24.9.10

orçamentar rima com roçar, não rima?

14:24

Um país onde, num momento de crise, o governo e o principal partido da oposição fazem rondas negociais sobre o Orçamento de Estado na comunicação social - é um país que poderia ser governado pelo Manuel João Vieira. É um país que roça a indigência política - a completa ausência de noção da "coisa comum". É um país onde a principal prioridade política começa a ser dar lições de falhanço institucional à maioria esmagadora dos nossos representantes. Sim, porque eles são nosso representantes!

a coragem dos cobardes é questão de conversa. ou será antes assunto de oportunismo?

14:14

Manuel Maria Carrilho tem um truque velho: tenta prevenir qualquer substituição num cargo público fazendo declarações que possam ser consideradas discordantes. Depois, quando a substituição mostra que em república não há cargos vitalícios, explicita a tese: fui despedido por causa da discordância. Se fosse assim tão corajoso teria saído pelo seu próprio pé, quando o governo o mandou votar na UNESCO uma pessoa que ele considerava indesejável. Em vez de se fazer substituir no levantar do braço, mantendo-se no cargo apesar de "radical discordância", teria mostrado a coerência das convicções terminando a sua missão de representar "gente que o manda fazer coisas infames". Mas isso não iria de acordo com o seu fito: manter-se. Para se manter, vale tudo. Agora, arriscar o lugar pela tal verticalidade de posições, isso já é outra história.

23.9.10

por qual razão certa imprensa se acha no direito de mentir descara e propositadamente, só para fornececer notícias mais picantes?



O Diário de Notícias coloca esta "notícia" na sua primeira página e dá-lhe desenvolvimento no interior. A notícia é falsa. Para saber que a notícia é falsa bastaria saber quais são as competências dos diferentes comissários europeus e o que têm andado eles a fazer. O Comissário Janusz Lewandoski vem a Portugal para discutir as perspectivas financeiras da União Europeia pós-2013, e não o orçamento português (isso não é da sua competência). Lewandoski anda num tour des capitales (esteve recentemente na Lituânia e em França) para tratar do que lhe compete - e não do que inventam os jornalistas. A análise dos orçamentos nacionais dos Estados-membros compete a outro Comissário europeu, o dos assuntos económicos e monetários, Olli Rehn. Tudo isto um jornal "sério" tinha obrigação de saber - para não tentar enganar os seus leitores.
Se, além disso, o jornal tiver sido avisado previamente de que era falsa a informação que se preparava para publicar, tendo-a mesmo assim publicado, temos um acto de deliberada mentira ao público. Cremos ter elementos para ajuizar que foi isso mesmo que aconteceu. O que representa uma completa falta de respeito pelos leitores. Mas, claro, continua a haver quem entenda que "liberdade de imprensa" equivale a "deixa-os dizer tudo o que lhes passe pela cabeça".
Ainda se queixam dos blogues...


um humilde pedido público da caridade de uma explicação, já que eu, se Pessoa estava certo, sou como Jesus Cristo que não percebia nada de finanças

09:56


Custos da dívida portuguesa não param de aumentar. «Apesar de Portugal ter conseguido encontrar um nível confortável de procura nos mercados internacionais para as suas emissões de dívida, essas concessões de crédito estão a ser feitas a taxas bastante mais elevadas do que as que se registavam antes do início da crise.»

Bancos portugueses ajudam Estado. «Num cenário de dificuldades na obtenção de financiamento nos mercados, o Estado português tem contado com a ajuda dos bancos nacionais para resolver alguns dos seus problemas.»

Os juros dos empréstimos concedidos ao Estado têm aumentado. Mas qual é a dúvida? Espera-se que quem empresta dinheiro queira ganhar o máximo com isso. Os "mercados internacionais" - quer dizer, a meia dúzia de bancos e agências que fazem a "imagem" dos agentes económicos - manipulam o clima político para obterem mais dinheiro pelos mesmos empréstimos. Eu, o(a) caro(a) leitor(a) também gostaria de poder ter melhores taxas de juros na remuneração de algum dinheiro que pudesse investir. Se eu pudesse ameaçar o meu banco de inúmeras malfeitorias, às quais ele só poderia escapar se me aumentasse a taxa de juro em dois ou três pontos, eu teria assim uma maneira de ganhar mais uns trocos. Eu, tu, ele - não podemos fazer isso. Mas "eles" podem. A tal meia dúzia de "actores globais" do mercado da intoxicação mediática, política e financeira a nível global. Para quê? Para ganharem dinheiro. À custa de quem? Dos países que, à vez, são colocados na berlinda. Com a cumplicidade de quem? De quem defende as soluções políticas, a nível nacional e europeu, que facilitam esse jogo.
Entretanto, os bancos nacionais, bonzinhos, emprestam ao Estado. Vamos lá a ver se eu percebo. Graças à crise, o Banco Central Europeu empresta dinheiro aos bancos, em condições que eles não encontrariam no mercado. Os bancos, simpaticamente, emprestam ao Estado. Com juros superiores, claro, por ser esse o seu negócio. E nós achamos bem. Mas, então, por que não há-de o BCE emprestar directamente ao Estado, sem o intermediário dos bancos privados?
É um excelente argumento, a crise. Tenham caridade: eu, como o Jesus Cristo que Fernando Pessoa entendia, também não percebo nada de finanças. Expliquem-me lá, devagarinho, onde me enganei eu.

22.9.10

sacrifícios

leio nos astros que vem aí um momento da vida nacional em que vamos precisar de ter bem afiadas as nossas competências para falar em bom português


Almas puras, menores, gente com pouco conhecimento das variantes da língua portuguesa nos vários bairros das urbes do continente, incontinentes no riso, aflitinhos para ir à casa de banho, estudantes de hermenêutica filosófica - devem, por variadas razões, evitar ouvir esta peça.


(Sugestão da ATD.)

20.9.10

Paulo Manuel Bento Maria Carrilho


Isto é um desabafo sobre contratações.

Paulo Bento vai ser seleccionador nacional de futebol. Mas a Federação arranjou maneira de o embrulhar num manto de segunda escolha. Para isso, Madaíl foi a Madrid sugerir a um clube privado que nos devia emprestar o seu treinador para dar umas voltinhas enquanto não resolvíamos uma embrulhada doméstica. Os tipos fartaram-se de rir na cara de Madail, Mourinho piscou o olho à nação, mas a Federação acha assim que pode mais tarde vir dizer que já desconfiava desta segunda escolha.

Manuel Maria Carrilho vai deixar de ser embaixador de Portugal junto da UNESCO. Brada-se para aí que é um castigo por crime de opinião. Quando uma personalidade próxima do PS é nomeada para algum cargo, grita-se que é um favor político. Quando uma personalidade próxima do PS é removida de algum cargo, barafusta-se contra o saneamento. Se a personalidade for a mesma num e noutro momento, isso não impede que sejam os mesmos a gritar primeiro contra a ida e a barafustar depois contra a vinda. É um coro-Madaíl que se apossa das redes sociais e da blogosfera para a má-língua popular. Este país às vezes parece uma enorme Federação Portuguesa de Futebol.

Javier Marín, "trois par trois"


Escultura do mexicano Javier Marin, em exposição dentro e fora de museus em Bruxelas, desde os Musées Royaux des Beaux-arts e a Place Royale, passando pela Place des Musées, até ao Mont des Arts. São esculturas que, em alguns casos, revisitam peças clássicas do imaginário artístico ocidental com outros materiais (resina de poliester usada em abundância) e em escalas inabituais; enquanto noutros casos reinterpretam o imaginário do passado mexicano.
Ficam algumas das fotografias que lá fizemos.




a filosofia vai ao cinema