3.10.09

Irlanda / SIM / Lisboa : para que servem as campanhas


Projecções indicam que Irlanda diz Sim ao Tratado de Lisboa.

Governo irlandês assume vitória do "sim" ao Tratado de Lisboa. Campanha do "não" já reconheceu a derrota.

Um aspecto essencial da campanha do segundo referendo irlandês ao Tratado de Lisboa, da parte dos apoiantes do "sim", foi desmontar as mentiras da campanha do "não". Sim, as mentiras: as afirmações falsas, mas descaradas, de que isto ou aquilo seria uma consequência do novo Tratado - quando "isto" ou "aquilo" de facto não constava directa ou indirectamente do Tratado ele mesmo. É para isso que servem as campanhas. Mas às vezes é difícil, por se confiar excessivamente em que as pessoas sabem distinguir espontâneamente entre o que é verdade e o que é mentira. Mas não, muitas vezes não sabem. E há algumas pessoas que conhecem a técnica: quanto mais formidável for a mentira, mais ela tenderá a não ser prontamente desmascarada. (Há dirigentes políticos entre nós que andam a aplicar afanosamente essa técnica: estamos de olho neles...)

2.10.09

politó - logo...




Nuno Rogeiro parece que escreveu na Sábado:
É a Belém que cabe o juízo soberano de nomeação do próximo PM. Esta decisão não terá de ser a indigitação do candidato do partido mais votado.

A primeira pergunta que me veio à cabeça após esta leitura foi:
E ainda pagam a estes tipos para escrever isto?

Depois pensei melhor e fiz outra pergunta, que me pareceu mais pertinente:
E ainda pagam a estes tipos para escrever isto?

Dias difíceis.


[agenda: MFL, Jerónimo, Sócrates - e mais alguém - em Belém.]

30.9.09

aníbal e manuela




Foto de Nad Renrel sobre The Lovers, de René Magritte (1928).


[Agradeço a pista (involuntária) a Inês S. V. ]

Cavaco / Gato fedorento

Cavaco conseguiu ultrapassar o Público



O sr. Fernandes, do Público, está na praça pública como implicado (por gosto próprio ou por ter sido manipulado) numa conspiração contra o governo e/ou um dos partidos concorrentes às recentes eleições legislativas. Parecia difícil alguém sair pior no retrato resultante da revelação da conspirata.
Parecia... mas não é certo. Cavaco conseguiu fazer disparate ainda maior.
Como o próprio sr. Fernandes explica no Público, hoje, em editorial. Que se resume assim: por fraqueza, o PR não esclareceu o que devia esclarecer, abrindo a possibilidade de salvar formalmente a face do jornal que deixou que lhe encomendassem uma notícia.

Será um golpe de Estado?



O título não é meu, é de André Macedo, director adjunto do i. Cito:

A resposta que o país exigia ouvir da boca do Presidente da República não precisava de 1082 palavras - o equivalente a duas páginas de jornal - e a 10 minutos e 25 segundos de directo televisivo. O excesso de palavras só se justifica porque Cavaco fez tudo para fugir ao essencial.


Um texto que vale a pena ler, na íntegra, aqui.


já a noite lá vai



Adormeci zangado com a evidência de ter o Estado do meu país entregue aos cuidados de um incendiário.
Acordei triste a pensar como é fácil a um indivíduo, desde que colocado em posições com que não sabe lidar, prejudicar a vida de todo um povo.

Precisava mesmo de ler/ver/ouvir a Fátima. Apesar de ela não ser (acho eu) a nossa senhora de fátima.


29.9.09

a verdade, senhor presidente, ....





...acaba de ser explicada, na sua inteireza, por Pedro Silva Pereira, em nome do Partido Socialista. Que se limitou a lembrar aquilo que o PR tentou (pasme-se!) esconder. Porque não faz sentido que Cavaco, depois de ter tentado assistir da poltrona ao linchamento do PS, sem se preocupar com a mentira essencial que o usava para esse serviço, venha agora tentar contar a história de pernas para o ar. Note-se que o representante do PS tentou, apesar de tudo (quer dizer, apesar da hipocrisia e irresponsabilidade de Cavaco), preservar a figura do chefe de Estado. Já que o chefe de Estado não faz o que devia para preservar a sua própria figura.

Cavaco acusa PS de o querer “encostar” ao PSD e à campanha eleitoral.

por que é que Cavaco não aceitou perguntas?



Ao que já escrevemos aqui sobre a incrível pirueta de Cavaco, só acrescentamos uma pergunta: qual a razão para Cavaco não ter deixado os jornalistas fazerem perguntas? É que, se afinal não houve escutas nenhumas - Cavaco nunca as mencionou - tem de ter havido algum tipo de manobra na acusação contra o governo de que as teria feito. E tem de haver uma explicação para Cavaco nunca ter clarificado que essa acusação - gravíssima - ao governo... era afinal fantasiosa! Porquê, senhor presidente? Ficaram tantas perguntas por fazer, escondidas atrás da voz grossa sem substância de um homem que se descobre ser mais baixo do que parecia...

Cavaco acusa PS de o querer “encostar” ao PSD e à campanha eleitoral.

Cavaco acusa figuras do PS de terem ultrapassado os "limites da decência".

resigne, senhor presidente

hipocrisia e irresponsabilidade




O Presidente da República acaba de dirigir-se ao país para fazer em directo um exercício de hipocrisia e irresponsabilidade no "caso das escutas a Belém".

Um exercício de hipocrisia, porque Cavaco, depois de ter alimentado, pelo silêncio cúmplice, a acusação de que o governo andava a espiar a presidência, assim servindo a campanha da "asfixia democrática" que era o eixo da "proposta" que a sua amiga MFL tinha para apresentar ao país, só se lembra de atacar os meios pelos quais foi desmascarada essa montagem. Cavaco, aliás, volta ao ridículo de considerar que as suspeitas de espionagem eram fundadas na acusação de haver membros da sua Casa Civil a colaborar com o PSD - quando é sabido que essa "informação secreta" estava publicada no site da "política de verdade" antes de dirigentes do PS se lhe terem referido. Cavaco pensa poder ainda, e mais uma vez, abusar da sua imagem de virgindade para se fazer acreditar sem nada de mais substantivo - mas já poucos acreditam nessa virgindade depois de tudo o que se passou.

A comunicação de Cavaco é também um exercício de irresponsabilidade. Em primeiro lugar, por vir informar o país que as suas diligências sobre "segurança" no Palácio só foram feitas hoje: perguntou se a correspondência electrónica podia ser violada. Porquê só fez isso hoje e não desde que, pelos vistos há bastante tempo, tem suspeitas? Porquê privilegiou esse possível meio de espionagem - e não as tais escutas, por exemplo? E porque veio tornar públicas diligências da Presidências em matéria de segurança? Tudo isto revela uma enorme incapacidade para lidar com questões delicadas do órgão que ocupa o topo do Estado no nosso país.

De qualquer modo, e esse é outro ponto interessante, fica agora a palavra ao Público - e, eventualmente, a Fernando Lima. Se Cavaco nunca mandou fazer nada daquilo que se lê no mail publicado no DN, será que Fernando Lima enganou os jornalistas do Público? Será que um jornalista do Público inventou tudo aquilo? Será que o DN inventou o mail? Esta última hipótese já nem por José Manuel Fernandes é sustentada. Deixem, então, que fale o sr. Fernandes. Ou o sr.Lima, que continua escondido em Belém.

Uma coisa é certa: Cavaco Silva mostra tratar todo este imbróglio com grande falta de sentido das suas altas responsabilidades. E é triste ver que a única maneira que vê ao seu alcance para tentar disfarçar isso é imiscuir-se na pequena intriga política, danificando perigosamente a sua já escassa margem de manobra para dar um contributo útil para a difícil situação política do país. Nunca vi um Presidente constitucional desta jovem democracia descer tão baixo.

Cavaco acusa PS de o querer “encostar” ao PSD e à campanha eleitoral.

Cavaco acusa figuras do PS de terem ultrapassado os "limites da decência".

Aditamento. Entretanto, o Público acha que "PS afronta Cavaco". Será que o senhor Fernandes continua a ser a voz do senhor Lima?

certificações



O Francisco Clamote, do Terra dos Espantos, bem como a Ana Paula Fitas, do A Nossa Candeia, tiveram, cada um, uma gentileza com este blogue. A atribuição do selo (dois selos!) Vale a pena ficar de olho nesse blog! É uma certificação a dobrar, pois.
Como a maior parte dos meus amigos que lêem este blogue se queixam de que ele (ele blogue, ou eu autor?) é por vezes um quanto para o cansativo, fico sempre admirado com estas distinções. Mas elas, em todo o caso, são-nos sempre simpáticas. E sempre são ocasião para estas "conversas".
Vou cumprir de uma só vez a obrigação associada a estas certificações, indicando 10 blogues a quem quero colar o selo. Assim, por ordem alfabética:


Já estou acostumado a dar estas certificações a autores de blogues que fogem como o diabo da cruz de dar continuidade a qualquer "corrente". Mas, quem queira ter a simpatia de continuar, só tem de dar ao mundo mais 10 sugestões de casas a visitar.

certificações






O José Leitão, do Inclusão e Cidadania, e o Carlos Santos, d' O Valor das Ideias, embora decerto com boas intenções, acusam-me de fazer um blogue viciante. Não acho - mas não vou escudar-me numa atitude de negação para fugir às minhas responsabilidades.
Em primeiro lugar, agradecer: quem saiba quem eles são compreende que é agradável passa no seu crivo crítico.
Segundo, devo assumir três compromisso para o futuro, o que faço remetendo para formulação anterior em ocasião similar.
Terceiro, passar a mão a outros dez blogues, a saber (por ordem alfabética):


Ana de Amsterdam

Carlos M. Fernandes – Photography

Cleopatra Moon

Defender o Quadrado

Der Terrorist

Linha dos Nodos

Livro de Estilo

notas bedéfilas

Rua Da Judiaria

Welcome to Elsinore

Vou ficar aqui sentado a ver se algum dos distintos autores dá seguimento à incumbência... o que seria uma surpresa estatística, dados o tipo de blogues que costumo escolher para estes toques!

notas dispersas, contributos para um rescaldo das legislativas

08:30

(Bom, que isto vai ser complicado para o próximo governo, já todos sabemos. Por isso, falemos de outras coisas.)

Quantos aos ideólogos da direita situacionista da área do PSD: esqueçam o José Pacheco Pereira, que perdeu qualquer pingo de credibilidade que lhe restasse com os malabarismos desta campanha. Vê-lo a fazer o pino, em directo na Quadratura do Círculo, acerca do BelémGate, foi penoso. O problema de JPP é que o marketing da sua marca no seu nicho de mercado passava por manter alguma aparência de credibilidade – e essa aparência esvaneceu-se de vez.

É preciso agora olhar para outro lado. Paulo Rangel chegou tarde à campanha do PSD e não conseguiu, por isso, impor a sua cartilha. Mas ainda teve tempo de mostrar que a sua abordagem não mudou desde as Europeias. Paulo Rangel contribui para a política nacional com uma nova visão da luta política: mentir, mentir sempre, mentir sobre tudo – e quanto mais delirante for a mentira mais difícil será desmontá-la. É preciso começar a coleccionar as mentiras de Paulo Rangel e fazer o trabalho de casa de as mostrar ao mundo. E qualquer debate com ele tem de ser preparado na perspectiva de que ele usa compulsivamente a mentira como arma política. Ele vem aí.

E não vem sozinho.


28.9.09

Ifigénia na Táurida



A fechar o dia de reflexão para as eleições legislativas deste ano de 2009, no Sábado passado, rumamos ao Teatro da Cornucópia, onde vemos o que para nós continua a ser o melhor teatro que se faz no burgo.

Ifigénia na Táurida, de Goethe, para este espectáculo traduzido em "recriação poética" por Frederico Lourenço, é um drama que se desenrola no íntimo das personagens e longe da acção. Complexo como tudo o que supõe uma viagem às raízes clássicas da nossa cultura, por se enredar nas mais mirabolantes peripécias de famílias que misturam deuses e homens, mas mais ainda por tocar o nervo de dificuldades que continuam a apoquentar-nos, pode afinal ser lido com muita nitidez de um certo ângulo.
O ângulo que supomos fornece a mais límpida leitura é o da impureza da acção: tratando-se de saber se essa impureza é necessária ou contingente às nossas fraquezas. Ifigénia não desarma da sua determinação de fidelidade a uma máxima de vida: "A lei que me fala e que me leva a desobedecer-te é outra: é a lei segundo a qual toda a vida humana é sagrada". O ponto é que a pura determinação de Ifigénia parece estar ligada ao seu desligamento do mundo: ela, sacerdotisa de Diana, vive fechada no templo e nos circundantes espaços sagrados, longe dos campos de batalha e de labuta. Ela, virgem, nem da mais básica célula da sociedade participa. Quem governa um povo, tal como esse mesmo povo, não pode dar-se ao luxo dos mesmos deslaçamentos que a virgem sacerdotisa. A pureza não casa bem com a acção, com o mundo. Será? É nessa questão que vale a pena embarcar para a leitura deste espectáculo.




O espectáculo não contém elemento algum que nos possa distrair das palavras e da consciência das personagens: assim se explica o despojamento do cenário, sem um grão de pó a mais do que o necessário.
Como já sabemos que tem de ser, Luís Miguel Cintra e Beatriz Batarda, nos principais papéis, transportam-nos à síntese da emoção com a compreensão. Sublime.

Pela Companhia de Teatro da Cornucópia, no Teatro do Bairro Alto, até 1 de Novembro.



a vitória do PS

10:03


Se a batalha tivesse sido pífia, esta vitória seria curta. Como a batalha, na realidade, foi tremenda, esta vitória é muito significativa.
Sócrates, e o PS, só têm de continuar a pensar no país. Mais do que em acordos. Se bem que eu entenda que o espírito de compromisso faz falta ao país, e tem de ser desenvolvido - qualquer exercício de negociação tem de ser guiado, sempre e apenas, pelo entendimento que cada um faz do bem comum. Monitorizaremos o que aí vem com um olho em cima do programa eleitoral do PS, porque foi por esse programa que demos a cara.


Paisagem

08:30


Paisagem

Passavam pelo ar aves repentinas,
O cheiro da terra era fundo e amargo,
E ao longe as cavalgadas do mar largo
Sacudiam na areia as suas crinas.

Era o céu azul, o campo verde, a terra escura,
Era a carne das árvores elástica e dura,
Eram as gotas de sangue da resina
E as folhas em que a luz se descombina.

Eram os caminhos num ir lento,
Eram as mãos profundas do vento
Era o livre e luminoso chamamento
Da asa dos espaços fugitiva.

Eram os pinheirais onde o céu poisa,
Era o peso e era a cor de cada coisa,
A sua quietude, secretamente viva,
E a sua exalação afirmativa.

Era a verdade e a força do mar largo,
Cuja voz, quando se quebra, sobe,
Era o regresso sem fim e a claridade
Das praias onde a direito o vento corre.


Sophia de Mello Breyner Andresen