15.5.10

um mundo quase vazio (a Ana Paula e o Herbert Simon)


A Ana Paula Sena, do Catharsis, escreve:
«Supondo que tudo o que fazemos, e ainda mais, que toda a nossa acção, na medida em que possui uma intenção, tem efeitos na totalidade do Universo... »

O post que assim começa não tem necessariamente algo a ver com o que vou dizer a seguir. Ana Paula, não estou a fazer nenhum ataque enviesado ao que lá se escreve, mas queria só comentar aquela frase - porque ela contém um tópico muito repetido das perspectivas holistas.

Vou apoiar-me numa ideia de Herbert Simon, uma das mentes mais multifacetadas do século XX.

Herbert Simon (A Razão nas Coisas Humanas, 1983; 1989 para a edição na Gradiva), no quadro geral das suas teses acerca da racionalidade limitada (a racionalidade humana é fortemente cerceada pela situação e pelos poderes computacionais dos agentes), procura uma explicação para o facto de, mesmo assim, nos desenvencilharmos de forma razoavelmente eficiente da maioria das circunstâncias correntes da nossa vida. Porque é que, apesar de ignorarmos inúmeros aspectos que nos poderiam afectar em consequência das nossas acções, os nossos comportamentos ainda assim servem razoavelmente a nossa sobrevivência e os nossos propósitos? Pelo menos em parte isso deve-se ao facto de certas carências que são constantes nos organismos (como a respiração) estarem a cargo de mecanismos fisiológicos que dispensam a nossa atenção - bem como ao facto de dispormos de mecanismos (como as emoções) que garantem aos problemas mais prementes a prioridade na sua resolução.

Simon aponta, além disso, uma razão geral para que seja possível vivermos, com certo êxito, segundo este modelo de racionalidade limitada, que nos permite compartimentar a nossas decisões: "Vivemos no que se poderia chamar um mundo quase vazio - um mundo no qual há milhões de variáveis que em princípio poderiam afectar cada uma das outras, mas que não o fazem na maior parte das vezes". Esta concepção do "mundo quase vazio" é largamente coincidente com a ideia de Alfred North Whitehead, segundo o qual "a ampla independência causal de ocasiões contemporâneas é que preserva a margem de manobra no seio do Universo".

Qual é o interesse disto, de "um mundo quase vazio", "a ampla independência causal de ocasiões contemporâneas"?

Como eu vejo as coisas, o seguinte.

Num mundo determinista "denso" (por oposição a um "mundo quase vazio") deveria ser fácil para um agente "mudar o mundo": qualquer comportamento teria inúmeras consequências, identificáveis nas primeiras ondas de repercussão, com efeitos multiplicadores em inúmeras linhas causais atravessando o espaço e o tempo em todas as direcções. Na realidade, pelo contrário, inúmeros acontecimentos particulares são absorvidos pelo fluxo dos acontecimentos e não chegam a ter qualquer efeito, perdem-se, diluem-se nas interacções. Mudar o mundo é difícil e exige, em geral, doses massivas de insistência, mobilização, concertação, sustentação e direccionamento. Poucos acontecimentos particulares, ainda menos de um agente individual, chegam a estar na crista da onda e a tornar-se relevantes.

Ana Paula, não sei se o argumento colhe. Mas parece-me realista. E, o que é mais, para mim é um forte argumento anti-determinista (como expliquei neste texto).

esquerda, a novíssima e a eterna (*)


Esquerda antiga:
No pasarán.

Esquerda moderna:
No pasa nada.

(*) Título de um livro de José Fernandes Fafe, suponho que de 1985.

mais papistas que o Papa

Visto daqui (40°26′ Norte, 3°41′ Oeste, altitude média 667 metros) parece que o líder da Igreja Católica se foi embora de Portugal. Enquanto andou pelo meu país, li muitos mais papistas que o Papa. Gente zangada com tantas coisas que me parecem, mesmo que não as partilhe, coisas normais. Gente, por outro lado, a confundir o Papa com um Deus, um grave pecado de idolatria. E gente oportunista, ou a preparar futuras campanhas eleitorais à custa de tudo isto ou a fazer-se de muito católico quando ainda há tempos andava a maquinar "denúncias" contra instituições católicas. Confesso que me cansaram, os mais papistas que o Papa. Os de todas as cores.

as lágrimas

01:24

14.5.10

the Gringo Mask | imigração e racismo

17:30


Se tudo continuar como está, entrará em Julho em vigor, no Estado norte-americano do Arizona, nova legislação sobre imigração que criminaliza a situação de imigrante não regularizado. A nova lei permite também tratar como suspeitas as pessoas que tenham "aspecto de imigrantes". As novas regras foram consideradas racistas, na medida em que permitem diferenciar o controlo pelo aspecto, centrando-o nas pessoas que "parecem" não corresponder a um certo estereótipo de "cidadão".

Esta política racista tem merecido vivo repúdio de altos responsáveis e órgãos de poder nos próprios EUA. Agora, uma original campanha está em curso: a máscara de gringo. Se tem de passar pelo Arizona e teme ser apanhado sem os papéis todos em ordem, descarregue, imprima e recorte uma máscara de caucasiano e saia à rua protegido por ela.



mais um link com bola vermelha

15:08

quit hanging over me (oh, pú quê, a'tão | a'tão é ta'deiro)

15:04

Surfer Blood, Swim
roubado ao Pedro, ah pois



passos em frente


Pedro Adão e Silva, no Léxico Familiar:
(...) a mesma Europa, que defendia há um par de meses que a retirada precoce dos estímulos às economias produziria um efeito recessivo profundo, abriu as portas à possibilidade de intervir nos orçamentos nacionais, enquanto empurrava os países para um regresso em força à disciplina orçamental apertada. Por cá, onde a desorientação é o regime há vários meses, governo e PSD entenderam-se para assegurar definitivamente que o nosso ajustamento não assentará em nenhuma estratégia económica, mas numa recessão duradoura.
Na íntegra: A desorientação é o regime.

link com bola vermelha

13:23

serve a "europa" para algo?

Jorge Bateira, afinal, se calhar não estava a laborar tão no ar como alguns supunham, quando escreveu:
Grécia, Portugal, Espanha e Irlanda (com o apoio tácito da França), têm uma alternativa. Negociar em segredo uma posição colectiva e, daqui a uns meses, confrontar colectivamente Angela Merkel (entretanto enfraquecida politicamente) com a seguinte escolha:
(1) regresso ao projecto, prematuramente abandonado, de relançamento coordenado do crescimento europeu pelo investimento público e por medidas de apoio social (a financiar pela 'economia da droga', pelo sector financeiro e por uma taxa sobre as suas transacções especulativas, por tributação altamente progressiva e, como agora se decidiu, por monetarização da dívida pelo BCE); reforço substancial do orçamento comunitário e revisão do Tratado de Lisboa para expurgar a ‘constituição económica’ da sua implícita ideologia monetarista, ou

... (2) saída simultânea dos quatro países com reposição das respectivas moedas, acompanhada de reestruturação unilateral das respectivas dívidas, nacionalização da banca, controlo rigoroso dos movimentos de capitais de curto prazo … e, em consequência, falência dos bancos que detêm dívida destes países, com destaque para os bancos alemães.


11 and 12 | Peter Brook

10:14


Eleven and Twelve (11 and 12) é um espectáculo de Peter Brook, uma lenda do teatro, já nos seus 80-e-tal anos mas ainda a voar. O texto de base é o livro de Amadou Hampaté Bâ, Vie et enseignement de Tierno Bokar – Le Sage de Bandiagara (que está publicado na Seuil, colecção Point, 1980), adaptado por Marie-Hélène Estienne e pelo próprio encenador.


Eleven and Twelve foi apresentado, em Novembro e Dezembro de 2009, no Teatro Bouffes du Nord, de Paris. Já foi visto na Polónia e no Reino Unido e vai estar, ainda este ano, na Nova Zelândia, na Austrália, em Macau. Pode ver-se agora em Madrid, no âmbito do Festival de Otoño en Primavera (sala Naves do Español, no Matadero de Madrid).

Trata-se, neste espectáculo, de um questionamento da violência e da intolerância nos tempos que correm, mas a partir de um ângulo que nos surpreende de maneira pouco habitual. É que, magistralmente, partimos “apenas” da história de um homem simples e sábio, mas complexo: Tierno Bokar, que foi mestre do autor do texto. O lado do mundo por onde entramos é África (concretamente o Mali, visto por um homem educado em francês), tão dorida pelo colonialismo como pelas guerras intestinas entre tribos.

Aí, o mundo começa a complicar-se a partir de uma discussão sobre os números 11 e 12, por serem números com um significado teológico muito profundo numa dada cultura tradicional influenciada pelo sufismo (corrente mística do Islão). Rezar 11 ou 12 vezes uma dada oração? Apesar de Tierno Bokar ser completamente partidário da tolerância, para lá de quaisquer diferenças religiosas, daquela discussão nascem tais consequências que o conflito e o martírio vêm a contar-se entre elas. É que, apesar da sua tolerância, Bokar não era partidário do “Maria vai com as outras”: ele queria a discussão e pedia a Deus para, à hora da morte, ter mais inimigos do que amigos a quem tivesse sido indiferente. A procura da verdade pode ser uma procura filosófica, mas também pode ter consequências terríveis. E quem procura, por muito que pratique a tolerância, não pode fugir ao que julga ser correcto e tem de fazer face às consequências e às circunstâncias. Com tanto voo metafísico pela tempestade originado, as ondas de choques irão desde uma remota aldeia africana até às portas das grandes instâncias de decisão na Segunda Guerra Mundial. O que não espanta: se esse mar de ondas continua a abalar-nos a todos...

O espectáculo colhe profundamente nos nossos recursos intelectuais e emocionais, apesar da singeleza de meios com que se reveste. A história, verídica, é-nos servida com uma forma de contar tipicamente africana: com a sabedoria a tocar-nos no ombro pelo lado que menos se espera em cada instante - e com a aparente suavidade da relevância. Do ponto de vista da encenação, só nos é apresentado o essencial, a pequena noz das coisas importantes e intemporais, o núcleo duro da nossa contemporaneidade. Há quem diga, aliás, que há muitos anos que Brook deixou de alimentar a imaginação dos espectadores: vivem do que se lembram do fausto que ele lhes mostrou em tempos, mas que agora já não concede. O trabalho de imaginação deixou de estar no encenador para passar estar a cargos dos seus espectadores. Mas, afinal, nada nos pode enriquecer mais num espectáculo do que ele pedir tudo de nós. E, ao fim e ao cabo, a semente do problema que está em causa neste espectáculo - o fundamentalismo - é só palavras e ideias. Coisas que andam nas nossas cabeças. O sítio onde verdadeiramente toca 11 e 12. Na cabeça e nas tripas, claro.

Ontem foi a estreia em Espanha. Que sorte a nossa...

***

Deixo um vídeo da BBC sobre o espectáculo, com Peter Brooks a discutir o seu sentido.


13.5.10

europas há muitas (precisamos de mais esquerda europeísta)

Jorge Bateira, no Ladrões de Bicicletas:
«Antes que seja tarde, a UE tem de pensar o impensável: a subordinação da finança ao poder político e, rapidamente, dar mais passos em direcção ao federalismo. Menos do que isto não chega.»
Um conselho: ler na íntegra: Os especuladores são europeístas?

(O ponto é este: para estar na UE é preciso estar disposto a batalhas políticas pesadas, procurando aliados, juntando pequenas forças que incomodem os grandes, desafiando as situações que nos são inconvenientes, construindo alternativas. O governo de Portugal joga-se na UE, em grande parte. É assim que é preciso pensar. Posso até não estar de acordo com tudo o que diz o Jorge Bateira, que, a meu ver, comete o erro de isolar a questão económica de outras políticas. Mas, certo certo, é que é preciso encarar a frente europeia como a nossa batalha nacional mais importante. E, para isso, precisamos de mais esquerda europeísta; para isso, a esquerda que se limita a estar contra a UE - é inútil. Inútil, precisamente.)

votar na Merkel, olé

Paulo Pedroso, no Banco Corrido, e a propósito da UE ter imposto uma saída (?) para a crise que ameaça recessão em vez de crescimento, com o saboroso (para eles) sacrifício dos poucos Estados Membros governados por Partidos Socialistas, faz a seguinte pergunta: Posso votar contra a senhora Merkel nas próximas eleições?
Resposta: podes, Paulo, podes. Não no sentido em que falas, mas podes. Nas próximas eleições para o Parlamento Europeu podes votar socialista. Como desconfio que já tens feito. Tens é perdido, tal como eu. E, assim, continuarás a ter a Merkel, ou outras como ela; e o Barroso, ou outros como ele.
Acho graça (graça nenhuma, aliás) é àquela "esquerda" tonta que continua a achar que a Europa não serve para nada. Serve e muito. Para o bem e para o mal. Como se vê.

um cientista português no coração da Alemanha nazi


José Pedro Castanheira dispensa apresentações. (Pronto, é repórter principal no Expresso, jornalista premiadíssimo, autor de inúmeros bons livros que resultam do seu jornalismo de investigação à séria, criador de um texto que já foi levado ao palco do Teatro Nacional D. Maria II, ... e ficamos por aqui que o espaço não chegaria para a biografia.)

Mas vale a pena apresentar aqui o seu novo livro, Um cientista português no coração da Alemanha nazi. Editado pela Tenacitas.



Tomo um texto usado na divulgação:

Em plena II Guerra Mundial, o médico português José Ayres de Azevedo esteve durante dois anos e meio nos principais centros científicos da Alemanha nazi. Primeiro, na Universidade de Frankfurt e depois no Instituto Kaiser Wilhelm, em Berlim, o mais reputado dos centros científicos não apenas da Alemanha mas de todo o mundo. Aluno brilhante, assistente promissor na Faculdade de Medicina da Universidade do Porto, obteve bolsas de estudo do Instituto para a Alta Cultura e da Fundação Humboldt, com o objectivo de preparar uma tese de doutoramento sobre higiene racial e biologia da hereditariedade. Identificado pela PIDE como ligado a sectores de extrema-direita, germanófilos e críticos de Salazar, propôs-se aprofundar matérias ligadas à eugenia - a ciência do aperfeiçoamento da espécie por via da selecção genética. Na Alemanha nazi, estudou e trabalhou com os principais cientistas que deram um suporte à política racial de Hitler, cujos efeitos mais conhecidos foram o holocausto.
Tendo como inspirador e mestre o barão Otmar von Verschuer (um dos cientistas que mais influenciaram a política racial do nazismo), especializou-se na análise dos grupos sanguíneos dos gémeos, numa perspectiva de aferição dos sinais da hereditariedade. Colaborou na principal revista científica de eugenia e participou na elaboração de numerosos pareceres solicitados pelos tribunais nazis, sobre matérias relacionadas com a determinação da paternidade (normalmente de alegados judeus), ou com a esterilização, designadamente de deficientes.
Em 1943, trabalhou no mesmo instituto, com o mesmo mestre e sobre a mesma área científica que o famoso médico Josef Mengele, o conhecido "anjo da morte" do campo de extermínio de Auschwitz.
Com Berlim a ser bombardeada diariamente pela aviação aliada, o português foi obrigado a regressar ao Porto, onde ultimou a tese de doutoramento. Com data e júri marcados, a dissertação não chegou a ser discutida. O Conselho Escolar, órgão máximo da Faculdade, acabou por expulsar Aires de Azevedo da docência. Ao mesmo tempo, era suspenso pela Ordem dos Médicos. Desiludido e amargurado, largou em definitivo a investigação e a medicina...


O livro, muito bem escrito, com a fluidez habitual no José Pedro Castanheira, vale realmente a pena. É muito interessante, para os nossos olhos, que nos ajude a reflectir sobre as relações entre ciência e sociedade - até para acalmar as peneiras daqueles que juram a pés juntos, mas com os olhos fechados, que a ciência é o caminho, a verdade e a vida. A obra só tem um ponto aborrecido: à custa da profusão de "pequenas biografias", dada em rodapé, de gente como Hitler, Salazar, Goebbels, ... , ficamos com uma ideia do nível de cultura geral que o Autor espera para um certo número dos seus leitores. Infelizmente, ele é que é capaz de estar certo.

O Professor João Lobo Antunes considerou a obra "um trabalho exemplar”. Concordamos.

A ler, a ler.

People, not their eyes, see.


Were the eye not attuned to the Sun,
The Sun could never be seen by it.
Goethe


Citado por Hanson, a abrir o primeiro capítulo do clássico Patterns of Discovery.

Um pequenino recorte:
Seeing is an experience. A retinal reaction is only a physical state — a photochemical excitation. Physiologists have not always appreciated the differences between experiences and physical states. People, not their eyes, see. Cameras, and eye-balls, are blind.

Ler em linha o primeiro capítulo.

aproveitar a crise

10:17

Rajoy, o líder do Partido Popular espanhol, que tem várias coisas curiosas na forma de fazer política, teve mais uma saída brilhante ontem, no Parlamento nacional, quando Zapatero foi anunciar as medidas draconianas para reduzir o défice. Uma das suas propostas consistia em trocar os cortes no social pela tesourada nos apoios públicos aos partidos políticos, às confederações sindicais e às associações empresariais. É claro que dói muito o corte no social - e estamos para ver se foi bem calculado e se tem um mínimo de equidade na distribuição do esforço. Entretanto, esta ideia de "secar" os partidos, os sindicatos e as organizações patronais é bem reveladora de como o populismo não tem família. Trata-se de aproveitar a crise para tentar, uma vez mais, reduzir ao estatuto de refugo os mecanismos centrais da democracia parlamentar e do diálogo social. Alguns querem mesmo aproveitar a crise para enfraquecer ainda mais a comunidade política. Julgarão que a selva seria a comunidade política ideal?

o verdadeiro problema de Cuba...


... é que estão cinco cubanos presos nos Estados Unidos, "por denunciar actos terroristas contra Cuba".  Pelo menos é o que parecem pensar estes manifestantes (ontem à tarde, Plaza del Sol, Madrid).

Será mesmo?!



12.5.10

PASACALLES


De los Gigantes y Cabezudos de Madrid.
Desde la plaza de Santo Domingo hasta la plaza de la Villa.

Começam as festas de San Isidro, padroeiro de Madrid.

Fui ver e mostro algumas fotos. Madrid sempre na rua.






















(Fotos de Porfírio Silva)


socorro, tenho um plano

15:24

Escreve Nuno Teles, no Ladrões de Bicicletas:
O gigantesco plano de socorro engendrado (...) nos corredores de Bruxelas parece estar a ter os efeitos desejados. Um plano gigantesco, complexo, bem parecido com aquele que, sem demora, foi posto em prática aquando do colapso financeiro pós-Lehman Brothers. O risco da dívida dos países do sul cai a pique e as bolsas exultam da maneira hiperbolizada que lhes é típica. Nada que não tivesse sido defendido neste blogue há muitos meses: o problema é europeu e só a União Europeia o pode resolver, garantindo que nenhum país cai numa situação de não-pagamento. Mais, o BCE vai mesmo começar a compra títulos de dívida pública, de forma a corrigir “anomalias” nos mercados. Parece que tínhamos razão.
Mas, se os ataques conjunturas tiveram solução (a ver vamos, que as modas nos mercados financeiros são tudo menos previsíveis), os problemas estruturais mantêm-se. A forma como estas garantias foram cozinhadas sublinha as fragilidades institucionais da EU.
Ler a integral: Os mercados exultam, nós devíamos estar preocupados.

o bem e o mal

desonestidade intelectual

10:11

Um tal Carlos Santos escreve no corta-fitas um texto com vários tiques de desonestidade intelectual. (Se é o mesmo Carlos Santos cujos métodos eu vi a funcionar "na minha própria casa", não espanta.)

Desde logo, cita-me em violentação do contexto. Eu escrevi, a propósito de um post da Palmira Silva a convidar ao preenchimento de um formulário para formalizar a apostasia: "confesso que já não há pachorra para esta fixação". O senhor Santos cita-me, enviesadamente, para atacar outro texto de outra pessoa. Espero que as suas citações académicas não sejam tão rigorosas como esta.

Depois, o senhor Santos mente descaradamente: afirma que eu sou um ateu convicto, quando eu não posso ser um ateu convicto: não sou ateu, nunca fui, ponto final. Sou agnóstico, como já expliquei repetidas vezes (p.ex. aqui no blogue). Isso não interessa a ninguém, como é óbvio. Salvo querendo fazer uma afirmação sobre as minhas crenças: nesse caso convém não falar de cor. Neste caso, o falar "descuidado" do senhor Santos convinha-lhe para dar mais molho ao seu "argumento".

Fui, até, militante católico durante muito tempo. Mas nem preciso disso para ver que o texto de Carlos Santos é, não apenas nas minúcias acima, mas no seu ponto essencial, uma obra de arte de desonestidade intelectual. A (talvez) possível distinção conceptual entre a Igreja de Cristo e a Igreja dos homens, sendo isso mesmo: uma distinção de noções, não justifica, muito menos implica, uma distinção substancial. Aquilo que o Papa disse não é para ser sujeito à exegese matreira de tipos que são mais papistas que o Papa. Ou que, eventualmente, fazem "religião" como fazem "política": com os mesmos truques. Isso, aliás, explica este empenho do inefável senhor Santos.

dores de alma a dez mil euros


Se o "encarregado de educação" (sic) chamou "mentirosa", "bandalho", "aberração para o ensino" e "incompetente" à professora de sua filha, acho muito bem que o Tribunal tenha condenado tal encarregado de tal educação ao pagamento de uma indemnização de 10 mil euros à tal professora. Esta história de os papás ensinarem os filhos a maltratar os professores, inconscientes de que assim ensinam os filhos a desrespeitarem os próprios pais - e, depois, tudo e todos - essa história tem de acabar.
Ainda bem que o Supremo Tribunal de Justiça (STJ) confirmou a condenação. Já, que o STJ escreva que «a indemnização de 10 mil euros "é um nada", já que "a dor de alma é, sem receios de exageros, incomensurável"» - já me parece poesia a mais para uma decisão judicial.

não há pachorra

11.5.10

Patrícia Gouveia | jogos de realidade alternativa | entrevista


Patrícia Gouveia trabalha e vive em Lisboa, onde nasceu. Doutorada em Ciências da Comunicação (Audiovisual e Media Interactivos, Jogos Digitais) pela Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa (2008). Trabalha em media arte e design desde meados da década de noventa. Actualmente é professora Auxiliar na Universidade Lusófona de Humanidades e Tecnologias, onde é também investigadora no MOVLAB. A sua investigação centra-se nos Playable Media, ficção interactiva e artes digitais como um lugar de convergência entre o cinema, a música, os jogos, as artes e o design. É editora do blogue Mouseland desde 2006 e conferencista no mestrado de Ciências da Comunicação da FCSH/UNL.




Patrícia Gouveia concede esta entrevista como responsável pela concepção, design e gestão do projecto “Brincar com a Poesia”, uma instalação interactiva/jogo (alternate reality game ou ARG) que envolve a leitura activa da obra de 8 poetas portugueses. O jogo consiste em vários momentos e está estruturado de forma a envolver os participantes tanto em espaços físicos, a Biblioteca Municipal de Oeiras, o Parque dos Poetas e a Árvore da Poesia, como também neste espaço on-line. Brincar com a Poesia vai ter início no dia 19 de Maio de 2010 e prolonga-se durante um mês até ao dia 19 de Junho de 2010.

Passemos então à entrevista.


Machina Speculatrix - A iniciativa “Brincar com a Poesia” tem por base o conceito de “alternate reality game” (jogo de realidade alternativa). O que é isso, não neste caso, mas em geral?

Patrícia Gouveia - Os Alternate Reality Games (ARGs) são jogos que envolvem um conjunto de jogadores na construção de uma ficção interactiva que normalmente está ancorada no mundo real, permitindo a passagem de uma realidade na rede (on-line) para uma realidade sediada num espaço físico (off-line). Por vezes, mas nem sempre, tira-se partido de interacções mistas onde jogadores on-line têm que colaborar com jogadores off-line para assim resolverem situações de jogo como, por exemplo, ajudar a resolver enigmas ou contribuir para a evolução da plataforma, cooperando de forma construtiva em ambos os espaços. O sentimento de comunidade surge, nestes espaços mistos, por via da colaboração, mas também da competição entre jogadores e, no final, a plataforma on-line reflecte os movimentos dos diversos participantes e os vários artefactos criados no âmbito da experiência lúdica.


Machina Speculatrix -  Como é que estes jogos de realidade alternativa se enquadram na sua investigação?

Patrícia Gouveia -  Depois de ter trabalhado alguns anos em design gráfico e multimédia (CD-ROMs e Web), tanto em termos comerciais como em ambientes artísticos, passando pela net.art e pela game arte, deparei-me com a necessidade de investigar o campo dos jogos digitais para compreender realmente o que divergia, em termos de experiências possíveis, na estética digital. Estava no início da primeira década do século XXI e tentava compreender o que diferenciava as artes digitais das artes analógicas. Licenciei-me em Artes Plásticas / Pintura (FBAUL) e, posteriormente, tirei uma pós-graduação em Artes Digitais (Escola das Artes, Católica do Porto). Para mim tornara-se evidente, em meados dos anos noventa do século XX, que os comportamentos dos artistas na época digital eram muito diferentes dos precedentes e que por isso tinha que investigar a cultura numérica a partir de uma análise profunda às suas origens. Foi isso que fiz no meu doutoramento.
Ora, se a máquina de filmar trouxe consigo a película, o filme e a possibilidade de registar o movimento, os computadores, por um lado, trouxeram consigo os jogos digitais e a simulação, por outro, os jogos analógicos são tão antigos como a própria cultura. A partir daqui tornava-se evidente para mim que tinha que investigar o conceito de jogo e a forma como este sempre andou “de mãos dadas” com os diversos movimentos artísticos durante todo o século XX.
Talvez o conceito de brincadeira seja aquele que melhor faz a ponte entre arte e jogo, arte e entretenimento, arte e design. Os exemplos das intersecções entre máquinas e jogos são inúmeros, desde o primeiro espécime, um jogo de ténis para dois em osciloscópio, de William Higinbotham em 1958, ao jogo da imitação de Turing, passando pela forma como a máquina tem simultaneamente recorrido a aspectos lúdicos para se legitimar (consolas, arcadas, dispositivos portáteis, Web, sensores). Assim, a partir de uma análise da cultura da simulação, deparei-me com uma enorme semelhança desta com a história do cinema e por aí fui desenvolvendo uma forma de pensar que reflecte a convergência dos meios, de linguagens gráficas e de tecnologias, naquilo a que se pode chamar a estética transmedia, isto é, ficções e narrativas que tiram partido na sua estrutura de inúmeros media, diferentes estratégias visuais e tecnologias.
Não há melhor espaço do que os alternate reality games para pensar na estética transmedia, pois estes exprimem muito bem a convergência de espaços e linguagens e apelam à performance, à participação activa e à inclusão de múltiplas pessoas e comunidades.


Machina Speculatrix - Vamos supor que podemos dizer que as sociedades humanas convergiram para sociedades artificiais quando houver um número significativo de máquinas intercaladas nas relações sociais e quando os humanos não souberem distinguir essas máquinas (robots, por exemplo) dos humanos ou, alternativamente, saibam distinguir mas as tratem com a mesma postura intencional com que tratem os humanos (supondo que esses robots também têm crenças e desejos). Os recursos desenvolvidos para os jogos de realidade alternativa podem aproximar-nos desse cenário? Como? Porquê?

Patrícia Gouveia - Nas arquitecturas on-line é cada vez mais difícil, do ponto de vista psicológico, diferenciar a vida on-line da vida off-line. Em termos físicos ainda temos alguns problemas, pois os teclados, ratos, joysticks e outros periféricos, ainda são bastante impositivos e maltratam o corpo (tendinites, persistência retiniana, dores nas costas, são apenas alguns dos efeitos desagradáveis potenciados por algumas horas de jogo). No entanto, do ponto de vista emocional a experiência de jogo é absolutamente credível e têm efeitos na vida real – ou não fossem hoje os jogadores de jogos on-line um verdadeiro fenómeno de êxodo para o virtual.
Neste sentido, alguns exemplos a assinalar são as experiências de criação de avatares inteligentes de autoria de Mark Stephen Meadows, que quer construir um “retrato” do pai falecido e que também por isso se dedica à criação de emoções artificiais em ambientes como o Second Life. A ideia é dotar o avatar de uma base de dados de acções e tiques associados à pessoa do jogador que o criou para que, quando este não está on-line, a personagem se comporte como se fosse a pessoa de carne e osso (quantos psicólogos artificiais, do tipo Eliza, foram criados com o intuito de “enganar” os humanos?).
A mediação entre humanos e máquinas encontra o seu expoente, parece-me, nas plataformas para múltiplos jogadores quando estes, por vezes, não conseguem já distinguir se estão a relacionar-se e a comunicar com outro humano ou com um NPC (non player character ou personagem com a qual podemos interagir mas não jogar) ou bot de inteligência artificial. Neste contexto, estas plataformas funcionam em simultâneo como plataformas de sociabilização e como lugares de jogo onde diferentes comunidades encontram um lugar seguro e controlável que lhes permite exercitar aspectos impossíveis de testar na vida real. O controlo no jogo é para os jogadores um escape das dinâmicas sempre imprevisíveis da realidade. Para uma aproximação a estas questões cf., por exemplo, a comunicação de Jane McGonigal aqui.


Machina Speculatrix - Vê alguma relação entre estes jogos de realidade alternativa e o velho projecto da Inteligência Artificial ou, agora, a Nova Robótica?

Patrícia Gouveia - Os jogos digitais, tal como as artes e outras aplicações visuais associadas à medicina e à saúde, adoptaram três paradigmas distintos que hoje se associam num projecto híbrido, a saber, a adopção de teorias provenientes de uma cultura mais ligada à psicologia e à cognição, com a simulação da memória como grande questão. Entretanto, nos anos oitenta começam a despoletar as ideias da vida artificial e em 1997 o Deep Blue ganhou ao Kasparov. Assim, literalmente o processo inverte-se e as arquitecturas da simulação top-down dão lugar às estratégias bottom-up. Em vez de se tentar simular a consciência que afinal ninguém sabe o que é, porque não olhar para as ecologias animais e não se tentam simular antes comportamentos inteligentes dos grupos e não dos indivíduos? Do hardware ao software até à robótica, a percepção humana surge como o problema a resolver: como simular a percepção humana em ambiente artificial?
Finalmente, e com um conjunto de sistemas cada vez mais robustos em matéria comportamental, ou seja, capazes de repetir inúmeras vezes comportamentos e acções adequado(a)s às situações em causa, a questão passa a ser como criar emoções suficientemente credíveis, como fazer “bonecos animados” que se comportam como seres humanos?
A partir daqui as investigações são inúmeras e deparamos com sistemas wetware que simulam o nível molecular, com sistemas celulares que são essencialmente sistemas de software do tipo algoritmos genéticos, os sistemas de hardware associados à robótica e, finalmente, a vida, a nível populacional, remete-nos para software em que os modelos das suas equações substituem os modelos da vida em que cada organismo é um programa, um autómato finito ou uma rede neural.
Os jogos digitais acompanharam todas estas evoluções e um caso que seria interessante salientar é o jogo The Thing, inspirado no filme do mesmo nome de John Carpenter. Se no filme o “monstro” infiltrado copia o ADN humano, no jogo os monstros com os quais lutamos activamente têm um sistema de inteligência suficientemente robusto e emergente para copiarem e “aprenderem” os movimentos e formas de interacção dos jogadores. As ecologias de Life Spacies de Christa Sommerer & Laurent Mignonneau são outro exemplo possível.
No caso dos jogos de realidade alternativa a questão não se coloca de forma tão expressiva, para já, pois estes jogos vêm chamar a atenção para a importância da colaboração e da ocupação dos espaços urbanos, culturais, entre outros, precisamente para colmatar o problema do isolamento e da frieza das interacções na rede. Julgo, no entanto, que a tendência no futuro é que estes espaços coabitem com espaços ficcionais do género Second Life e World of Warcraft e, neste contexto, acabem por ser inundados por personagens inteligentes que são criações artificiais, meio humanas, meio máquinas.
Para uma viagem pela maravilhoso mundo dos ARGs ver, por exemplo, alguns vídeos da empresa americana 42 Entertainment aqui, o projecto Uncle Roy All Around You ou Can You See Me Now? realizado pelos Blast Theory para o Institute of Contemporary Arts (ICA) de Londres.


Machina Speculatrix agradece enormemente a Patrícia Gouveia a interessante entrevista que nos concedeu.

10.5.10

alternate reality games

Gostava de saber o que são


alternate reality games


e ficar a saber como pode proximamente entrar num?

Ah, gostava! Então não falhe esta oportunidade.

Amanhã publicaremos aqui uma pequena entrevista com a Professora Doutora Patrícia Gouveia sobre esse assunto. Acho que vão gostar de ler. Apareçam.

redução do défice: como é que eu contribuo para essa causa patriótica?

Esforços para acelerar o processo de redução do défice orçamental. Governo estuda aumento do IVA e imposto sobre o subsídio de Natal.

A parte do IVA - comem todos. Logo, eu também.

Quanto à parte do subsídio de Natal, estou preocupado: não recebo subsídio de Natal. É que Natal é quando um homem quiser, mas já subsídio de Natal não é bem assim. Portanto, por aqui vou ficar de fora da cidadania, por assim dizer.

Podiam era ir pelo subsídio de férias...
Bolas, também não recebo subsídio de férias.

Estou mesmo preocupado: se calhar não me deixam contribuir para esta causa patriótica. Acho que há uma série de gente com a mesma preocupação...




censura em Cannes?

O ministro italiano da cultura, Sandro Bondi, não vai ao Festival de Cannes (12 a 23 de Maio), em protesto por o festival acolher "Draquila, L'Italia che trema", um documentário que pretende mostrar que Berlusconi e o seu governo vampirizaram a crise resultante do terremoto em Aquila, em 2009, para obter efeitos políticos e eleitorais directos. Note-se que o título do filme conjuga Drácula com Aquila. Entretanto, a ministra do Turismo do mesmo país, Michela Vittoria Brambilla, diz que está a considerar a hipótese de processar judicialmente os autores do documentário, por supostos "danos à imagem de Itália".

Pelo seu lado, o Festival retirou do programa o filme Ça commence par la fin, de Michaël Cohen, protagonizado pelo próprio e por Emmanuelle Béart, devido às "cenas tórridas" (é assim que se costuma dizer para falar de carnes em movimentos combinados, não é?) entre os dois, que são aliás marido e mulher fora da tela.

Esta Europa está a ficar perigosa...


El Público, de Federico García Lorca


Para fechar o fim de semana, que desta vez conteve uma razoável dose de trabalho cooperativo, ontem fomos ver a peça El público, de Lorca, pelo Teatro del Temple, em estadia no Teatro Fernán Gómez, em Madrid.
A companhia aragoneza Teatro del Temple, (Zaragoza), criada em 1994 pela fusão de duas companhias pré-existentes, e com um currículo de mais de vinte espectáculos montados desde então, com uma direcção artística estável, tem explorado em espectáculos anteriores a relação entre vários vértices do surrealismo espanhol, tendo já proposto que esta peça de Lorca contém uma resposta a "remoques" artísticos que o seu amigo Luis Buñuel lhe teria feito em Un perro andaluz.



El público, da fase final de Lorca (houve por aqui uns tipos que trataram de lhe apressar a fase final...), é considerada a sua peça mais vanguardista e pessoal. Erotismo, renovação cénica de inspiração surrealista em diálogo ou disputa com as concepções dos seus amigos Salvador Dalí e Luis Buñuel, um percurso complexo. Nesta peça, os fantasmas de um encenador convocam-no a fazer um espectáculo livre de convenções sociais e artísticas e o espectador vai assistir, como num sonho, a várias tentativas de conseguir tal desiderato. O carácter visceral, transgressor e poético da tentativa não a levará ao sucesso – mas valerá como tentativa. A encenação proposta pelo Teatro del Temple tem a anunciada ambição de fazer justiça a esse impulso surrealista. Dizem que nunca se fez justiça ao vanguardismo desta obra e que eles querem fazê-lo, pegando o touro pelos cornos.

Eu, pelo meu lado, que até aprecio em geral os surrealistas, e que aprecio muito outros aspectos do trabalho de Lorca, devo confessar: percebo onde está o lado transgressor da obra, mas não percebi nada do que Lorca queria dizer com aquilo. Se era só para nos alegrar pelo facto de a maior parte do teatro não ser surrealista, conseguiu. Se havia tantas piadas privadas dirigidas aos seus amigos surrealistas que o vulgar espectador se perde, não sei se é desculpa suficiente para a minha ignorância. O que sei, e vos digo com sinceridade, é que muito raramente me sinto derrotado por um espectáculo - mas, desta feita, foi o caso. E, ainda por cima, só fui à última sessão, pelo que nem terei oportunidade de ir outra vez para tentar entrar na selva. Jogo perdido. Que pena.

Segue-se um pequeno vídeo de apresentação do espectáculo.


o filósofo do direito, deputado Pedro Duarte

10:02
Leio no Câmara Corporativa que «a Constituição da República só admite escutas para investigar crimes (e não são todos) no âmbito do processo penal — e autorizadas por juiz. Por isso, todos os partidos, salvo o PSD, rejeitam liminarmente ter acesso ao pacote com a transcrição das escutas enviado de Aveiro.»
Por causa daquele sublinhado - "salvo o PSD" - (que, aliás, ainda não será certo) fui ler a notícia fonte do post. E verifico que o deputado Pedro Duarte, coordenador dos deputados do PSD na Comissão Parlamentar de Inquérito ao negócio PT/TVI, afirmou não se sentirem lá no grupo dele muito questionados pela posição dos outros grupos, já que ao PSD "só lhe interessa apurar a verdade e, por isso, vai naturalmente consultar os documentos que foram enviados".
Portanto, e sem ir mais longe de momento, para o rosto e a voz do PSD naquela comissão do parlamento de um estado de direito, as garantias processuais são uma batata. O que interessa é apurar a verdade (supostamente, uma maçã que está pendurada na árvore e que, com jeito ou uma escada, pode ser colhida). Os procedimentos, os direitos das pessoas, a legalidade... isso são tudo ervinhas na relva, talvez penosas invenções do socratismo que podem ser tiradas do caminho quando der jeito. Pelo que, se de hoje a amanhã parecer bem aos deputados do PSD que se torture com azeite a ferver alguns dos implicados, ou que se recorra a qualquer outro método natural, na suposição de que isso os fará "cantar", entraremos numa nova fase de barbárie institucional. Para gáudio da plateia, cansada de um espectáculo que se farta de esguichar sangue virtual sem nunca esgotar a fonte. Com a benção daqueles que esquecem que há muito deixámos o estado de natureza, o estado em que alguns pensam que éramos bons selvagens - quando éramos, simplesmente, selvagens. Esse é o futuro que nos prometem os perigosos demagogos  da verdade sem qualquer consideração pelas garantias próprias de um estado de direito.

9.5.10

Titus Andronicus - A More Perfect Union (The Monitor)


Pescado graças à indicação do Pedro.


inteligência artificial vs. inteligência natural (again)


Então, sudoku. Vejam bem (que não há só gaivotas em terra): se considerarmos, por um lado, a componente de percepção e acção, e, por outro lado, a componente de cálculo, o que diferencia a nossa forma de fazer da forma de fazer da máquina aqui? Que significado terá isso? Notem, entretanto, como se organiza a parte de cálculo nesta máquina (pelo que se pode ver, parece resolução simultânea de muitos problemas, mas não sei bem, pode ser o aspecto que dá a rapidez do processo). Os humanos, como fazemos? Só perguntas, nada de respostas, bah...