14.2.08

é preciso ver que "Há Mar em Lisboa"


De algum tempo para cá que se via em blogue o que andavam a tramar. Explicavam a raiz da ideia assim:
«Uma estrangeira muda-se para Lisboa com o marido. Apaixona-se novamente e decide recomeçar, deixando para trás uma história já vazia de qualquer forma de comunicação. Num bar do Cais do Sodré, alguém nota a sua presença, participando da descoberta de uma cidade e de uma mulher, que poderia ser qualquer mulher de qualquer lugar. É dessas descobertas que fala a peça de teatro "Há mar em Lisboa", cujo guião está a ser desenvolvido neste blog. Participe sugerindo situações, diálogos e cenas, bem como enviando imagens de Lisboa. Ajude-nos a construir uma peça de teatro em movimento e interactiva.»
Quer dizer: a coisa acontecia no blogue em palco em paralelo com o que se passava nos ensaios.
E agora o rebento... rebentou. Foi ontem a estreia.
É de ver. Mesmo quem não tenha por lá amizades pode ganhar um breve olhar sobre a agitação cultural de uma certa comunidade imigrante em Lisboa.
Para saber tempos e espaços onde conferir novas idas à cena, bisbilhotar aqui.

13.2.08

a estratégia do glaciar

Um anjo apareceu-me e recitou:

Faz como eu. Se vires andar por aí uma tristeza mal disfarçada, põe má cara na tua cara. Se vires que o teu amigo, desencantado com os muros do mundo, nem sempre pode mostrar-se jovial, em vez de atacares os muros põe-te frio gelado. Se há flores murchas no teu jardim, porque às rosas proibiram estimar os cardos, baixa as pálpebras para elas pensarem que também tu estás em sombra. Dê isso no que der, assim evitas escutar o fragor do mundo em que tomas parte. Assim tiras as mãos do teu próprio fogo. E fica sabedor de que a isso se chama a estratégia do glaciar.

Deve ter havido ilusão minha em pensar que era um anjo.


Eduardo Torassa, Fantasia Medieval

11.2.08

Timor-Leste e nós. A propósito de Estados falhados.

11:49
Continua a haver timorenses cujos actos se increvem como argumentos a favor da tese de que aquele país não tem viabilidade, não é capaz de se governar e ainda é minável pelos que só sabem falar pela boca das armas. Concordemos ou não com essa tese, o certo é que Timor-Leste nos lembra (vezes de mais) que nem todos os Estados são viáveis e que, por vezes, só se percebe isso depois de pagar um alto preço em vidas e desgraças várias.
Mas talvez seja aconselhável não olhar para Timor com a condescendência dos instalados na vida face aos que esbracejam para tentar evitar o afogamento. Seria preferível tomarmos consciência de que, no limite, todos os Estados podem falhar. Mesmo que subsistam, podem falhar como projecto de coesão e progresso da comunidade. Podem falhar como vida colectiva, se se tornarem incapazes de ser uma ferramenta que permite aos indivíduos obter uma multiplicação dos seus talentos, multiplicação essa que favoreça cada um e os demais. Podem falhar se se tornarem apenas uma máscara de protecção dos instalados.
Nesse aspecto, Portugal também corre o risco de se tornar um Estado falhado. Porque nesta terra os guerrilheiros usam outras armas: erguem muros de vozes contra qualquer tentativa de tentarmos viver com o que temos, ululam contra a evidência de que não se pode gastar mais do que o que se produz, clamam por grandes princípios abstractos sem explicar como eles solucionam os problemas e fazem desse clamor a estrela da vida pública, assassinam os que sabem fazer mas não sabem "comunicar" (os que não são habilidosos a mentir e recusam contar histórias da carochinha às pessoas).
Portugal também corre o risco de ser um Estado falhado se a política nacional continuar aprisionada pelo curto prazo, pela aparência do imediato, pela recusa de pensar para lá da sofreguidão diária dos títulos dos jornais.
Seria melhor não olhar para Timor com um arzinho de superioridade, porque nós podemos estar perto (questão de anos) de mostrarmos que somos também um Estado falhado.
E "Estado" não são eles. Não são "os políticos". São todos os que têm voto e devem ter opinião. E usam ou deixam por usar essas armas. E o fazem com o critério da facilidade ou com o "critério JFK".