22.2.08

se se pode dar ao luxo...

... de ir por vezes um pouco mais devagar e saborear, vá ao Persona.


um problema de política internacional

Imaginemos que Hilary Clinton ganha as presidenciais americanas (não comecem já a fugir ao problema, porque isso ainda é possível).
Imaginemos, agora, que, de acordo com a vontade da senhora presidente dinamizar novas relações entre os EUA e a Europa, Sarkozy vai em visita de estado a Washington.
Problema: enquanto os presidentes trabalham, que "programa de conjuges" se arranja para Bill e Carla?

cuidado, não estraguem o mercadinho

Segundo se tem lido nos jornais, os notários privados estão zangados porque a simplificação de processos administrativos e coisas que tais lhes reduz o mercado. Querem que alguém os compense por isso, provavelmente o Estado que se simplificou.
Se a moda pega, cuidado, não fiquem mais saudáveis, porque se calhar ainda têm de recompensar o vosso médico por andarem a fazer dieta e exercício físico. E tratem de morrer no ano previsto, mesmo que se atrasem alguns meses, não vão os coveiros processar-vos por atraso na comparência.
Haja pachorra.

20.2.08

assim é que vai ser a nova travessia do tejo

unicórnios e outras espécies






Escreve Daniel Dennett no seu último livro, publicado em Portugal pela Esfera do Caos sob o título Quebrar o Feitiço - A Religião como Fenómeno Natural (p.111):
«Quase toda a gente tem uma boa cópia da ideia de unicórnios, embora poucas pessoas acreditem na sua existência; mas quase ninguém tem a ideia de pudús, que possuem a distinta vantagem de serem reais.»
Pois.
Quase toda a gente tem uma boa ideia do esforço que os outros deviam fazer pelo país, apesar de poucas pessoas acreditarem nos efeitos positivos desses esforços. Mas quase ninguém vê necessidade de mudar o seu comportamento para melhorar o seu país, apesar de essa mudança ter a distinta vantagem de estar na mão de cada um de nós.

19.2.08

o primeiro-ministro esqueceu-se...

15:14
... de que nenhuma política com sentido estratégico pode ser auto-evidente.

Uma das razões pelas quais precisamos de democracia representativa é a necessidade de a comunidade tomar medidas estratégicas. Quer dizer: nem todos os efeitos sérios de uma decisão são imediatos, é preciso dar tempo às medidas para produzirem efeitos; por vezes, o que no dia seguinte parece bom revela-se desastroso anos depois, ou o contrário; uma comunidade responsável não pode responder apenas aos interesses imediatos dos que têm voz actualmente, precisando de preservar as condições de reprodução da própria comunidade para lá do horizonte visível da janela de cada lar. Essas são algumas razões para necessitarmos de democracia representativa: para poderem ser tomadas medidas estratégicas. Se não fosse isso seria admissível uma qualquer democracia directa (referendária, por exemplo) ou mesmo uma "democracia electrónica" (todos os dias de manhã, antes de sairmos para o emprego, vamos ao computador ligado à internet votar nos assuntos para decisão nacional nesse dia).

Uma das consequências da democracia representativa, se ela serve efectivamente para tomar medidas estratégicas, é que muitas decisões - que se destinam a ter os seus principais efeitos no futuro, e não amanhã ou depois - não são de compreensão imediata. Exigem reflexão. E requerem explicação. Para potenciar a compreensão, pelos representados, das medidas tomadas pelos representantes - é preciso explicar. E não apenas explicar que se está a fazer: também explicar porquê, para quê, o que é que isso vai significar na prática para todos. E explicar para onde vamos por este caminho.

Esteve nesse ponto, a meu ver, a principal falha da entrevista de José Sócrates à SIC ontem à noite. Explicou bem muito do que está a fazer. Mas explicou pouco quais os efeitos práticos que as medidas do seu governo devem ter na vida de cada um. No imediato e mais além. E qual o efeito prático que teria não tomar as medidas que se tomaram. Explicar, para dar apenas um exemplo, que sem a reforma da segurança social poderia não haver reformas no futuro para aqueles que hoje são jovens. Não conseguiu, desse modo, contrapor esperança a um certo pessimismo reinante. Por ter suposto, talvez, que as razões da sua política deviam ser transparentes para todos.

Só que, precisamente, nenhuma política verdadeiramente estratégica pode ser auto-evidente. E, por isso, em democracia representativa, esse pressuposto (aliás, um pouco arrogante) deve ser trocado pelo raciocínicio explícito, público e permanente, dialogado, acerca dos efeitos estrategicamente pretendidos com as medidas. E isso faltou a Sócrates ontem.

18.2.08

pior que a santidade fingida...

... só a caridade fingida.
Sempre apreciei o regresso de Paulo Portas à liderança do CDS/PP. Por achar que talvez isso permitisse trazer ao de cima o que ele realmente significava como político - tudo o que ele antes conseguira disfarçar. E isso seria importante porque, enquanto Santana Lopes foi apenas um desvio triste na história de um partido importante (embora esse desvio insista em singrar), Portas representa a transformação de um partido democrata-cristão num tanque de sanguessugas que se alimentam de poder. Com a agravante de escolhar umas pitadas de santidade carunchosa para se tapar. Ora, aquele efeito desejável do regresso de Portas, o efeito de destapar, começa a acontecer. E isso é bom para a política portuguesa.
Os últimos acontecimentos justificam esta sensação. Reconfortante, porque a santidade fingida só perde no meu ranking da repugnância para a caridade fingida.