8.5.10

..........

12:43
....
...
..
.
Entrou um silêncio na paisagem
e dentro dele vi
a minha ausência do mundo.
E nada no mundo mudava.
Salvo se a tua mão existir.
.
..
...
....

Passos que Coelho dá

11:54

«(...) Passos Coelho disse que o primeiro-ministro lhe “telefonou” para dizer que “precisava do apoio do principal partido da oposição para ser mais ambicioso no plano que vai defender em Bruxelas e que vai ter que executar em Portugal para que o défice recue mais depressa”. “Eu quero dizer-vos o que lhe disse a ele: nós ajudamos Portugal a reequilibrar as suas finanças, mas o Governo não pode pedir, num dia, ao PSD ajuda para reequilibrar as finanças do país e, no outro dia, pedir ao Bloco de Esquerda para que desequilibre as finanças do país, fazendo passar projectos que não têm viabilidade em Portugal”, afirmou.» (Público)

A questão pode estar colocada de forma simplista, mas é uma questão central para quem se interessa pela governabilidade. Como temos escrito. Lembro de novo o que escrevi em 16 de Dezembro de 2009:

«O PS tem de escolher para que lado quer que o vento sopre. O PS tem de desafiar, ou os partidos à sua esquerda, ou o PSD, para uma base política sólida e coerente para a governação. Se quiser desafiar o PSD, está a tempo de determinar o essencial do debate que os social-democratas terão de travar proximamente. Se quiser desafiar as outras esquerdas, terá oportunidade de voltar a mostrar o que entende por esquerda moderna. O PS tem de propor um rumo político ao país que responda à realidade da sua força parlamentar: não pode é continuar a ser o espelho da coligação negativa. Até porque, finalmente, o eleitorado fará dele o principal culpado se o actual jogo do empurra conduzir a uma crise que o país não pode desejar neste momento.» (a coligação negativa e o seu espelho)

Isto não é defender que o PS se vire para leste ou para oeste. É defender que se defina.

modalização , factos e artefactos, picardias blogueiras com bonomia


Como, aparentemente, dá muito trabalho ler um texto sobre uma possível diferença entre "factos" e "artefactos" e a relevância que isso tem,  vamos seguir uma via mais simples. Usemos um vídeo.

Aquela coisa da modalização positiva e da modalização positiva, estão a ver, é mais ou menos como isto:


Passando o vídeo num sentido, é modalização positiva e o resultado é um facto. Passando o vídeo no sentido oposto, trata-se de modalização negativa e o resultado é um artefacto. Para não matar o debate (ou a troca de "picardias blogueiras") fica para apreciação qual dos sentidos dá facto e qual dá artefacto.

(Com uma saudação especial do senhor silva para a senhora simões.)


7.5.10

democracia também é compromisso

17:13

brincar com coisas sérias

15:44

(clicar na imagem para ir)

há muitos anos a legislar (coligações negativas)

14:33
Tribunal Constitucional: Estado condenado por lei ilegal aprovada no Parlamento.

«Trata-se da decisão que levou à criação do concelho da Trofa (Lei 83), aprovada em 19 de Novembro de 1998 com os votos a favor de toda a oposição (PSD/CSD/PCP-PEV) e contra da bancada do PS, que na altura apoiava o Governo minoritário de António Guterres.»

«A ilegalidade radica no facto de a lei que criou o concelho da Trofa ter sido aprovada sem definir os seus limites territoriais, bem como os bens, direitos e obrigações a transferir, tal como impõe a Lei-Quadro de Criação de Municípios (Lei 142/985). Era também necessário que os deputados tivessem enunciado critérios precisos para a afectação e imputação ao novo município de direitos e obrigações, questões que mais de 11 anos depois estão ainda por resolver. O problema era o calendário político, que não era compatível com a demora de tais procedimentos.»

«A votação deu até origem a uma inédita convergência entre os comunistas e o bloco PSD/CDS, o que levou à aprovação, no mesmo dia e nas mesmas condições, do concelho de Odivelas. O PCP perspectivava a conquista de mais uma autarquia, enquanto na Trofa, um habitual bastião social-democrata, o PSD via a possibilidade de chegar ao controlo dos órgãos da Junta Metropolitana do Porto, tal como veio a confirmar-se.»
(Público)

Sem (mais) comentários.

rotativismo, foi o que disse?

10:36
Cameron ganha em votos mas sem maioria parlamentar. (Público)

Parece que os Conservadores ganharam no Reino Unido. Acho que já toda a gente percebeu que os Trabalhistas, tendo feito coisas muito boas em muitos domínios, fizeram coisas que muitos dos seus potenciais apoiantes abominaram. Com razão. Em política internacional, por exemplo. Mas o fenómeno tem outra dimensão.
A mudança de pessoal político é necessária, de tempos a tempos, mesmo que os do momento estejam a fazer tudo certo. É uma questão de higiene. Rodar é preciso. Mesmo quando cabe aos "nossos" perder. Essa é a razão pela qual é bom que haja "partidos centrais", que permitam mudar de pessoal sem mudar radicalmente de política. É que, de outro modo, nós, os eleitores, ficaríamos sob chantagem: eternizamos os mesmos, ou mudamos para uma coisa tão tão diferente do que queremos que isso nos seja insuportável? 
Com os "centrões", já se sabe, está na moda dizer, pode acontecer que só mudem as moscas. O que já não está tão na moda é dizer que isso pode ser útil à saúde do sistema político. Não há complicações? Claro que há: se o centrão for tão cinzento que não proporcione escolha suficiente, isso pode encerrar o sistema numa pescadinha de rabo na boca. É um perigo real. Só que, mesmo assim, não podemos perder de vista o interesse intrínseco da possibilidade de mudar de pessoal político com alguma tranquilidade.
Também assim em Portugal. É claro que um governo do PS não pode durar a vida toda, tenha ele feito melhor ou pior. E ainda bem. Ou há por aí alguém que pense que temos ilusões sobre isso? Claro, arriscamos perder o nosso tacho, que é um "argumento" que usam alguns blogosféricos quando não se lhes ocorre nada mais inteligente. (Não faço links, por serem chusma.)

inteligência artificial vs. inteligência natural

Vamos lá então ao cubo de Rubik... e digam: o que diferencia a inteligência artificial da inteligência natural à la humana?

Horácios e Porfírios

09:57

Para quem reconhece melhor nomes de jogadores de futebol do que outros nomes, apesar de mesmo em Portugal haver (ou ter havido, não sei bem) pelo menos um jogador de futebol com o mesmo nome próprio que o editor deste blogue, recomendo, apenas para começar, um primeiro toque do Tratado sobre a Abstinência, que o filósofo Porfírio, nascido na Fenícia, escreveu no século III. Está aqui. Depois pode passar para a mais conhecida Isagoge, apesar de o tema ser, provavelmente, mais árido.
Alguém me pode indicar um tratado escrito por uma filósofa antiga chamada ams ?

Shakespeare, A Tempestade, Sam Mendes : Madrid

09:29
Integrado no Bridge Project, dirigido por Sam Mendes, que junta esforços dos dois lados do Atlântico (a Brooklyn Academy of Arts, de Nova York, e o Old Vic, de Londres) para fazer teatro, estão em Madrid duas peças de Shakespeare. Fomos ver A Tempestade, no Teatro Español, ali na Praça de Santa Ana.


Como em qualquer grande texto que recorre ao fantástico (nós sabemos bem que não há um espírito Ariel ao serviço de exilado político nenhum), o problema é saber se o irreal ajuda a trama do real ou se a desorganiza até perder a credibilidade. Desse ponto de vista, não gosto deste texto de Shakespeare. Talvez isso pudesse ter sido resolvido dando alguma profundidade psicológica adicional às personagens, mas não creio que isso tenha acontecido. O ponto de esteio de uma verosimilhança desejável seria o problema. O problema n'A Tempestade é a traição e a lealdade como forças que estão sempre em jogo, seja como presença, seja como possibilidade. E o desejo sempre presente de podermos remendar alguma coisa no nosso passado ou no dos nossos familiares e amigos. Mesmo assim, esta é uma daquelas peças de Shakespeare que não chegam a convencer-me.

A história podia ser complicada, mas acaba por ser simples. Próspero, o legítimo duque de Milão, que foi traiçoeiramente derrubado e substituído por seu irmão António, foi  propositadamente enviado para o naufrágio no mar, mas escapou, encontrando-se há doze anos numa ilha deserta. Aí, com sua filha Miranda, escravizam o nativo Caliban e o espírito Ariel. Próspero, que lê muito para refinar a sua magia, manda Ariel criar uma tempestade, tempestade que faz naufragar o navio da esquadra do rei de Nápoles em que viajam os inimigos de Próspero, que são todos arrastados até à ilha onde o destino os confrontará. Depois, é tudo simples. Ferdinando, filho do rei de Nápoles, cumpre o plano de Próspero ao apaixonar-se por Miranda (e esta por ele). António convence Sebastião a aplicar ao seu irmão, rei de Nápoles, a mesma receita de traição que ele executara doze anos antes. Trinculo e Stephano, náufragos de baixo estrato, aliciam Caliban e alinham com este para tentar matar Próspero. Mas todos os planos falham pela magia de Próspero, corporizada em Ariel. Afinal, Próspero dá uns ralhetes a todos os prevaricadores - mas perdoa toda a gente e prepara-se para voltar a Milão como grão-duque. Torço sempre um pouco o nariz a soluções tão completas para todos os imbróglios...

Mas, enfim, Shakespeare é Shakespeare. Gostei do conjunto. Contudo, várias interpretações individuais neste espectáculo deixaram-me dúvidas.


Acima, a partir da esquerda: Edward Bennett (como Ferdinando),  Stephen Dillane (Próspero), Juliet Rylance (Miranda). Próspero apresenta-se com um ar solene que, se funciona bem no papel de legítimo duque de Milão, e talvez servisse também para o ar misterioso de mágico, soa um tanto a falso noutras situações: trata o casamento da filha com o mesmo "profissionalismo" e defende-se dos planos para o assassinar com o mesmo desprendimento. Pareceu-nos pose "de Estado" a mais, como se ele, seguro de que tudo correria segundo o seu plano, não tivesse já réstia de ansiedade quanto à respectiva concretização. Mas, então, se se sente como um deus, isso encaixa mal no conjunto da trama. Demasiado solene, para meu gosto, a figura central. Parece que o actor se deixou dominar pela importância de ser duque de Milão.



O espírito Ariel, o instrumento do todo poderoso mago-duque, aparece como um andrógino. Enfim, um espírito é um espírito, não devemos ser obrigados a compreendê-lo bem. Ainda por cimo, ter já vivido enclausurado numa árvore, deve deixar sequelas. Mas é uma figura um pouco inútil: se Próspero é tão poderoso, para que precisa de um moço de recados? Uma incongruência que o actor não contribui para resolver.


Ron Cephas Jones, como Calibán (à direita), Anthony O'Donell, como Trínculo (ao centro) e Thomas Sadoski, como Stephano, compõem o conjunto de actores/personagens que mais conseguem mostrar que estão a interagir num grupo. Misturam um certo ridículo com uma certa comicidade, mas bem temperadas, e compõem de facto uma dinâmica própria dentro do esquema geral. São tão convincentes que mereciam não ser perdoados na bênção geral que fecha o enredo.




Neste ponto da acção, Ferdinando e Miranda vêem o passado feliz da família. Nem todas as famílias podem recorrer à magia para remendar o passado, claro está. Este amor apressado, engendrado pelo duque legítimo de Milão, é demasiado automático. O noivo cai de imediato, não se percebe bem por quê. Ela ainda se percebe: nunca tinha visto tal coisa, rapaz novo... Aliás, quando vê os outros náufragos, acha todos espectaculares. Este é, talvez, o elemento mais artificial da peça. A parte política do enredo, enfim, sendo uma história italiana e vendo nós hoje o que vemos em política, aceitamos quase tudo... Mas aquele casamento que passadas uma horas já coloca os noivos a jogar xadrez...


Acaba tudo em festa. Se pudéssemos usar magia, também resolvíamos assim os problemas...

No conjunto, há uma parte da história que podia ser História, a parte das traições políticas. Isso dá algum suporte ao conjunto. E, mais do que isso, a encenação é muito inteligente. Consegue integrar o fantástico que decorre da magia sem nos chocar excessivamente, num conjunto de símbolos esteticamente fortes, a começar pela água aspergida por Próspero, elemento da tempestade, elemento de marcação do encantamento. A cena inicial, da confusão que a tempestade provoca dentro do bardo do rei de Nápoles, é quase dança. Os principais traidores, o rei, o duque, os respectivos irmãos, não sendo exuberantes, são credíveis.

Enfim, uma experiência. Um conjunto interessante, uma certa falta de densidade psicológica individual, um teatro fantástico que nem sempre nos consegue transportar. Comparando com a minha referência central, que é a companhia do Teatro da Cornucópia, estes têm mais aparato visual (e isso ajuda, especialmente em textos em que o fantástico pesa) e menos densidade psicológica. Mas é da diversidade que se vive.

(Todas as fotos acima, excepto uma, cuja autoria não consigo identificar, são de Sara Krulwich, The New York Times. Vendo a reportagem de Nova York, notam-se algumas diferenças de encenação para  o que aconteceu em Madrid, em alguns casos com pena minha.)

ainda o caso dos gravadores

01:17
Tendo escrito o que já escrevi, tanto em post como em comentário, sobre o caso Ricardo Rodrigues e os gravadores, acrescento isto: dizer que o homem roubou os gravadores, isto é: levou os gravadores para ficar com eles ou dar-lhes qualquer uso, é apenas uma afirmação tola (por isto). Se a tolice é involuntária (falta de conhecimento ou de discernimento, ou falta de domínio do falar português) ou se a tolice é voluntária (calúnia), isso não sei avaliar caso a caso. Mas uma coisa vos garanto: as "ondas de clamor" com que funciona a blogosfera, não são coisa que me assuste. Lições de moral, aceito. De quem tenha moral para mas dar. Apenas.

6.5.10

poesia

um país armadilhado

Deputado levou gravadores, desagradado com tom da entrevista. ERC reúne hoje para avaliar conflito entre Ricardo Rodrigues e a “Sábado”.

Ricardo Rodrigues caiu numa armadilha. Hoje, quem quer que defenda ideias que desagradem aos criadores de artefactos políticos, está sujeito a ser emboscado. Armadilhado. É preciso ter nervos de aço para resistir a isso. É preciso ter, sublinho. Por que, caso contrário, os armadilhadores é que se ficam a rir.

a imperiosa necessidade de dizer disparates

Ministro faz jantar secreto sobre grandes investimentos (i).

O jantar "secreto" tinha umas 25 pessoas, foi "um encontro de trabalho relativamente informal", foi uma sequela de uma reunião de um clube de debate a que o ministro não tinha podido ir. E, contudo, o título mantém que o jantar foi secreto.
Secreto foi o meu jantar de ontem. Ninguém, excepto as outras cerca de 50 pessoas que estavam na sala, se apercebeu do que se passava na minha cabeça ao jantar. Isso, sim, é secretismo. O resto é sensacionalismo.

Tabla 39-94



Foi o cuidado de pessoa amiga que nos chamou a atenção para o Centro Cultural Conde Duque, aqui em Madrid. Foi a sorte que nos fez lá ir no último em que esteve aberto por algum tempo: fechou, pelo menos parcialmente, a 19 de Abril para remodelação e só voltará a estar completamente disponível em 2011. Claro que não cabe aqui dar conta das várias exposições com interesse que lá encontrámos. Apenas mencionar uma obra que nos interessou na exposição permanente do Museu de Arte Contemporânea.


Lucío Muñoz, Tabla 39-94, 1995

É uma obra de Lucío Muñoz (Madrid, 1929-1998), da sua etapa final, em que se propõe reduzir tanto quanto possível os meios de que lança mão. A pintura quase não existe nesta pintura, é quase tudo madeira à mostra, a própria cor é praticamente a que já trazia a madeira ao ser convocada. É interessante que, no local, mesmo numa relativa proximidade, há uma forte ilusão de pintura nesta pintura onde quase não há tinta.
 

Pormenor

Pormenor

Pormenor

Pormenor

5.5.10

ainda a liberdade, os seus paladinos - e os outros

Leio no A minha vida não é isto, envolvendo uma referência para a minha posta paladinos da liberdade, o seguinte: «Digam o que disserem da rapariga Rato, o que consta do relatório da Comissão de Ética é preocupante. Aliás, nada de novo
O que se segue é um comentário amigável ao "digam o que disserem" supra.

Bruno Latour é uma espécie de sociólogo-filósofo da ciência. Num livro que já tem uns anos, Science in Action. How to Follow Scientists and Engineers through Society (1987), Latour dá a sua visão do que é um facto. Um facto científico. Dado o seu construtivismo acerca dos factos, a resposta à questão "o que é um facto?" é a resposta à questão "como é construído um facto?". Vejamos como Latour descreve esse processo.

Alguém emite um enunciado (por exemplo, escreve um artigo numa revista científica). Esse enunciado será inserido noutros enunciados e, por essa via, qualificado, transformado: modalizado. Teremos uma modalização positiva se o enunciado é inserido numa sequência onde aparece como uma premissa evidente, fechada, acabada e onde outros enunciados aparecem como consequentes menos acabados e menos evidentes do que o enunciado modalisado. Numa modalização positiva, o enunciado emitido é enquadrado por frases que o distanciam das suas condições de produção e o tomam como suficientemente sólido para que algumas das suas consequências se tornem necessárias. Teremos uma modalização negativa se o enunciado emitido é enquadrado por frases que nos remetem para um questionamento das suas condições de produção e tentam explicar porque é que ele é sólido ou frágil, frases que incidem sobre as pessoas e o trabalho das pessoas que produziram o enunciado.
Numa controvérsia científica, o autor de um enunciado apela ao maior número possível de aliados e aos aliados o mais poderosos possível, sendo que "aliado" é todo aquele que modaliza positivamente o nosso enunciado: um documento não é intrinsecamente científico, torna-se científico quando mobiliza aliados numerosos e os exibe. Um enunciado sujeito a modalizações positivas torna-se um facto; sujeito a modalizações negativas torna-se um artefacto, uma ficção: "a uma frase pode ser-lhe oferecida a qualidade de facto ou a de artefacto, segundo a forma como ela é inserida em outras frases." São sequências de modalizações (sequências de frases) que transformam um enunciado num facto ou num artefacto: é essa a natureza do processo de construção dos factos, de fabricação colectiva dos factos.

Pergunta-se: mas qual é o papel da natureza neste processo? Latour: «A natureza, entre as mãos de um cientista, é um monarca constitucional que se assemelha muito à rainha Isabel II. Ela lê no seu trono, com o mesmo tom, a mesma solenidade e a mesma convicção, um discurso escrito por um Primeiro Ministro conservador ou trabalhista, segundo o resultado das últimas eleições. Ela acrescenta qualquer coisa ao debate, mas apenas depois dele ter terminado; enquanto dura a campanha eleitoral, ela limita-se a esperar.»

Claro que muita gente acha fundamentalmente disparatada esta tese sobre os factos científicos. Eu, por força da profissão, não diria desse modo, mas diria que é uma forma tremendamente defeituosa de entender o processo.

Latour estava, basicamente, a falar de factos científicos. Mas também há quem ache que os “factos políticos” são construídos desta maneira. Já eu, pelo meu lado, acho que os artefactos políticos são feitos assim – mas não os factos. Não os factos, porque esta coisas da realidade e da ficção em política não remete tudo para camadas sucessivas de conversa fiada. Ou, pelo menos, não devia remeter.

paladinos da liberdade


«Portugal ainda não vive no limiar da falta de liberdade de expressão e de imprensa, mas o panorama é preocupante: tais liberdades têm vindo a ser reduzidas e é visível uma complicada relação entre o poder económico, a política e os media. (...) Esta é a principal conclusão do relatório sobre o exercício da liberdade de expressão na comunicação social que levou ao Parlamento 34 pessoas para serem ouvidas durante dois meses na comissão parlamentar de Ética. O documento foi elaborado pela deputada comunista Rita Rato e será discutido e votado na próxima semana, confirmou ao PÚBLICO o presidente da comissão, Luís Marques Guedes.» (Público)

Excertos da entrevista da deputada comunista Rita Rato ao Correio da Manhã, em Outubro de 2009:

Excerto 1

CM: Concorda com o modelo que está a ser seguido na China pelo PCC?

RR: Pessoalmente, não tenho que concordar nem discordar, não sou chinesa. Concordo com as linhas de desenvolvimento económico e social que o PCP traça para o nosso país. Nós não nos imiscuímos na vida interna dos outros partidos.

CM: Mas se falarmos de atropelos aos direitos humanos, e a China tem sido condenada, coloca-se essa não ingerência na vida dos outros partidos?

RR: Não sei que questão concreta dos direitos humanos...

CM: O facto de haver presos políticos.

RR: Não conheço essa realidade de uma forma que me permita afirmar alguma coisa.


Excerto 2

CM: Como olha para os erros do passado cometidos por alguns partidos comunistas do Leste europeu?

RR: O PCP, depois do fim da URSS, fez um congresso extraordinário para analisar essa questão. Apesar dos erros cometidos, não se pode abafar os avanços económicos, sociais, culturais, políticos, que existiram na URSS.

CM: Houve experiências traumáticas...

RR: A avaliação que fazemos é que os erros que foram cometidos não podem apagar a grandeza do que foi feito de bom.

CM: Como encara os campos de trabalhos forçados, denominados gulags, nos quais morreram milhares de pessoas?

RR: Não sou capaz de lhe responder porque, em concreto, nunca estudei nem li nada sobre isso.

CM: Mas foi bem documentado...

RR: Por isso mesmo, admito que possa ter acontecido essa experiência.

CM: Mas não sentiu curiosidade em descobrir mais?

RR: Sim, mas sinto necessidade de saber mais sobre tanta outra coisa...

Paladinos da liberdade, pois claro.

de vez em quando, minudências

 
 
Se um economista, ou Economista, ou Doutor Economista, ou Professor de Economia, ou "economista", num certo dia escreve prolixamente que X e, passados meia dúzia de meses escreve, ainda prolixamente, que não-X, sempre com a mesma convicção, certeza axiomática e assertividade, que havemos de pensar? Que tudo é relativo? Que tudo depende da interpretação? Ou, simplesmente, que tão tolo é o profeta como quem lhe dá ouvidos? 
 

o Louvre em 2050


(Cartoon de Marc S.)

4.5.10

Petição Cidadãos pela Laicidade

18:46
Senhor Presidente da República portuguesa,

Nós, cidadãs e cidadãos da República portuguesa, motivados pelos valores da liberdade, da igualdade, da justiça e da laicidade, manifestamos, através da presente carta, o nosso veemente protesto contra as condições – oficialmente anunciadas – de que se revestirá a viagem a Portugal de Joseph Ratzinger, Papa da Igreja Católica.

Embora reconhecendo que o Estado português mantém relações diplomáticas com o Vaticano e que a religião católica é a mais expressiva entre a população nacional, não podemos deixar de sublinhar que ao receber Joseph Ratzinger com honras de chefe de Estado ao mesmo tempo que como dirigente religioso, o Presidente da República portuguesa fomenta a confusão entre a legítima existência de uma comunidade religiosa organizada, e o discutível reconhecimento oficial a essa confissão religiosa de prerrogativas estatais, confusão que é por princípio contrária à laicidade.

Importa ter presente que o Vaticano é um regime teocrático arcaico que visa a defesa, propaganda e extensão dos privilégios temporais de uma religião, e que não reúne, de resto, os requisitos habituais de população própria e território para ser reconhecido como um Estado, e que a Santa Sé, governo da Igreja Católica e do «Estado» do Vaticano, não ratificou a Declaração Universal dos Direitos do Homem – não podendo portanto ser um membro de pleno direito da ONU – e não aceita nem a jurisdição do Tribunal Penal Internacional nem do Tribunal Europeu dos Direitos do Homem, antes utilizando o seu estatuto de Observador Permanente na ONU para alinhar, frequentemente, ao lado de ditaduras e regimes fundamentalistas.

Desejamos deixar claro que, se em Portugal há católicos dos quais uma fracção, mais ou menos importante, se regozijará com a visita de Joseph Ratzinger, há também católicos e não católicos para quem o carácter oficial da visita papal, o seu financiamento público e a tolerância de ponto concedida pelo Governo, são agressões perpetradas contra os princípios de laicidade do poder político que a própria Constituição da República Portuguesa institui.

Esta infracção da laicidade a que estão constitucionalmente vinculadas as autoridades republicanas torna-se ainda mais gritante e deletéria quando consideramos que se celebra este ano o Centenário da Implantação da República, de cujo legado faz parte o princípio de clara separação entre Estado e Igreja, contra o qual atentará qualquer confusão entre homenagens a um chefe de Estado e participação oficial dos titulares de órgãos de soberania em cerimoniais religiosos.

Declaramos também o nosso repúdio pelas posições veiculadas pelo Papa em matéria de liberdade de consciência, igualdade entre homens e mulheres, auto-determinação sexual de adultos, e outras matérias políticas.

Porque nos contamos entre esses cidadãos que entendem que a laicidade da política é condição fundamental das liberdades e direitos democráticos em cuja defesa e extensão estão apostados, aqui deixamos o nosso protesto e declaramos a Vossa Excelência o nosso propósito de o mantermos e alargarmos através de todos os meios de expressão e acção ao nosso alcance enquanto cidadãos activos da República portuguesa.

Subscritores iniciais:

Alexandre Andrade, Andrea Peniche, António Serzedelo, Carlos Esperança, Eugénio de Oliveira, Francisco Carromeu, João Pedro Cachopo, João Tunes, Joana Amaral Dias, Joana Lopes, José Rebelo, Ludwig Krippahl, Luís Grave Rodrigues, Luís Mateus, Luis Sousa, Maria Augusta Babo, Miguel Cardina, Miguel Duarte, Miguel Madeira, Miguel Serras Pereira, Onofre Varela, Palmira Silva, Pedro Viana, Porfírio Silva, Ricardo Gaio Alves, Rui Tavares, Xavier de Basto. 

miopia

12:24
Quando a CGD comprou acções da Cimpor a Manuel Fino, para evitar que elas fossem parar a mãos estrangeiras por tuta e meia, levantou-se um coro dos especialistas do costume dizendo que era um disparate em termos de mercado. Francisco Louçã, por exemplo, disse que era oferecer 62 milhões de euros a um empresário. A então presidente do PSD e o inefável Jerónimo mergulharam, de uma maneira ou outra, na mesma água. Passado pouco tempo, o valor de cotação dessas acções mostrava que tal alarido era pura verborreia. Isto foi em 2009. Não segui o curso das acções, mas não importa: no mercado pode perder-se ou ganhar-se e a exploração política de curto prazo é, nessa matéria, tentar comer-nos as papas na cabeça.

Mas há quem nunca desista de fazer futurologia.


Futurologia míope, ainda por cima, por não perceber que está muito mais em causa do que um "negócio".


mandriões, é o que é

11:46

Nos idos de Janeiro de 2004 comecei uma colaboração regular na EIFFEL, Revista de Educação da Cooptécnica Gustave Eiffel. Dessa já distante coluna recorto o seguinte:

«Começo com uma nota pessoal. A necessidade e a circunstância fizeram com que comprasse no estrangeiro um aparelho de uma conhecida marca internacional, que garante assistência técnica em muitos países à volta do mundo. Regressado, contactei o representante da marca para adquirir um serviço básico para o uso do aparelho: a instalação. Esclareci que até nem tinha pressa, podia esperar por uma data que lhes fosse conveniente, mas que não podia ficar dias atrás de dias em casa à espera da equipa de instalação. Disseram que sim e marcaram para uma quinta-feira, sem hora prevista. Não vieram e, quando telefonei (ao fim do dia, insistindo que podia esperar para uma altura em que não tivessem dificuldades em fazer uma marcação firme), pediram desculpa e marcaram para o dia imediato, sexta-feira. Voltaram a não aparecer. Repetiu-se a cena. Marcaram para a segunda-feira seguinte – lá aparecem. Os que apareceram eram óptimos: competentes e simpáticos, mas... ao terceiro dia. Estamos claramente perante um caso de um mau serviço prestado ao cliente. De quem foi a culpa: dos técnicos que vieram a minha casa e fizeram um excelente trabalho? Não. A culpa foi do chefe, a quem coube a distribuição do serviço. Todos nós já experimentámos casos similares. Ora, competitividade também é menos disto.
(...)
Quando se ouve o ex-Reitor da Universidade do Porto, Prof. Alberto Amaral, lembrar (há pouco tempo, na TV) que em Portugal a qualificação média dos empresários é inferior à qualificação média dos trabalhadores, pensamos: afinal ainda há quem perceba onde estão os problemas. Apesar disso, continua a haver no nosso país quem pense que o problema da competitividade tem um culpado único e bem identificado: os trabalhadores por conta de outrem.»

Lembrei-me disto por causa disto (apanhado aqui):

Número médio de horas de trabalho anual por trabalhador (2008) - OCDE

No  Ladrões de Bicicletas andam vários apontamentos úteis para ler a actual crise.

Inês e as lágrimas de crocodilo

11:00
Lendo alguma coisa do que se escreveu por aí, nas "redes sociais" e na blogosfera, a propósito de Inês de Medeiros prescindir dos pagamentos de viagens a que o Parlamento decidira que ela tinha direito, devo acrescentar algo ao que escrevi antes: há um aspecto nocivo neste gesto de Inês. Que é dar a ideia de que agora, só agora, é que ela agiu bem. É como se eu, cansado de ser roubado na rua, decidisse fechar-me em casa - e fosse aplaudido por isso, e não por resistir, gritar por socorro, chamar a polícia, apelar à vizinhança, contrariar o ataque. Aplaudem Inês por ela se ter cansado de lutar contra a ignomínia? Deviam era tê-la apoiado na sua luta contra a ignomínia. Vir agora falar como se a apoiassem pode parecer-se muito com lágrimas de crocodilo.

Anish Kapoor em Bilbao (processo / escultura da interacção / paisagem global)

08:33

[Da série "25 anos é muito tempo / 30 de Abril"]

Vídeo: Anish Kapoor discusses his solo exhibition at the Royal Academy of Arts London.

Agora em Bilbao. Uma das razões para ir agora ao Museu Guggenheim dessa cidade basca.


sugestões bibliográficas à atenção de Pacheco Pereira

Atendendo à lógica deste JPP, que já comentámos antes - e antes do autor lá ir cortar uma palavrinha inconveniente, deixamos as seguintes sugestões de leitura ao JPP do presente e do futuro, confiantes que estamos na sua competência para compreender e assimilar as lições de sebentas passadas:
  • Possibilidades de Coordenação entre o Ensino do Português e o da Matemática (Coimbra, 1967)
  • Para a Coordenação Necessária entre o Português e a Matemática (Fundação Calouste Gulbenkian, 1970)
  • Aspectos da Coordenação entre Gramática e Matemática (Porto, 1971).
Para maior facilidade de integração, são tudo intervenções públicas de um só autor: Óscar Lopes. Como já alguém disse antes de nós, são a mostra de uma investigação que traduz a preocupação da formalização da descrição e interpretação linguísticas com recurso a instrumentos matemáticos como o cálculo proposicional, a teoria dos conjuntos ou a topologia.
Bom proveito.

encontro juvenil de ciência

«A Associação Juvenil de Ciência, AJC, é uma associação científica de carácter nacional e sem fins lucrativos dedicada à promoção e notoriedade dos jovens cientistas nacionais. O Encontro Juvenil de Ciência, EJC, é o encontro com maior projecção da AJC. Tem como objectivo proporcionar a oportunidade aos jovens cientistas de exporem os seus projectos, que são escolhidos através de uma rígida selecção prévia, e serão apresentados durante o encontro. Os melhores projectos irão representar Portugal em encontros internacionais. Esta associação, para além de assumir um papel ímpar em Portugal e na Europa, pertence à FEPASC (Federação Portuguesa de Associações e Sociedades Científicas), ao RNAJ (Rede Nacional de Associações Juvenis) e é um dos membros fundadores do MILSET (Mouvement International Pour le Loisir Cientifique et Technique).»


3.5.10

hipocrisia

21:30

Inês de Medeiros prescinde de pagamentos de viagens. (Público)

Devem estar satisfeitos aqueles que querem que o pessoal político seja recrutado sempre nos mesmos círculos: filho de deputado dá deputado, funcionário dá deputado, autarca dá deputado, ... Nada disso me escandaliza, sou a favor de políticos que saibam como se faz o que é preciso fazer. Entendo, não obstante, que há vantagem em diversificar, em que chegue à política gente com outras vidas, outras experiências, gente menos "profissionalizada" mas que ajude a arejar. Mas, claro, clamar por "renovação" e queimar no escândalo de uns bilhetes de avião uma pessoa que, precisamente, vem de fora dessas guerras - é que está a dar.
Está a dar por ser pura hipocrisia. Este país está entregue à chusma dos que gritam por tudo e contra tudo: simplesmente gritam. E, claro, para os pobres qualquer bilhete de avião é um luxo das arábias. Para os pobres-pobres e para os pobres de espírito. Os populistas deste país numa coisa são iguais aos populistas de qualquer país: são poços de hipocrisia. E, pelos vistos, a hipocrisia é que, verdadeiramente, não é de esquerda nem de direita: serve todos os quadrantes.

museo de bellas artes de bilbao

[Da série "25 anos é muito tempo / 30 de Abril"]




Rafael Ruiz Balerdi, Composição-86 II, 1986


Alfonso Gortázar Orúe, sem título, 2002


Carmelo Ortiz de Elgea Jauregi, Dança, 1970


Jan Mandíjn, Festim Burlesco, c.1550



John Davies, (Every) War Memorial, 1974-1977 (escultura)

Pacheco Pereira e a lógica

15:35
Escreve JPP: «Enquanto não houver um Papa que não seja mulher, lésbica, negra, de preferência não crente, e que vote nos EUA no Obama, os Papas, em particular este, são alvos preferenciais.»

Não é preciso ter um curso superior de lógica para saber que "aquilo" quer dizer que JPP acha que temos um Papa que reúne as seguintes características: ser mulher, lésbica, negra, ...

Bom, na verdade há uma escapatória para JPP: se ele for adepto da escola intuicionista em lógica, não aceitará que a dupla negação seja, por si mesma, equivalente à afirmação. Mas estou em crer que o douto JPP ainda não chegou a esses recantos da lógica matemática.

(agradeço à jugular Ana Matos Pires o acesso a esta pérola)

Adenda: JPP - ou alguém por ele, já que não lhe queremos imputar sem provas um tal agir - foi lá e cortou uma palavrinha que lhe borrava a pintura. Mas sem deixar traço. À socapa. Bravo! 

Sócrates, PM do Ohio...

15:18

... e do Connecticut.

«Alguns estados norte-americanos avançaram já com processos judiciais contra as agências de notação financeira, às quais atribuem responsabilidades pela crise internacional que está a atingir vários países. É o caso dos estados norte-americanos do Connecticut e do Ohio, com o primeiro a accionar judicialmente a Moody’s e a S&P, em Março passado, e o segundo a exigir a restituição dos montantes perdidos pelos fundos de pensões estatais em títulos com notação máxima.» O PS defende acção europeia em prol da responsabilização das agências de rating. (Público)

Os que dizem que isto é "tudo conversa fiada do governo e do PS para esconder as suas responsabilidades na crise" estão à beira de culpar Sócrates, o governo e o PS pelo facto de Plutão ter deixado de ser planeta. O curioso é ver como certos discursos "de esquerda" encaixam tão bem nas teses dos que aceitam como cordeiros que qualquer "instituição do capitalismo" é, só por o ser, um poço de racionalidade inquestionável. É que as agências de rating não são "o mensageiro", são parte do colectivo dos predadores.