05/05/10

ainda a liberdade, os seus paladinos - e os outros

Leio no A minha vida não é isto, envolvendo uma referência para a minha posta paladinos da liberdade, o seguinte: «Digam o que disserem da rapariga Rato, o que consta do relatório da Comissão de Ética é preocupante. Aliás, nada de novo
O que se segue é um comentário amigável ao "digam o que disserem" supra.

Bruno Latour é uma espécie de sociólogo-filósofo da ciência. Num livro que já tem uns anos, Science in Action. How to Follow Scientists and Engineers through Society (1987), Latour dá a sua visão do que é um facto. Um facto científico. Dado o seu construtivismo acerca dos factos, a resposta à questão "o que é um facto?" é a resposta à questão "como é construído um facto?". Vejamos como Latour descreve esse processo.

Alguém emite um enunciado (por exemplo, escreve um artigo numa revista científica). Esse enunciado será inserido noutros enunciados e, por essa via, qualificado, transformado: modalizado. Teremos uma modalização positiva se o enunciado é inserido numa sequência onde aparece como uma premissa evidente, fechada, acabada e onde outros enunciados aparecem como consequentes menos acabados e menos evidentes do que o enunciado modalisado. Numa modalização positiva, o enunciado emitido é enquadrado por frases que o distanciam das suas condições de produção e o tomam como suficientemente sólido para que algumas das suas consequências se tornem necessárias. Teremos uma modalização negativa se o enunciado emitido é enquadrado por frases que nos remetem para um questionamento das suas condições de produção e tentam explicar porque é que ele é sólido ou frágil, frases que incidem sobre as pessoas e o trabalho das pessoas que produziram o enunciado.
Numa controvérsia científica, o autor de um enunciado apela ao maior número possível de aliados e aos aliados o mais poderosos possível, sendo que "aliado" é todo aquele que modaliza positivamente o nosso enunciado: um documento não é intrinsecamente científico, torna-se científico quando mobiliza aliados numerosos e os exibe. Um enunciado sujeito a modalizações positivas torna-se um facto; sujeito a modalizações negativas torna-se um artefacto, uma ficção: "a uma frase pode ser-lhe oferecida a qualidade de facto ou a de artefacto, segundo a forma como ela é inserida em outras frases." São sequências de modalizações (sequências de frases) que transformam um enunciado num facto ou num artefacto: é essa a natureza do processo de construção dos factos, de fabricação colectiva dos factos.

Pergunta-se: mas qual é o papel da natureza neste processo? Latour: «A natureza, entre as mãos de um cientista, é um monarca constitucional que se assemelha muito à rainha Isabel II. Ela lê no seu trono, com o mesmo tom, a mesma solenidade e a mesma convicção, um discurso escrito por um Primeiro Ministro conservador ou trabalhista, segundo o resultado das últimas eleições. Ela acrescenta qualquer coisa ao debate, mas apenas depois dele ter terminado; enquanto dura a campanha eleitoral, ela limita-se a esperar.»

Claro que muita gente acha fundamentalmente disparatada esta tese sobre os factos científicos. Eu, por força da profissão, não diria desse modo, mas diria que é uma forma tremendamente defeituosa de entender o processo.

Latour estava, basicamente, a falar de factos científicos. Mas também há quem ache que os “factos políticos” são construídos desta maneira. Já eu, pelo meu lado, acho que os artefactos políticos são feitos assim – mas não os factos. Não os factos, porque esta coisas da realidade e da ficção em política não remete tudo para camadas sucessivas de conversa fiada. Ou, pelo menos, não devia remeter.

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