócrates assume (a contragosto, como eu o compreendo) que há aí um problema, por ser essa uma matéria que o governo não queria incluir no acordo, mas a troika impôs. Já se sabe: quem empresta o dinheiro que precisamos consegue, normalmente, impor condições. O governo não podia fazer de conta que Portugal teria o cacau sem ceder de modo nenhum às exigências dos emprestadores. Claro, Louçã está numa posição muito mais fácil: nem sequer reuniu com a troika, basta-lhe dizer que está contra tudo e ir propondo fundos de resgate que, eventualmente, acabariam por resolver o nosso problema daqui a alguns anos - quando a massa, a pasta, o canudo, o pilim é necessário já. Louçã, o valentão, estaria até capaz de exigir à troika que impusesse a co-gestão generalizada nas empresas portuguesas, como aproximação social-democrata a um futuro controlo operário da economia. Falar é fácil para quem não espera vir a ter de governar. O PS não está nessa posição, o que faz uma grande diferença.

Portas, que nas horas vagas gosta de fazer ar de estadista, talvez para irritar Coelho no seu ar juvenil, assinou o acordo com a troika mas diz que emitiu umas reservas - e que uma das reservas era sobre a possibilidade de baixar a TSU, porque isso se calhar não se pode fazer sem aumentar impostos. A troika está-se a marimbar para as reservas de Portas - e isso não muda por causa destes "momentos Louçã" de Portas, que são os momentos em que Portas faz de conta que, se for para o governo, pode fazer render as suas reservas ao memorando de entendimento.

Já Coelho assume em pleno o seu troikismo. Não só reivindica como sua a ideia de baixar a TSU, como quer que o PS mostre grande entusiasmo com a ideia. Coelho não percebe que Sócrates tenha sido obrigado a engolir certos aspectos do memorando por patriotismo, não por ideologia. Claro que Coelho desautoriza Catroga (não são nada 8% que eles querem baixar, são só 4%); claro que Coelho deita sempre água no vinho (serão 4% ao longo de 4 anos, sem dizer qual será o ritmo) - mas, no essencial, Coelho está contente porque a troika impôs uma ideia sua. É natural: Catroga reivindicou, no primeiro minuto, que o acordo com os emprestadores era o que era graças à boa influência do PSD. Embora, agora, Coelho esteja sempre a dizer que "o governo assinou o acordo".

Pois, é que há quem, nos momentos difíceis, se chegue à frente e engula a pílula. Foi o que fez o governo do PS. Nos mesmos momentos difíceis há sempre, também, quem se sente na bancada a dar palpites. Ou até a rir-se das dores dos outros.


um programa eleitoral on demand

21:51

Esta manhã, antes de sair de casa, ouvi na rádio uma história dos novos tempos.

Pedro Passos Coelho terá ido, ontem, ao lançamento de um livro, do qual é prefaciador. Um livro onde se falará de educação. Na sessão, o autor do livro queixou-se do programa eleitoral do PSD para essa área da governação. Queixava-se o autor de o programa do PSD ser demasiado parecido com o do PS. (Um notável critério político para traçar políticas, convenha-se.) Passos Coelho, em ode à interactividade instantânea que alguns pensam ser a marca do tempo que corre, prometeu, logo ali, repensar o dito programa eleitoral, para ir ao encontro das preocupações daquele autor. Penso que não terá chegado ao ponto de pedir a SC, o autor, que fizesse logo ali a revisão – mas também não sei quem, nem como, se disporá a rever o programa para o governo de Portugal em função de queixas que se vão ouvindo por aí em sessões avulsas.

O PSD inaugura assim um novo tipo de programa de governo: o programa “faça você mesmo”. Que deve ser, pelos critérios dos novos tempos, uma inovação à altura de um… Estadista (com maiúscula e tudo.)

("Isto" foi escrito hoje de manhã, aí pelas 9 horas, mas esteve congelado, porque o Blogger esteve uma eternidade de pantanas. Ou será de santanas?)

11.5.11

o bicharoco económico

17:15

Daniel J. Rankin abre um pequeno artigo, na Trends in Ecology and Evolution de Janeiro deste ano, intitulado "The social side of Homo economicus", com um ditado eslovaco que, segundo ele, reza assim: "Quem não rouba, rouba a sua família".

Anda por aí muito menino que pensa assim.

Machina Enxuta, número três

14:16

a Europa faz-se pagar


Bruxelas aprova ajuda a Lisboa com taxa de juro até 6%.
«Desde a decisão do Ecofin de Budapeste que, como o Diário Económico noticiou, ficou claro que o juro da primeira tranche não poderia ficar longe de 6%, mas a expectativa criada pelas declarações da ‘troika' em Lisboa foi de um valor mais baixo. »

Relativamente à informação que tinha anteriormente, isto é novidade. E das más. A "Europa" esforça-se muito por dar razão aos anti-europeístas.

>

10.5.11

Machina Enxuta, número 2,5

Amanhã há Machina Enxuta, número três.
Como aperitivo, deixamos aqui uma interessante deambulação linguística do Miguel Magalhães.



o enjeitado

21:34
Passos Coelho, no debate com Jerónimo de Sousa, repetiu várias vezes que o acordo com a troika "foi assinado pelo governo". Claro que foi assinado pelo governo - acompanhado da co-responsabilização política do PSD. Estar agora a sugerir que "isso foi coisa do governo" é pura aldrabice política: está a fazer de conta que não teve nada a ver com isso. Será que Passos Coelho já se esqueceu de que o seu ministro das finanças, Eduardo Catroga, praticamente reivindicou a autoria moral do memorando de entendimento?

'Negociação foi essencialmente influenciada' pelo PSD, diz Catroga.

Quem tem razão sobre a subida da dívida pública?

candidato a primeiro-ministro, que descaramento

Tenho visto que há por aí pessoas escandalizadas com o facto de Paulo Portas se considerar, ou ser considerado, candidato a primeiro-ministro. Parece que há quem julgue atrevimento. Claro, não há candidatos ao lugar de primeiro-ministro numas eleições legislativas, formalmente. Mas não será por isso que alguns se escandalizam: nesse caso teriam também de escandalizar-se por haver um candidato a presidente do parlamento. Parece que o escândalo vem de se achar que Portas é um atrevido, querendo "mudar de posição no pódio". Estou muito, muito longe politicamente de Paulo Portas. Parece-me, contudo, que nada há de mais legítimo do que um partido reivindicar que merece mais do que outro, seu concorrente, os votos de um certo eleitorado. Se não é para isso, para que servem as eleições?

Ética e Robótica no século XXI


Amanhã prossegue o Ciclo "Das Sociedades Humanas às Sociedades Artificiais", com a Conferência Ética e Robótica no século XXI, a ser proferida pela Prof. Isabel Ribeiro, Professora Catedrática no Departamento de Engenharia Electrotécnica e de Computadores, Instituto Superior Técnico, e Investigadora no Instituto de Sistemas e Robótica.

Hora e local: 11 de Maio, 17:30, Anfiteatro do Complexo Interdisciplinar do Campus Alameda do ISTécnico.


Mais informação (nomeadamente resumo da conferência e localização), clicando nesta ligação.

Entretanto, para irem pensando nestas coisas, fica um pequeno vídeo.


9.5.11

a resposta finlandesa



Não sou nada adepto de nacionalismos, mas acho normal um positivo orgulho nacional. Não vejo grandes razões para algumas críticas que por aí andam ao vídeo "de Cascais para a Finlândia", embora pudesse ter mais destinatários. Ou destinatários mais específicos. É uma forma de lembrar alguns factos que, se calhar, mesmo a alguns portugueses esquecem. E não me parece que seja ofensivo para os finlandeses. Entretanto, a resposta finlandesa ao vídeo português é fraquinha. Em particular, é mais curta. É natural: eles andam por cá, como país, há muito menos tempo. E, na verdade, fizeram menos coisas verdadeiramente grandes. No todo, os dois vídeos são uma boa peça de conversa intra-comunitária, se calhar mais eficaz do que muita propaganda oficial.